A lei moral do suicídio

Diz Kant, na sua busca por leis morais, que o suicídio não pode ser uma regra porque não pode ser universal. Para ele, devemos sempre pensar se uma ação pode ser considerada universal, para podermos considerá-la moral ou não. Atentar, então, contra a própria vida seria contra a natureza da própria vida que é preservá-la. A lei moral kantiana é aquela que afirma que devemos – sim, ele frisa o dever – agir por dever, fazer o que é certo porque é certo. (e ponto final)

Inicialmente temos que há em nós o instinto de sobrevivência, que em situações extremas ou no dia a dia mais vulgar nos impele a não nos expormos a riscos ou a deles escaparmos – há, portanto, em nós uma necessidade de preservar a vida. No exemplo do suicida ele diz que uma pessoa infeliz, cheia de desgraças na vida, sem ver a possibilidade de um futuro diferente e que se vê sem motivo algum (ou sem o motivo de sua existência, chegarei lá) para continuar viva, esta pessoa ainda assim deve manter-se viva justamente porque é seu dever.

Os suicidas, como se sabe, já desde muito são (sem parecer trocadilho) crucificados. A igreja não os dá os últimos sacramentos, cemitérios não os enterravam, pessoas cochicham e sempre têm comentários (titubeio a procurar um adjetivo) infelizes (peguei leve) sobre quem, num ato, decide tirar a própria vida. O senso comum, como lhe é de praxe, abunda em certezas do tipo “se fala que vai se matar não se mata”, “estava com depressão”, “tanta gente lutando pra sobreviver”, “foi um covarde” (esta em especial me interessa). Por que, afinal, estou escrevendo sobre isso?

Quando Kant fala do suicídio e desta nossa obrigação em preservar a vida – vejam só, é algo realmente fácil de concordar – e, principalmente, que parece descabido tornar universal uma lei moral que permita o suicídio – ainda mais fácil concordar – ele não nos dá idéia do que é a vida. (podem ir lá ler para conferir)

Por isso escrevo. A vida não é nada e não vale nada. E nem pensem que estou abraçando as teorias que banalizam a vida, a violência e etc. Não é o caso. Ninguém vem ao mundo por querer (eis um termo caro ao nosso filósofo). Por anos não conseguimos sequer nos manter vivos – por muitas vezes somos um risco iminente a nós mesmos (vide certas crianças e certas situações corriqueiras da vida de um bebê). Se não temos ação nenhuma diante do fato de termos vida, por que, então, é nosso dever mantê-la? Ah, sim, qualquer pessoa religiosa pode responder e nem levaria muito tempo: porque nós ganhamos a vida (de Deus, obviamente, ou dos nossos pais, sei lá). Pois eu farei o exercício de excluir as explicações religiosas. Como ficamos?

A vida não deriva de nenhuma de nossas ações. Nenhuma. Ela se faz a si mesma. Pessoas inteligentes, com capacidade, talento, podem viver vidas miseráveis e nunca terem uma única oportunidade de expressar ou usar seus talentos. Não é o “mistério da fé” da religião, é um “mistério da vida”. Sim, claro, há os livros de auto-ajuda a deslindar milhares de formas de como você é responsável pelos sucessos e fracassos da sua vida e, portanto, você deve fazer e acontecer. Algo como “casais inteligentes enriquecem juntos” (nunca li, juro, só acho um dos títulos mais hilários). E eles vendem. Vendem muito. Porque se utilizam daquilo que fazemos todos os dias o tempo todo das nossas vidas: nos enganamos.

Nos enganamos em tudo. O tempo todo. Estudamos, trabalhamos, corremos atrás do dinheiro como meio para tantas finalidades que chamamos de sonhos, bens ou realizações pessoais. Nos divertimos, bebemos, vemos filmes, namoramos, nos enganando como se fossem a parte boa da vida – porque, afinal, ela às vezes pesa nos ombros e no coração. Nos enganamos que temos as coisas sob controle, que cuidamos de quem amamos, que somos precavidos contra desgraças e acidentes. E, vejam só como a vida tem bom humor, ela nos prova – sempre – que não temos controle sobre nadinha.

Imagino pessoas discordando. Inveterados enganadores de si mesmos. Admiro (uma admiração piedosa e com asco) aqueles que ainda não tiveram doses de verdade da vida e, por isso, não conseguem concordar. A vida é boa, sim, quando nos enganamos o suficiente para nos vermos frente a frente com ela. Conheço pessoas que se calejaram com doses homéricas de vida. A essas admiro com mais franqueza. Admiro ao ver que elas já não se enganam mais. Em alguns casos, até se enganam um pouco (e isso muito me preocupa).

Nos enganamos quando amamos. Nos enganamos quando encontramos, no trabalho, em alguém, numa prática especial, a razão da nossa existência. Nos enganamos quando ficamos felizes ao ter “sorte”, a sorte daquela vaga no estacionamento, a sorte daquele ingresso para o show tão concorrido, a sorte de ser chamado para tal emprego. É a vida e o seu bom humor. Ela dá e ela tira – parafraseando uma máxima que pode ser atribuída a religiosos.

Ao contrário desta crença absurda e sem fundamentos que nós fazemos a vida, que nossas decisões e atitudes é que fazem de nós quem somos e como vivemos, não temos, de verdade, nenhum controle sobre ela. Nenhuma das nossas decisões faz sentido. Posso escolher viver o resto dos meus dias neste quarto. Posso (tentar me iludir mais) decidir trabalhar duro todos os dias da minha existência até me aposentar e poder viajar – e, vejam só, posso morrer a qualquer momento antes que qualquer dessas coisas se concretize. Posso decidir esperar para viver um grande amor. E, quem sabe, me apaixonar loucamente amanhã pelo primeiro moreno alto de olhos verdes que passar.

Talvez exista em mim uma inclinação natural (Kant explica?) em duvidar das ações das pessoas, desta crença coletiva (e histérica) de que fazemos a nossa vida. Duvido piamente de que existam razões para a minha existência. Não acredito, de fato, que qualquer atitude ou decisão minha possa afetar minha vida. Observo com uma curiosidade fora do normal quem tem razões, certezas e controle da própria vida. Espero o momento que elas tropeçarão. Ou se desesperarão. Ele sempre chega.

E foi por isso que comecei com o suicídio. Não seria, então, o suicídio a única real atitude nossa em relação à vida? Se cá chegamos sem nossa interferência e pouco ou nada podemos fazer com os longos e intermináveis anos que cá estamos, decidirmos e colocarmos um fim a ela, a vida, não seria a única ação possível? Eu deveria, então, discordar novamente de Kant e dizer que me parece uma legítima lei universal? Pois se a única ação realizável é pôr um fim a própria vida (que me foi dada sem meu consentimento, não esqueçam), então é claramente desejável que todos devam fazê-la.

Já pensou uma lei moral que diga que todos devem tirar, em algum momento, a própria vida? Teríamos vidas mais felizes (a felicidade, tão cara, também, à Filosofia). Teríamos menos (muito menos!) pessoas se enganando. Mas o egoísmo coletivo de apegar-se a algo que nos foi “dado” (não caberia melhor impingido?) e mantê-lo a todo custo, enganando-se em tempo integral sobre suas razões e que se tem tudo sob controle é como fomos criados (aqui o trocadilho é de propósito) – e dizem que nosso instinto corroborou.

Se houvesse em mim paciência o suficiente, acredito que conseguiria sentir pena destas almas auto-enganadoras. Mas são muitas, não é mesmo? Para alguns é mais fácil não se enganar ou enganar-se menos porque a vida tem um humor especial – que a maioria desconhece. E bem que fazem os suicidas que, munidos da única real coragem possível no mundo, fazem o que sonhamos todos os dias: que temos controle e guiamos nossas vidas através de nossas decisões e atitudes.

Posto que, é claro, faço como Kant e não discorro sobre o que é a morte. Ele falhou, a meu ver, em não nos dizer o que era a vida. Seria falha ou deliberada provocação, como eu?

(ps: eu ia escrever sobre o amor e o tempo, mas em homenagem ao dia de hoje e munida das últimas experiências que a vida não cessa de me ceder e de pensamentos despertados pelas últimas leituras, eis que deixei o amor para depois; o suicídio e a vida pareceram mais auspiciosos)

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3 comentários em “A lei moral do suicídio

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    1. Fiquei pensando que não quero que me culpem pelos suicídios alheios depois deste post! Talvez ainda seja por um passado presente (nem sei a quantas anda isso), e é sempre um possível futuro. Ficar bem está fora de questão, é o que diz nosso mundo astral, né? hahahahaha (ps: te escrevi!)

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      1. Existe uma questão que foi abordada no artigo que não é bem assim: a vida (existência física) não nos é imposta, sim escolha, decisão e planejamento nosso e com tudo isto temos o dever de conserva-la segundo os propósitos de nossa escolha na qualidade de individualidades universais. Saltar do TREM em movimento antes de chegar a estação é decisão de cada um, contudo esperar para sair confortavelmente na estação é muito mais confortável, seguro e sensato.
        Antônio

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