Eles não são maioria

Atônitos diante da certeza nada nos faria acreditar. Eles ganharam. Eles passaram por cima da moral de não acreditar em manipulações, eles foram imorais em dar suporte para quem vidas nada valem. Eles apoiaram quem defende o indefensável. Não era uma questão de lados, era uma questão moral. Eles não a têm. Mas julgam os outros pelos seus crimes, detentores da sabedoria dos desígnios de Deus, julgam e condenam sem pestanejar. Sempre duvide de quem não pestaneja ao defender o que quer que seja. Eles saíram às ruas para comemorar. Afinal, tinham ganhado. Eles, porém, não são maioria.

Os que querem ver mais mortos nas ruas. Os que desprezam minha luta feminina. Os que desprezam meu corpo de mulher, pois só deve servir ao seus desejos. Os que desprezam o conhecimento que se produz com afinco e dificuldades mil dentro das universidades. Os que desprezam nossos países vizinhos. Os que batem continência para o maioral do continente. Os que levam crianças – crianças! – às ruas ensinando-as gestos violentos, mas dizem defender as famílias. Eles não são maioria. Os que gritam palavras de ordem. Os que defendem a ditadura. Os que oram como se Deus nos governasse. Os que querem que creiamos no deus deles. Os que se aproveitam vilmente da ignorância de quem pouco tem além da sua fé. Os que querem calar a voz da imprensa. Os que querem nos calar! Os onanistas com um revólver na mão. Os chefes a incitar o medo de quem depende da merreca que lhe paga. Os que alardearam que estávamos à beira do abismo, enquanto passeávamos no shopping fazendo compras e comendo fast food. Eles não são maioria. Os que dormiram mandatos inteiros nas confortáveis cadeiras da Assembléia.

Os estúpidos que não jogaram a favor, mas jogaram contra, com todas as acusações possíveis – mas sem nenhum argumento que os convencesse de verdade da sua escolha. Os que em situações limite preferiram ir para o mal maior. Eles não são maioria. Um fantoche despertou o lobo que havia em criaturas que estavam nas suas tocas e eles saíram a praticar suas violências. Mas, eles não são maioria. Os que vivem encastelados nos seus condomínios vigiados nada temem, os 63 mil mortos por ano não têm a sua cor da pele nem moram nos mesmos bairros que eles. E estes sempre riem à toa. Os que se beneficiaram com o que veio antes, mas não perdoaram ter sido traídos – também não abrem mão dos seus benefícios. Os que sempre tiveram tudo. Os viúvos e viúvas de outros traidores. Eles não são maioria.

Eles saíram das tocas. Nós nos unimos até aos ladrões para defender o país, eis a sabedoria de um povo que entende e preza a liberdade. Foi preciso muita coragem para defendê-la com unhas e dentes até os últimos minutos. Porque sabíamos o que nos unia, um valor inegociável, o bem mais precioso. Por ele nos unimos a quem estivesse disposto, também, a defendê-lo das garras de uma alcatéia ensandecida em busca de vingança, sangue, poder e com os olhos toldados por mentiras e declarações populistas. Eles, porém, não são maioria. Dizem de nós que somos ingênuos, têm pena de nós, nos trataram (a mim, especialmente, por ser mulher) como um ignorante ao qual precisavam explicar o que é fascismo, o que aconteceu no país na última década, etc.. Eu não preciso das suas explicações. Eles detém todo ódio de classe. Eles odeiam não só quem está preso, mas todos aqueles que ousaram não cair na sua falta de argumento. Eles querem nos intimidar. (eu estou fervorosamente de SACO CHEIO deles) Eles querem rir da nossa cara. Eles acham que são maioria e, numa lógica esquisita, devem ser os bons. Aliás, eles se acham muito bons – mas era dos outros que queriam uma autocrítica. Eles não são maioria.

Conforta-me sair de casa, ir ao supermercado, à academia, à universidade e olhar para os lados sabendo que eles não são maioria. Nunca serão. Cairão, um a um, feito patos abatidos pela sua própria munição. Nos olharão com súplica por ajuda no desespero que virá. Porque nós já conhecemos o monstro que eles alimentaram. Nós não hesitaremos a bradar quando nos livros de História quiserem alterar para “regime” o que totalitário foi. Nós não deixaremos de pensar. Nós não pagamos para ver – mas a conta chegará para todos. O “milagre” será feito, como das outras vezes. Mas a conta, desta vez, será muito alta e chegará mais cedo. Eles queriam o “desconhecido”, o “novo”. Porque preferiram ignorar o fantoche que discursava aos uivos. Eles não são maioria. Nós passamos por cima das diferenças, nos aliamos aos inimigos, perdoamos os pecadores e nos juntamos para combater o mal. Eles, agora, são os nossos verdadeiros inimigos porque preferiram correr um risco que nós abominamos. Eles são os nossos inimigos, que, no momento oportuno, quando as mazelas chegarem para todos, serão por nós acolhidos. Eles não são maioria.

Eles, agora mais do que nunca, querem que tenhamos medo. Eles, não esqueçam, não são maioria.

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