As balas perdidas do Bolsonaro já fazem as primeiras vítimas

Sei que muitos de nós estão esmorecendo. Já nos sentimos doentes e, por vezes, o corpo sucumbe aos maus tratos pscicológicos que temos sofrido no último ano. Aquilo que parecia inacreditável se realizou: Bolsonaro tornou-se presidente. E, deste posto, desfere suas balas perdidas em muitos – milhares, milhões – de nós.

Escrevo para todos aqueles que se sentem como eu e, em especial, aos colegas e amigos que estão caindo diante das ameaças e atitudes concretas do esfacelamento que planejaram para o nosso país – porque o país não é nem jamais será deles. Ele não é meu presidente, ele não me representa. Ele, não.

Estudo, trabalho e atuo em duas das grandes áreas que ele escolheu como inimigas: Educação e Arte/Cultura. Ele as escolheu como inimigas porque são essas duas áreas que nos tornam quem somos: seres humanos críticos e combatentes. Sem arte e educação a pessoa não se torna grande. Como eles, aliás, não o são. E, além disso, sou uma pessoa que vive e trabalha neste país, atacada, também, pelos outros desmandos de ordem estúpida e conluios com os empresários que querem mais e mais para si – vide as mudanças em leis de questões relacionadas ao trânsito e à reforma da previdência. Em tudo, sinto-me atacada, diariamente.

Alguns colegas foram para o exterior – e decidiram ficar, atrasando sua volta porque não vêem horizonte por aqui. Não os culpo. Milhares de jovens só sabem dizer “quando tiver a chance, vou embora” – colegas e amigos dentre estes. Só fica quem não tem como sair, quem tem outros motivos que os prendem aqui, ou, ainda, poucos que preferem lutar. Porque, agora, não há mais espaço para a ingenuidade.

Ano passado, assim que ele foi eleito, um aluno me disse “Não será assim tão ruim, professora” diante dos meus temores. Bem, nem ele acredita mais nisso, e dizer que temos só quatro meses do pior governo deste país. Apoiado por militares e seus filhos, que o ajudaram a se eleger, todos ignorantes e com a maldade evidente nas suas ações e discursos, já abandonado por muitos que nele votaram e até mesmo pelos que fizeram campanha por anos em prol da sua candidatura. O fenômeno Bolsonaro eu conheci, eu vi crescer, eu acompanhei a cooptação e proliferação de idéias populistas e violentas que atraíram uma juventude agressiva e desiludida e idosos raivosos, principalmente, além da classe patronal ressentida.

Estamos adoecendo, estamos nos sentindo fracos a cada ataque. Sem preparo nenhum, rodeado de incompetentes, o governo destila maldade contra a Educação e a Arte/Cultura, investindo em ações que querem cumprir “promessas de governo” a partir de frases feitas e uma estupidez que parece não ter fim. Primeiro foi a ANCINE, depois a Lei Rouanet, agora as Humanidades. Um estúpido que quer que o seu filho tenha um “ofício” (termo em desuso desde o começo do século passado). Um estúpido que governa pelo Twitter, divulgando mentiras e infâmias. Uma equipe que não consegue colocar sequer um site no ar, que divulga “mudanças” numa lei que ninguém viu.

Vejo colegas e amigos doentes. Eu também fiquei, ano passado. Porque não quis acreditar que vocês votariam e votaram nele. A propagação de idéias maliciosas foi tão bem arquitetada há anos que pessoas lúcidas preferiram ignorar o fato de que estavam votando num energúmeno maldoso a posicionarem-se contra este senhor que, até o momento, acha que acabar com o horário de Verão foi uma atitude benéfica em relação aos “péssimos governos anteriores”. Que estúpido acredita nisso? E dizer que muitos votaram nele por isso mesmo, para acabar com o horário de Verão.

E ele quebrará o país como tem quebrado muitos de nós. As privatizações, os ataques ao funcionalismo público, o assassinato de idosos aposentados e pensionistas, o desemprego, os salários baixos, a exclusão escolar. Se ele ficar quatro anos é isso que teremos: um país quebrado, com uma população miserável, inflação explodindo, hospitais sem atender, falta de itens básicos nos supermercados. Tipo a Venezuela. Enquanto eles estarão no poder, fazendo piada no Twitter. Ele, que viveu a vida inteira às custas do dinheiro público – como militar e parlamentar.

A tristeza também adoece e mata. Ver as Humanidades atacada de forma tão vil e inconsequente me revoltou. Ele jamais saberia, pois nunca pôs os pés num curso superior, que até as engenharias precisam dos graduados em Filosofia. Pois a Lógica, a Filosofia da Matemática, a Filosofia da Ciência existem. Não que ele saiba, é claro. Os cursos de Pedagogia, Direito, Psicologia, Comunicação, e até mesmo a Biologia nasceu pelas idéias de um filósofo. O desconsolo de alguns amigos que, sabiamente, afastaram-se das notícias e do contato com as pessoas me assusta e entristece. Porque estes ataques não têm sido em vão e têm alcançado seus objetivos. E, com uma canetada, digo, uma tuitada, ele ceifará muitas vidas.

Somos resistência, porém. A cada dia, todos os dias. Eu estou com bandeira em punho, vinte e quatro horas por dia, em todos os espaços e canais que tenho contato. Porque eu sei que eu mudo o mundo a minha volta, todos os dias. E esse era meu sonho de adolescente: mudar o mundo. Não o abandonarei jamais – nem a vocês, caros amigos e colegas. Devemos nos deixar cair, de vez em quando, porque o fardo é pesado e difícil de assimilar. Mas, é preciso mostrar porque e para que estudamos tantos, lemos tanto, nos posicionamos o tempo todo e nos tornamos grandes. É preciso mostrar que eles não são maioria – e que nós somos melhores. É hora de levantar a cabeça.

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