A angústia de cada pôr-do-sol

O pôr-do-sol de todos os dias me trouxe algo novo: uma angústia que não passa. Logo ele, que sempre tanto amei. Aliás, sempre tanto amei a natureza, estar em contato com ela, longe dos seres humanos, mais próxima de mim. Todos os dias, acordo e abro as cortinas janelas. Ao cair da tarde faço o movimento inverso. Tenho parado uns instantes a ver o sol ao longe fazendo do céu uma pintura sempre linda. Vê-lo, trancada em casa há mais de um mês, assim furtivamente me enche de angústia. O sol, por sinal, tem aparecido com mais frequência do que a usual para esta época. O calor do nosso querido Verão estendeu-se como quem dizia “vim pra ficar”. E nós dentro de casa.

A princípio, não me angustia ficar tanto tempo em casa. Amo minha casa. Começo a sentir falta da natureza, por certo. Mas a angústia tem outra razão de ser. O que existe lá fora.

Quando pensamos que nosso maior inimigo seria um vírus de alta letalidade que já entrou para a História Contemporânea, com imagens da Lombardia e de Guayaquil como impressão profunda desses tempos em nossa consciência, nos deparamos com algo muito mais letal. Sim, a ignorância de um povo que já havia jogado o próprio país ao precipício. 

Nosso inimigo não é a fome. Não será o desemprego. Não é a falta de UTIs e respiradores. Nosso maior problema não é a crise econômica que virá para o mundo todo nem as consequências práticas de uma pandemia global. Nosso inimigo é o discurso assassino. É o desvario coletivo sob a batuta da mais pura e indigna maldade. Não me digam que são só alguns poucos, porque não foram poucos os que correram ao comércio, não são poucos os que vão todos os dias às padarias, não são poucos os que querem academias reabertas, não foram poucos os que correram ao litoral para aproveitar o feriadão nas praias. Enquanto isso, quem pode, sob a mesma batuta, faz demissões em massa, pressionando seus funcionários a que trabalhem dobrado, apenas para lucrar mais com uma situação de calamidade global. 

O desvario é o tom do discurso, porque a essência é a maldade. Há dias tenho pensado como deve ser, no mínimo, constrangedor estar do lado errado da História. Tento encontrar outra palavra para constrangedor, mas que mantenha o decoro do texto. Como deve ser doloroso, estupidificante, nojento, quem sabe, descobrir-se na contramão dos fatos históricos. Gostam tanto sempre de usar o exemplo do nazismo, tentemos: como deve ter sido para milhares de alemães, levados pelo discurso de desvario e maldade apedrejar, cuspir e denunciar judeus (muitos seus amigos, vizinhos, colegas). Um exemplo mais próximo que me apetece sempre usar: como deve ter sido para gerações perceberem-se escravagistas neste país, saber que a riqueza de sua família veio do sangue dos negros, para muitas das mocinhas e mocinhos da época que desprezavam a pele negra e foram se dando conta, ao longo do tempo, que eles eram cruéis bestas que chicoteavam seus iguais. 

Deve ser um encontro interessante dessas pessoas com suas próprias consciências, ao verem que a História clamava por eles no momento, que defendessem o que era certo como um imperativo categórico apenas e pronto. Mas, optaram pelo erro, guiados ou não pelo discurso desvairado de uns, explícitos na maldade. Já diz a igreja que temos, de fato, o livre-arbítrio para tomar essas decisões, enquanto igrejas que já estiveram do lado errado da História tentam acertar pelo menos desta vez- outras disseminam a mais rasa ignorância a mascarar a completa maldade de suas ações, que também não são de hoje. Contudo, não há como negar, foi o ser humano que buscou este vírus. É o ser humano que escolhe propagá-lo,  em carreatas pelo país, em caminhadas aparentemente inocentes na beira da praia, em idas ao supermercado aos risos e conversas desbragadas. 

A natureza deve assistir a tudo pasmada. Precisou que um vírus inocente que vivia em seu seio viesse tomar metrópoles para que nós a deixássemos em paz. A produção de petróleo parou. Nosso consumismo estúpido parou. As máquinas assassinas de todo tipo pararam. A natureza vive seu devir a ignorar nossa estupidez e desespero. Ou, quem sabe, ela nos olhe como eu, com uma angústia sem fim, a cada pôr-do-sol… pensando, talvez, que a humanidade nunca aprendeu com seus próprios erros, que a humanidade sabe propagar melhor a maldade contra seus iguais do que sabe curar as doenças. E, vejam só, a natureza é testemunha dos nossos atos desde tempos imemoriais. Nós passaremos, ela permanecerá.

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