Não há normalidade nos nossos dias

Duas frases têm me cansado bastante nestes tempos de pandemia. A primeira, otimista aos raios da irritação, “Tudo vai passar (logo)”; a segunda, inocente na sua ignorância analítica, “seremos outros depois disso tudo” (ou equivalente com “tudo vai mudar”). Além das previsões estapafúrdias que tenho visto por todos os lados, além da discussão política sobre os limites do Estado sobre nós. Discutem sem olhar o básico.

O ponto principal, me parece: não estamos vivendo uma situação normal. Portanto, não finjamos que está tudo normal, não sigamos nossos dias como se houvesse normalidade, não trabalhemos como se fosse uma situação igual à anterior. A minha geração, a geração dos meus pais, as gerações depois de mim, nenhuma viveu uma pandemia. Os nossos idosos (tão, mas tão, maltratados pelas suas famílias, pelo governo, por tudo e todos) acima de uns oitenta anos podem ter lembranças de epidemias de tifo e outras, quando as pessoas, naquela época, passaram por situação semelhante.

Como exigir normalidade numa situação extraordinária? Como manter dias e horários? Como pressionar e manter prazos e datas? Trabalhos e estudos online, compras por entrega, bancos com atendimentos restritos, protocolos para todos os lugares. Onde está a normalidade? Máscaras, meus queridos… não há nada de normal nestes dias.

E as dicas e reportagens sobre o que fazer na quarentena? Livros, filmes, séries, receitas… eu dava conta disso tudo, antes da quarentena. O volume de trabalho, problemas e responsabilidades na quarentena acabaram com meu “tempo livre”. Admiro quem está aproveitando a quarentena em casa até para aprender a cozinhar, maratonar séries e fazer cursos online. A quarentena acabou com tudo isso pra mim – e, por favor, cozinhar e tantas outras coisas cotidianas sempre fiz. O que faziam antes da quarentena essas pessoas que fizeram seu primeiro pão ou bolo em casa? O que faziam da vida antes da quarentena esses pais e mães que não aguentam seus próprios filhos? O que faziam da vida antes da quarentena essas pessoas que foram ler tutoriais de como limpar a casa? Viviam no shopping? Não saíam da academia? Confesso que prefiro não conhecê-las (nem às suas respostas). Que a quarentena mostrou o quão vazios são muitos dos indivíduos contemporâneos, já sabemos.

Ninguém estava preparado para a quarentena global, eis a verdade. Os sistemas de saúde muito menos. Mas, tudo faz parte de um processo de adaptação temporário. Não se pode transferir em pé de igualdade a realidade presencial para a virtual. Toda adaptação prevê considerações sobre os meios – posso falar da minha área, como a discussão de adaptar um livro para o cinema, são meios diferentes, impossível apenas “reproduzir” a história escrita em imagens. Mas, as pessoas não pararam para refletir.

Aliás, talvez a quarentena devesse ter sido apenas isso: parar e refletir. Deveríamos todos ter parado absolutamente tudo, e ficado em nossas casas, reclusos e contemplativos, consumindo apenas o essencial (comida, água e tal, nada perto das MPs desvairadas do pseudo-presidente). Não há que se discutir a economia. Paremos, apenas isso. Somos seres humanos, apenas isso. Humanos que, mesmo diante de tecnologias e ciência tão avançadas em plena segunda década do século XXI não sabemos direito o que fazer diante de um vírus invisível (e que é negado por muitos, não apenas por ser invisível). Nos falta, em geral, momentos de reclusão, contemplação e reflexão. É o que a vida contemporânea nos quitou. Neste momento é crucial pensar, e pensar novamente. Repensar o modelo de sociedade na qual vivemos, repensar nossos hábitos (e não esses discursos fúteis das redes sociais), repensar nosso modelo de trabalho, repensar nosso modelo de ensino (e aprendizagem, às vezes esquecemos que é uma via de duas mãos), repensar nossos espaço habitacional, repensar nossos hábitos alimentares, repensar nossas atitudes em relação aos outros. Repensar tudo, enfim.

Mas, como contemplar e refletir enquanto temos que assumir papéis que não nos cabem, diante de meios que desconhecemos (e que não são feitos para nossas necessidades!), na tensão e angústia da vida e da morte, na preocupação com os que amamos, com responsabilidades que acumulamos? Impossível. E, assim, nos quitaram, também, nossa humanidade. Somos seres humanos, apenas. Não somos máquinas. E, num repente, reproduzimos uma relação homem x máquina mais atroz do que a Revolução Industrial (naqueles tempos, dizem uns, havia justificativa para não se saber ao certo os efeitos da máquina sobre o ser humano – hoje, não há nenhuma).

Esse mundo contemporâneo do século XXI mostrou-se estúpido e embrutecido. Estúpido, visto que não aprendeu nada com os últimos milhares de anos. Embrutecido, visto que acha que se garante tanto com suas máquinas e tecnologias e ciência, mas, na verdade, está apenas assustado e sem rumo.

Parem o ENEM, parem os vestibulares, parem as fábricas, parem as escolas, parem as instituições, parem as igrejas, parem as praias, parem (os governos), parem as academias, parem os shoppings, parem tudo. Apenas, parem. Não há normalidade nos nossos dias. Para voltarmos à vida, teremos que estudar uma outra realidade. E, não, não acredito que será tudo diferente porque as pessoas, essas mesmas que não vêem motivos para pararmos, continuarão a existir. Se não pararmos para refletir sobre o hoje, o amanhã será muito pior – passará longe desses olhares otimistas e inocentes.

(Quase caí na tentação de terminar com um “quem viver, verá”, mas, não só pelo clichê, não quero desrespeitar as centenas de milhares de mortos; nem quero ser mais uma a rabiscar previsões. De fato, só temos o hoje.)

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