Lúcia morreu em vão

Diante de tanta indecência e imoralidade, fica difícil entender o que nos causa mais dano. Indecência e imoralidade, entendam, não é sobre gente pelada e cenas de sexo, não. Isso aí é até um refresco para os olhos nos tempos que vivemos. A indecência e a imoralidade ficam mesmo por conta das atrocidades dos governos e da irresponsabilidade desenfreada do povo. Por primeiro, quero dizer: você, querido e querida, que tem respeitado o isolamento social, que sabe que não precisa ir pro shopping, pra praia, pra academia, subir o mirante, fazer churrasco com os amigos, sair pra namorar, que só sai pro essencial (supermercado, farmácia e tal) devidamente paramentado de máscara, luva e álcool em gel porque protege e respeita quem ama e aos outros, você não está sozinho. Esses dias ainda pensei “mas será que eu estou exagerando?”; não, não estamos exagerando, somos nós que estamos garantindo que este Estado, que esta cidade, que este país não esteja numa situação ainda muito pior.

Mas, afinal, como sentir-se diante de um governo que tem por política de Estado a morte? Como sentir-se sã diante do incentivo ao extermínio de idosos e pessoas com doenças crônicas? Como ser saudável e preocupar-se com o corpo e com a mente quando o país se empenha em matar a periferia? Como? O tempo sempre faz com que entendamos melhor as coisas, porém, ninguém precisava de tempo para saber que este criminoso que chamam de presidente era só isso mesmo, um criminoso. Esses dias lembrei de quando acompanhei angustiada o julgamento do STF, sobre o crime de racismo que o Bolsonaro cometeu: eles o absolveram. Tomara que se arrependam até a alma, pois colaboraram em deixar livre um criminoso que tornou-se presidente (sob o aval de boa parte do povo, nunca esqueçamos) e hoje os ameaça semanalmente.

A morte, atirar brasileiros e brasileiras à morte, é o princípio deste governo. E, não, não tem nada a ver com a economia. É o prazer sádico de enviar à morte pretos, pobres, velhos e doentes. Por pouco, não iriam os judeus junto. Exceto esta ausência, sabemos bem com qual lista de extermínio ela se assemelha. É extermínio, não tem outra palavra. E, por falar em extermínio, lembrei-me várias vezes, nos últimos tempos, da Hannah Arendt. Como não lembrar dela, não é? Esta confusão absurda entre público e privado, este povo que cumpre as ordens dos seus superiores sem questionar-se. Então, se ele manda fazer algo imoral e criminoso, você fará? Ah, claro, o amor ao emprego. Se fôssemos mais éticos, como trabalhadores, obrigaríamos, à força, que os patrões o fossem também. Mas, negligenciamos nossa moral. Calamos e procedemos feito gado com medo, sabendo, porém, que ao final só nos caberá o abate.

Enfim, tudo isso para falar só uma coisa… da Lúcia. Conhecíamos a Lúcia faz muitos anos. Em algumas ocasiões minha mãe foi tratada por ela, que atendia os curativos, pontos e tal no hospital da Unimed, em Joinville. Foi um espinho um dia, uma mordida do cachorro no outro, um corte de qualquer coisa acolá (minha mãe é sapeca, eu sei). Ao longo dos anos estabelecemos uma relação muito boa, Lúcia sempre conversava durante os atendimentos (eu e minha mãe temos esse costume também). Mesmo quando não era atendida no curativo, víamos a Lúcia, pois a sala do curativo era próxima dos consultórios e inúmeras vezes lá estava ela quando passávamos. A última vez que a vimos foi final de janeiro, começo de fevereiro deste ano. Levei minha mãe para uma consulta e ela passou por nós, sempre gentil.

Minha mãe, há mais de setenta dias sem sair de casa, sem contato com ninguém além de nós, há meses acompanha a situação da pandemia pelo mundo. Lamentou muito a situação na Itália, onde ela esteve recentemente. Sei que sofreu calada vendo as imagens e os números de Manaus, para onde ela já viajou e voltou encantada com o povo, com a natureza, com tudo. Com Guayaquil não foi diferente, até tentei evitar que ela visse os vídeos que rodaram a internet. Ela via, de longe, lugares que ela conhece, sempre lembrando das pessoas que ela conheceu por lá, pois, sim, mamãe faz amizade onde quer que ela vá.

Quando li, há uns dias, do falecimento da Lúcia, enfermeira de Joinville, não sabia se devia contar pra minha mãe. Lúcia, enfermeira, que tantas e tantas pessoas cuidou durante anos e anos de profissão, ficou dois meses internada com covid-19. Não, Lúcia não era idosa nem tinha comorbidades, fatos tão queridos pela imprensa local para justificar as mortes. Lúcia não foi a única profissional de saúde da cidade que morreu decorrente da contaminação por covid-19. Lúcia morreu, vocês entendem?

Lúcia morreu por causa de você que vai pro shopping. Lúcia morreu porque você achou que era só uma gripe e foi pro hospital pegar um atestado, mas não lavou as mãos direito e pegou nos trincos das portas, porque você espirrou sem máscara. Lúcia morreu porque você acha que não pode descuidar do corpinho e exigiu a reabertura das academias. Lúcia morreu porque você achou o cúmulo o Estado intervir no fechamento da igreja e hoje vai à/ao missa/culto de máscara, só por obrigação, mas abraça todo mundo, e fica, sem máscara, conversando na porta da igreja. Lúcia morreu porque, é claro, a economia não pode parar. Lúcia morreu porque, “e daí?”. Lúcia morreu porque os ônibus precisam voltar a rodar, porque os pais não aguentam mais seus próprios filhos dentro de casa e as aulas, é óbvio, precisam voltar, expondo professores, funcionários e o escambau, afinal, a economia, é claro. Lúcia morreu pela estupidez humana que abriu baladas e bares pro pessoal poder encher a cara e ouvir música. Lúcia morreu. Lúcia morreu porque estas gerações nunca passaram por uma pandemia nem por uma guerra e, sem a experiência empírica, não têm capacidade intelectual de compreender uma nova situação que se apresenta. Lúcia, a Lúcia morreu.

Lúcia morreu para satisfazer a ganância de alguns e a ignorância violenta de um Estado que vai perdurar apesar das mortes, dela e de milhares de brasileiros. Lúcia morreu porque há alucinados a negar os fatos, as estatísticas e a Ciência. Lúcia morreu porque você acha que tudo bem não sossegar o facho e passar uns finais de semana em casa. Lúcia morreu e as pessoas não entendem que recuperar onze mil diariamente não é número a ser comemorado quando nas mesmas vinte e quatro horas confirmamos mais trinta mil casos e mais de mil mortes. A conta não fecha. E, acima de tudo, essas vidas não voltarão. Assim como a doença é dolorosa, de lenta recuperação, aniquila a pessoa, além de usar métodos invasivos para garantir a sobrevivência. Quem, por livre e espontânea vontade, assume que não se preocupa com isso? Ah, sim, só os atletas que acreditam que com eles será só uma gripezinha. É a política de Estado: matar, matar, matar. Você que hoje vai ao shopping e à academia, você pratica a política de Estado assassina. Você que não pensa nos seus funcionários e cumpre as regras meia boca, você pratica a política de Estado assassina.

É só entrar num comércio, num colégio, no shopping, na loja de departamento, num escritório. Em nenhum lugar você verá as pessoas seguindo as normas à risca. Vide as máscaras no pescoço ou no bolso, a economia no álcool em gel, as conversas e risadas, etc..

Nós vivíamos num mundo tão difícil, no qual a luta pela conscientização contra o machismo, a violência, o racismo, as desigualdades tomavam nossos dias. E, hoje, a pandemia só evidencia como a ignorância e a estupidez são latentes – e a política de Estado é assassina. Não me venham querer fazer crer que tudo será melhor, depois. Lúcia morreu, em vão.

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