Puzzle

“C’est fini !” – je ma dit trois ou quatre fois la dernière semaine

Qu’est-ce qui “est fini”, Fahya ? – ma dit mon cœur

L’attente, parfois

ou l’espérance

C’est pas fini, c’est pas terminé

Je ne suis pas un cœur fermé

je suis seule peau et chaud

dans un monde idiot

La patience me manque, c’est ça

Tes yeux, ton voix

Mon amour et mon désire

C’est pas fini

Tous les pas de cette puzzle que sommes nous

Au mystère sous le ciel et sur la terre

J’espère le destin de nouveau

Et en septembre toujours il pleut avant du bonheur

Feio é passar fome, Joinville

Ao sair de casa naquele sábado de chuviscos, de máscara, caminhando pela beira-rio, deparei-me com a surpresa. De longe, pensei ter visto uma tarrafa ser lançada no rio Cachoeira. Surpreendida pela visão, um segundo lance confirmou que era mesmo uma tarrafa que se espatifava contra a turva água do rio, logo ali atrás do prédio verde, aquele prédio que fica num lugar de destaque na cidade, dizem que sobre o rio, o que não é verdade.

Continuei caminhando solitária, como gosto, e me aproximei do tarrafeador. Ele vestia-se com roupa impermeável, como pedia o dia e a atividade que ele praticava, e ao lado jazia uma zica em lamentável condições. Deparei-me, então, com minha incredulidade: dois peixes gordos caíam da rua tarrafa no chão úmido da beira do rio. Eles se debatiam para minha incredulidade e de mais dois que assistiam à cena a poucos metros. Éramos três espectadores daquela cena inusitada no centro da cidade, a poucos metros da nobre e imponente prefeitura da cidade, que fica ali sobre o morro, na frente do prédio verde, como de atalaia – dos cidadãos, não dos peixes.

Estava já próxima do cidadão joinvilense que praticava aquela façanha, digo, pescaria, quando me senti atarantada. Ele, sorrindo, via que era o motivo da minha curiosidade, e dos outros dois da plateia, e declarou “Dois dias de almoço garantido!”. Havia júbilo naquele sorriso triste. Dois peixes gordos, porém pequenos, garantiam o que comer na mesa de um brasileiro, cidadão joinvilense, que vê os preços dos alimentos básicos explodirem há meses. Eu parei por alguns segundos, ouviu-se o silêncio das caras pasmas. Ele baixou os olhos e recolheu a tarrafa para um novo lanço – do qual ela voltou vazia, assim como dos seguintes. Teria almoço somente para os dois próximos dias, mesmo.

Segui meu caminho sem tracejado pelas calçadas, amparando-me nos pensamentos. Uma cidade grande, uma cidade operária, uma cidade que se quer nobre, mas não é. Uma cidade enclausurada nos seus apartamentos de elite com janelas que vêem o horizonte, mas ignoram o que jaz aos seus pés. Uma cidade que não olha no espelho, que não elege quem a representa na maioria. Na volta, subi a rua da prefeitura, caminhei até a entrada, onde há um varandão com vista para o rio, para a praça do chafariz, para o prédio verde, para as costas do monumento à barca, para a bandeira do Brasil hasteada na praça que leva seu nome. Fiquei ali por um tempo olhando aquele pequeno pedaço da cidade que não a representa em nada e onde tudo começou. Ali construíram as primeiras casas, ali o lamaçal fez morada a um povo miserável que foi trazido com falsas promessas. O rio abandonado. A praça do chafariz, sem chafariz, e recuperada. A barca, que a mim lembra o engodo, jamais o sucesso. Aquela triste bandeira tremulando fraca, como sem fôlego. E tentei ver além, tentei ver ao pescador inusitado atrás do prédio verde, tentei buscar os bairros onde a vista não alcança, dali da vista do prefeito. Não se vê, é verdade. A vista daquele varandão só vê o falso e o artificial.

Dias depois, a notícia da derrubada do prédio verde. Por quê? A verdade ou o que contam? Porque ele é feio, é a verdade. Contam que é para obras de mobilidade (sem comentários). A perplexidade tomou conta de mim. A decisão do prefeito logo foi apoiada, ele é feio, dizem os cidadãos, do calor dos seus apartamentos com vista para as serras, nas redes sociais. Não é permitida feiúra na janela da prefeitura. Por isso repaginaram a praça do chafariz e plantaram meia dúzia de flores no canteiro do monumento à barca. O prefeito e a vice esses dias haviam sido fotografados no varandão em frente a prefeitura, “vendo” a cidade. O prédio verde enfeiava a fotografia.

Por alguns dias me perguntei se seria plano de governo extirpar a feiúra da cidade. O que fariam com os feios e feias? Teremos vale-cirurgia estética, quem sabe. Humor ruim, eu sei. Ou só incomoda o feio que suja a vista da janela da prefeitura? Feio é passar fome. E isso nem o prédio verde esconde, senhor prefeito. Feio é pedir para os outros fazerem o que sua responsabilidade – pedir doação de alimentos para quem vai se vacinar, para serem doados aos necessitados; pedir pra empresas plantarem flores nos canteiros da cidade e recuperarem praças; pedir para empresas trocarem o piso da Casa da Cultura. Isso é muito feio: não assumir suas responsabilidades.

Repito: feio é passar fome. E o joinvilense passa fome, mas, das suas janelas não é possível ver isso. O feio, em Joinville, nos ronda, é só olhar.

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