Histórias de Natal–A Neve

A menina de cachos castanhos, sentada à janela aberta, com os cotovelos apoiados no beiral admirava o que via lá fora. Seu cachorro, sobre as duas patas traseiras, também olhava arregalado para a vasta branquidão. A mãe passava pela porta do quarto a trovejar “fecha esse vidro, menina, vai ficar doente nesse frio! Que mundo louco, em pleno dezembro! O mundo ficou louco! O mundo ficou louco!” e seguia atarantada pela casa, sem saber ao certo o que fazer – como muitas e muitas pessoas pelo globo afora.

Nevava. E a menina deslumbrada observava aquela maravilha em floquinhos a cair do céu e o tapete congelante e fofo que se espalhava pelo pequeno jardim e pela rua. Crianças sem roupas apropriadas corriam sem jeito, mães ficavam pelos cantos, espantadas e segurando sombrinhas. Nunca nevara por ali – como numa grande parte do mundo. As TVs tagarelavam aflitas em busca de explicações, especialistas, alguém que pudesse entender o que acontecia no mundo. Era dezembro, Verão no hemisfério Sul, previsão de calor; que nevasse no hemisfério Norte era esperado, mas estes assistiam atônitos à neve que se apoderava do mundo todo.

Naquele dia nevava em absolutamente todos os lugares do mundo. Alguns citavam que era o verdadeiro white Christmas all over the world, outros prediziam alguma tormenta de Deus ou a volta do Seu filho, muitos correram às igrejas e templos, poucos puseram-se em oração, milhões registravam o momento temendo que fosse efêmero – e tornando-o efêmero na sua experiência apenas sentida em fotografias e vídeos. E a menina suspirou e sorriu ao ver o céu despejar mais flocos de uma branquidão calmante e peculiar – sem dúvida peculiar naquela terra onde raramente fazia menos de vinte graus.

Cogitava-se algum erro brusco no cálculo dos metereologistas ou uma catástrofe não testemunhada pelos satélites ou, temia-se ainda mais, era, finalmente, a resposta da natureza ao modo de vida abusado e dispendioso de humanos que só exploravam e se reuniam em tentativas de absorver o impacto de uma população gigante num mundo finito. Ou, na verdade, não se sabia de nada. A menina ouvia a TV da sala ao lado na pequena casa, muito se falava e se mostrava, nada se sabia. Seu cachorro vidrado no branco que não motivava a sair e, vez ou outra, a olhava de soslaio como se de tudo soubesse. A menina sorria e seus olhos brilhavam.

Equipes de socorro e de prevenção de desastres foram chamadas às pressas no feriado do dia santo do nascimento do menino, largaram suas famílias, suas mesas fartas, seus presentes embrulhados. Políticos também, mas não compareceram – não parecia um problema que lhes dissesse respeito, afinal era algum capricho da natureza. Fazia-se cálculos e a preocupação aumentava, para onde escoaria toda aquela água depois de degelada?, as pessoas de países pobres do hemisfério Sul não estavam preparadas para um frio extremo, pois são de pasíses quentes, quantas vidas se perderiam?, e o mundo, todo branquinho, parecia – para alguns de pouca fé – ter chegado ao fim. A menina, porém, via o início naquela neve manchada de barro onde agoa alguns meninos pisoteavam tentando fazer um boneco.

A neve caía em paz cobrindo todo o mundo, misturava-se à areia das praias, espalhava-se sobre telhado e ruas, repousava sobre árvores que desconhecia. Florestas foram tomadas, cidades inteiras ficaram em silêncio sob seu manto, e ela sossegadamente não parava de cair naquela véspera e durante todo o dia seguinte. E a menina ali ficou, cotovelos doloridos, a observar a neve da sua janela. Ela sorria. Ainda persistia a dúvida e muita previsão foi feita. Nada, de fato, ainda se sabia.

A menina vivia numa casinha na periferia. Pai pedreiro e mãe costureira – que já se aventurava a arrumar um casaquinho para a filha, colocando um forro extra para agasalhá-la melhor naqueles dias tenebrosos. Com sorte, a menina terminaria a escola. Com muita sorte a menina conseguiria um emprego dali muitos anos. Sem sorte, sua vida seguiria… A menina suspirou pela milésima vez a contemplar a beleza que via. O cachorro, enrodilhado aos seus pés, gania baixinho como se tivesse pesadelos. A mãe dormia agarrada ao terço e com lágrimas secas nos olhos – o frio era caro, aquecer a casa, a menina, os bichos, muita roupa molhada e tudo isso lhe custava mais ainda a pregar os olhos.

O pai levantou-se da TV e passou na porta do quarto da menina, que estava na janela desde o primeiro floco de neve que caíra na véspera. A menina era sonhadora, um tanto avoada, o pai não quis atrapalhar a contemplação e foi deitar. Quem sabe ela estivesse sem sono mesmo. Preocupava-o o trabalho, tudo parado devido àquela neve suspeita e odiosa, sem dinheiro reserva, sem aquecimento na casa. Mas ele dormiria.

A menina suspirou mais uma vez e ao ouvir todos dormindo, a janela aberta ainda, sussurrou um “muito obrigada”. Apoiou o queixinho nas duas mãos e viu que, quanto mais o ponteiro se aproximava da meia-noite, mais a neve ia escasseando. Sorriu e deu mais uma olhada para o papel que trazia dentro da manga do casaco, a cartinha para o Papai Noel, que ela deixara naquele mesmo parapeito na noite anterior. Sorriu ao ler o recado “assim seja!” e a assinatura do velhinho das barbas tão brancas quanto a neve. Sorriu ao ver os montes brancos no jardim. Leu, mais uma vez, seus garranchos que ingenuamente explicavam ao Papai Noel que ela era pobre, como seus pais, e assim seria sempre, por isso pedia para ver a neve do Natal de que tanto ela via nas toalhas de decoração e nos filmes na TV.

A TV estava quieta. A menina esticou os bracinhos, estralou os dedos, viu a branquidão começar a sumir do entorno, feito mágica, e o céu deixar de despejar seus flocos. Era meia-noite. Ficou ali uns minutos ainda, sorrindo e agarrada à sua cartinha. Hoje ela dormiria feliz.

Anúncios

Histórias de Natal – A ceia

A mesa estava finamente decorada. Era o primeiro ano, em décadas, que não seria dona Lourdes a fazer a ceia do Natal. Ela preparava cada detalhe, durante uma semana, desde a louça que seria usada, os guardanapos decorados, até o peruzão recheado e assado durante horas para satisfazer todos os familiares, entre filhos, filhas, netos, genros, noras e agora até bisneto. A família era grande e, por isso, palpite não faltava. Mas dona Lourdes mantivera o poder em suas mãos: a ceia era sempre na casa dela, feita por ela.

Naquele ano ela esquecera o fogão ligado duas vezes, à noite. Também batera o carro pela primeira vez, porque não viu um pilar na garagem do prédio da filha mais velha. Aos burburinhos os parentes decretaram: ela estava velha. Um Alzheimer, talvez, em fase inicial. “Mãe, você já não pode fazer isso”, “Vó, não quero que a senhora fique sozinha” e todas aquelas preocupações. Desde a viuvez, há mais de vinte anos, ela tomara as rédeas da própria vida. E agora a consideravam gagá. Imprestável, inútil, incapaz.

Por isso, naquele dia 24 ela havia orientado a arrumação da mesa – tinham medo até que ela quebrasse a porcelana italiana, que algumas noras cobiçavam – e ficara sentada na sua poltrona. Fizera apenas duas exigências: a ceia teria que ser na sua casa e feita por alguém da família. Como ninguém tinha tempo, a nora, esposa do filho mais velho, se dispôs. Dona Lourdes, sentada ali, observava o vai e vem. Da cozinha vinha um cheiro indefinido. A nora estava com olheiras e gritava com os filhos.

– Oi, vó! Já está aí? – era sua neta mais nova, acabara de chegar de férias, pois estudava em outra cidade.

– Oi, minha querida! Estou só de olho. – cochichou a avó com um sorriso matreiro.

– Nem vou querer jantar, viu. Se não é a sua comida, nem quero! – disse a neta ao pé do ouvido da avó.

– Não se preocupe. Faremos jejum! – e dona Lourdes caiu numa gargalhada.

Todos sabiam do apreço da avó pela neta mais nova. Eram opostos, porém. Dona Lourdes fora criada como antigamente, o trabalho da mulher era cuidar da casa, do marido, dos filhos, aprendera a bordar, costurar, cozinhar, limpar e a artrose espalhada pelo corpo testemunhava quantas vezes ficara de joelhos a esfregar o chão – da loja de relógios do marido, inclusive – e quanta roupa lavara no tanque para que os filhos fossem impecáveis à escola. Laura tinha nem vinte anos, dez tatuagens, uma lista de ex-namorados que nem ela sabia de cor, o cabelo roxo, era feminista de ir às ruas, não sabia fritar um ovo e, somente nisso deixava sua avó horrorizada, usava roupas rasgadas. Nem preciso mencionar que Laura era o patinho feio, a ovelha negra, e o pai se alegrou quando ela decidiu estudar História na capital – ele não sabia conviver com a filha.

A família foi chegando, a nora se estressando, os presentes engordavam o chão da sala aos pés da árvore de Natal. A noite prometia. E dona Lourdes, impaciente, sentada na poltrona. Nunca ficara sem fazer nada na vida.

Anoiteceu. Risadas e presentes.

Foi quando o neto do meio, entre tantas netas, veio do banheiro.

– Vó, tá um cheiro ruim lá na cozinha. A vó não quer dar uma olhada?

Dona Lourdes, depois de abrir uns pacotes com toalhas e meias, levantou-se prontamente. Ela era necessária, então. Correu a passos firmes para a cozinha. O desastre era completo. O peru tivera perda total. Torrado por fora e cru por dentro. O risoto grudara na panela. A salada estava puro sal. A farofa queimara. A nora, que estivera cochilando sobre os braços na mesa da sala, ergueu a cabeça e chorou. “Tanto trabalho, meu Deus, mas, também, ninguém pra me ajudar…” e as lamúrias não foram poucas.

– Vou anunciar que não teremos jantar. – disse dona Lourdes seriamente.

– Mas, mãe, como não teremos jantar? As crianças estão mortas de fome. Eu também, claro. Como que alguém não consegue assar um peru?! – o filho demonstrava toda sua compreensão.

– Alguém? Por que, você consegue, Maurício? – a mãe repreendeu-o enquanto se dirigia à sala.

– Vó, espera aí. Te digo, eu resolvo, tá? – era Laura – Deixa comigo, nem fala nada com ninguém, eu já volto. – Amore, vem cá. – o namorado da vez, que ninguém ainda havia decorado o nome, veio e ambos saíram.

Dona Lourdes olhou e olhou. Não sabia como pegar aquilo direito. O silêncio de todos diante da mesa arruamda fora quebrado pela algazarra das crianças, contentes diante de tanta batata frita e hamburguer. Laura fizera as honras e dava mordidas satisfeitas no seu lanche.

– Bisa, tá delícia! – era o bisneto mais novo, dois aninhos.

Orgulhosa pelos créditos, porém lambuzada de ketchup e maionese e um hamburguer fugindo pelo canto do pão, dona Lourdes arrematou:

– Então é isso que vocês comem quando não estão na minha casa, é? – e sorriu para Laura.

Histórias de Natal – O Diabo

Só Diabo mesmo, diminutivo de “pobre diabo”, como ficou conhecido pelas redondezas. Vivia no barranco atrás de uma casa grande, em um barraquinho feito de lona e restos de madeira, do tamanho de uma casa de bonecas, mas sem a beleza, debaixo de um frondoso flamboyant. Quando chovia, vocês imaginem, o chão de terra era uma cachoeira. Os pezinhos saltitavam de pedra em pedra evitando o lodaçal. Eram pezinhos e pouco cresciam tão magrinho o menino.

Fazia de tudo um pouco pra lá e pra cá, moedas lhe davam ainda menos – por vezes um pão velho ou uma carne apodrecida – como se a Deus louvassem e suas almas salvassem. A pele escura demais para ser branco e clara demais para ser negro, todos lhe evitavam, ninguém o considerava igual. A casa grande era barulhenta e distante com seus filhos engomadinhos e aparelhos de liquidificador na cozinha. Ele nem luz tinha e se aquietava ao apagar a vela antes de dormir em paz.

Corria o boato de que a casa grande uma benção lhe fazia, pois desde que ele surgira cederam o barraquinho para morar e quando ainda muito pequeno leite lhe davam. O pastor assentia, a vizinhança achava bonito o gesto. E assim todos viviam.

Por aquelas terras, numa época muito chovia. Frio também fazia. O Diabo vivia com a roupa do corpo, o que sobrava das crianças que cresciam. Quase não falava e feliz muito sorria. Se virava com as moedas que ajuntava e com os peixes que pescava. Desde cedo aprendera a pescar: não era só por necessidade, também pescava porque aquilo lhe alegrava.

O Diabo a ninguém importava. O dono da venda bufava e de olho de rabo controlava os gestos do Diabo quando por ali ele passava a comprar algum vívere. As velhinhas o nariz trancavam quando por ele passavam. Os homens todos muito mal ficavam com sua presença – apesar de sempre lhe chamarem para pequenos serviços – a observar disfarçados um traço do perfil, o gesto, o jeito de caminhar e até o olhar límpido. O medo de reconhecer-se assombrava a todos. Assombraria-os para sempre.

Naquele dia o céu muita chuva prometia. As casas ressoavam os cânticos do nascimento de um outro menino, aquele que, dizem, à humanidade salvaria. Muita fartura se via nas mesas dos abastados donos de perus e galinhas e bois. Uma fartura menos farta nas casas menos grandes dos plantadores de arroz e milho e trigo. Até nas simples casas dos cultivadores de couve e morangos e bananas muito havia de comer e calor humano e presentes dados e recebidos. A tudo isso de longe o Diabo ouvia.

Sentadinho na sua banqueta à beira do rio o Diabo pescava. Parecia que até os peixes festejavam o nascimento e nada queriam de ser a sua simbólica ceia. Paciente e esperançoso, o Diabo atento vigiava a linha. A fome lhe chamava mas com essa ele bem demais se dava. As nuvens ribombaram, os raios trovejaram e lá vinha um carro lotado de alguns que de uma festa voltavam. O Diabo nada pescara e nem tempo teve de fugir dos pingos grossos. Ajuntava seus apetrechos já encharcado quando tudo se deu.

O carro rápido demais vinha. O motorista o bafo denunciava-lhe. A tragédia correu com o chão da ponte molhada direto à correnteza do rio. O Diabo imediato lançou a corda das brincadeiras de rio de dias de sol. Nadou com seu corpinho a puxar braços e pernas para as pedras às margens do leito. O Diabo, pobre diabo, nem saberia quantos salvou. E os braços fraquinhos, a fome turvando-lhe a vista, a água transbordando seu caminho e ninguém lembrou de a corda puxar, naquela noite de alegria e nascimento, onde se agarrava sem forças o Diabo a acenar. Cansou-lhe a alma de ser invisível e submergiu no turvo do rio enlameado com a chuva que o abençoava, enfim.

Noite de Natal

Naquela noite de Natal não havia nenhum pacote de presente debaixo da árvore. A mesa grande decorada com uma toalha cheia de bonecos de neve e papais noéis não ostentava nenhum enorme peru. As caixas de som não entoavam os mais belos cânticos natalinos. Nem o pisca-pisca estava aceso. Era um Natal onde faltava paz. Faltava que as pessoas acreditassem no futuro. No próximo Natal, caso tudo continuasse igual, o passo seria nem ter árvore a ser enfeitada. Os corações mantinham os adornos, apenas. Corações adornados não preenchem espaços. Viam-se invejados, pelo lado de fora. Sorrisos não pendiam dos galhos da árvore decorada no meio da sala. Crianças não enlouqueciam o chão com seus novos brinquedos. Cachorros e gatos não detestavam suas roupinhas vermelhas inexplicavelmente cheias de pompons brancos.

Naquela noite de Natal o entorno da mesa farta era ruidoso. Diriam que todos ali se entendiam. O churrasco de sempre passava de mão em mão. As caixas de chocolate já abertas descansavam no balcão. As crianças disputavam a vez na bicicleta nova da prima mais afortunada, logo estariam agarrando-se pelos cabelos. Todos suavam e o ventilador não dava conta do ambiente abafado. Uns disputavam conquistas do ano, outros discutiam a agenda da casa compartilhada na praia. A maionese seria pouca, é fato. A tia nunca acertava a quantidade. Ou sempre apareciam os que ninguém esperava. A família, já grande, crescia tanto a cada ano! A árvore-de-natal de plástico não chamava atenção no canto escuro, perto da porta do banheiro. E um papai Noel vesgo tilintava seu sino até acabar a pilha, para ver se a neta recém-chegada pegava logo no sono.

Naquela noite de Natal eles nem sabiam ao certo que era… Natal. Os tubos de oxigênio, as macas, os sacos de soro silenciavam a noite feliz. Um laço vermelho na mesa da recepção queria lembrá-los – em vão. Os lençóis brancos e os horários cumpridos à risca não queriam emular a neve nem preocupavam-se com a ceia. Havia um silêncio descomunal pelos corredores que pareciam ainda mais escuros. Nem as almas perambulavam naquela noite. Um ou outro era visto num canto a bocejar e esfregar os olhos com a mão adormecida de dormir meio sem jeito na cadeira. Todos torciam para que, até o fim do plantão, a sirene da ambulância não tocasse tal qual o sino do papai Noel.

Naquela noite de Natal eu colocaria um vestido novo e sentaria no sofá à espera dos presentes, minguados, por certo, porque não havia sido uma boa menina. Olharia a dança das nuvens depois da tempestade pelos janelões da sala de visitas. Contaria as horas para ver o velho barrigudo e de barba branca (verdadeira) entrar pela porta da frente carregando um saco vermelho. Veria a sala encher-se de gente, sendo, como sempre a primeira a ali estar. Esperaria com ansiedade meu nome ser chamado – uma, duas, várias vezes. Colocaria um presente sobre o outro, empilhados num canto, com medo de que alguém confundisse com os seus ou que se perdessem no meio dos pacotes vazios. O sono chegaria e eu, satisfeita com todos os regalos, abraçada a eles com medo de que eles deixassem de ser meus, partiria para a cama.

Naquela noite de véspera de Natal o cansaço levou-me tarde para a cama. Os olhos demoravam mais em cada piscada. O ventilador tornava o quarto fechado atrativo. Eu esperava por você. Esperava ter mais esperanças e fé no futuro. As pernas doíam pelo andar desenfreado da correria das compras de Natal. Pensava na praia, em pular para o Ano Novo, em como era bom que Natal só havia um por ano. Quando seria mais difícil te esperar, você apareceu. No portão de casa, você reclamava pelo meu colo. Talvez o coração aos pulos ou eu nem sabia ao certo. O Natal agora fazia sentido. Eu te esperaria, sempre. Sem sono, sem cansaço. Para ver teu sorriso, enxugar tuas lágrimas, dar-te abraços. Em nenhum Natal, até hoje, eu havia recebido o que mais desejava. E, ali estava, tua presença. Ao voltar, pé ante pé para não esbarrar nem no papai Noel que dizem que sai da chaminé, desliguei as luzes do pinheirinho, tirei o vestido embebido no teu cheiro e adormeci a sorrir com o melhor presente da minha vida.

O alguém e a moça

 

Refreou as vontades, que era pessoa disso: de vontades. Mimada, diriam. Filhinha de papai (ah, se soubessem). Namoradeira, segundo as más-línguas. Dizem, porém, que mães sabem das coisas. E sabem mesmo. Pessoas de vontades, eu diria, são as melhores pessoas. Não deixam nada a dever, não arrumam escusas, não titubeiam (ou bem pouco e a gente nem percebe). Assustam, por certo, pois sorriem quando querem sorrir, desejam quando querem desejar, amam quando querem amar, desaparecem quando querem desaparecer. Mas, naquele dia, deixou as vontades quietinhas no balanço ao lado. Era amarelo, se não estou enganada. Pessoas detalhistas são assim.

Foi quando alguém entrou na sua vida. Esse alguém cedeu às suas provocações: não sabia que não se cai nas provocações das pessoas de vontades? Descaminhos irreversíveis, querido alguém. O alguém, porém, era desconfiado. Desconfiava da moça do caixa, coitada. Desconfiava, dizia, dos outros. Na verdade, a moça das vontades, também desconfiada – foi o primeiro ponto em comum; um tanto incomum, não? -, desconfiou que o alguém desconfiava era de si mesmo. Ufa, tanta desconfiança – e eles confiavam um no outro e nem sabiam.

O alguém, um improvável sedutor, seduziu a moça das vontades por longas caminhadas – que de bobo não tinha nada, mas era assim que por vezes ela lhe chamava. Caminharam por praias amadas, por paisagens de lindos morros em promessas de companhia e de passeios de trem. Ousaram caminhar por costões e foram seus primeiros gemidos – de dor. O alguém e a moça tinham passado: que se via no brilho opaco dos olhos e no tremor dos lábios no escuro. O passado, sempre digo, lá no seu lugar deve ficar. Mas quem sou eu para dar palpite, eu só observo. Não lembro bem como foi, o alguém se abria, a moça se distanciava – essa gente de vontades, quanto mais vontades têm, mais teme tê-las.

O improvável sedutor levou-a em busca de bancos simpáticos em praças vazias e em recantos de lagos inóspitos pela cidade. O alguém queria levá-la a lugares bonitos, a moça não tinha boas intenções. E perderam-se em carícias desconexas. A moça falava muito, que até vontade de falar lhe sobrava, o alguém só permitia que se falassem nos breves sinaleiros fechados. E encontraram-se em histórias distantes.

Tem dias que a moça só quer um abraço. Mas precisa de uma palavra que nem sabe, uma palavra de apoio, de incentivo. E só o alguém sabe dizer as palavras que ficariam sob o breu do espaço. As pessoas dirão que conhecem a moça, sabem da sua preferência por maçã, goiaba e melancia; mas só alguém saberá onde ela deseja estar agora. Tem aquelas pessoas que convivem com a moça, todo dia, o dia todo. Ou aquelas que puxam assunto diante do cesto de abobrinha da verdureira. Só o alguém manda mensagem dizendo que a quer mais do que a caldo de cana com pastel – caldo de cana com pastel, meus queridos, não é por qualquer um que se troca esta dupla. Podem até cozinhar milho para a moça, mas só alguém a leva para sobrevoar os domingos nas asas do querer sob morros nublados e rios alastrados.

E foi num sábado, promessa de banco da praça do mercado. A moça aguardava e feliz já estava quando o alguém de vez entrou na sua vida. Entre tremores e sorrisos – ela jamais esqueceria aquele sorriso – perderam-se em abraços. Tinham promessas a cumprir, poucas não são. E a moça quis retribuir, que ela ainda sufoca-se em vontades – mas insisto em dizer-lhe que as pessoas de vontades são as melhores, ela não me dá ouvidos, pois teimosa. Mares bravios os acompanharam, os dias se arrastaram, viam-se unidos em um estalo. E gostavam-se de viver em abraços. Eu que não sou chata de querer avisar nem nada, mas que eles não tinham volta, eu sabia.

Alguém é essa pessoa que te rouba as horas – amada em verso, prosa, fotografias e canção. A moça, bem, da moça só posso dizer que é pessoa de vontades. Dos encontros improváveis, na vida, temos os melhores convívios. Tudo o que vem pelo óbvio certo está que termine. O alguém é o teu convite irrecusável, a falta ao longo dos dias intermináveis. Mães querem a melhor das moças para os seus filhos, mães sabem quando há um alguém na vida das suas filhas. O alguém e a Moça se espantam que de tanto conversarem ainda há muito a se falar – sempre. E são, um para o outro, a primeira pessoa que eles tanto esperaram.

Agora ela só quer refrear o tempo quando estão juntos. E nem é a única culpada, porque o alguém a observava com seus olhos perspicazes enquanto ela sentia um coçar de leve atrás da orelha. Nenhum dos dois se arrisca nos cálculos, e eu digo que o fazem muito bem. Mas subtraem dias, somam meses, guardam semanas. Se lhes vissem, ficariam admirados: e não brigam? Pois não. Eles fazem do jeito deles. Quando embarcaram na estação, optaram por deixar as bagagens, tirar os anéis, as carteiras, os objetos de valor, e até os calçados. Por pouco que nem seguiriam com a roupa do corpo. Mas avisei que parariam atrás das grades e não no paraíso.

Fizeram planos noite passada – ouvi de longe e sorri satisfeita. Riscam calendários e entrelaçam-se em convites para aniversários, casamentos e datas festivas. Nem sabem se atravessarão o próximo fim de semana, mas quem seria eu a toldar-lhes a visão com a prudência? A moça empenha-se em surpresas, o alguém provoca-a com mistérios. Parece-me que, dentre o risco das promessas, só terão a cumprir algo em torno de mil beijos. Achei por bem não comentar que foram sábios, ao menos nisso. O alguém pediu-lhe livros emprestados, a moça cobiça a praia perto de onde ele mora. Não se enganem, os corações andam juntos nas letras e nos mares…

Estimo-os muito, não custa dizer. Fizeram-me acreditar que até os solitários têm chances nesta vida. Ou que as curvas da vida podem se encontrar muitas vezes, nas quais o alguém e a moça estiveram tão perto e mal entreolharam-se, e só Deus sabe porque e quando desaguarão de vez no mesmo leito cansado de um rio caloroso. São coisas de Deus, quem sou eu para me meter.

Forasteira

Quando cheguei não vi o mais óbvio. Ou, pior, não quis ver. Chamavam-me forasteira e eu achei bonito – sem atentar ao certo as razões. Pensava num western e seus montes de feno ao vento nas ruas empoeiradas, uma dançarina com a cara (e o corpo e a voz) da Marilyn Monroe sentada sobre o piano do saloon entoando dores de um amor abandonado e à espera do seu happy end nos braços de um bonitão rústico. Forasteira eu sorria. A cidade tinha um quê de western, abandonada, velha, atrasada. Eu tinha tudo de forasteira: não era dali, dali não me sentia, me olhavam de alto a baixo, mantinham-me à distância, não gostavam da minha conversa nem do meu olhar. Novamente, preferi não ver. Eu não pertencia àquele lugar. Pertenceria a algum lugar? Instigava-me este ideal de pertencimento, um útero imperfeito onde, de olhos fechados, as pessoas sentiam-se no “seu lugar”. Existiria tal lugar, no meu caso? Forasteira eu me isolava. A vida ali em meio a cavalos amarrados nas portas dos comércios e mocinhas desocupadas a futricar nas janelas em nada me atraía. Era uma gente de mentalidade mesquinha. No meu rancho eu me retirava com meus livros e palavras. Nem de companhia eu precisava. Raras vezes me viam a circular de botinas grosseiras e pistola na cintura e aos poucos as ruas se esvaziavam. Não queriam conversa – eu nem os olhava. Via aquela gente presa às roupas e convenções dignas de outro século. Ah, o tempo ali não dera as caras! Enquanto ele escorria-me pelo corpo em dias de eterna chuva. Descobri, como se realmente não o soubesse, que naquela cidade os invernos eram longos por demais. E fazia frio até em novembro. Vivi dois invernos inteiros com o coração adormecido e as idéias a cogitarem me acordar daquele sonambulismo pérfido. Queriam-me, as idéias, longe dali a cultivar novos pomares, a plantar novas hortas. O coração ansiava que lhe deixassem quieto, fosse naquele rancho ou em qualquer outro. Sentada na varanda com os pés na amurada nos poucos dias ensolarados, eu ignorava-os todos. Revestia-me da couraça de forasteira, entre os meus e entre os olhares irrepreensíveis da cidade, e mantinha serena minha vida de solidão. Ouvia os cochichos, as perguntas, porém. Permitia-me ignorar todo o meu entorno. Ouvia, ao longe, a voz da cantante do saloon. Talvez ela também uma forasteira. Talvez ela angustiava-se que o seu bruto a levasse para longe dali, onde jamais bêbados fétidos reconheceriam o seu talento. Nem com meu talento eu me importava mais. Nem com o reconhecimento. Importava-me com a cama pronta à noite, o silêncio que me despertava os pensamentos, a ordem das coisas no vazio pelo qual eu – sem saber – havia optado. Não sabia se era passageiro, se forasteira seria, de novo, em algum outro recanto do mundo. Certo é que ali permaneceria. Forasteira eu segui. E em pouco tempo as cavalgadas pela aridez do deserto capturaram meu olhar para outros horizontes. Fui despertada pelo movimento sutil de uma árvore solitária na imensidão, por diligências que traziam notícias de longe. A roda gigante do mundo acordava-me. Talvez impelida pelos pesadelos que agora me acometiam no dia a dia que antes fora tão passadiço. Forasteira eu mirava novas emoções. Ainda que fossem as mesmas de outras vezes. Certo é que nem dois invernos me fizeram querer ficar ali, pertencer àquela terra que fora dos meus antepassados, onde eu deveria sentir-me ligada inefavelmente ao futuro. Aquelas caras que torciam-me o nariz eram apáticas e falsas. Ignoravam o doce lamento da moça do saloon. Forasteira eu sentia o calor na cama a impelir-me a sonhos inauditos. Fazia-me promessas. Ocultava meu desprezo por aquela gente que fingia aceitar-me forasteira nas minhas largas calças jeans e no meu colete puído. Eu sabia as artimanhas deles quando jogava despreocupada o velho chapéu sobre os olhos ao meio-dia de um sol de quebranto. Não arquitetei os próximos movimentos, foi meu erro. Forasteira ali e em qualquer lugar seria. Abandonei-me aos azares da vida, tal qual a cantora do saloon que envelhecia sob a maquiagem escorrida. Todos os dias passava perto da estrada que para outras paisagens, quem sabe um dia, me levaria. O cavalo inquietava-se sob a sela e eu lhe dizia um breve “hoje não” e quando o hoje seria? Acordava cada dia mais tarde, almejando que mais rápidos eles passariam, dormia, sem sonhos, na secura dos finais de madrugada ao ouvir os últimos acordes do piano do saloon ao longe – quando quase rouca e tão triste a voz da dançarina bailava meus desejos mais evidentes. Forasteira eu sorria. Tínhamos, eu e a Marilyn Monroe da cidadezinha pobre, colona e mesquinha, a mala sempre pronta atrás da porta do quarto.

Comício em alto mar

Tudo o que o mar traz. Como a gente, quando está num torvelinho de humor, reviramos a areia do fundo, deixamos a água turva, todos os destroços de outras enseadas e baías vêm parar na nossa praia favorita, na mais bonita, naquela onde amamos tomar os mais doces banhos. O mar, nesses dias, destrói o asfalto das praias mais atraentes, como aviso dos seus desgostos joga impensáveis toneladas de areia na nossa cara, no meio do nosso caminho. A água do mar faz o trajeto inverso, avança pelas ruas, entra em bueiros e sem chance volta a si mesma, numa revolta sem fundamento, sem maiores prejuízos a si mesma.

As correntes marinhas, mais fortes que nós, arrastam enormes galhos e troncos de árvores de outras margens de rios que também têm seus dias de raiva. Restos de embarcações, animais mortos, corpos de náufragos. Não há o que resista a elas, melhor sempre desejar nunca deparar-se com uma, é o que se diz. Somente as ilhas permanecem. As praias mudam suas linhas de areia, sua balneabilidade. As ruas cedem. As árvores têm suas raízes expostas. Os bancos à beira-mar por ele são engolidos. As ilhas não mudam nem se assustam. Elas resistem às mais bravas tempestades, às ventanias regozijam-se, não temem os picos de maré nem as fases da lua. Como a gente, quando sobrevivemos à vida.

O mar não parece importar-se com dias nublados. Nem com ficar menos bonito sem o sol a emoldurá-lo. Talvez só lá naquele ponto onde o mar e o céu se encontram – onde nunca estive – algo de mágico aconteça: tenham alguma discussão acalorada, uma intervenção filosófica. Diante de nós, eles não comunicam suas inquietações. Só o vento abandona-se a revolver a ambos. Encrespa um, limpa o outro. O vento, como se sabe, é um malcriado: levanta as nossas saias, leva a poeira para dentro das casas, despenteia-nos. O vento é como a gente de alma incerta, não gosta das coisas no lugar – por vezes ele fica quieto, na sua, mas logo não consegue se conter e sai revirando a vida da gente. Ninguém gosta do vento, correm fechar portas e janelas, já de cara feia a maldizê-lo.

E tem dias que eles todos se unem num amplo comício. Aguentarão firmes, as ilhas. É preciso estar precavido. Eu diria que é preciso ter sua ilha. Mas de nada adiantará se não souber reconhecer os sinais: o alinhamento dos astros, os horários das marés, os eventos climáticos extraordinários, a direção e intensidade dos ventos, o cheiro do mar a sentir-se ao longe. Sem percebê-los, não chegarás à ilha em tempo de salvar-se. E os danos, por certo que os sentirá. A tua ilha, porém, ficará vazia de ti, lamentando que não tenhas aprendido nada – como a gente que tanto apanha da vida e não sai do ringue antes do último assalto.

Dias depois, voltará a calmaria. As resoluções do encontro, porém, se manterão. Muitos correrão atrás dos prejuízos a limpar e enterrar destroços. Pouco tempo bastará, quem sabe até o final do mês, para que ninguém perceba que por ali passaram todos eles em rebuliço a mostrar que há, sempre, algo mais forte e poderoso que nós. Fingiremos que não ficamos ilhados em meio à água marrom jogada em ondas altas e repletas de mato e areia, galhos e pedras, sobre o asfalto que resistiu somente até dali sairmos com alguma apreensão – e um tanto de frio que nos alcançou pelas frestas. Às ilhas é imprescindível tê-las, mantê-las, cultivá-las, conquistá-las; e lembrar-se que elas são ilhas e não sairão a te buscar – tu é que precisas ir até elas.

Ame o poeta

Você pode amar um engenheiro. Há tantos, eu sei, servirão para arrumar o chuveiro (nada pior do que ser deixada na mão por um chuveiro), os Engenheiros Elétricos – uma amiga mesmo, casou com um, disse que era uma maravilha em casa. A média salarial dos engenheiros também é bem boa, segundo dizem – as amigas aí que gostam de sapatos caros e preferem ficar em casa a trabalhar. Nada contra sapatos, até tenho uns. Mas eles estragam, ficam fora de moda (que as mulheres gostam de andar na moda, eu sei).

Você pode amar médicos, dentistas. Bancários, quem sabe. Empresários. Trabalham bastante, vivem ocupados e cansados, talvez. Uma amiga, agora, ama um político. Um político, vejam vocês. Tenho amigas que só amam músicos. O cara não pode chegar perto de um violão que uma coisa acende dentro delas. Inexplicável. Gostam das noitadas, de música, das serenatas, quem sabe. Mas alguns desses músicos são advogados, concursados de repartição pública. Vejam vocês, há quem ame advogados! Ah, o amor…

Você pode amar até professores. Trabalham demais, recebem pouco, segundo dizem, vivem preparando aula e reclamando dos alunos sem educação. Uns loucos neuróticos e chatos, por vezes. Mas você pode amá-los. Você pode, inclusive, amar policiais e motoristas de ônibus. Tem quem gosta de viver aflita com a segurança dos seus amores. Eu já amei um vendedor de caldo de cana. Pelo caldo de cana grátis, certeza – e vocês viram que aumentou o preço do caldo de cana? Conheço quem ama cozinheiro – ou chef, né, agora todos são chefs – e já não poderia ser o meu caso, nem o de muitas de nós, pois engordar é sempre um problema.

Você pode amar o caixa do supermercado e nunca mais enfrentar filas. O marceneiro, que te fará a cozinha sob medida mais linda deste mundo. O enfermeiro, qualquer febre será rapidamente resolvida. O contador, já pensou? Amar um contador deve ser numericamente emocionante. Ou você pode amar um bibliotecário – será um amor em ordem alfabética, ou por assunto, ou por autor? O chaveiro, amá-lo há de ser uma salvação em momentos de muita angústia – ele abre portas, veja bem.

Eu, porém, diria para amar o poeta. O poeta arquiteta as palavras, mas o melhor poeta redesenha emoções. Ele não conversa contigo, ele te leva por longas caminhadas. Ele verá em você tudo o que foge aos olhos alheios. O poeta tem uma visão perspicaz do mundo a te surpreender todo instante. Os sapatos ficam velhos em pouco tempo, saem de moda, mas os versos são eternos – no papel, no coração e nas lembranças, mesmo que você não seja de decorar versos, como eu. O poeta dá sentido aos mais ínfimos detalhes da vida – e a vida, em si, só assim torna-se vida. Talvez o poeta não saiba arrumar o teu chuveiro – certeza que pode lavar a louça e recolher a roupa do varal – nem fazer a massagem que você precisa depois de um dia exaustivo, mas só ele pode te entregar as belezas e doçuras da vida na cadência do sussurro ao pé do ouvido. Ou por escrito, pra você guardar e ler a toda hora do dia seguinte. O poeta é o único que poderá te curar das doenças e tristezas da alma, creiam-me. Ame o poeta. Amá-lo é ver o mundo mais laranja no entardecer de uma quinta-feira de temporal no final de tarde, enquanto sonhas com a sexta-feira – porque hoje ainda não é sábado.

De geógrafos e poetas

Dizem que há um cálculo, ou mais de um, para saber os pontos mais inabitados do mundo. Lugares, assim, onde não há ninguém num raio de milhares de quilômetros, seja na água ou na terra. Anti-destinos, dizem. Férteis à imaginação do homem, ali criaríamos monstros marinhos, deuses, e deles fugiríamos porque, como se sabe, gostamos de praias lotadas nas férias e fotos cheias de gente não convidada. Imagine um lugar longe de absolutamente tudo, até de sinais de wi-fi. Longe de qualquer pedaço de terra. Sem sinal de sons artificiais.

Trabalho de geógrafos, pessoas admiráveis, encontrar o maior círculo possível nos oceanos dentro do qual não se encontre um único pedaço de terra, por exemplo. Solitários não são bem-vindos a estes espaços desterrados, pois sofreriam surtos de quem não suporta a própria companhia. Lá, meu bem, poderíamos ser ainda mais felizes, eu e você, e o silêncio do vácuo da humanidade. Dizem que o mais próximo pedaço de terra, ao redor deste círculo, são pequeninas ilhas desoladas – entediantes, diriam alguns. Despovoadas e imensamente belas na sua solidão marítima. Lá poderíamos, quem sabe, criar ovelhas. Aportaríamos nosso pequeno barco e, quem sabe, construiríamos uma casinha com o espaço exato: para nós dois.

Dizem que estas ilhas sequer aparecem nos mapas. Nem nos satélites. Não temos Destino, não teríamos endereço. Ou as cartas diriam: Naquela Ilha que ninguém sabe bem onde fica, que viram de passagem no outro século, e para onde ninguém mais voltou. Dizem que este círculo gigantesco e atraente é o pesadelo dos náufragos. Aos que por ali perderem seus barcos em tempestades ou delírios não terão muitas chances de encontrar terra firme onde aguardar um desejado salvamento. Pois náufragos desejam salvar-se. Sobreviverão aos dias boiando agarrados a um pedaço do despedaçado barco onde foram tão felizes? Há esperança, meu bem. Sempre há. Está na Bíblia. O náufrago em tal situação não terá uma à disposição para o consolo, mas os ensinamentos nós levamos na alma – eles nunca nos abandonam, bem sabes.

Ao que parece, neste rincão do mundo só há água. Água do mar. Nada mais nos une mais que ela, não é? A água do mar é a comunhão dos corpos e dos corações. Se dois se encontram, com ela se amam. Mas, dizem, os geógrafos, essas boas pessoas, encontram estes círculos inacessíveis em terra firme, também. A terra firme não tem toda essa graça dos oceanos, sabemos. Cada Continente, cada região, pode ter seu polo. Aqui mesmo no nosso país há um, distante mil quilômetros da capital federal. A terra nunca nos despovoa de nós mesmos, eis a falta do encanto. Na terra não podemos ser náufragos, seremos apenas perdidos – e qualquer cidade nos permite isto. Na terra não iremos com nosso barco, dispomos de nosso pés, quem sabe, nossa bicicleta ou um carro qualquer – aos de pouca imaginação. Talvez lá chegássemos a cavalo. Bem no centro deste círculo nos sentiríamos distante do mundo, das pessoas? Talvez. Porém, a natureza terrestre é avassaladora – nem os solitários se sentiriam tão sós. A terra, veja bem, não nos une como a água do mar, ela nos sustêm. Ela impacta nossos pés, nosso corpo, ela não nos envolve.

Os geógrafos, sempre tão simpáticos, têm esta paixão pelo mundo. Paixão que admiramos. Não dariam atenção especial aos oceanos e esqueceriam os continentes e ilhas, todos os retalhos de terra. Nós poetas, meu bem, temos predileções. Posso te ver em versos, podes me ter em prosa. E estes círculos desabitados e isolados do universo das ruas, barulhos e poluições são dos geógrafos – que o poeta é esse irresponsável que rouba corações e amores alheios. Os geógrafos, tão solícitos com o planeta, não ficam injuriados de dividir suas paixões conosco. Egoísta é o poeta de maus versos. Acredito, até, que os geógrafos encantam-se com os olhos que derretemos sobre as maravilhas que eles estudam. Os morros, os rios, os litorais, as florestas: temos musos semelhantes.

Dizem que para encontrar estes monumentos do espaço é preciso espírito aventureiro. Desde séculos passados, percorremos o mundo em busca dos limites do planeta. Nem há consenso, por vezes. Pois as medições são questionáveis, os procedimentos variam. Em certos pontos extremos, há gelo, meu bem. E só em certas épocas é possível medi-los sem camadas de duro e impenetrável gelo. Diria que é o melhor dos tempos. O calor – ou a falta do frio? geógrafos, me expliquem – derrete o gelo há tanto agarrado à terra tanto quanto aos mares. Como em certos corações, diriam os poetas. Certo é que todas essas descobertas são epopéias – mais uma semelhança com os poetas, diriam. Certo é que nem os satélites mais avançados elucidam todas as dúvidas e questões. Nem dos corações, matéria-prima dos poetas; nem dos mapeamentos, trabalho árduo dos geógrafos.

Blog no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: