Noite de Natal

Naquela noite de Natal não havia nenhum pacote de presente debaixo da árvore. A mesa grande decorada com uma toalha cheia de bonecos de neve e papais noéis não ostentava nenhum enorme peru. As caixas de som não entoavam os mais belos cânticos natalinos. Nem o pisca-pisca estava aceso. Era um Natal onde faltava paz. Faltava que as pessoas acreditassem no futuro. No próximo Natal, caso tudo continuasse igual, o passo seria nem ter árvore a ser enfeitada. Os corações mantinham os adornos, apenas. Corações adornados não preenchem espaços. Viam-se invejados, pelo lado de fora. Sorrisos não pendiam dos galhos da árvore decorada no meio da sala. Crianças não enlouqueciam o chão com seus novos brinquedos. Cachorros e gatos não detestavam suas roupinhas vermelhas inexplicavelmente cheias de pompons brancos.

Naquela noite de Natal o entorno da mesa farta era ruidoso. Diriam que todos ali se entendiam. O churrasco de sempre passava de mão em mão. As caixas de chocolate já abertas descansavam no balcão. As crianças disputavam a vez na bicicleta nova da prima mais afortunada, logo estariam agarrando-se pelos cabelos. Todos suavam e o ventilador não dava conta do ambiente abafado. Uns disputavam conquistas do ano, outros discutiam a agenda da casa compartilhada na praia. A maionese seria pouca, é fato. A tia nunca acertava a quantidade. Ou sempre apareciam os que ninguém esperava. A família, já grande, crescia tanto a cada ano! A árvore-de-natal de plástico não chamava atenção no canto escuro, perto da porta do banheiro. E um papai Noel vesgo tilintava seu sino até acabar a pilha, para ver se a neta recém-chegada pegava logo no sono.

Naquela noite de Natal eles nem sabiam ao certo que era… Natal. Os tubos de oxigênio, as macas, os sacos de soro silenciavam a noite feliz. Um laço vermelho na mesa da recepção queria lembrá-los – em vão. Os lençóis brancos e os horários cumpridos à risca não queriam emular a neve nem preocupavam-se com a ceia. Havia um silêncio descomunal pelos corredores que pareciam ainda mais escuros. Nem as almas perambulavam naquela noite. Um ou outro era visto num canto a bocejar e esfregar os olhos com a mão adormecida de dormir meio sem jeito na cadeira. Todos torciam para que, até o fim do plantão, a sirene da ambulância não tocasse tal qual o sino do papai Noel.

Naquela noite de Natal eu colocaria um vestido novo e sentaria no sofá à espera dos presentes, minguados, por certo, porque não havia sido uma boa menina. Olharia a dança das nuvens depois da tempestade pelos janelões da sala de visitas. Contaria as horas para ver o velho barrigudo e de barba branca (verdadeira) entrar pela porta da frente carregando um saco vermelho. Veria a sala encher-se de gente, sendo, como sempre a primeira a ali estar. Esperaria com ansiedade meu nome ser chamado – uma, duas, várias vezes. Colocaria um presente sobre o outro, empilhados num canto, com medo de que alguém confundisse com os seus ou que se perdessem no meio dos pacotes vazios. O sono chegaria e eu, satisfeita com todos os regalos, abraçada a eles com medo de que eles deixassem de ser meus, partiria para a cama.

Naquela noite de véspera de Natal o cansaço levou-me tarde para a cama. Os olhos demoravam mais em cada piscada. O ventilador tornava o quarto fechado atrativo. Eu esperava por você. Esperava ter mais esperanças e fé no futuro. As pernas doíam pelo andar desenfreado da correria das compras de Natal. Pensava na praia, em pular para o Ano Novo, em como era bom que Natal só havia um por ano. Quando seria mais difícil te esperar, você apareceu. No portão de casa, você reclamava pelo meu colo. Talvez o coração aos pulos ou eu nem sabia ao certo. O Natal agora fazia sentido. Eu te esperaria, sempre. Sem sono, sem cansaço. Para ver teu sorriso, enxugar tuas lágrimas, dar-te abraços. Em nenhum Natal, até hoje, eu havia recebido o que mais desejava. E, ali estava, tua presença. Ao voltar, pé ante pé para não esbarrar nem no papai Noel que dizem que sai da chaminé, desliguei as luzes do pinheirinho, tirei o vestido embebido no teu cheiro e adormeci a sorrir com o melhor presente da minha vida.

Anúncios

O alguém e a moça

 

Refreou as vontades, que era pessoa disso: de vontades. Mimada, diriam. Filhinha de papai (ah, se soubessem). Namoradeira, segundo as más-línguas. Dizem, porém, que mães sabem das coisas. E sabem mesmo. Pessoas de vontades, eu diria, são as melhores pessoas. Não deixam nada a dever, não arrumam escusas, não titubeiam (ou bem pouco e a gente nem percebe). Assustam, por certo, pois sorriem quando querem sorrir, desejam quando querem desejar, amam quando querem amar, desaparecem quando querem desaparecer. Mas, naquele dia, deixou as vontades quietinhas no balanço ao lado. Era amarelo, se não estou enganada. Pessoas detalhistas são assim.

Foi quando alguém entrou na sua vida. Esse alguém cedeu às suas provocações: não sabia que não se cai nas provocações das pessoas de vontades? Descaminhos irreversíveis, querido alguém. O alguém, porém, era desconfiado. Desconfiava da moça do caixa, coitada. Desconfiava, dizia, dos outros. Na verdade, a moça das vontades, também desconfiada – foi o primeiro ponto em comum; um tanto incomum, não? -, desconfiou que o alguém desconfiava era de si mesmo. Ufa, tanta desconfiança – e eles confiavam um no outro e nem sabiam.

O alguém, um improvável sedutor, seduziu a moça das vontades por longas caminhadas – que de bobo não tinha nada, mas era assim que por vezes ela lhe chamava. Caminharam por praias amadas, por paisagens de lindos morros em promessas de companhia e de passeios de trem. Ousaram caminhar por costões e foram seus primeiros gemidos – de dor. O alguém e a moça tinham passado: que se via no brilho opaco dos olhos e no tremor dos lábios no escuro. O passado, sempre digo, lá no seu lugar deve ficar. Mas quem sou eu para dar palpite, eu só observo. Não lembro bem como foi, o alguém se abria, a moça se distanciava – essa gente de vontades, quanto mais vontades têm, mais teme tê-las.

O improvável sedutor levou-a em busca de bancos simpáticos em praças vazias e em recantos de lagos inóspitos pela cidade. O alguém queria levá-la a lugares bonitos, a moça não tinha boas intenções. E perderam-se em carícias desconexas. A moça falava muito, que até vontade de falar lhe sobrava, o alguém só permitia que se falassem nos breves sinaleiros fechados. E encontraram-se em histórias distantes.

Tem dias que a moça só quer um abraço. Mas precisa de uma palavra que nem sabe, uma palavra de apoio, de incentivo. E só o alguém sabe dizer as palavras que ficariam sob o breu do espaço. As pessoas dirão que conhecem a moça, sabem da sua preferência por maçã, goiaba e melancia; mas só alguém saberá onde ela deseja estar agora. Tem aquelas pessoas que convivem com a moça, todo dia, o dia todo. Ou aquelas que puxam assunto diante do cesto de abobrinha da verdureira. Só o alguém manda mensagem dizendo que a quer mais do que a caldo de cana com pastel – caldo de cana com pastel, meus queridos, não é por qualquer um que se troca esta dupla. Podem até cozinhar milho para a moça, mas só alguém a leva para sobrevoar os domingos nas asas do querer sob morros nublados e rios alastrados.

E foi num sábado, promessa de banco da praça do mercado. A moça aguardava e feliz já estava quando o alguém de vez entrou na sua vida. Entre tremores e sorrisos – ela jamais esqueceria aquele sorriso – perderam-se em abraços. Tinham promessas a cumprir, poucas não são. E a moça quis retribuir, que ela ainda sufoca-se em vontades – mas insisto em dizer-lhe que as pessoas de vontades são as melhores, ela não me dá ouvidos, pois teimosa. Mares bravios os acompanharam, os dias se arrastaram, viam-se unidos em um estalo. E gostavam-se de viver em abraços. Eu que não sou chata de querer avisar nem nada, mas que eles não tinham volta, eu sabia.

Alguém é essa pessoa que te rouba as horas – amada em verso, prosa, fotografias e canção. A moça, bem, da moça só posso dizer que é pessoa de vontades. Dos encontros improváveis, na vida, temos os melhores convívios. Tudo o que vem pelo óbvio certo está que termine. O alguém é o teu convite irrecusável, a falta ao longo dos dias intermináveis. Mães querem a melhor das moças para os seus filhos, mães sabem quando há um alguém na vida das suas filhas. O alguém e a Moça se espantam que de tanto conversarem ainda há muito a se falar – sempre. E são, um para o outro, a primeira pessoa que eles tanto esperaram.

Agora ela só quer refrear o tempo quando estão juntos. E nem é a única culpada, porque o alguém a observava com seus olhos perspicazes enquanto ela sentia um coçar de leve atrás da orelha. Nenhum dos dois se arrisca nos cálculos, e eu digo que o fazem muito bem. Mas subtraem dias, somam meses, guardam semanas. Se lhes vissem, ficariam admirados: e não brigam? Pois não. Eles fazem do jeito deles. Quando embarcaram na estação, optaram por deixar as bagagens, tirar os anéis, as carteiras, os objetos de valor, e até os calçados. Por pouco que nem seguiriam com a roupa do corpo. Mas avisei que parariam atrás das grades e não no paraíso.

Fizeram planos noite passada – ouvi de longe e sorri satisfeita. Riscam calendários e entrelaçam-se em convites para aniversários, casamentos e datas festivas. Nem sabem se atravessarão o próximo fim de semana, mas quem seria eu a toldar-lhes a visão com a prudência? A moça empenha-se em surpresas, o alguém provoca-a com mistérios. Parece-me que, dentre o risco das promessas, só terão a cumprir algo em torno de mil beijos. Achei por bem não comentar que foram sábios, ao menos nisso. O alguém pediu-lhe livros emprestados, a moça cobiça a praia perto de onde ele mora. Não se enganem, os corações andam juntos nas letras e nos mares…

Estimo-os muito, não custa dizer. Fizeram-me acreditar que até os solitários têm chances nesta vida. Ou que as curvas da vida podem se encontrar muitas vezes, nas quais o alguém e a moça estiveram tão perto e mal entreolharam-se, e só Deus sabe porque e quando desaguarão de vez no mesmo leito cansado de um rio caloroso. São coisas de Deus, quem sou eu para me meter.

Forasteira

Quando cheguei não vi o mais óbvio. Ou, pior, não quis ver. Chamavam-me forasteira e eu achei bonito – sem atentar ao certo as razões. Pensava num western e seus montes de feno ao vento nas ruas empoeiradas, uma dançarina com a cara (e o corpo e a voz) da Marilyn Monroe sentada sobre o piano do saloon entoando dores de um amor abandonado e à espera do seu happy end nos braços de um bonitão rústico. Forasteira eu sorria. A cidade tinha um quê de western, abandonada, velha, atrasada. Eu tinha tudo de forasteira: não era dali, dali não me sentia, me olhavam de alto a baixo, mantinham-me à distância, não gostavam da minha conversa nem do meu olhar. Novamente, preferi não ver. Eu não pertencia àquele lugar. Pertenceria a algum lugar? Instigava-me este ideal de pertencimento, um útero imperfeito onde, de olhos fechados, as pessoas sentiam-se no “seu lugar”. Existiria tal lugar, no meu caso? Forasteira eu me isolava. A vida ali em meio a cavalos amarrados nas portas dos comércios e mocinhas desocupadas a futricar nas janelas em nada me atraía. Era uma gente de mentalidade mesquinha. No meu rancho eu me retirava com meus livros e palavras. Nem de companhia eu precisava. Raras vezes me viam a circular de botinas grosseiras e pistola na cintura e aos poucos as ruas se esvaziavam. Não queriam conversa – eu nem os olhava. Via aquela gente presa às roupas e convenções dignas de outro século. Ah, o tempo ali não dera as caras! Enquanto ele escorria-me pelo corpo em dias de eterna chuva. Descobri, como se realmente não o soubesse, que naquela cidade os invernos eram longos por demais. E fazia frio até em novembro. Vivi dois invernos inteiros com o coração adormecido e as idéias a cogitarem me acordar daquele sonambulismo pérfido. Queriam-me, as idéias, longe dali a cultivar novos pomares, a plantar novas hortas. O coração ansiava que lhe deixassem quieto, fosse naquele rancho ou em qualquer outro. Sentada na varanda com os pés na amurada nos poucos dias ensolarados, eu ignorava-os todos. Revestia-me da couraça de forasteira, entre os meus e entre os olhares irrepreensíveis da cidade, e mantinha serena minha vida de solidão. Ouvia os cochichos, as perguntas, porém. Permitia-me ignorar todo o meu entorno. Ouvia, ao longe, a voz da cantante do saloon. Talvez ela também uma forasteira. Talvez ela angustiava-se que o seu bruto a levasse para longe dali, onde jamais bêbados fétidos reconheceriam o seu talento. Nem com meu talento eu me importava mais. Nem com o reconhecimento. Importava-me com a cama pronta à noite, o silêncio que me despertava os pensamentos, a ordem das coisas no vazio pelo qual eu – sem saber – havia optado. Não sabia se era passageiro, se forasteira seria, de novo, em algum outro recanto do mundo. Certo é que ali permaneceria. Forasteira eu segui. E em pouco tempo as cavalgadas pela aridez do deserto capturaram meu olhar para outros horizontes. Fui despertada pelo movimento sutil de uma árvore solitária na imensidão, por diligências que traziam notícias de longe. A roda gigante do mundo acordava-me. Talvez impelida pelos pesadelos que agora me acometiam no dia a dia que antes fora tão passadiço. Forasteira eu mirava novas emoções. Ainda que fossem as mesmas de outras vezes. Certo é que nem dois invernos me fizeram querer ficar ali, pertencer àquela terra que fora dos meus antepassados, onde eu deveria sentir-me ligada inefavelmente ao futuro. Aquelas caras que torciam-me o nariz eram apáticas e falsas. Ignoravam o doce lamento da moça do saloon. Forasteira eu sentia o calor na cama a impelir-me a sonhos inauditos. Fazia-me promessas. Ocultava meu desprezo por aquela gente que fingia aceitar-me forasteira nas minhas largas calças jeans e no meu colete puído. Eu sabia as artimanhas deles quando jogava despreocupada o velho chapéu sobre os olhos ao meio-dia de um sol de quebranto. Não arquitetei os próximos movimentos, foi meu erro. Forasteira ali e em qualquer lugar seria. Abandonei-me aos azares da vida, tal qual a cantora do saloon que envelhecia sob a maquiagem escorrida. Todos os dias passava perto da estrada que para outras paisagens, quem sabe um dia, me levaria. O cavalo inquietava-se sob a sela e eu lhe dizia um breve “hoje não” e quando o hoje seria? Acordava cada dia mais tarde, almejando que mais rápidos eles passariam, dormia, sem sonhos, na secura dos finais de madrugada ao ouvir os últimos acordes do piano do saloon ao longe – quando quase rouca e tão triste a voz da dançarina bailava meus desejos mais evidentes. Forasteira eu sorria. Tínhamos, eu e a Marilyn Monroe da cidadezinha pobre, colona e mesquinha, a mala sempre pronta atrás da porta do quarto.

Comício em alto mar

Tudo o que o mar traz. Como a gente, quando está num torvelinho de humor, reviramos a areia do fundo, deixamos a água turva, todos os destroços de outras enseadas e baías vêm parar na nossa praia favorita, na mais bonita, naquela onde amamos tomar os mais doces banhos. O mar, nesses dias, destrói o asfalto das praias mais atraentes, como aviso dos seus desgostos joga impensáveis toneladas de areia na nossa cara, no meio do nosso caminho. A água do mar faz o trajeto inverso, avança pelas ruas, entra em bueiros e sem chance volta a si mesma, numa revolta sem fundamento, sem maiores prejuízos a si mesma.

As correntes marinhas, mais fortes que nós, arrastam enormes galhos e troncos de árvores de outras margens de rios que também têm seus dias de raiva. Restos de embarcações, animais mortos, corpos de náufragos. Não há o que resista a elas, melhor sempre desejar nunca deparar-se com uma, é o que se diz. Somente as ilhas permanecem. As praias mudam suas linhas de areia, sua balneabilidade. As ruas cedem. As árvores têm suas raízes expostas. Os bancos à beira-mar por ele são engolidos. As ilhas não mudam nem se assustam. Elas resistem às mais bravas tempestades, às ventanias regozijam-se, não temem os picos de maré nem as fases da lua. Como a gente, quando sobrevivemos à vida.

O mar não parece importar-se com dias nublados. Nem com ficar menos bonito sem o sol a emoldurá-lo. Talvez só lá naquele ponto onde o mar e o céu se encontram – onde nunca estive – algo de mágico aconteça: tenham alguma discussão acalorada, uma intervenção filosófica. Diante de nós, eles não comunicam suas inquietações. Só o vento abandona-se a revolver a ambos. Encrespa um, limpa o outro. O vento, como se sabe, é um malcriado: levanta as nossas saias, leva a poeira para dentro das casas, despenteia-nos. O vento é como a gente de alma incerta, não gosta das coisas no lugar – por vezes ele fica quieto, na sua, mas logo não consegue se conter e sai revirando a vida da gente. Ninguém gosta do vento, correm fechar portas e janelas, já de cara feia a maldizê-lo.

E tem dias que eles todos se unem num amplo comício. Aguentarão firmes, as ilhas. É preciso estar precavido. Eu diria que é preciso ter sua ilha. Mas de nada adiantará se não souber reconhecer os sinais: o alinhamento dos astros, os horários das marés, os eventos climáticos extraordinários, a direção e intensidade dos ventos, o cheiro do mar a sentir-se ao longe. Sem percebê-los, não chegarás à ilha em tempo de salvar-se. E os danos, por certo que os sentirá. A tua ilha, porém, ficará vazia de ti, lamentando que não tenhas aprendido nada – como a gente que tanto apanha da vida e não sai do ringue antes do último assalto.

Dias depois, voltará a calmaria. As resoluções do encontro, porém, se manterão. Muitos correrão atrás dos prejuízos a limpar e enterrar destroços. Pouco tempo bastará, quem sabe até o final do mês, para que ninguém perceba que por ali passaram todos eles em rebuliço a mostrar que há, sempre, algo mais forte e poderoso que nós. Fingiremos que não ficamos ilhados em meio à água marrom jogada em ondas altas e repletas de mato e areia, galhos e pedras, sobre o asfalto que resistiu somente até dali sairmos com alguma apreensão – e um tanto de frio que nos alcançou pelas frestas. Às ilhas é imprescindível tê-las, mantê-las, cultivá-las, conquistá-las; e lembrar-se que elas são ilhas e não sairão a te buscar – tu é que precisas ir até elas.

Ame o poeta

Você pode amar um engenheiro. Há tantos, eu sei, servirão para arrumar o chuveiro (nada pior do que ser deixada na mão por um chuveiro), os Engenheiros Elétricos – uma amiga mesmo, casou com um, disse que era uma maravilha em casa. A média salarial dos engenheiros também é bem boa, segundo dizem – as amigas aí que gostam de sapatos caros e preferem ficar em casa a trabalhar. Nada contra sapatos, até tenho uns. Mas eles estragam, ficam fora de moda (que as mulheres gostam de andar na moda, eu sei).

Você pode amar médicos, dentistas. Bancários, quem sabe. Empresários. Trabalham bastante, vivem ocupados e cansados, talvez. Uma amiga, agora, ama um político. Um político, vejam vocês. Tenho amigas que só amam músicos. O cara não pode chegar perto de um violão que uma coisa acende dentro delas. Inexplicável. Gostam das noitadas, de música, das serenatas, quem sabe. Mas alguns desses músicos são advogados, concursados de repartição pública. Vejam vocês, há quem ame advogados! Ah, o amor…

Você pode amar até professores. Trabalham demais, recebem pouco, segundo dizem, vivem preparando aula e reclamando dos alunos sem educação. Uns loucos neuróticos e chatos, por vezes. Mas você pode amá-los. Você pode, inclusive, amar policiais e motoristas de ônibus. Tem quem gosta de viver aflita com a segurança dos seus amores. Eu já amei um vendedor de caldo de cana. Pelo caldo de cana grátis, certeza – e vocês viram que aumentou o preço do caldo de cana? Conheço quem ama cozinheiro – ou chef, né, agora todos são chefs – e já não poderia ser o meu caso, nem o de muitas de nós, pois engordar é sempre um problema.

Você pode amar o caixa do supermercado e nunca mais enfrentar filas. O marceneiro, que te fará a cozinha sob medida mais linda deste mundo. O enfermeiro, qualquer febre será rapidamente resolvida. O contador, já pensou? Amar um contador deve ser numericamente emocionante. Ou você pode amar um bibliotecário – será um amor em ordem alfabética, ou por assunto, ou por autor? O chaveiro, amá-lo há de ser uma salvação em momentos de muita angústia – ele abre portas, veja bem.

Eu, porém, diria para amar o poeta. O poeta arquiteta as palavras, mas o melhor poeta redesenha emoções. Ele não conversa contigo, ele te leva por longas caminhadas. Ele verá em você tudo o que foge aos olhos alheios. O poeta tem uma visão perspicaz do mundo a te surpreender todo instante. Os sapatos ficam velhos em pouco tempo, saem de moda, mas os versos são eternos – no papel, no coração e nas lembranças, mesmo que você não seja de decorar versos, como eu. O poeta dá sentido aos mais ínfimos detalhes da vida – e a vida, em si, só assim torna-se vida. Talvez o poeta não saiba arrumar o teu chuveiro – certeza que pode lavar a louça e recolher a roupa do varal – nem fazer a massagem que você precisa depois de um dia exaustivo, mas só ele pode te entregar as belezas e doçuras da vida na cadência do sussurro ao pé do ouvido. Ou por escrito, pra você guardar e ler a toda hora do dia seguinte. O poeta é o único que poderá te curar das doenças e tristezas da alma, creiam-me. Ame o poeta. Amá-lo é ver o mundo mais laranja no entardecer de uma quinta-feira de temporal no final de tarde, enquanto sonhas com a sexta-feira – porque hoje ainda não é sábado.

De geógrafos e poetas

Dizem que há um cálculo, ou mais de um, para saber os pontos mais inabitados do mundo. Lugares, assim, onde não há ninguém num raio de milhares de quilômetros, seja na água ou na terra. Anti-destinos, dizem. Férteis à imaginação do homem, ali criaríamos monstros marinhos, deuses, e deles fugiríamos porque, como se sabe, gostamos de praias lotadas nas férias e fotos cheias de gente não convidada. Imagine um lugar longe de absolutamente tudo, até de sinais de wi-fi. Longe de qualquer pedaço de terra. Sem sinal de sons artificiais.

Trabalho de geógrafos, pessoas admiráveis, encontrar o maior círculo possível nos oceanos dentro do qual não se encontre um único pedaço de terra, por exemplo. Solitários não são bem-vindos a estes espaços desterrados, pois sofreriam surtos de quem não suporta a própria companhia. Lá, meu bem, poderíamos ser ainda mais felizes, eu e você, e o silêncio do vácuo da humanidade. Dizem que o mais próximo pedaço de terra, ao redor deste círculo, são pequeninas ilhas desoladas – entediantes, diriam alguns. Despovoadas e imensamente belas na sua solidão marítima. Lá poderíamos, quem sabe, criar ovelhas. Aportaríamos nosso pequeno barco e, quem sabe, construiríamos uma casinha com o espaço exato: para nós dois.

Dizem que estas ilhas sequer aparecem nos mapas. Nem nos satélites. Não temos Destino, não teríamos endereço. Ou as cartas diriam: Naquela Ilha que ninguém sabe bem onde fica, que viram de passagem no outro século, e para onde ninguém mais voltou. Dizem que este círculo gigantesco e atraente é o pesadelo dos náufragos. Aos que por ali perderem seus barcos em tempestades ou delírios não terão muitas chances de encontrar terra firme onde aguardar um desejado salvamento. Pois náufragos desejam salvar-se. Sobreviverão aos dias boiando agarrados a um pedaço do despedaçado barco onde foram tão felizes? Há esperança, meu bem. Sempre há. Está na Bíblia. O náufrago em tal situação não terá uma à disposição para o consolo, mas os ensinamentos nós levamos na alma – eles nunca nos abandonam, bem sabes.

Ao que parece, neste rincão do mundo só há água. Água do mar. Nada mais nos une mais que ela, não é? A água do mar é a comunhão dos corpos e dos corações. Se dois se encontram, com ela se amam. Mas, dizem, os geógrafos, essas boas pessoas, encontram estes círculos inacessíveis em terra firme, também. A terra firme não tem toda essa graça dos oceanos, sabemos. Cada Continente, cada região, pode ter seu polo. Aqui mesmo no nosso país há um, distante mil quilômetros da capital federal. A terra nunca nos despovoa de nós mesmos, eis a falta do encanto. Na terra não podemos ser náufragos, seremos apenas perdidos – e qualquer cidade nos permite isto. Na terra não iremos com nosso barco, dispomos de nosso pés, quem sabe, nossa bicicleta ou um carro qualquer – aos de pouca imaginação. Talvez lá chegássemos a cavalo. Bem no centro deste círculo nos sentiríamos distante do mundo, das pessoas? Talvez. Porém, a natureza terrestre é avassaladora – nem os solitários se sentiriam tão sós. A terra, veja bem, não nos une como a água do mar, ela nos sustêm. Ela impacta nossos pés, nosso corpo, ela não nos envolve.

Os geógrafos, sempre tão simpáticos, têm esta paixão pelo mundo. Paixão que admiramos. Não dariam atenção especial aos oceanos e esqueceriam os continentes e ilhas, todos os retalhos de terra. Nós poetas, meu bem, temos predileções. Posso te ver em versos, podes me ter em prosa. E estes círculos desabitados e isolados do universo das ruas, barulhos e poluições são dos geógrafos – que o poeta é esse irresponsável que rouba corações e amores alheios. Os geógrafos, tão solícitos com o planeta, não ficam injuriados de dividir suas paixões conosco. Egoísta é o poeta de maus versos. Acredito, até, que os geógrafos encantam-se com os olhos que derretemos sobre as maravilhas que eles estudam. Os morros, os rios, os litorais, as florestas: temos musos semelhantes.

Dizem que para encontrar estes monumentos do espaço é preciso espírito aventureiro. Desde séculos passados, percorremos o mundo em busca dos limites do planeta. Nem há consenso, por vezes. Pois as medições são questionáveis, os procedimentos variam. Em certos pontos extremos, há gelo, meu bem. E só em certas épocas é possível medi-los sem camadas de duro e impenetrável gelo. Diria que é o melhor dos tempos. O calor – ou a falta do frio? geógrafos, me expliquem – derrete o gelo há tanto agarrado à terra tanto quanto aos mares. Como em certos corações, diriam os poetas. Certo é que todas essas descobertas são epopéias – mais uma semelhança com os poetas, diriam. Certo é que nem os satélites mais avançados elucidam todas as dúvidas e questões. Nem dos corações, matéria-prima dos poetas; nem dos mapeamentos, trabalho árduo dos geógrafos.

Fim de feriado

Quase cinco, saiu mais cedo do escritório na ânsia de aproveitar cada segundo do feriado no meio da semana. E as filas já na garagem da firma. No primeiro sinaleiro, quinze minutos parado. E atravessou a cidade no triplo do tempo de um dia normal. Todo mundo quis sair mais cedo. Quase chegando em casa a esposa liga pegou a mãe na rodoviária?, um palavrão e não, não tinha lembrado da sogra. Por que ela veio agora, num feriado, a velha não faz nada, está aposentada! Pra ficar mais tempo com as crianças, amor, não fala assim dela e lá foi ele, filas e filas até trazer a sogra reclamando que ficou esperando na rodoviária. Por que ela sempre viajava com um travesseiro e uma coberta, até no calor, até numa viagem de meia hora? Eram as dores, meu filho, quando chegar na minha idade! A velha era profética, ainda. Duas horas depois do horário normal de chegar em casa, a pirralhada toda feliz pelo sofá esperando a avó. A esposa cansada da faxina, imagina a mãe ver a minha casa suja! E ele deu a vez às duas no banheiro. E caiu na cama tarde e correu a mão debaixo do lençol pela perna da esposa e foi subindo e nada. Nem ele nem ela. Dormiram. Merda! Seis da manhã, despertador, que merda, esqueci de desligar! A esposa acordada, opa, volta a mão da noite anterior, rápida na bunda, vem cá! Tá louco?! A mãe está aqui do lado, imagina se eu vou fazer isso com ela aqui, deve estar acordada, sempre acordou cedo! O convincente, Amor, quando namorávamos fizemos coisa muito pior debaixo do nariz dos teus pais… A mão leva um tapa, ela pula da cama, E tu acha que eu sou o que hoje? Pronto, um bom começo. No café a algazarra, mesa cheia e ele esperou pra ser o último. Quem sabe passear? A mãe está cansada. Um filme? As crianças querem assistir TV. Almoçar fora? Não, quero fazer o prato favorito da mamãe. Ele lembrou com asco que o prato favorito da velha era língua com ervilhas. Odiava língua. Odiava, ainda mais, ervilhas. E o barulho insano que aquelas crianças produziam em grupo. Mofou no sofazinho do quarto. Depois do almoço, quem sabe, teria paz. Amor, vamos no supermercado? Ué, tua mãe não está cansada? As crianças querem que ela faça os bolinhos, precisamos dos ingredientes. O supermercado, num feriado, no meio da semana, mais lotado que as ruas da véspera. Voltaram às seis e meia, ele louco pra tomar uma cerveja e ver TV. Era a hora sagrada da novela delas. Desistiu. Sentou. A velha fez o tal bolinho, jantaram, e a esposa olhou pra ele A louça é tua, quem não cozinha, lava! Toda felizinha. Como pode alguém sujar tanta louça pra fazer um maldito bolinho sem gosto?! Quando terminou, todos haviam tomado banho, as crianças na cama, a velha deu seu boa noite. A esposa fresquinha Tô cansada, apaga tudo quando for deitar. Mais de onze da noite, tomou um banho, abriu a cerveja, sentou no sofá. A TV a cabo sem sinal. Meia hora e nada. Desistiu. Levantou. Deitou e ouviu o suspiro leve da esposa. O corpo fresquinho. A mão direto no peito, Pára, amor, que saco. Virou, verificou se o despertador estava ligado. Pensou no dia seguinte: sair de casa antes das crianças acordarem, ficar a manhã toda vendo vídeo no youtube escondido do chefe, esperar pela hora de ir ao refeitório da firma, almoçar bastante ouvindo e contando piadas com os colegas, descansar meia hora no banco do carro. Trabalhar um pouco à tarde, pra não deixar atrasar o serviço, terminar às cinco pra sair às seis em ponto. Chegar e as crianças de banho tomado cansadas demais do judô inglês ballet natação irem direto pra cama. Assistir sossegado ao jornal da TV esparramado no sofá. Desligar tudo, tomar banho e ir deitar. A mão correr pela espinha da esposa e torcer para que o cansaço e o sono dela sejam tão grandes que não consiga negar e impedir as vontades dele. Sonhou com o amanhã.

Quem me dera ela fosse a medida de todas as coisas

Lânguida e arrasada na cadeira, braços caídos a encostar no chão, olhos fechados do rosto jogado para trás a banhar-se no sol do inverno daquela manhã. O grande cão cinzento ao lado, sonolento e atento aos passinhos do sabiá que revira a terra nova. Ela repara no vermelho diante dos seus olhos fechados, vira o rosto para a sombra, dizem que é o sangue que colore o escuro. Sente o vento inquieto bailando sobre a pele quente das mangas arregaçadas do moletom. Sussurros de prazer lhe dão o gozo do frio sobre o quente… e ela destina-se a não sair mais nunca dali. O sol das onze lhe dá o torpor de todos os prazeres do mundo. Ela é a medida de todas as coisas. A vida, assim, é bela. As coisas cheiram a jasmim do imperador. O som dos carros e vozes é o piar dos bicos-de-lacre sobre o mato. As intenções das pessoas são o afagar do focinho do cão no seu calcanhar. Ela vê o mundo através dos olhos fechados na penumbra avermelhada. É uma brincadeira de sol e sombra. As folhas caem da cerejeira como os dons são bem usados por todos. Ela é a medida de todas as coisas, assim, todos creem em Deus. Todos gozam os prazeres da carne como ela antecipa o chá quente que a espera dentro de casa. Ela abre os olhos a piscar-se intensamente buscando os galhos do hibisco sem flores. O livro desfolhado no colo demora-se a ficar nítido. Talvez ali tenha algo importante a ser lido. Talvez as pessoas preocupem-se com o que é sério a ser dito. Ela joga novamente a cabeça para trás até cair do encosto da cadeira. Fecha os olhos. O sol lhe queima a ponta do nariz arredondado. Um esboço de sorriso se achega quando ela ouve o cão sair correndo atrás do sabiá desprevenido que cutucava o canteiro das roseiras. Ela é a medida de todas as coisas, assim, cães têm asas. Homens têm dois corações, crianças não sentem dores. Ela pensa no horário, pensa nas páginas a serem lidas, nas árvores que precisam ser plantadas, e abandona-se igual ao sol e ao prazer. Ouve miados vindos da janela. Ouve os zunidos da rua. Ouve o eco do seu coração. E ouve o zumbido do ouvido. Ela é a medida de todas as coisas. As más-línguas, assim, são contorcidas em nós de silêncio. E os dias viram noites somente em estripulias debaixo dos lençóis – e cobertores, quando inverno. Os olhares acariciam em pré-abraços. As distâncias são vencidas com beijos levados pela brisa. E o sol se põe quatro vezes por dia. Porque ela é a medida de todas as coisas. Ela sente o mundo na medida do prazer daquele corpo estirado ao sol. E o mundo é do tamanho daquele jardim. Da altura da ameixeira. E precisa tanto dela como ela dele. O cachorro lambe seu braço e exige carinhos e atenções. Ela ergue a cabeça e sorri e manda-lhe beijo. Deixa a mão perdida sobre a cabeça do bichano. Talvez lhe dê uma insolação. Talvez lhe atrase o dia. Talvez lhe doa as costas. Talvez lhe chamem. Joga a cabeça para trás e não fecha os olhos. Distrai-se com o limite do céu. Ela é a medida de todas as coisas. E, a começar, não existem limites. Assim, nada traduz-se em palavras ou idéias: tudo é emoção. Emocionam-se perdidamente todos os seres sobre a Terra, diariamente, pelos amores e paixões, pelo que e por quem quer que seja. Entregam-se a desejos sempre, todos os viventes. Porque ela é a medida de todas as coisas. Fecha os olhos. O livro cai do colo e espatifa suas folhas na calçada. Ela estica as pernas. Ficará ali. Se não para sempre, ao menos até que, enfim, o mundo lhe caiba nas suas medidas.

Festa na igreja

Os dois se encontraram pela primeira vez na festa da igreja. Lugarzinho afastado, pobre, construção de madeira que o padre queria fazer de tijolo porque naqueles dias que ventavam demais a missa ficava era vazia, ninguém aguentava o ar gelado, nem sob os auspícios da palavra do Senhor. Não que as casas da vila também não fossem de madeira, não era isso. Mas as casas contavam com seus fogões a lenha. O padre perdera noites de sono matutando se seria muito desrespeito colocar um fogãozinho a lenha também ali em frente ao altar, Deus era testemunha que ele só queria que o frio não afastasse os fiéis. Mas nunca tivera coragem de propor tal idéia ao grupo de oração que ajudava na organização da igreja. E os dias e noites frias não davam trégua, Deus que o perdoasse, mas naquele frio até ele perdia a vontade de presidir a missa.

Eles chegaram no final da tarde de sábado. Ficaram perto um do outro, depois de olharem um pouco desconfiados para o movimento. O padre, depois de muito insistir e peregrinar pela cidade próxima, havia conseguido bons prêmios para o bingo daquela noite. Um fiel do grupo de oração conseguira até uma serralheira elétrica com o parente rico que tinha uma loja de material de construção e ferramentas na beira da estrada. Os planos da reconstrução da igreja tomavam corpo. Do próximo inverno não passaria. Depois de quatro meses de organização, hoje era o dia da festa. O padeiro da vila com duas senhoras doceiras fizeram os quitutes, os ingredientes haviam sido doados pelo dono do supermercado do bairro próximo. Ele nascera na vila e sempre ajudava a igreja. Todo o dinheiro arrecadado com as vendas das comidas seria dado para a construção do novo templo.

Eles nem sentiam o frio. Pareciam estudar um ao outro e sem perceber se aproximavam devagarzinho. Talvez fosse noite de lua cheia, mas a cerração não permitia vê-la. Nenhum dos dois era dali, ele morava numa fazenda no caminho para a cidade, ela viera de longe. Nada disso importava. Eles observavam o padre, descabelado, com a gola do jaquetão surrado levantada, andando desvairado para todo lado, pois nada podia sair errado naquela noite. Um grupo de jovens, não muito grande porque a juventude naquela miséria e desolação não vingava, percorrera todas as fazendas e cidades vizinhas divulgando a festa, vendendo as cartelas do bingo e as rifas. As vendas foram um sucesso! Ou seja, muita gente viria. O padre temia que não tivesse comida o suficiente pra tanta gente, afinal, naquele frio, só esquentando por dentro. Sabendo disso, o irmão do padre, que não era muito de religião nem de nada, veio especialmente para montar uma barraquinha de quentão – que era a sua especialidade. Não haveria frio que resistisse, ele afirmava.

Ele parecia um pouco cansado, lá pelo meio da festa. Ela encostou-se num canto. O bingo ia alto, as botas e casacos encheram cada metro daquela pobre vila – nunca ali viram tanta gente. E as pessoas sorriam, comiam, bebiam, se abraçavam. O padre saltitava entre as mesas, apertando a mão de todos e se derretendo em obrigados – se reparassem bem, veriam que ele até suava! Ele sabia que o dinheiro todo talvez só desse para o material, que o trabalho seria dobrado para ele e todos os fiéis que ergueriam aquela igreja com as próprias mãos. E a satisfação de ver toda aquela gente participando da festa lhe bastava. Ele falava baixinho com Deus enquanto caminhava de uma mesa a outra. Aqui e ali de vez em quando surgia o grito do felizardo vencedor. Os prêmios eram cobiçados, disputados acirradamente na bola do desempate.

A noite findava. A comida acabara. Ainda havia quentão, mas o irmão do padre, que sempre tivera um fraco por bebida estava contando causos das suas viagens pelo país, sentado num banco à porta da igreja. Uma mocinha exausta servia as últimas bebidas para esquentar a retirada dos convidados. Os poucos carros iam se enchendo de caronas e pegando a estrada. Uma caminhonete parou perto dos dois que dormiam aconchegados no amor que surge do nada. Um rapaz forte só de camisa de manga comprida desceu e abriu a cerca. Um senhor achegou-se e perguntou qual era o dele. Os dois levantaram as cabeças com rugas nas testas. Sentiram o frio no corpo quando foram separados um do outro. O padre passou ali, agradeceu aos dois homens, passou a mão na cabeça do casal e retirou-se. O rapaz disse que levaria o macho, apesar do sorteio do bingo não especificar. O senhor disse que então ficaria com a fêmea, porque ele já tinha outra porca em casa. Se o rapaz quisesse, poderia levar o seu lá qualquer dia desses para ver se davam filhotes. O rapaz agradeceu e explicou que amanhã mesmo ele iria pro abate. E assim se separaram. Para sempre.

Blog no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: