Na frente do posto da polícia militar

Uma cidade pacata, litorânea, janeiro. Sol, calor. Ela correu. Tentou alcançar a segurança. Ela viu os olhos dele e correu. Estava a alguns passos, uns dez ou menos, da entrada do posto da polícia militar. Não conseguiu. Não deu tempo. Não teve tempo de vida de dar menos de dez passos para salvar a própria vida. Ela só tinha a si mesma e a sua força para salvar a própria vida. Ninguém veio salvá-la. Ninguém nunca viria salvá-la. Ela levou um tiro e caiu a menos de dez passos do posto da polícia militar de Santa Catarina, em Piçarras. 

Ela morreu com um tiro. Ele era condenado, todo mundo conhece a história, medidas protetivas, prisão, denúncias, boletins de ocorrência, medo, tensão, desespero, prisão, liberdade para o criminoso. Não, não, nada de diabo ou possuído ou doente. Um homem. Somente um homem. Sempre um homem. Quase sempre um homem muito próximo, em quem ela confiou, em quem ela acreditou, com quem ela dividiu a vida e a intimidade. Um homem. Um homem, sim, como todos os outros.

Ela não foi a primeira, nem será a última. Ela não foi nem mesmo a primeira do novo ano – mal estamos na metade do primeiro mês do ano. 

Ela, o corpo sem vida, caído diante da porta do posto da polícia militar de Santa Catarina. Um tiro matou-a em segundos – nem chance de ser socorrida. Morta. A vida que já foi – profissional, ser humano, mulher, mãe, irmã, filha, tia – e a que nunca mais será ali no chão. Matá-la era o objetivo, finalizado isso, estava resolvido. Matá-la. 

Matar, estuprar, agredir, assediar, tirar vantagem econômica, violentar, impor força e medo, submeter à agressões psicológicas, humilhar, manter sob vigilância, controlar, vigiar, punir, se vingar… os objetivos dos homens, somente homens comuns normais, em relação às mulheres.

Você já viu, certeza. Você, se mulher, já foi vítima, certeza. Você, se homem, já praticou, certeza absoluta. Você nunca fez nada, se fez, foi pouco. Sempre fizemos pouco.

Novembro, feriadão na Ilha da Magia, solzão e vento delicioso. A Lagoa do Peri convidativa no meio do caminho. A água do mar chamando para umas braçadas. Nós, mulheres que amamos a água, tínhamos um destino certo naquela manhã. Na Lagoa do Peri, levo um susto, carros da polícia militar passam a toda velocidade em direção ao sul da Ilha – era meu destino naquele dia, mas, por obra do acaso a paz da Lagoa do Peri me chamou, ali no caminho. Eu e meus pensamentos: algo grave no sul, ainda bem que parei aqui.

Nem todas nós, mulheres que amamos a água, chegariam ao seu destino naquela manhã. Ela não chegou. Ela saiu de casa para fazer o caminho que sempre fazia para nadar no mar, na praia que não se vai de carro. Nós, mulheres que amamos a água, gostamos de ir à praia pelo caminho do costão, por caminhos que nos deixam mais próximas do mar. Ela não chegou até a praia.

O corpo sem vida, jogado, escondido no meio do mato. Aquele corpo não sentiu o mar naquela manhã, não sentiu-se feliz e vigoroso com as braçadas naquela manhã de vento sul que em nada atrapalhava o mar daquela praia protegida pelo morro.

Ao lado era a praia para onde eu ia, se tivesse seguido o planejado no desjejum daquele dia. Nem todas, todos os dias, chegam ao seu destino. Nós, mulheres, não somos donas do nosso destino – caso nosso destino cruze com um homem, somente um homem.

Basta um homem para acabar com as nossas vidas.

Horas depois eu vi a história dela que não chegou ao destino. Dias depois ela não me saía da cabeça. Horas depois eu saí sozinha à noite para me divertir. Eu ia para o carnaval fora de época e naquela noite um pedaço de mim não conseguiu ser feliz e se divertir. E não é assim todo dia para nós, mulheres? Sempre há um pedaço de nós que não consegue desligar, distrair, ser feliz, relaxar. Sempre há um peso: ser mulher. 

Basta um homem, somente um homem comum, para colocar nossas vidas em risco.

Na frente do posto da polícia militar ela estava morta. A cena não me sai da cabeça. Simboliza tanto tudo o que Santa Catarina significa na luta contra a violência e morte de mulheres. Santa Catarina mata mulheres e estamos morrendo em frente ao posto da polícia militar.

Numa reportagem sobre ações contra essa matança que tem acontecido no Brasil, o Distrito Federal mostrava uma sala onde eles mantém monitorados todas as medidas protetivas, com um GPS com a vítima e uma tornozeleira no agressor. Parece tão simples, não é? 

Na mesma reportagem elencavam dados de quando há mais “probabilidade” dos casos de agressões e mortes acontecerem: finais de semana, dias de festa/feriado, final do expediente. Ora, porque é quando o homem, somente um homem comum, tem seu tempo livre, de descanso, por vezes bebe. Também no final do ano surgiram alertas nas redes sociais sobre ser um período de aumento dos casos de agressão e mortes. Ora, porque o pai, o marido, um homem, somente um homem comum, está com mais tempo para a família, para a namorada, para aproveitar a vida. E matar, agredir, humilhar.

Ora, então eles só não fazem isso quando estão “ocupados”, digamos, trabalhando, por exemplo. Ou seja, os períodos de “maior probabilidade” de agressão e morte é sempre, para as mulheres. Sempre que os homens estiverem por perto.

O terror, até de campanhas que tentam ajudar, orientar, esclarecer. O terror: é fim de ano, fiquem atentas, eles agridem e matam mais nesse período. O terror: à noite, sábados e domingos, fiquem atentar, eles agridem e matam mais nesse período. Mas eles agridem e matam no nosso horário de trabalho. Mas eles agridem e matam numa terça-feira qualquer. Eles agridem e matam, fiquemos atentas – o tempo todo.

O boletim de ocorrência. A medida protetiva. Comunicar as pessoas ao redor. Receber ameaças. Ser desacreditada. Sentir vergonha. Lembrar cada detalhe, cada sinal. Reviver cenas e se justificar para si mesma. Andar com o papel da medida protetiva no bolso até quando vai só até a esquina comprar pão. O “botão do pânico” no aplicativo da polícia militar. Meses e meses, anos. Quando ele some, passa o prazo da medida protetiva, não dá motivo para renová-la. Mas, não duvide, ele não vai nos deixar em paz. Um homem, somente um homem comum. Nem pensem que após a denúncia, o processo, eles reconhecem, ficam com medo, de fato se afastam. Talvez seja até pior. Um homem, vocês sabem, não tem medo. Um homem ressentido no seu poder falho de macho e afrontado por uma mulher que expõe sua violência, seus erros e sua frustração como homem deve responder à altura. Eles foram educados pra isso, não? 

Eu denunciei uma única vez – tive motivos para denunciar outras quatro vezes, pelo menos. Vivi seis meses com medida protetiva. Em setembro de 2023 eu vivi esse pesadelo que havia começado meses antes. Fiz o boletim de ocorrência e a única atenção do Estado de Santa Catarina que eu recebi foi da Polícia Militar que foi até a minha casa, me instruiu, me mostrou como usar o botão do pânico e uma mulher policial militar me disse: não sinta vergonha, você não tem culpa. 

Em Joinville eu nunca recebi nenhum atendimento, no CRAS eu fui e me disseram que não tinham horário e profissionais, não davam conta da demanda. Era setembro de 2023. Em novembro de 2025 entraram em contato porque estavam vendo a agenda para ver se me atenderiam. Novembro de 2025. Não pensem você que ele, um homem, somente um homem comum, me deixou em paz nesse período. Nenhum atendimento à vítima de violência contra mulher foi prestado pelo município de Joinville. Nenhum. O único atendimento do Estado de Santa Catarina foi o da Polícia Militar e a medida protetiva da juíza.

A juíza, uma mulher. A policial militar, uma mulher. As vítimas, nós mulheres. 

Em Santa Catarina as nossas vidas não são uma questão de Estado.

Em Joinville as vidas das mulheres não importam.

As vítimas que se virem, que superem, que tentem se salvar. Nada.

Não adianta fazer campanha pra gastar dinheiro em panfleto, cartaz e propaganda na TV. Isso é só pra se auto-propagandear. A prefeitura pôs sua logo lá, tá tudo bem. A prefeitura de Joinville não faz nada pelas vítimas.

2020, pouco antes da pandemia. Bolsonaro eleito. Volta das aulas. Na sala do sétimo ano eu sofro um assédio que nunca imaginei na vida. Sétimo ano, estudantes de 12 ou 13 anos. Um aluno se masturba durante a aula, com os olhos fixos em mim. Eu tento contornar a situação e só consigo pensar em não deixar que nenhuma menina vejo aquela cena nojenta e revoltante. Eu tento contato com a coordenação do colégio particular, conservador, rigoroso, que persegue seus professores nas redes sociais e nos corredores. A coordenação já tinha ido embora. Ele vê que eu vi, ele continua. O rosto transfigurado. 

Um homem se masturbar é estupro. Qualquer mulher sabe disso, mas as leis são feitas por homens. Um homem, somente um homem de 12 ou 13 anos, comum. O mesmo que havia despertado comentários de desconforto de uma colega, em reuniões de professores. Um homem, desde cedo um homem.

A aula termina. Os alunos saem. Ele volta. Ele tenta me beijar. Eu recuo, eu me posiciono, me defendo. Saio da aula enojada, revoltada, estupefata. Ninguém na coordenação. Entro no carro em choque. Mal consigo contar para o meu namorado que, naquele dia, foi me buscar. Ele faz pouco caso. Ué, é a vida. Toca em frente. Chego em casa e mando um e-mail pra coordenação.
Dia seguinte, sou desacreditada, querem provas, confissão. Eu digo que não estou em condições de entrar em sala – o pânico me domina. Ora, deixe disso, pode entrar. Eu mesma já passei por isso, mas era em pré-vestibular. A coordenação, agora presente, diminui meu trauma. Eu digo que preciso avisar as colegas. Ora, não, não queremos te expor. A coordenação pensa no meu bem. Claro. 

Um homem sempre será protegido. Confrontam o aluno, ele nega. Chamam o professor de educação física, de homem pra homem ele confessa. Homens, claro. Todo homem sabe o que é precisar bater uma punheta quando vê uma mulher. Eles se entendem.

Vamos proteger o agressor. Deixar a vítima sem atendimento, sem apoio, sem nem tempo de processar o trauma. Vá trabalhar, entre em sala, trabalhe como se nada tivesse acontecido. Ele teve três dias para ficar em casa – jogando videogame e se masturbando.

Santa Catarina, Joinville, as instituições, a Justiça, muitas mulheres, mães, os homens (sempre eles, não é?) protegem os agressores. Sempre. 

As mulheres, gostem da água ou não, morrem. São estupradas, violentadas, humilhadas…

2025, ainda me recuperando de tantas violências. Vou a uma entrevista. O entrevistador me chama atenção. Conversamos online. Saímos. Ele é um abusador e agressor de mulheres e eu sou mais uma vítima. Eu demoro para entender. A situação toda ainda nebulosa na minha mente. Eu conto para algumas pessoas, sinto que preciso alertá-las sobre ele, sinto que é um pedido de ajuda – mais uma vez. Sim, um homem, somente um homem comum concursado da câmara municipal de Joinville e que atua como artista visual, até expõe em projetos financiados por editais públicos, um brother. Mais um homem agressor de mulheres. 

Comum, não? Chato até. Vira a página. Fala sobre outra coisa.

Sempre um pedaço de nós que não está em paz.

O posto da polícia militar. O corpo sem vida. Nossas vidas todas ali na poça de sangue.

Ninguém evitou, ninguém fez o que deveria ter sido feito.

Um homem. Somente um homem comum. Sempre um homem.

Esta noite tive um pesadelo. O pesadelo tem sido recorrente. É sempre com um namorado que eu tive aos 20 anos. O primeiro caso que eu deveria ter feito boletim de ocorrência pela perseguição, pelo assédio, pelo inferno que eu vivi – a Lei Maria da Penha nem existia. O pesadelo é que ele está próximo, ele quer voltar, ou nós voltamos, e eu estou sempre em desespero de fugir daquela situação. Para eu nunca mais esquecer. Porque um pedaço de nós nunca está em paz.

Os homens são homens desde muito antes da Lei Maria da Penha. Eles sempre nos mataram. É a verdade mais difícil de entrar nas estatísticas.

Banheiro da escola. Primeira série. Sete anos. Saí correndo da aula de educação física e entrei no banheiro. Eu fugia. Eu fugia de um menino. Gustavo com sobrenome alemão. Ele queria namorar comigo. Ele queria me obrigar a namorar com ele. Ora, ele comprou um anel com um coração pra me dar – eu tinha que aceitá-lo como namorado. Sete anos. Eu fiquei escondida no banheiro. A minha amiga conversou com ele na porta do banheiro. Ele foi embora, deixou o recado e o anel. Era pra eu namorar com ele – ele me perseguia em qualquer espaço fora da sala de aula, por isso eu corria pro banheiro, não saía da sala no intervalo (hábito que levei pro resto dos meus tempos de escola), saía correndo quando batia o sinal. 

Ela me perguntou o que fazia com o anel. Quer pra você? Fique. Eu nem olhei. Ele viu o anel no dedo dela. Ele fez da minha vida um inferno naquele ano. Agressões verbais, mexericos, indiretas. Um homem ressentido e rejeitado é um homem, somente um homem. 

Nas escolas, em casa, nas ruas, na frente do posto da polícia militar. 

Todos os dias, a qualquer hora. Sempre um homem. Somente um homem comum.

Há dias que nenhum pedaço de nós, mulheres, está em paz.

Despedida inevitável

Até quem sabe…

a despedida inevitável

e fazer versos com os pés na areia

e o corpo molhado de mar

Até quem sabe…

você morrer de saudade

os olhos pesados

as mãos solitárias

E a gaivota e o peixe

as ondas vêm e vão

o sol queima a pele

meu sorriso é o Verão

Até quem sabe…

você nunca esquecer de mim

e espalhar maldades

chorar teus erros

e eu nem lembrar teu nome

Até quem sabe…

a próxima lua cheia

um novo Verão

uma paixão indomável

Bálsamo

Uma dor no pescoço hoje me pegou de jeito, como fosse a lembrança de sonhos estranhos sobre criaturas não identificadas encontradas na mata em noite escura. Nem pesquisei o significado do sonho, desta vez, pois decidi que não queria saber. Sim, pra quem pensa demais, decidir não saber é um bálsamo.

Um bálsamo: como uma canção gostosa inesperadamente a qualquer momento do dia; como o sorriso a caminhar pelas ruas à lembrança de uma provocação indecente; como olhar perdido no horizonte do rio que deságua no mar; como as palavras que querem dizer ou talvez não digam; como o banho quente e o gole de cerveja gelada. Um bálsamo como mergulhar na água fria em dia quente, um dos meus preferidos. 

Readaptar o corpo e a cabeça para diminuir o ritmo, confiar mais em si mesma, dar aos céus o que não está mais ao seu alcance e respirar. Desacelerar, talvez. Dialogar com a cabeça que sempre pensa demais e se cobra mais ainda que nem tudo é tão importante assim.

A dor no pescoço virou motivo para um alongamento cheio de flerte e doçura. Perder a oportunidade por quê? Colocar pra tocar uma dúzia de sambas sensuais foi a solução para girar o pescoço e o corpo até que a dor fosse embora – se foi, nem lembro, porque os pensamentos entraram nos versos e viajaram até onde não deviam (mas queriam). 

Os problemas se acumulam em listas e mais listas e prazos apertadíssimos sobre a mesa. Decidi não me preocupar. Nada é mais importante do que a paz de quem fez sua sopa, cortou suas frutas, ficou de chamego com seu cachorro, caminhou pelas ruas fotografando flores e árvores em busca de identificá-las – sim, hoje isso era o mais importante. 

Prioridades: cozinhar ouvindo música; caminhar sem rumo ou destino; ouvir as conversas alheias em busca de ideias e histórias; suspirar em busca de inspiração; pensar em “como seria” se eu fosse uma pessoa diferente e sempre concluir que não é uma boa ideia; catar vírgulas e silêncios e espaços para criar teorias mirabolantes; escrever continuamente e se auto-elogiar; ler tudo aquilo que me puxe para a realidade dura, difícil e dolorida; jogar um jogo perigoso com a ilusão.

A cada braçada eu me sentia ainda mais disposta. Parar nunca foi uma opção. A decisão de saber menos e de me importar menos é o caminho mais acertado porque o peso de ser mulher, de ser artista, de viver daquilo que tanto amo que é criar, de criar o que incomoda quem prefere só reafirmar suas certezas, de ser livre, independente e feliz superou o que eu quero pra hoje. 

A cada braçada o bálsamo da água fria lavava meus sonhos e me fazia respirar intensamente minhas prioridades: pra hoje só tenho eu. Tanta confiança e garantia tiveram o respaldo do maiô novo, eu desconfio. O sol, o vento, o som dos pássaros e as risadas embalam a volta pra casa e penso que esse pescoço ficará feliz ao voltar para o travesseiro, alta madrugada, e escolher nosso mais novo sonho.

Isso é só um texto, a vida é muito pior

Demorei um pouco para me apaixonar por documentários, porque as referências que eu tinha quando criança eram do canal Discovery. Mas, quando tive os primeiros contatos transformou-se em um amor longo, duradouro, surpreendente, daquele de tirar os pés do chão – como todo amor deve ser. Sou adepta de pensar o documentário como o cinema mais eficiente diante da realidade, o cinema mais cinema (o filme documentário, não reportagens, “grandes reportagens” e coisas do gênero). O cinema ficcional é um grau a menos, apesar de ter possibilidades que nos toquem de diferentes formas. Enfim, longa, gostosa e necessária discussão. Porém, não para o momento.

Dentre os documentários, me descobri uma admiradora dos documentários sobre o mundo da música, seja sobre compositores e cantores, sobre álbuns e canções. Essa admiração veio com a prática de montar filmes, ao observar o quanto o ritmo é importante e como a trilha sonora do filme é essencial. Esse ano assisti a vários desses e recentemente me deparei com o Boas Novas, que esteve em alguns festivais. Cazuza foi a trilha musical da minha adolescência até o início da vida adulta. Quando terminei de assistir à Boas Novas, apareceu o Mamonas pra Sempre, banda da qual fui fã loucamente quando criança – eles morreram dois dias antes do meu aniversário e minha irmã (só podia ser ela) havia comprado o CD deles para me presentear. Coisas da vida.

Sobre Boas Novas, há detalhes da estrutura e das escolhas estéticas que me incomodaram – não acho que seja um documentário para ser assistido como filme. A Montagem me incomodou ao colocar em foco o Diretor em momentos que era mais importante, para a narrativa, as emoções do entrevistado ou mais imagens de arquivo. Na sinopse, inclusive, é afirmado que o diretor, produtor musical de Cazuza por um período, teria imagens pouco conhecidas e resolveu fazer o documentário. Contudo, senti falta de material mais robusto para afirmar isso.

Alguns entrevistados, como o fotógrafo, trouxeram falas um tanto preocupantes, sendo que a história toda quer reafirmar Cazuza como um guerreiro, como de fato foi, e não como um doente, um fraco, uma vítima. Em certos momentos, perdeu-se o tempo da emoção – o que eu considero fundamental para este tipo de documentário. Os entrevistados (e poderiam ter sido mais) tinham relações muito próximas com Cazuza, e disso teria que ter sido tirado proveito. Contudo, entendo que muitos deles já falaram dezenas de vezes sobre Cazuza e suas histórias. Eu mesma sei algumas de cor.

Para além do documentário, assisti como público, como quem foi atingida pela vida e pelo trabalho de Cazuza. Meu primeiro contato com ele foi com os versos “tua piscina tá cheia de ratos tuas idéias não correspondem aos fatos” que rodava numa propaganda da TV (eu não lembro do que era a propaganda). Eu era criança, lembro algo de terem comentado sobre a morte dele, mas não vi nada porque ele não frequentava os discos lá de casa e eu era inquieta demais para parar na frente da TV. Não havia ninguém da família que fosse fã de Cazuza – talvez as referências fossem pelas músicas que emplacaram nas novelas. Somente quando adolescente fui me atentar mais ao trabalho dele e, a partir de então, houve imediata identificação. 

Ao assistir ao documentário, percebi que o espírito de contestação, a revolta com a hipocrisia, os versos e declarações ácidos e críticos, a coragem e o desprezo pela covardia, como também, é claro, os amores inventados, fizeram, todos juntos, Fahya adolescente se encantar. Há algo dito algumas vezes no documentário sobre o Cazuza ser contra e combater a caretice. Eu havia lido a biografia escrita pela mãe, mais tantos outros materiais. A relação dele com a família, sua condição social, tudo fazia parte daquele show. Porém, no final da vida – sabendo que o final está ali, ao contrário de muitos de nós que não sabemos quando ela chegará – ele deixa um legado com Burguesia: eu sou burguês, mas eu sou artista.  A presença dele, apesar da sua origem, sexualidade, hábitos, enquanto artista que olha o mundo e faz sua poesia que não é correta, branca, suave, muito limpa, muito leve (perdão, mas não tinha como deixar de citar o compositor que tem sido a trilha da minha vida adulta) é o ponto central da existência. Todo amor que houver nessa vida, um hino para quem exercita diariamente a criação como vida, já abordava o ato de quem cria. Burguesia vai além. Não à toa, tenho dois versos dele tatuados (um justamente de Todo amor que houver nessa vida), e foi a segunda vez que me tatuei, já no auge da vida adulta.

Ser artista no nosso convívio, a Fahya adolescente já sabia o que queria ser quando crescesse. As canções contam histórias, minha vida sempre foi sobre ler, assistir, ouvir, viver e criar histórias. Esses dias comentava com uma colega sobre saber separar a vida e a obra de intelectuais e artistas. Confesso que hoje é impossível. Cazuza não só narrava amores exagerados, mas tinha um olhar feroz para o mundo, para o Brasil, para a sociedade. Numa cena, ele, interrogado (não é possível usar outro termo) por Marília Gabriela, afirma que a AIDS caiu como uma luva para a Direita e para a Igreja. E não é? Lembro até recentemente algum post na internet esculhambando Cazuza e sua obra porque ele representava valores que não eram “adequados” para a turma do Deus, pátria e família. Ainda bem, né?

Pensei várias vezes em como as relações políticas são intrínsecas à arte, algo sobre o que amo falar, e reparei em como o Diretor quis trazer o contexto da existência do Cazuza para os dias de hoje. Aquela geração viveu na Ditadura e viu a reabertura, eu sou da geração que vem depois, que nasceu no fim de Ditadura. Eu sou da geração dos filhos e filhas de Democracia. Por um tempo, vivemos enganados como se não tivéssemos responsabilidades sobre isso. Mentira. 

Barão Vermelho, por exemplo (e isso não está no documentário), teve uma canção vetada porque usava o verbo “dar” com conotação sexual. Esse era o nível. E o desbunde necessário depois dos anos de violência, repressão e censura – moral, religioso, social, sexual, artístico – era inevitável. O surgimento da AIDS foi uma bomba. Por muito tempo eu acompanhei de perto todas as notícias sobre a AIDS, o preconceito sempre foi algo inexplicável pra mim, lembro de quando surgiram pesquisas que comprovavam que a maioria de contaminadas, num determinado ano, eram de mulheres heterossexuais casadas – sim, contaminadas pelos seus santos maridos, no ato sexual dentro dos seus lares. Eu combatia essas visões preconceituosas ao meu redor, até conviver de perto com pessoas soropositivas ainda numa época sem tratamentos efetivos e, até recentemente, quando tive alunos contaminados. A forma como Cazuza foi exposto e escrachado pela mídia ao se assumir portador do vírus HIV é daquelas coisas mais nojentas que a sociedade brasileira já produziu.

Mas, quero voltar a duas coisas: à caretice e ao trabalho. E assim engato para o documentário sobre o Mamonas Assassinas. 

Ser fã, pra mim, é ser daquelas que conhece bem até as canções que não fizeram tanto sucesso. É gostar tanto de Minha Flor, meu Bebê e de Desastre Mental (que fecha o documentário) e chorar emocionada com a versão ao vivo (inédita pra mim) de Ritual. É ter Ideologia como um mantra. Ambos, Cazuza e Mamonas Assassinas só foram possíveis num mundo antes da Direita brasileira ter reassumido o poder, com Bolsonaro, após a Ditadura. Hoje nenhum deles poderia existir. O que me faz pensar quantos deles estão por aí e nunca serão ouvidos por nós. Ao longo dos documentários me dei conta que ambos eram homens, e que, sim, nesse mundo misógino, machista e tal e tal, minhas maiores referências eram fruto da estrutura dessa sociedade. 

Eu era uma daquelas crianças que adoravam Mamonas Assassinas e cantávamos o Vira e Mina sem pudor nenhum. Toda a composição, das letras aos figurinos, era genial. Era crítico, era poético, era revolucionário. Eu gosto de gente com bom humor. Eu sou piadista em tempo integral. O humor faz da vida algo mais interessante. Usar o humor para debochar, ironizar, satirizar as coisas mais sérias, então, deixa tudo mais gostoso. Mamonas Assassinas era tudo aquilo que o universo onde eu vivia não permitia existir. Por aí também foi Cazuza. Mesmo tendo sido criada com a nata da música brasileira, desde muito cedo, esses compositores não eram aceitos dentro do padrão já estabelecido. Se isso também foi motivo pra eu gostar mais, nunca saberemos.

Mamonas pra sempre me incomodou, esteticamente, no início, mas depois entendi a proposta por seguir a textura e luz do VHS – aliás, saudade VHS! Isso faz muito parte do meu mundo. O VHS de vídeos pré-redes sociais de celulares na mão o tempo todo. Ri muito de várias gravações caseiras realizadas pelos integrantes da banda, pois as referências de falar para a câmera, registrar certas coisas (e não publicá-las imediatamente!) me soaram muito familiares. Eu cresci com câmeras VHS, isso é coisa da minha geração. Também foi um divisor de águas na construção de o que pensar da vida e do trabalho.

Mamonas também eram o oposto da caretice – e como o mundo está careta, meu Deus! Os jovens caretas, as famílias caretas, os machos caretas, os discursos caretas, os artistas caretíssimos! A Direita, após a Ditadura, nunca desapareceu, e esteve rasteira e insidiosa nas cabeças de jovens pelo país todo, com Bolsonaro como representante a discursar violências sem tamanho, até se eleger nos braços desses caretas. Eu disse que a volta da moda de calça jeans de cintura alta era um sintoma maligno. 

As pessoas estão mais preocupadas com a sexualidade umas das outras do que combater a caretice. E é essa gente careta que acha que certas atitudes são, justamente, contra a caretice. Cazuza e Mamonas Assassinas viviam o trabalho deles. A gente não bate cartão. A gente vive o que produz e precisa viver pra produzir. Os caretas de hoje só querem bater cartão, nem mesmo trabalhar querem, é só bater cartão mesmo. Não há ânimo na vida, não há interesse em intervir no mundo através do seu trabalho e da sua atuação no dia a dia.

Nós queremos viver o inferno e céu de todo dia. Só assim faz sentido. Transformar o tédio e a poesia em ritmo, cena, personagem e melodia. Quem quer seguidores e dinheiro jamais entenderia isso.

Tão bom ser artista e ainda colocar o dedo na ferida. Sem nem precisar usar suas escolhas pessoais e sexuais para isso. O quanto a Ditadura alimentou gerações (não vamos esquecer os oitentões que estão aí e viveram mais a Ditadura do que a geração dos filhos dela) para explodir os limites e romper barreiras e impor novas leituras de mundo. Vejo a última ascensão ao poder da Direita, com um governo de milicos, como um detonador perigoso do oposto: é como se hoje vivêssemos sob o escrutínio de uma sociedade mais vil, cruel, violenta, persecutória do que os anos de chumbo. Não parece, é assim mesmo.

Ambos fazem questão de demarcar, mesmo que de leve, seu posicionamento político. Boas Novas fala sobre a caretice abertamente, apesar de não fazer citação direta aos dias e governantes atuais, enquanto Mamonas pra Sempre exibe algumas vezes a faixa de Lula presidente nos comícios onde a banda fazia apresentações.

De certa forma, mesmo nos meus momentos mais inocentes, é bom saber que sempre estive do lado certo. Ambos também acertam em não querer “limpar” a imagem dos artistas. (mas o que foi aquilo da fala da Lucinha sobre o Frejat?! por outro lado, ainda bem que ela processou tudo que houve na sua relação com Cazuza) Hoje mesmo, com esses artistas caretíssimos que o Brasil tem produzido (não, gente, o “senta, senta, senta” não é nenhum hino contra a caretice), e toda a preocupação que se vê de publicações, redes sociais e o escambau. Cansativo, viu. 

Difícil sequer acompanhar novos artistas nesse país. Ainda mais esses artistas que alcançam grandes públicos e só são burgueses mesmos, ao ignorarem todo o tipo de absurdos que o mundo ao redor alimenta. 

Como li num texto hoje, não é nostalgia, é diagnóstico (li num post desses de Instagram que tem dezenas de cards que ficariam melhor numa página de texto). O post falava justamente que os poetas seguem sendo de esquerda, mas a esquerda não é mais poética. Fica a necessária e urgente reflexão.

Sim, Belchior é o compositor da trilha sonora da minha vida adulta. Quem será depois dele? Talvez saberemos em breve. Ou talvez eu tenha que continuar com ele e nossa realidade de não ter dinheiro no banco, nem parentes importantes. Enfim, não se preocupem com isso, é só um texto. A vida é muito pior.

Trilogia da Periferia – Açúcar

Quando o Gritos do Sul (2022) foi atacado, eu escrevi aqui sobre ele e sobre como escrevia pouco acerca dos meus filmes. Tento reverter, desde então, essa ausência.

Açúcar (2024) é o primeiro filme da Trilogia da Periferia. Quando ele foi aprovado no edital municipal, eu ainda não havia formulado a premissa da Trilogia. Então, Açúcar surge como um curta-metragem a ser realizado no Morro do Amaral, com participação dos moradores da comunidade. 

Porém, Açúcar já era muito mais que isso. Açúcar era minha cura, pessoal e profissional. Eu e Açúcar sobrevivemos à usurpação, à falta de caráter, à manipulação, à maldade de quem quis me usar e usar o meu trabalho. Após a primeira tentativa, diante da segunda eu decidi lutar pelo Açúcar, e tive o apoio necessário para produzi-lo e seguir adiante. 

Açúcar juntou uma equipe parcialmente inexperiente, como sempre a Oficina deu oportunidades para pessoas iniciantes em quem sempre depositamos confiança para trabalhar no cinema. Se algumas delas não honram essa confiança, ficamos com a consciência tranquila. Nós fazemos a nossa parte naquilo que acreditamos, na formação, fomento e crescimento do cinema na região.

Açúcar chegou com alvoroço e certa desconfiança na comunidade da Ilha do Morro do Amaral. Aos poucos, a cada visita, a cada contato, as pessoas foram nos recebendo, abrindo suas portas, topando participar das ações e do filme. A nossa história respirava o Morro do Amaral e seus habitantes. Elisângela, nossa protagonista, foi assumida por uma menina inteligente, divertida, que se destacou desde o início e que na escola já era conhecida por participar das peças de teatro. Foi especial e curioso vê-la construir a personagem que tanto divergia da sua personalidade, o talento e a atenção aguda que Sophia Negherbon dedicou ao trabalho fizeram toda diferença.

Fomos convivendo com as pessoas, com a paisagem, com a rotina e eu lapidando o roteiro. Lá comemos peixe e pirão, passamos finais de semana, encaramos quedas de luz, nos adaptamos ao difícil acesso, observamos como a natureza comandava as relações.

Contamos com o apoio das pessoas em vários momentos, desde o empréstimo de itens até a contratação de serviços. Quando falamos que o cinema atinge o público, ao ser exibido, Açúcar atingiu as pessoas desde a sua pré-produção. Congregamos crianças dispostas e entusiasmadas a participar de um filme na rua onde elas passam todos os dias. Lutamos contra a burocracia para tê-las todas em cena e rechear nossa história com seus sorrisos. E elas foram heróicas ao gravar uma manhã inteira de sábado um plano-sequência sob o sol. 

A Trilogia da Periferia é sobre desigualdade social, é a temática ampla que une Açúcar (2025), Robin (em pós-produção) e Marta (em pré-produção). Ao deslocar a produção para o Morro do Amaral, Morro do Meio e Jardim Paraíso nós começamos um manifesto muito claro sobre o que estamos falando, sobre o que é o cinema que está sendo produzido. Os três protagonistas têm muito em comum além de serem moradores da periferia da cidade mais rica e mais populosa de Santa Catarina, um dos estados com alguns dos melhores índices do Brasil. Foi em Joinville, de forma muito profunda, que a Fahya adolescente aprendeu o significado da palavra hipocrisia. Talvez essa seja uma raiz profunda das origens da Trilogia da Periferia.

Açúcar, porém, aprofunda algo que é muito caro pra mim: as questões de gênero. Além da desigualdade social, Elisângela encarna uma herança ancestral do ser mulher. Nós gravamos farto material da protagonista realizando serviços domésticos, enquanto outras crianças brincam lá fora. Parte do serviço é para levar algo para casa, cada “ajuda” a uma vizinha incrementa a despensa da família. Nessa família, Elisângela já é uma das mantenedoras: varre, limpa, cozinha, cuida do irmão mais novo, limpa peixe, faz tudo o que precisa para que a casa se mantenha de pé. Ela combina seu papel dentro do âmbito familiar com a mãe que “trabalha lá fora”. 

A mãe é interpretada com uma docilidade e paciência incríveis pela Silmara Neves, também moradora do Morro do Amaral, que num dia de trabalho da equipe foi até nós levar seu filho para uma vaga no curta. Após a formação e o teste, ela mesma foi escalada. Silmara também trabalha com serviços domésticos na casa de terceiros e usou a expressão “trabalhar lá fora” porque para quem mora no Morro do Amaral, todo o resto da cidade é “lá fora”.

Na equipe somente eu e mais umas duas pessoas conheciam o Morro do Amaral. Todas as vezes que exibimos o filme para o público de Joinville, a maioria diz nunca ter ido até lá. Eis um sintoma de uma cidade que não se vê – e nem se enxerga.

As cenas do trabalho doméstico de Elisângela são longas e pela versão da Diretora seriam ainda mais longas (e teriam algumas que nem estão na versão final). Isso não é interessante para um filme. Ninguém quer ir a uma sessão ver uma menina fazendo limpeza. E é justamente esse desconforto que eu quis o tempo todo. Porque o filme é sobre isso.

Gravamos duas vezes e por bastante tempo a famosa cena do peixe. Por mim, ela duraria tempo real no filme para que o espectador soubesse quão difícil e demorado é limpar um peixe. Garanto que muitos não sabem. A cena do peixe foi muito especial, eu não comia peixe quando criança, mas aprendi a limpá-los com minha avó. Época da tainha íamos até o Mercado Público comprar algumas e eu ia para o quintal descamá-las, tirar as ovas, as tripas, a cabeça, cortá-las em postas ou deixá-las inteiras para serem recheadas. Eu não tinha nem dez anos. Elisângela, nos seus dez anos, demonstra que limpar peixes é ato corriqueiro para uma moradora do Morro do Amaral. 

Elisângela é mais uma personagem mulher que escrevi com o coração nas mãos, como Maíra, do Gritos do Sul. Porque essas histórias só existem por causa delas. É como eu quero que os olhos alheios vejam aquilo que a estrutura da nossa sociedade esconde e sempre fez questão de esconder. É o cinema no qual eu acredito. 

Para além do cinema político, percebo que faço cinema contra a hipocrisia. Quem sabe Robin seja mais direto sobre isso, mas fica para um próximo texto.

Quando vejo mais produções indo até o Morro do Amaral, quando discorro sobre as belezas do lugar, a receptividade das pessoas tenho certeza que levar o Açúcar pra lá foi uma das minhas melhores decisões criativas. Ao tomar decisões, ainda mais sobre produção, sempre há o caminho mais fácil e os outros: os que fazem sentido, os que desafiam, os que demandam mais empenho e trabalho… Cada um deles traz suas recompensas.

Convidei Ianca Michelin depois de já termos trabalhado juntas no Passagem de Volta e no Gritos do Sul (em ambos ela inscreveu-se na seleção de elenco). Desta vez eu precisava de uma vilã diferente, particularmente eu gosto muito de escrever vilãs e tenho muito material da vida real para elas. A vilã muito humana, do alto da sua hipocrisia a vilã dorme sobre as certezas do seu mundo. Eu e Ianca tivemos as nossas conversas para construir a personagem e nos inspiramos em pessoas próximas, essas pessoas que existem, como a Moça do filme. A poeira na cena final da participação da Ianca é uma referência cinematográfica que intuitivamente eu assinei como a retomada da Fahya à Direção – pra quem não pegou, Carlota Joaquina é o filme símbolo da Retomada do Cinema Brasileiro.

Sinto-me cada vez melhor em escrever essa minha atuação no cinema de Joinville, no cinema de Santa Catarina, no cinema brasileiro. Açúcar estreou em janeiro de 2025 na 28a Mostra de Cinema de Tiradentes, desde as primeiras edições eu acompanhava à distância, já conhecia (e me apaixonara) a cidade de Tiradentes e a Serra de São José e voltar lá para exibir Açúcar foi realizar mais um sonho – afinal, vivo de realizar sonhos. Tivemos tantos momentos especiais com Açúcar, selecionado para o MIIA de São Paulo, com curadoria de crianças e adolescentes e licenciado para a Todesplay, finalista do Respira no RS, exibido no 1o Festival Internacional Goitacá de Cinema em Campos dos Goytacazes e em breve no 7o Festival de Cinema de Três Passos, no RS. 

Por que açúcar? A referência no filme é evidente, esqueci de dizer que o roteiro é adaptado de um conto que escrevi anos atrás ao conhecer o bairro da Tapera, em Florianópolis, e que tinha um título gigante e entreguista: A rua é de barro mas eles têm açúcar. Pra quem já leu As veias abertas da América Latina e conhece História do Brasil e História da América Latina (e de muitas colônias pelo mundo) o título e o personagem do açúcar no filme dizem muito mais.  

A riqueza da vida e do fazer cinema está nos detalhes. Encerro o texto de hoje com um sorriso. Talvez eu volte a escrever sobre o Açúcar, certeza que ainda escreverei sobre o Último Natal e, em breve, sobre Robin… este que já é o meu herói. Talvez Robin tenha também muita hipocrisia para encarar. Talvez.

dona da minha paz

de tanto bater em portas fechadas

me sinto em paz

destravei os caminhos

com fumaça de incenso

e fé inabalável

dona do meu sorriso

dona de mim

a todos os assaltos

às vilezas

às violências:

resisti com força

e bom humor

dona do meu coração

fiz

vi

vim

bradei

finquei pé de cabeça erguida

dona da minha teimosia

nasci com o Destino

a me sorrir em desafio

matei amores eternos

soprei ventos contrários

fechei portas às minhas costas

raízes cultivei com lágrimas

dona do meu corpo

dona da minha alegria

dona da minha paz

O passado é pedra

Como se a realidade escorresse pelas mãos

sem chance ou oportunidade de impedir o tempo

e as ausências de permanecerem.

Nada é palpável.

Os pés fixos no chão como se cimentados

na realidade apodrecida de dias embolorados

o ar embolorado a alma embolorada.

Somente a umidade persiste.

Primaveras chuvosas e o sol esse resquício

de respiro em um ou dois dias ao longo de semanas

penitenciam as vidas que querem sorrir.

Os rostos sebosos de cinza.

Quiséramos mudar os céus e ver as luas cheias

os quartos fechados os laços desfeitos

os rios cheios e os guarda-chuvas quebrados.

Maltratada a mágoa dos rancorosos.

Mentiras caem de aviões por toda cidade

memórias rasgadas experiências traumatizadas

banham a verdade de poucos corajosos.

É preciso resistir aos assédios e violências.

De queixo erguido enfrentamos quem bate

sem vergonha de dizer que sobrevivemos

aos golpes atrozes ao desprezo ao susto

à perseguição à manipulação ao medo.

A única tristeza intensa que palpita é não vermos o sol todos os dias.

O passado é pedra ao mar tanto bate até virar areia

a fazer sorrir crianças nas brincadeiras.

Eu quis

Quis ver através dos olhos

o bem que trazem no coração

e a alma aflita caminhar

no mundo 

quis ver as dores ali presas

as inseguranças a gritar

pelas madrugadas

as angústias apertadas

entre horas de vida social

Eu quis curar uma a uma

Quis sentir a tua pele

e por dentro dela

quis sentir tuas sensações

de medo e desejo

quis desejar teus desejos

desejar teus prazeres

entender-te era meu plano

Eu quis ver com teus olhos

o teu universo

Quis viver e ler teus pensamentos

dos mais tacanhos e mesquinhos

até os mais doidos e simplórios

eu quis tanto

querer-te com os defeitos e danos

com paz em saber-nos humanos

eu quis não julgar

e abraçar tua lógica

Eu quis além do teu coração

e do teu corpo

quis decifrar teus cantos

Tuas feridas

tuas explosões 

tuas repressões

teus ideais

teus sonhos

eu quis tudo

lavei minh’alma

de todo querer

me curei

me enxerguei

me abracei

Nota de repúdio (como um samba)

Indigna-se o coração

tanto ama!

sonhou longe

e foi

foi voltar de arrasto 

trazendo suas dores

Como um samba

Só sabe quem ama

Até anda por aí

a confessar-se

“nunca amei!”

Amou, sim, fio

já prometia a voz mais linda

a arremessar o desafio

“o amor será eterno novamente”

Como um samba

Só sabe quem ama

No bar numa quinta

em cada caneco de chope

repassa a sua vida

e se indigna

Tanto coração fraco solto no mundo

logo eu topei com todo eles

e a esse amor profundo

trouxe de volta pra mim

Vai lá se culpar

Lamentar

Chorar

Não me comove pranto de quem

enganou

e não soube dar amor

Como um samba

Só sabe quem ama

Vai buscar a felicidade

no teu coração

deixa a vida renascer

é na humildade

de se entregar com paixão

que se sabe viver

ninguém tira da sinceridade

do amor

a honestidade e o frisson

da pele, do olhar, do gingado

e do amanhã

Como um samba

Só sabe quem ama

O sol vem raiar

a noite te ensinou

duras penas 

e se doer, doeu

amanhã tem mais

paixão

Como um samba

Só sabe quem ama

Nós sempre fomos uma ameaça

A presença da mulher na sociedade sempre foi distorcida – e ainda é. Quando vemos a História da Humanidade, percebemos que ela precisa ser toda reescrita. Com a História do Cinema não é diferente.

Tenho um apreço pelo cinema estadunidense das décadas de 1940 e 1950 por vários motivos e também pelas mulheres estrelas de cinema que foram construídas à época. Marilyn Monroe foi a grande estrela e nunca será igualada (nem mesmo as estrelas do pop estadunidense chegarão a superá-la). Mas, para além dela, existiram tantas outras. E mesmo a história dela, seus personagens, suas escolhas, sua vida pessoal, dizem muito mais do que os rótulos e os homens tentaram aprisioná-la.

Me refiro à filmes que foram realizados num período de grande censura moral, quando existiam códigos de conduta para o conteúdo que chegaria às telas. Um mero beijo de lábios gerava muita especulação. Por um lado, quando o cinema precisa dizer mais sem mostrar tudo, porém, quando também o moralismo, a perseguição, as ideologias eram ferozes (talvez não muito diferente do que o país de lá tem vivido hoje fora das telas). No cinema, as mulheres foram paulatinamente sendo excluídas, diminuídas, seus nomes não constavam nos créditos porque os homens viam como elas ameaçavam o seu domínio. 

Contudo, em meio a isso, as belas mulheres e seus corpos atraíam público. Então, era menos interessante fazer filmes sem personagens mulheres (além da teoria do voyeur). Mesmo com a grande produção de filmes de Faroeste na época, gênero que poderia privilegiar personagens homens (como vimos em releituras do gênero produzidas em épocas posteriores e até hoje), as personagens mulheres existiam com boa presença no roteiro e nas cenas. Ao contrário do que aconteceu depois, com a onda dos blockbusters, principalmente, e seus buddy movies. Dos anos 1970 em diante, as mulheres foram engolidas em cena também, nem mesmo o cinema independente americano (ao qual somos muito devedores ao redor do mundo e ao maravilhoso Robert Redford que nos deixou dias atrás) conseguiu evitar isso.

É evidente: conforme as mulheres ganham liberdade e podem chegar aos espaços, alcançar posições, conseguir financiamentos, ter formação, os homens imediatamente encontram formas de sabotá-las e fazerem-nas perderem suas oportunidades. Desde que o mundo é mundo.

Contudo, essas belas mulheres estavam lá e faziam muito por nós – fazem até hoje. Quando vejo uma grande atriz da época a escolher personagens de mulher independente, “mal falada” que consegue driblar os preconceitos, entendo que, naquele momento, mesmo que o filme termine com um happy end de casal hetero, era algo extraordinário o que ela estava fazendo.

Quando acompanho a carreira de uma atriz que fez personagens de mulheres sempre lutando contra as violências do mundo, e, ao chegar aos 40 anos, assume a sua idade e faz filmes nos quais essa é uma das grandes violências: ela não é mais uma mulher porque tem 40 anos – mas ela se apaixona, vive, faz sexo (com homem jovem, inclusive) – eu percebo que sempre houve mulheres fazendo muito por nós. Com as ferramentas e com as armas que elas podiam naquele momento (mesmo que com seus corpos).

Esses dias ouvi “eu sinto que os jovens acham que precisam reinventar a roda”, e é verdade, muitos acham. Todos que já fomos jovens lembramos como é descobrir o mundo, não é mesmo? Quem somos nós para julgá-los. Descobrir o mundo é algo muito interessante – e, na verdade, nunca termina. Como mulher ainda redescubro como as mulheres lutaram (tanto e tanto) pelo seu lugar no mundo e nas sociedades. Nunca foi fácil, ainda não é fácil.

No último filme que assisti, com um argumento interessantíssimo e que flertava com o gênero do faroeste (um dos meus favoritos), e escrito também por uma mulher, o embate entre a situação de violência que as mulheres sofriam (sofreram e sofrem, visto que é a ameaça à vida e sua integridade quando diante de homens) era o ponto central. Fiquei surpresa, confesso, por como um filme despretensioso alcançou este tema de forma muito bem elaborada, mesmo tendo sido produzido naqueles tempos. 

Não faz muito tempo assisti a um curta brasileiro que está rodando festivais que falava sobre mulheres e essas violências, de uma forma muito mais direta e objetiva inclusive sobre as circunstâncias que permeiam a vida das mulheres e achei, infelizmente, ruim. Pelo menos temos mulheres falando sobre mulheres, mas é questão de gosto como abordamos as questões e sobre o que queremos falar.

Um dia, em sala de aula, citei um filme que era dirigido e protagonizado por mulheres maduras e um aluno comentou “ah, conheço, é filme de mãe, né?” o que imediatamente me chocou, porque percebi que para aquele homem jovem, um filme protagonizado por uma mulher madura e sobre questões que tocam uma mulher madura era um filme “de nicho”, mesmo as mulheres sendo maioria da população do mundo. Vejam só, termos tantos filmes sobre homens que se aliam e combatem homens não é algo de nicho, é claro, porque a maioria do mundo é feita de homens em grandes embates. Sei.

Posso, assim, afirmar duas coisas: no mundo de hoje não vemos mulheres o suficiente no cinema. As personagens mulheres (adultas e maduras, então, menos ainda) são desprezadas, não protagonizam histórias importantes e interessantes e seus dramas não parecem atrair tanto os realizadores. Podem reparar. Além disso, as mulheres não têm liberdade no cinema (falo por mim com inúmeras provas). As mulheres continuam sendo sabotadas, minorizadas, perseguidas. Pois, ao que parece, sempre há quem pense que somos uma ameaça. 

Tenho até formulado uma teoria, a partir de estudos e de conversas, sobre o ressentimento masculino dos homens a partir da minha geração que chegaram hoje e não sabem bem para que servem no mundo – e se sentem o tempo todo ameaçados por este vazio e como isso gera as inúmeras violências que sofremos todos os dias, desde o feminicídio até o ghosting. 

Nós sempre fomos uma ameaça. Por isso sempre fomos sabotadas, queimadas na fogueira, perseguidas e mortas. Nós sempre encontramos inúmeras formas de seguir vivas e defender nosso lugar nesse mundo. E sempre encontraremos, assim como as personagens no cinema.

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