Cemitérios no inverno

O caminho é pedregoso e necessário. Longo e cheio de curvas aborda rios por vezes. A poeira embaça o olhar que tenta atirar-se para todo aquele verde quase negro dos morros. É preciso estirar o corpo lançando-se aos caminhos sem destino nem objetivo. Era quase inverno, ou, quem sabe, era um inverno como esse que hoje se apodera da minha primavera.

Há todo esse mundo distante do correr de tantas vidas para pouco tempo. Você me levou e o silêncio permeava estes pensamentos que não se aquietam. Eu sorri ao ver os patos em linha irem dormir pois o sol se punha: a natureza é assim belíssima e exata.

Foi quando nos deparamos com um cemitério, onde você por acaso fez a volta. Casa dos mortos, singelo e solitário naquele dia frio, cinza e silencioso. É uma lembrança que guardo do inverno. Quando você me salvou daquele dia sufocante e meu olhar perdeu-se nos pensamentos cemitério adentro. Não há nada mais triste. Os mortos ali a me lembrar que tudo finda. Os mortos têm o mau gosto de sempre nos lembrar que tudo acaba. Esses cemitérios de interior fincam no coração que mesmo em meio ao mundo a parte, mesmo nos rincões mais perdidos, mesmo longe desta vida – sufocante sufocante sufocante – a morte chega. E fica. E constrói seus túmulos frios.

A natureza é assim belíssima e exata. Vivemos a vida, nos alcança a morte – quando, e somente quando, já tivermos concluído nossa missão na Terra. De nada serviria que fosse diferente.

Tenho tantas lembranças boas do inverno. Esta me perseguia, enquanto não fosse martelada nas letras não me deixaria em paz. Naquele dia senti o alívio da surpresa e do respiro. Hoje a surpresa – e eu que sempre surpreendo por vezes me quedo surpresa, mas é raríssimo – obrigou-me a anotar no céu das lembranças as cenas do último inverno. Eu gosto de cemitérios. Tanto no inverno quanto na primavera – já te contei como ficam belos cheios de andorinhas? Às vezes também gosto da tristeza. Diria que gosto até de dias frios. E nublados – desde que não abafados.

A natureza é assim belíssima e exata. É assim também o amor, posto que tão natural quanto a morte. Amemo-nos, por certo. Até o próximo inverno. Até a próxima surpresa. E renovemos sempre a beleza e exatidão que nele há.

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A Filosofia e a Omissão

Por vezes eu me sinto culpada. Principalmente por ter sido omissa. A omissão é a pior das culpas. E não adianta dizerem “mas você fez o que podia” ou, pior, “você não podia ter feito nada”. A culpa persiste. Já fui omissa algumas vezes na vida, reconheço – e lamento, de um jeito meio doloroso.

Uma ex-aluna minha, de Filosofia do Ensino Médio, fez vestibular para o curso de graduação em Filosofia, para a mesma universidade onde eu fiz. Fiquei feliz, óbvio. A sensação de fazer diferença na vida de algumas pessoas é muito boa. E pela Filosofia, então, essa desesperançada beleza que está mais em desuso e em desvalorização do que qualquer área do conhecimento. Não fui, claro, a única influência dela para seguir neste curso, mas sei que tive lá minha pontinha de responsabilidade.

Depois de um tempo que ela entrou no curso eu acompanhei relatos e a luta dela, e de outras alunas, diante dos abusos e assédios no curso. Meninas mulheres sendo assediadas por professores, colegas e funcionários do departamento. Além disso, complicado dizer “ainda pior”, elas também relataram a luta que é para que sejam reconhecidas como capazes e iguais, numa das áreas mais difíceis dentro de uma universidade. Sim, pode parecer incrível (e, de fato, é), mas mulheres, hoje, em 2017, no Brasil, precisam lutar para mostrar algo tão óbvio: somos intelectualmente tão (ou mais) capazes que os homens.

Eu fiquei triste. Porque eu sabia que era assim – e em nenhum momento a preveni do que ela teria pela frente. Se eu tivesse prevenido, sei que não teria a desencorajado – mulheres que fazem Filosofia são destemidas. Mas ela não teria se desiludido tanto, talvez. Ou ela já estaria melhor “armada” quando se deparasse com as agruras da vida acadêmica de uma estudante de Filosofia.

Mas, pior ainda mesmo, é a sensação de culpa por eu ter silenciado. (vocês estão de prova, não silencio mais: a gente aprende) Eu não lutei e não me fiz ser ouvida quando fui assediada no curso, por professores, por colegas. Eu não expus os abusadores que mantêm o status quo atrás de suas poses intelectuais. Eu deixei de frequentar a lanchonete do prédio, eu ficava chateada e de vez em quando pensava duas vezes antes de me vestir para ir à aula. Eu não ficava em certos horários, em certos lugares. Nem mesmo quando era de conhecimento de muitos que eu estava em algum relacionamento, na época, eu me livrei dos assédios. Coisa que, de vez em quando, nos dá um pouco de sossego.

Eu silenciei. Talvez seja hipócrita, por isso, hoje eu dizer para que não silenciem. Ou não. Porque eu não silencio mais. Eu exponho homem machista, abusador, assediador, intransigente, intolerante, agressor e tudo o mais. A gente aprende.

Além do assédio, que parece tão comum nas ruas e em todos os ambientes, existe esse ranço de superioridade intelectual. Sim, há. E não é só nas Engenharias. Aliás, nesta área os melhores profissionais que eu conheço são mulheres. E sei que elas tiveram que batalhar o dobro para mostrar que são capazes. Porque é essa a nossa vida: mostrar que somos capazes. Até quando? Até quando esse mundo e esses homens vão ficar nos forçando a mostrar que somos iguais? Ou até melhores (e é bem isso que eles não aceitam). Filosofia é difícil pra caramba. Nós, mulheres, também nos destacamos. Nós também somos capazes. Coisa inteligente não é só pra homem.

É triste. É triste ver essas meninas e essas mulheres desde cedo tendo que exibir na testa a sua força – física, intelectual, emocional. A gente queria só viver sossegada, às vezes. As universidades são muito machistas. Porque foram, por muito tempo, dominadas por homens, enquanto as mulheres, no máximo, podiam fazer pedagogia pra cuidar de crianças – porque isso é coisa de mulher. Aliás, curioso o relato de um moço que eu conheci. Ele fazia Pedagogia, único homem da turma, e nem estágio nas escolas e creches ele conseguia porque “um pai não vai querer que um homem cuide da filha dele”. O reverso é raro, mas é verdadeiro.

Sofremos muito preconceito em sala de aula na Filosofia. Teve uma professora que um dia nos chamou de galinhas. Simples assim. Nada aconteceu. No relato da minha ex-aluna ficou claro que não farão nada, na reunião de departamento disseram que só os casos reportados deverão ser examinados e seguir o que rege as regras da universidade. A gente sabe no que vai dar.

A gente aprende. A duras penas, mas aprende. E quanto mais cedo, melhor. Ser mulher não é pra qualquer um. Mas nós somos e estamos fazendo cada vez melhor. Levo minhas culpas comigo, para fazer ainda mais, dia a dia. O que aprendi foi a ser menos omissa. Parece pouco. Pouquíssimo.

A distância do tempo

Repare nestes corpos que estão à volta: em plena Primavera malhados e sem o suor sob o ar condicionado das academias. Logo será Verão e eles precisam se exibir à beira de piscinas e mares. Mas, veja, eles ficam exaustos dos pulos, das roscas, dos agachamentos. São corpos que não sabem mais (ou nunca souberam) o que é fazer força, sentir os músculos estirados ao sol com uma pá na mão, por exemplo. Repare, eles correm quilômetros intermináveis nas esteiras percorrendo parques imaginários.

São corpos que caminham sem sair do lugar. São mentes que possuem olhos que não vêem nem além da parede envidraçada das academias. São corpos que não caminham mais. Isso me diz o estacionamento lotado desses novos templos de Apolo, isso me diz a vizinha que não anda duzentos metros até lá. Por uma questão também de status, só andamos de carro – ou de moto, quando muito por necessidade. Inventar a roda nunca fez tanto sentido para uma humanidade falida presa aos freios do motor.

Nem o preço da gasolina, nem a tal vida saudável, nem nada. Nada mais nos faz andar a pé. Talvez nem os bebês mais se preocupem com isso, logo logo. Os pais perderão aquele momento emocionante de ver as perninhas trêmulas sustentarem-se sozinha e titubeantes. Porque não andamos mais a pé. E assim perdemos a força natural que o corpo desenvolve com o movimento essencial à vida. Preferimos modismos a simular os movimentos do corpo num cross qualquer a, simplesmente, fazê-los.

Simulamos demais a vida. Dentro de academias, dentro de computadores, dentro de selfies que não nos dizem nada. Não andamos mais a pé. E assim perdemos todos os entalhes do mundo ao nosso redor. Perdemos os pequenos detalhes que as ruas e as vistas panorâmicas nos proporcionam. Vamos de carro daqui até ali, paramos em frente de onde queremos e sequer nos preocupamos com o entorno.

Caminhar, e não a fatídica “caminhada” por ordem médica que é dar umas voltas pelo bairro fofocando ou absortos em fones de ouvido. Convido a caminhar, pé ante pé, a subir e descer morros, a entrar em ruas desconhecidas, a fazer pequenos serviços e burocracias cumprindo distâncias sobre os próprios pés.

Convido a esquecer nossa submissão humana de encurtar distâncias com o olho no relógio e adequar a vida à distância do tempo. “Estarei aí em uma hora” a substituir o “Estarei aí em dez minutos”. Ganha-se vida nestes cinquenta minutos a mais percorrendo com olhos, coração e pés a distância que nos separa do tempo.

Caminhar nos fez seres humanos. Nossa humanidade se esvai em canos de escape. Caminhar pelo simples fato de caminhar. De um lugar a outro. Sem prescrição médica. Dando ao corpo o movimento real da vida. Dando à distância o seu tempo. Fica o convite.

Nosso medo

Há dias que tudo o que se quer é uma boa noite de sono. Você deita querendo espantar o cansaço e adentrar o mundo dos sonhos. Mas, no meio da madrugada, o cachorro late insistentemente, late de forma agressiva. E você levanta para ver o que é. Na rua, um rapaz agride, física e psicologicamente, uma moça. Ela chora. Cachorros, vocês sabem, não toleram agressões. Nós também não deveríamos.

Caso você fosse um homem, eu diria que deveria intervir. Homens, diante do olhar dos seus iguais, tendem a recuar – quando sabem que estão errados. No caso, porém, era eu. Fiquei com receio de intervir e, por ser mulher, acabar junto à vítima. Recorri de imediato ao telefone. Na primeira ligação, “qual a sua emergência?”, só deu tempo de dizer que denunciava um homem batendo numa mulher na rua – a ligação ficou muda. Na segunda tentativa consegui fazer a denúncia e “Está registrado, se der enviaremos uma viatura”. Voltei para acompanhar o ocorrido, a moça havia se levantado (ela chegou a ficar no chão) e as agressões e ameaças verbais continuavam. Mais alguns minutos e eles seguiram. A polícia não apareceu.

Não foi a primeira vez que liguei para a polícia denunciando o mesmo tipo de agressão. Num caso era minha vizinha de porta de apartamento. A última vez foi uma menina sendo agredida pela rua, jogada contra o portão de casa. Em nenhum caso a polícia se fez presente. Em todas, me senti tão amedrontada quanto as vítimas. Toda mulher sabe o que é isso. Todos os homens também deveriam saber. Em todos os casos, como nesta madrugada, várias pessoas foram testemunhas. Ninguém fez nada. Ninguém faz nada. Nós não fazemos nada. Nenhum homem parou o carro e defendeu aquela moça. Eu já disse aqui e repito: enquanto os homens não entrarem nesta briga, seremos só feministas, feminazis, mulheres de mimimi. Tem mulheres, inclusive, que pensam assim.

Não somos só estatísticas. Somos mulheres agredidas diariamente. A moça desta madrugada tinha menos de vinte anos, com um vestido lindo, corpete salmão e saia rodada de tule preto. O cara que a agredia era algum amigo ou namorado. Ela chorava e ele a chutava. Acusava-a de não ter noção e decência. Ameaçava “vou ligar pra tua mãe” e chutava aquele corpo bonito e jovem encolhido no chão. Depois, ela chorava mais alto e acusava-o de alguma coisa ao que ele retrucava “foi sem querer” e ela “é sempre sem querer”. Meninas, moças, mulheres: todas somos vítimas de relacionamentos abusivos. Percebam o tamanho da estupidez e segurança deste idiota ao ameaçá-la de telefonar para a mãe, pois ele tem certeza que ela jamais denunciará sequer à mãe a agressão.

Eu nunca consigo saber o que é maior: minha revolta, meu medo, minha empatia, minha insegurança, minha covardia. Eu voltei para a cama. Tive sucessivos sonhos ruins. Os traumas e lembranças não perdoam. Toda mulher vive com eles, escondidos lá num canto, sem querer vê-los, mas jamais serão abandonadas por eles. Era só uma madrugada de sexta para sábado, eu queria dormir até mais tarde, eu queria repor as energias e pensamentos das últimas semanas exaustivas. Aquela moça só queria divertir-se, dançar, aproveitar a vida. Nenhuma de nós teve o que queria porque a realidade de ser mulher nos assombra quando menos esperamos. Eu quero vencer o medo, quero poder fazer mais do que pedir ajuda quando testemunho uma igual sendo agredida. Eu ainda não consigo.

A vida na cidade

Eu sentia a cidade diferente. Faltava algo por ali. Vida. Havia pessoas, sem dúvida. Havia árvores, também. Mas algo faltava… no ar, quem sabe, não era Primavera, as flores não perfumavam as esquinas. Ainda não era isso. A cidade nem crescera, nem chovia menos. Prometo não entrar naquele papo de “quem mudou fui eu”. O cheiro ruim das fábricas também era velho conhecido – desconfio que jamais mudaria. Lojas que fecharam e outras que abriram no seu lugar. Era outra coisa…

Eu vinha do interior. As cidades tinham vida, os olhares se cruzavam pelas ruas. Acenos de cabeça a desconhecidos. A lanchonete oferecendo sopa àquela hora da noite, única de portas abertas no frio que arrasava esta terra. Um velhinho tarrafeava próximo ao píer, num repetir de gesto e vazios entre fios. Nada de peixes. As igrejas e seus sinos. Os alambiques no silêncio abençoado. O vento arrebatava os topos das árvores. Nós parávamos para contemplar o entardecer.

Agora eu percebia a diferença. Os cachorros e gatos pelas ruas. Eles se espreguiçavam pelas praças, nos seguiam abanando o rabo com aquele olhar cobiçoso ao nosso sanduíche. Os gatos, nas manhãs de domingo, preguiçosamente lambiam as patas sobre os muros. As crianças, nos dias de calor, gargalhavam entre guapecas e mangueiras esfuziantes de água fria. Era essa vida.

A cidade grande civilizara-se. Agora preocupávamos com tudo – e todos, claro. Todas as nossas mazelas deveriam ser superadas – ou devidamente escondidas das nossas vistas. Os cães agora dormiam em caminhas confortáveis, cheios de cobertas e brinquedos, e comiam sentados às mesas com seus tutores. Tutores, pois dono é quem possui algo ou alguém, o que não é o caso, agora os seres humanos civilizados apenas tutoram a vida dos animais. Me perguntei: se o cachorro quisesse partir, então seu tutor deveria deixá-lo. Certo?

Na cidade grande ainda havia outro tipo de vida. Eram essas pessoas que vagavam pelas ruas e dormiam sobre papelões. Era uma vida que não precisava de tutoria. E era uma vida que mortificava a vista do entorno. Não dava vida.

Eu sentia a cidade sem a vida que se criava ao rés das possibilidades. Observava como havia poucos cães e gatos a olhar pelos portões – mas muitas janelas de prédios com redes. Eu passava pelas casas ansiando vê-los agora bem alimentados, felizes, de banho tomado (toda semana no pet shop, é claro), e atrás dos muros e grades e portões a correr pelos gramados. Eu imaginava como era perder a liberdade. Sair da rua direto para um apartamento de um quarto espremido entre milhares de outros apartamentos assim diminutos. Ou, quem sabe, para o canteiro minúsculo de um geminado. Eu ouvia latidos e choramingos de segunda a sexta, das oito da manhã às seis e meia da tarde.

A vida da cidade agora residia sob roupinhas engraçadas e lacinhos dourados a dormitar sobre sofás, estressada a correr atrás do próprio rabo e condenados a dermatites sem cura.

Reclamar é um vício

Com licença, tudo bem? Desculpe-me por incomodar. Eu vim só reclamar de quem reclama. É que não aguento mais. Como vocês conseguem – reclamar de tudo, o tempo todo? Reclamadores de plantão. Ganham dindin pra isso? Porque, só pode. Não quero crer que reclamam de graça, estariam ricos! Mas eu não aguento mais. Primeiro tentei ignorar, assim, de boa, com meu sorriso de sempre no rosto e um comentário ou outro a fugir do assunto. Depois, mantive o sorriso, preferi deixar passar, fiz que não ouvi. Agora não tem mais condições.

Primeiro achei que a pessoa estava num dia ruim, sei lá, aquela dor de cabeça, uma noite mal dormida, alguém doente na família. Mas, aí, como explicar tanta gente tendo o mesmo dia ruim? Todos do mesmo signo, quem sabe. Depois achei que era o ambiente, pô, ninguém quer trabalhar sábado à tarde, ou, sei lá, a pessoa está nessa profissão mas não queria estar. Por último, já meio pelas tampas de revolta, desconfiei que são todos infelizes. Mas, Deus do céu, tanta – mas tanta – gente infeliz assim a minha volta? Será se?

Eu queria dizer isso mesmo: não dá. É o tempo todo. Todo mundo. Dá pra ser infeliz e não reclamar o tempo todo também, tá? Dá pra estar com baita azar e problema e ainda sorrir e fomentar um ambiente agradável (minimamente respirável) ao redor. Confiem em mim, dá sim. E, ó, vale ouro (se não, ao menos vale mais do que reclamar): reclamar e reclamar e só reclamar NÃO muda absolutamente nada. Nada. Nadinha. Nadica de nada. Vão por mim. Não muda. Reclamar é totalmente inútil. No máximo, você consegue se tornar um chato e ganhar algumas doenças (porque, sério, tanta coisa ruim da boca pra fora só pode ir contaminando por dentro). Reclamar não faz diferença nenhuma. Repitam comigo: n e n h u m a.

Eu estou aqui, eu sei, reclamando. Mas, eu sei que vocês não podem ver, eu estou sorrindo. É aquela coisa de querer abrir o coração, sabe? Então. Vocês me expliquem como é que pode esse povo todo reclamando de tudo, de qualquer coisinha, o tempo todo? Desanima a gente – e não pode. Ou eu que estou numa onda de azar, me relaciono mal, estou frequentando ambientes nocivos. Quem sabe. Eu levo a vida numa boa, sabe? Com esse sorriso no rosto. Se o dia vai mal, coloco umas músicas aí num volume meio alto, que é pra silenciar os pensamentos ruins e deixar a vida no prumo. Ou peço colo. Ou leio. Sei lá, pode comer também. Uma conversa boa, ajuda, viu? Só não pode ficar ressecando os ouvidos alheios com suas infelicidades.

Aliás, dia desses quis xingar uma criatura e me saiu um “ô, seu infeliz!”. Eu não sei nem xingar. Infeliz, pra mim, seria um xingamento monumental. Mas, vejam meu azar, o cara era desses que sequer sabem o que é felicidade. Daí xingar de infeliz é tiro no pé, né. Vai que esse povo todo reclamando, sei lá, só uma hipótese, nem percebe que só reclama? Posso gravá-los falando e daí mandar o áudio para uma avaliação consciente? Ajudará?

Mas, viu, já estou terminando. Passei só pra dizer isso mesmo e mais uma coisa: coloca esse sorriso no rosto (tem a canção, lembra?). Experimenta não reclamar. Um dia. Depois dois, três, quatro… Experimenta reclamar só sobre o que realmente importa, para os órgãos ou pessoas responsáveis. Não fica na ladainha chata. Toma atitude, quando estiver mais seguro de si. Aí fará diferença. E se o dia começar mal, se você odiar o que faz, se tua vida é uma lambança (estou evitando palavrões), se tem amor não correspondido ou é mal-amado, se o dinheiro ainda não caiu na conta (ou quando cai não dá conta), se chegou a fatura do cartão de crédito, se está tendo que trabalhar mais e quase não descansa, se a pia está vazando ou o chuveiro queimou e teve que tomar aquele banho gelado no inverno: sorria. Ria. Se divirta. Sei lá, pede ajuda. Conta uma piada. Deixa pra amanhã. Repensa a vida. Mas, eu queria pedir, não reclame, tá? Posso confiar? Obrigada.

Eu andava por aí pensando nisso e ó o que encontrei.

Penitência

Era pra ser melhor. Mas, dizem, só temos essa vida. E é dela que temos que fazer – não tirar – o melhor. Às vezes dá mais trabalho, raramente quase não depende de nenhum esforço. Eu começo aqui e em duas linhas quero desistir, pois cansaço, sono, uma certa tristeza me invade. Mas o caminho trilhado é sempre longo. Não se chega a nada bom em dois curtos passos. E amanhã nunca é uma certeza – pelo menos, até o momento, tenho certeza que não conseguirei tempo para terminar e publicar este texto, portanto, é melhor que o faça agora. Enquanto escrevia a frase anterior me veio à memória a imagem de um sonho que tive, faz tempo. A cabeça funciona assim, sempre tão mais rápido do que esses dedos que deslizam céleres pelo teclado ou ainda mais veloz do que este corpo que implora por cama – anda viciado, eu diria. O sonho, só para esclarecer, não tem nada a ver com o que se passa agora: talvez apenas saudade de dormir, ou de sonhar, ou uma sinapse fora do lugar.

É pra ser melhor. Tem que ser. Sem nenhuma obrigação, que fique claro. Tem que ser porque queremos que seja. Queremos que seja melhor para nós. “porque merecemos”: não chegaria a tanto. Porque, pelo bem e pelas boas ações, temos que fazer o melhor. Não cabem acusações ou discussões. Há o reto a seguir sem desvios. Eu lia esses tempos uma crônica do Saramago, que me fez uma bela companhia, na qual ele falava de como o escritor dá vida ao entorno dele, ao escrever. Como um mundo surge, e aqui solitária neste oficina frio e mal iluminado, e preenche minha visão de mundo – a qual eu dissemino porque as gavetas são poucas e já estão cheias. Talvez ele falasse também disso, dos autores que não são publicados. Ou li naquele jornal de literatura, agora estou confusa. (perdoem, passa das 22h e a cabeça a rememorar sonhos, a desejar sono) Mas, vejam, extraordinariamente há uma anotação aqui que comprova a ligação destes dois pensamentos. É em um bloco que eu deveria carregar comigo – estou, novamente, tentando.

É melhor. Não preciso me enganar, é sim. (tomei um chá de cidreira e laranja, acordada por milagre no momento – daqui a pouco transcrevendo sonhos ao vivo) É porque começou diferente. É porque eu, finalmente e pela primeira vez, estou disposta (e me empenhando, juro) a fazer e ser melhor. Só por isso já valeria, mas não basta. Sou exigente – todos concordam. Dizia lá o Saramago que o cronista é chato, e nada mais chato do que a cronista ficar falando em sono (contagioso, só pode, tomem cuidado) a toda hora. Somos chatos porque evidenciamos o que ninguém quer ver. Porque pegamos o sono e trazemos para o meio dessas páginas enquanto acreditamos que devemos ser melhores – dando o exemplo, diga-se de passagem. Anotei aqui que o Affonso não é um cronista chato, mas, me desculpem, não sei qual a associação que eu fiz no momento da anotação (por isso que não consigo manter o hábito da caderneta de anotação, as idéias não funcionam depois). Talvez tivesse algo interessante a dizer. Leiam-no e depois me digam se vocês entenderam qual a minha idéia, mas antes leiam o Saramago. Há algo, eu garanto.

Acabo de fechar a caderneta (e colocá-la na gaveta quando ela deveria ir direto para a bolsa) e nela ainda há, pelo menos, umas três idéias de texto – uma descartada, pois o tempo condena ao desuso as mais prementes necessidades. Senti falta de escrever. E é – sempre – preciso escrever. Sempre e sempre. E nem é o tempo. Nem a falta de idéia (nunca). Ou o vazio da experiência (jamais). É minha falta de compromisso. Condenada e julgada. Minha penitência é o próprio crime. Avisem que voltei e nunca deveria ter me ausentado, eu sei. E é nesse turbilhão que a vida segue (e é como eu gosto que ela seja). E que estamos bem. E que sejamos melhores.

Museu dos naufrágios

Caminho pelas fronteiras do mar a catar os destroços dos náufragos. Tudo aquilo que chegou até a areia pelo bem entender das correntes marinhas – que nem vemos e quase não as entendemos. Passo meus dias aqui a esperar os amores que viraram lembranças, as embarcações que desfizeram-se em restos de madeira. Repare que até as conchas contam suas histórias. À beira-mar quase nada chega inteiro. Coleciono pedaços de vidas que não lograram ser tudo o que sonhavam.

Não me interessam as conchas inteiras. Elas ainda não viveram o suficiente para terem algo a dizer de dentro de potes de vidro colocados na minha sala de visita. Coleciono os sorrisos de todos aqueles que viram o mar pela primeira vez, respingados pelo olhar brilhoso de sofreguidão e ansiedade diante do desconhecido: verão o mar muitas vezes ainda, e jamais o conhecerão. Coleciono chegadas e partidas, daqueles que passam de carro atulhado de malas e ventiladores, ainda uma última vez antes de afundarem-se em saudade dos dias passados em companhia do mar e do sol; dos pequeninos que não voltarão jamais, pois ano que vem serão outras pessoas em outros corpos e já poderão entrar até depois do quebrar das ondas.

Assim ocupo minha vida, a recolher as histórias acabadas e as que ficaram em pedaços… ando por aqui a montar quebra-cabeças dos corações alheios. Não discuto emoções. Reparo que as pessoas, assim como as embarcações, dificilmente resistem às tempestades. Por vezes elas até são precavidas, ouvem com cuidado as previsões do tempo, sempre estão em dia com os itens de segurança e a manutenção. Mas… nem tudo parece estar ao nosso alcance. Mas… quando são pegos de surpresa o choque causa devastações irreversíveis. E tudo vai ficando pelo mar, e o caminho absolve as marcas das desatenções…

Hoje mesmo a praia encheu-se de pequenos peixes mortos. É difícil sobreviver no mar, até para eles. Chegaram boiando sem nenhum dano aparente e o olhos esbugalhados. Nunca se sabe ao certo o que lhes tirou o ar. Vejo os abraços apertados que se desmancham em braçadas solitárias. Os corpos jovens e ativos que vão se deixando ficar nas cadeiras de praia debaixo do guarda-sol até não aparecem mais por aqui. Não faltam alianças e pranchas na minha coleção. As primeiras sempre as encontro na maré baixa, confusas deste fim na areia revolta pelas ondas. As últimas enroscadas nas pedras dos cantos, sofrendo o abandono voluntário.

Passo por aqui todos os dias, recolhendo tudo o que levo para o museu dos naufrágios. Nele nada se vê inteiro, mas possui todas as vidas. Partem-se em pedaços que quererão reencontrar-se eternamente. As embarcações, porém, podem ser substituídas. Guardo essas relíquias com o desejo infinito de que tenham um destino, que recalculem suas rotas, que consigam compreender novamente suas bússolas. Agora, que as nuvens se aproximam da praia e os grossos pingos de chuva retalham as areias e o mar acinzenta-se, empenho-me em colher todas essas desilusões largadas às pressas de um final de feriadão. Os naufrágios acontecem em momentos previsíveis, por vezes, quando o tempo não nos oferece outra chance.

E sou eu que fico aqui, a oficializar adeuses e choros contidos… a cadastrar despojos de todos vocês que partem sem tempo de sentir que algo de vocês ficou para sempre à beira-mar. O náufrago preocupa-se demais com o que lhe restou intacto. Espero pela próxima maré…

O que trago do mar

Venho da praia para dizer que o mar continua sedutor. Os morros persistem bravamente no verde e as piavinhas brincam na beira d’água como se fundo fosse. As crianças, ah!, as crianças não vêem tempo ruim: é sol, é chuva, é nublado ou areia queimando lá estão supimpamente felizes a tomar banhos de mar emboladas em areia até os pescocinhos. E assim os dias de Verão vão passando, agora tristemente sem o horário de verão que tanto amamos ao prolongar o dia noite adentro – e que vocês, nobres egoístas, tanto o desprezam. Deixem-nos com nosso sol a passos largos pelo dia. É assim que somos mais felizes (ainda).

Venho para dizer que talvez ainda possamos mudar o mundo. E que as coisas boas podem, sim, suplantar as ruins vários dias por semana – exceto às quintas. No mais, talvez ainda possamos ser pessoas melhores – e nem estou falando de não jogar lixo nos rios, construir casas em áreas de preservação, reclamar do barulho do vizinho. Pessoas melhores que têm bons pensamentos, que sonham mais – por favor, sonhem mais -, que não sintam o peso de sorrir quando o mundo lhe desaba sobre as cabeças. Tentemos. Era o que o céu azul trovejado de nuvens hoje me dizia, garanto-lhes: sejam melhores.

Venho da praia para contar que poucas coisas valem a pena na vida. Nós é que perdemos tempo demais com o supérfluo. Eu sei que você sabe. É tão extra deslizar o dedo infinitas vezes num único dia sobre uma tela que não nos esquenta o coração. É tão vazio discutir notícias de nomeações e acidentes de carro. É sempre desnecessário falar do ausente. O pouco é aquele beijo no filho que você não deu logo cedo, aquele “obrigado” que você não disse quando mais precisou, o suspiro de prazer que você estrangulou e, até mesmo, o “adeus” tão desejado e nunca proferido. É pouco e sendo tão pouco se perde na imensidão do muito e do demais que não nos valem de nada. Foi lá na praia que senti. E precisava dizer: vamos ficar com esse pouco.

Venho com o corpo morno de um calor absurdo afogado em água cristalina e fria para contar que sempre pensei que o mundo fosse um bocadinho assim esperançoso. E que por mais que não saibamos explicar essas dores infinitas que estrangulam os bons corações, em algum recanto florido guardamos a esperança de seguir. É assim que os pés cheios de areia sobem a rua, com a certeza de caminhar. Um pé na frente do outro, o equilíbrio, e tudo assim tão simples, mas que, por vezes, nos escapa da alçada da alma. É preciso chamar a força de vontade à razão: devemos seguir. Se tiver alguém a quem dar a mão, melhor. Senão, siga mais devagar.

Vim da praia para ter a certeza de que o mundo me esperava com menos ódio do que da última vez. Reparei bem por onde passava, nos olhares fortuitos, nas câmeras de segurança que ousam ver-me todos os dias a ir e vir de biquíni rente aos muros, nas novas portas abertas, nos carros que nem param nas faixas de pedestres. Reparei que todos estavam com mais sono. Ou uma espécie de sono… robotizaram os olhares e gestos, acionaram a engrenagem, apitaram lá longe na fábrica. Passamos protetor solar para garantir que essa pele não derreta e mostre nossas latas enferrujadas. E quem sabe saiamos a conquistar corações com as marcas de sol de um Verão que deixou (desde sempre) saudade antes da hora.

Vim querendo trazer boas notícias. Por lá tudo se mantém um espetáculo sem decepções. Por lá o coração enternece os mais de trezentos dias passados longe dele. O mar nos dá uma sobrevida de muitas Estações. Ele alivia as dores da alma e engole as dores do corpo: nos deixa saciados e lânguidos que mal passamos do portão de casa já caímos na rede da varanda e por lá ficamos. Mas encontro cá os muros, os corações gelados, as almas mesquinhas e as mãos silenciosas. Duvido que resistissem a um banho de mar. Duvido que consigam embaçar este meu olhar que perdeu-se no ondular violento das ondas a embranquecerem as pedras numa madrugada de areias vazias e céu estrelado. Duvido. Ouçam o que digo, venho da praia para lhes trazer aconchego… e convidá-los a olhar, novamente, o mar.

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