Coração sincero

Podemos entrar no carro e fugir sem rumo até o coração dizer “é aqui”.

É aqui que quero ser feliz para o resto da vida. Mas, talvez, o resto da vida seja tempo demais.

O coração, ele sempre tem razão e merece ser perdoado pelas bordoadas que leva. Ele não se atreve a desacreditar das pessoas e suas intenções, ele vive com esperança.

Num dia assim, porém, o que salva é a fé. A fé persiste em dizer ao coração que é preciso ficar, que ele ama demais e de forma insaciável, que essa loucura de fugir ainda pode deixá-lo muito triste. Ele custa acreditar, ao mesmo tempo que nunca duvidou da fé. Afinal, o que seria dele sem fé?

O coração anseia por ver novas paisagens, por conhecer outras realidades, por ouvir quaisquer sotaques. Ele é sincero e fiel, nunca soube ser de outro jeito. Ele nunca pôde ser falso porque ama e entrega-se com paixão, de olhos fechados (o tolo). Ele jamais trairia – a si mesmo.

Este coração aprendeu a não tratar os outros como foi tratado.

Tem dias que ele respira seus anseios. Tem dias que ele precisa olhá-los com pena e lamentos, e manter-se sufocado. Ele poderia fugir, não como uma fraqueza, como quem escapa de suas responsabilidades e se acovarda. Ele poderia fugir num gesto de coragem e força, de quem tendo tudo busca não ter nada – para ser ainda mais.

Não entenderiam, é claro. E ele nunca se importou.

O coração acordou assim, num dia qualquer, e quis buscar onde ser feliz, algum outro lugar onde também pudesse ser feliz. Caso a vida já não lhe tivesse ensinado, ele teria ilusões.

Acreditaria até, quiçá, na humanidade. Por ora ele tem somente a si como escudeiro e confidente. Seus planos não os conta a ninguém, não encontrou quem fosse digno de confiança. Ele articula seus próximos passos e sorri solitário.

Qualquer dia, podemos entrar no carro sem rumo até encontrar uma árvore frondosa e carregada de mangas, cercada por terras alagadiças e cenas curiosas de um cotidiano do passado, cruzar uma estrada de barro até o mar revolto se descortinar e termos a surpresa de um amor caliente no banco do carro enquanto toca uma música alegre – de fé e esperança. O coração vai saber dizer “é aqui”. O coração, ele nunca se engana – nem é enganado.

O menino e o mar

Estava na praia e não fazia nada além de observar – faço-o por gosto, porque gosto de deixar o olhar e a mente soltos vendo os detalhes do mundo e porque, enfim, é um gesto dos meus pensamentos, diria que nem poderia controlá-los, caso quisesse. Observava o mar, suas ondas sedutoras e misteriosas, observava o sol e seu brilho sobre as ondas, observava lá longe a linha do horizonte. Gosto especialmente de observar as crianças à beira-mar, elas como que existem em outra realidade deste mundo quando veem areia e mar.

Observava distraída e atenta, os olhos viam e a alma registrava, mas eu vivia ali o instante. Foi quando um menino chamou minha atenção: menino nos gestos e na idade, mas aquele olhar era de um homem adulto. O olhar é essa janela, mas não são todas as almas dispostas a ler outras almas, é preciso um olhar atento, um interesse perscrutador para decifrar o que há num olhar. Gostei daquele olhar. Há coisas, talvez, que não caibam nas palavras.

Ele brincava com os meninos e meninas da sua idade, iam lá baldes carregados com dificuldade, cheios de água do mar, buracos cavados, castelos de areia milimetricamente planejados e executados. Quando vinha a onda e desmanchava-os, às vezes mesmo antes de terminados, havia indignação, estupefação, tristeza. E logo eles recomeçavam a batalha, o menino sempre mais determinado e metódico que os outros – eu reparava.

Do mar, o que posso dizer? Ele não desfaz nossos sonhos e castelos por maldade. Nele também não há como confiar. O mar é só mistério e incerteza. Para entendê-lo não precisa saber nadar, nem prender a respiração, nem pular onda ou identificar um redemoinho: só nos cabe vivê-lo. Já ouvi muitos conselhos, avisos e até as experiências alheias sobre o mar. De nada me serviram. Já aprendi a nadar de tudo quanto é jeito, sei usar bóias e pés de pato, sei ver as marés e o vento, até as águas-vivas consigo achá-las antes de entrar na água. Nada disso faz diferença. Cada vez que me vejo diante do mar é como se nunca houvesse estado ali – deve ser isso que mantém nossa relação tão profunda. E ele me atrai tanto pelo mesmo motivo. O mar é o desconhecido, é aprendê-lo todo novamente, a cada vez.

Por isso o olhar curioso daquele menino para o mar me deixou tão feliz. Ele parecia antever que ali havia muito a ser descoberto. Ele era inteligente também, pois tentava decifrar o que precisava para adentrar naquele mar que já era tão interessante, mesmo se sabendo tão pouco dele. Ficamos amigos, entre castelos de areia e ondas estouradas na praia. Ele flertava com o mar, chegava perto, se distanciava, interessava-se por outras coisas. Eu ficava ali, sempre tão fechada em mim, mas apaixonada pelo mar e volta e meia buscava sua companhia. Cada um no seu casulo e na sua teimosia. Mas o mar, o mar é invencível.

Essa amizade durou e o tempo foi passando, como bom amigo que sempre foi. Aquele menino sempre me olhava com seus olhos de adulto, e eu ria dos outros que não percebiam isso. Os outros estranhavam nossa amizade, pois não sabiam de nada daquilo que ninguém precisa saber porque as pessoas somente procuram o óbvio.

O dia na praia foi tombando o sol atrás dos morros e já quase noite o menino encarou o mar com vontade e com tudo o que aquele olhar me dizia. Eu quis ir junto, quis estar ombro a ombro com ele também naquele momento. Mas, como aquele personagem, que diante do mar, das ondinhas batendo nos seus pés, de toda uma nova vida diante de si, chora e desiste, o menino também desistiu. O menino me contou que entendia esse personagem, que se via nele. Eu não pude dizer-lhe que o medo é sempre mau amigo, por isso digo agora. O mar nos inflige medo, muito medo. Toda vez que o reencontro sinto medo e, bem, não sei explicar como o medo não me paralisa – talvez o truque seja não pensar. Porque o medo em si só existe na nossa cabeça, são os nossos pensamentos que se comem e destroçam e causam medo e dor. O medo se alimenta da dor.

O menino, então, não entrou no mar. Eu senti tanto e tanto que nem sei dizer. Às vezes, não sei o que fazer com meus sentimentos, prefiro levá-los para casa. O medo é aquele extremo que nos acovarda diante de qualquer coisa. Queria poder entendê-lo um pouco, pelo menos, para me desculpar de julgar o menino que não quis entrar no mar. Não consigo. Sempre direi que é preciso entrar no mar, sem antes nem depois. Sem experiência e sem saber, sem medo e sem planos, só entrar e vivê-lo. Segui para casa triste e fico aqui revirando momentos de um dia intenso como só a praia proporciona.

Ao fim da Primavera

Tenho saudade. Do suor escorrendo pelas têmporas. Do fio de suor descendo solitário e incisivo pela cavidade das costas… a nos recordar: o calor está de volta. Como lamento essas noites frias, o vento que derruba termômetros e faz do sol uma lembrança inútil. Saudade do incômodo da pele áspera da poeira e areia dos dias de sol inclemente. Qualquer aperto de mão ou esbarrão num estranho nos oferece a troca de calor corporal e gosma pegajosa. As noites curtas, os dias longos. Eu em paz comigo, outra vez. Eu com vontade de chorar pelos erros do passado e pelas perdas recentes. Eu pensando, diante da água que se espatifa contra a terra, que não sou mais eu, em tão pouco tempo. Eu, aqui, mais uma vez sem ter forças para encarar a vida. Eu tentando pensar que o mundo, enfim, não existe. Talvez, quem sabe, ele não exista mesmo. E a insolação, a pele ardendo de horas incautas ao sol. A alegria de parte da humanidade em bandos a fazer o almoço em família, a namorar à beira mar, a beber, gritar, aproveitando – dizem – cada segundo. Enquanto vejo o sol se pôr na sua cor mais linda, da varanda, pensando em alguma idéia que vi num filme ou li num livro. Tentando, por mais um ano, catar cada dia de um futuro preenchido de sonhos tão antigos. O sol se vai, assim, e nem é Verão. E há tanto a se arrepender, tanto ainda a aprender. Saudade de decidir não pensar e, assim, por si só, como milagre, não sofrer. Por vezes, reconheço, os finais podem ser melancólicos. Nada nos impede de fazer diferente, ou fazer de novo. Talvez, quem sabe, o Verão exista mesmo para ser aproveitado aos berros e cervejas. Ou, talvez, o mundo esteja aí para nos fazer esquecer de pensar. Tão mais fácil ouvir a canção e a água salgada eriçada pelo vento que não cessa… (nada me fará esquecer)
Tenho saudade de observar a vida alheia como se fôssemos de espécies diversas. Recolho-me às idéias, ao silêncio. Deixa o tempo, ele matará nossas saudades com seu prazer cruel.

Com as paredes

Falo com as paredes. Debato-me entre argumentos. Estas paredes tão velhas, tanto já ouviram. Escutam agora minhas lamúrias e minhas revoltas. Não dizem nada, por certo, mas, por vezes, ouço seus suspiros. Não dizer nada, em absoluto, me transtorna. Falo sozinha, é claro, quando quero (quase sempre), discuto cá com meus botões (é verdade) o tempo todo. Minha cabeça não se aquieta nem em sonhos. As paredes devem sabê-los, também. Falo com as portas e, por vezes, dou pontapés nelas como se acabassem meus argumentos e só me restasse a violência. Ou, talvez a frustração. Falo com as paredes, vejam só. Esses dias eu conversava com a parede da janela sobre o livro que estava lendo antes de dormir. É um bom livro e eu nunca tenho com quem discuti-los, na falta de alguém, servem-me as paredes. Conversava agora a pouco com a parede da porta da sala de visita, sobre as provas (últimas do ano, que alegria!) que estava elaborando. As portas e paredes são nossas velhas redes sociais – sendo que com elas não nos desgostamos das pessoas nem passamos vergonha nem nada. São solitárias amigas para bons pensadores. Quanta coisa já contei às paredes… quantos amores perdidos, quanta tristeza incontida, quanta esperança vivida. E eis aqui as paredes: minhas testemunhas. Pois, é claro, muito já viram. Elas têm ouvidos, graças ao bom Deus não têm boca. Se saíssem por aí contando tudo que confesso só a elas, estava eu arrependida (mais uma vez na vida). Mas, elas são boas amigas… me ouvem como se só existissem elas a me fazer companhia. Falo com as paredes, é verdade. Delas, não espero respostas. Delas, nem um abraço ou um beijo carinhoso. Delas, nem frases inteligentes ou chochas retrucadas. Delas, jamais longos diálogos madrugada adentro. Delas, apenas esta companhia que me segue a vida inteira. Talvez por isso tenho tanta aversão às paredes brancas, vazias, lavadas. Gosto delas preenchidas (de vida) de palavras, de rabiscos, de nomes, de marcas, de lembranças e histórias. Assim, de um jeitinho todo nosso, dialogamos. Falo com as paredes, até meus desamores conto para elas. Elas me ouvem. Elas suspiram que eu sei. Gosto quando sinto que elas discordam (gosto quando discordam de mim). Gosto de contar para elas como foi o dia, os altos e baixos da labuta. Mas, gosto mais ainda quando depois do burburinho e barulheira de um dia inteiro, elas me recebem no mais pleno silêncio… a noite silenciosa será só nossa. Ah, uma noite silenciosa… para colocar o coração na batida certa, para acertar os ponteiros de relógios digitais, para aclarar as idéias e ouvir os anseios nunca saciados. Falo com as paredes, rogo a elas que os problemas se resolvam (sozinhos, de preferência, pois que não quero nem ouvir falar deles), que o mês termine, que eu esteja sempre em dia, que sobre tempo para nossas conversas ao pé da noite a discutir o livro que está na mesa de cabeceira. À luz do abajur, penso que queridas são estas paredes que me olham e vigiam meu sonho. Ensinaram-me, além de tudo, a falar comigo mesma. Ensinaram-me a saber que bons diálogos são avis rara. Ensinaram-me o poder das palavras ditas na hora certa… ensinaram-me que as palavras nunca devem não ser ditas. Palavra não dita é palavra não vivida. Falo com as paredes pois não perco nem um segundo da vida. Desperdiçar palavras é desperdiçar a vida. Esta vida que passou enquanto você estava em silêncio. (ouço seus suspiros)

Atravessar rios

Atravesso rios. Pulo, feliz, de pedra em pedra e a água corre límpida. Não sabemos aonde vamos. Aceitei o convite sem nada na cabeça – esta mesma que deitou no teu ombro. Atravesso rios que em tempos ruins secaram e a visão do leito me angustiava. Sim, sinto; sinto angústia. Atravessar rios, contigo, é livrar a alma deste desvario que é a vida. A alma, afinal, sai do corpo e pode cruzar rios tranquilos no teu abraço. Nos outros dias ela geme baixinho a inclemência de uma vida que ela nunca quis assim. Tantos ruídos nos separam, além do leito seco. Atravesso rios, já os vi mais caudalosos, mais violentos, mais sedutores. Rios vi que me fazem sorrir sempre que lembro deles. Atravessar rios minha alma necessita. Surpresa foi tê-lo comigo. Pois sei, atravesso-os sozinha – como de costume. Sorri ao tão bem cair no teu aconchego e partirmos. Surpresa me vi atravessando mais um rio – tão bonito e infinito. Atravesso rios em noites de chuva neste impasse entre estações. Atravesso rios quando travam batalhas, dentro de mim, idéias e mundos reais. Lembra-te da leveza dos nossos pés a saltar as pedras, a molhar os pés, a sentirmo-nos seguros – quem diria! – como nunca me senti. E o leito secou e a realidade virou pó e os gritos lancinantes das vozes incabíveis e o desgosto chegou. A angústia, por si, voltou. E as horas giram o relógio, as horas repelem os sonhos, as horas não sabem quem eu sou. As horas viram dias que viram noites – e quem sabe atravessemos mais rios – que viram semanas que viram finais de semana que viram meses e meu tempo não chega. Conto cada milímetro de passos que não dou. Conto cada centímetro da cela onde estou. Conto cada centavo da hora que me pagam. A angústia conta as histórias dos rios que atravessei, cada noite antes de dormirmos. Enfim, não iremos a lugar algum. E o corpo deixa de existir naquelas horas que teu braço me envolve e atravessamos rios. Eis meu sorriso mais sincero.

Sorriso falso

Devolve minh’alma. Devolve que peno dias sem tê-la, sem meu corpo ter rumo. De matéria se desfaz e ignora a desfaçatez de toda esta grande merda que nos circunda. Devolve que quase já não respiro. Busco luz, busco calor – é inverno, bem sabes. Devolve esta que até me tira o sorriso do rosto, por bons motivos quando nos entretemos só eu e ela. Que este sorriso simpático exibo de pura falsidade – é, é mesmo, creia-me. Falta-me a alma a florir este corpo e a brilhar estes olhos – porque vêem o sorriso no rosto e mal percebem o opaco dos olhos, seus frouxos. Alma é para poucos. Tirou férias de mim, deixo-me às lamúrias de em nada ver alegria, de folhear páginas a bocejar, de morrer de tédio ao fio dos dias que passam sem memória. Quero-te, volta pra mim? Faça-me tripudiar das ladainhas estridentes destas gazelas ao meu redor. Faça-me encontrar-te ao lado da cama, todas as noites, para nossa charla sincera. Faça-me de novo ouvir música como o universo a clamar meus sonhos. Cadê tu, alma querida? Esqueceu-se de mim; sofreste, eu sei. Não queres mais a pentelhação de tantos nós nas cordas que me amarram – não queres mais sentir-te amarrada. Nem eu. O que faremos, então? Faço-te promessas. Quaisquer e todas. Não foste por vontade própria, bem sei. Teu algoz é a dor. Devolve minh’alma, sem ela sofro em dobro. Sem ela o chão fica e a queda é dura demais. Sem ela só resta o chão, em verdade. Sem ela este inverno nunca terá fim – e já há flores nas pitangueiras e nas cerejeiras; apressa-te. Vem, alma, foge e vem ao meu encontro. Faço-te promessas sem intenção de cumprir (vês como te amo de verdade?). Prometerei o mundo, porque sem ti as manhãs demoram a chegar e os dias demoram a acabar. Devolve minh’alma, dor. Que estar sozinha é minha melhor companhia. Que com ela sinto-me segura e capaz e até as coisas banais tiro de letra – ela é meu apoio e minha guia. Devolve minh’alma que sem ela desatino, atiro e mato. Dela dependo para ter paciência e elevar-me desta mediocridade, desviando dos ignorantes e infelizes. Dela tiro forças para chegar feliz a cada degrau, sabendo aonde chegarei. Devolve minh’alma, sua filhadaputa. Devolve que nem contigo mais tenho limites. Fico boca suja e desdenho de medo e autoridades. Danem-se. Quero minh’alma a dar-me colo, quando preciso. Vê-se bem que minha cabeça dela também precisa. Nem às idéias mais presto atenção, deixo-as no ir e vir do desalento – só em minh’alma há paixão. Vê só, sumiu-me até a paixão. Aí não tem mais jeito. Devolve minh’alma senão farei revolução – mas como se só com ela ponho o mundo de cabeça para baixo? Amuada, sem alma, quero mais que o mundo se exploda. Alma, volta. Prometerei tudo, mas duvido que sequer consiga te levar a ver o nosso mar. Mas, volta. Peço-te, assim desesperançada e emputecida. É que sem ti, só sei pedir. Volta pra nossa vida que está aí parece música de descornado que toca na rádio. Volta, não sei até quando este sorriso eu saberei fingir.

Falta da chuva

Os dias assim na cidade me carregam para um túnel de introspecção. Tudo o que já foi entretém meus pensamentos, silencio as palavras para me assoberbar de passado. Onde você estará? Talvez tenha sido alguma música na rádio, ou o sonho pela manhã, o que me trouxe você às lembranças. Você, ou os outros. Tanto faz. É o momento de não lamentar nada, nem ninguém. De sorrir das coisas boas – elas existiram, não sei negar. Também é malícia. Passo as curvas e a chuva fina a lembrar das declarações e elogios. Tenho especial apreço por ambos. Guardo-os a sete chaves (guardo-os todos, nem você nem ninguém sabe). Quem me elogia por vezes nem lembra – mas eu sempre saberei. As declarações… as pessoas deveriam se empenhar mais em declarar-se. Dizer o que ama no outro, o que ele significa para você… Tuas declarações foram inesquecíveis.

A chuva polvilha o vidro do carro e desenha poesia com as cores dos faróis. É isso que me convence a viver, hoje. Quem sabe tenha sentido falta da chuva. No sonho o passado estava vívido no que vivemos e, muito mais, em tudo o que nem chegamos perto de viver – nem poderíamos. A vida juntos não era para nós. Essa vidas que se encontram nos piores momentos e se afastam porque, simplesmente, não era para ser. Assim é. Nos sonhos somos quem não podemos ser. Atamos os laços que a vida desfez o nó. Em dias assim a vida faz todo sentido, porque ela permanece enquanto tudo muda. Não está ao nosso alcance prendê-la. E é bonito olhar para trás, hoje.

O frio sorrateiro foi o golpe certeiro para reavivar o corpo e a memória. Sou a mesma de sempre, não tenho como negar. São as músicas companheiras, a solidão amiga, os sinais conselheiros, a natureza amante, o distanciamento inerente… sou eu. É preciso voltar ao prumo. É preciso ser quem se é. Meu desespero foi tentar ser aquilo que não posso ser. É bom deixar o mundo do lado de fora, ouvir uma canção de dor de cotovelo aos risos e lembrar das tuas palavras sedutoras. Por um instante retomo meu tempo e dou menos valor ao bizarro da repetição do cotidiano. E não esqueço tuas declarações. A chuva persiste a embalar nossos desejos e quem sabe os sonhos que a noite trará…

A chegada do frio…

O frio jamais poderia ser explicado a alguém que não sente. Privados dos sentidos, somos incapazes de compreender algo apenas conceitualmente. É assim com o doce, também. Como dizer o que é o doce, de um quindim, por exemplo, a quem jamais comeu doce? As idéias das coisas são inalcançáveis por quem não as vivencia.

Assim é o amor. Como explicar o amor a quem não o sente? Poderíamos passar horas narrando relações, explicando gestos, conceituando sensações – de nada adiantaria. Nem a dor, vejam só, pode ser explicada. Mas quando a sentimos sabemos que é ela. Ao contrário, talvez, do doce que quando experimentado só recebe este nome porque assim nos dizem que é, a dor é gatilho para seu alcance no tal mundo das idéias, ou da linguagem, como queiram.

O frio, então, vai espalhando suas garras… ou tentáculos, quem sabe. Vai se infiltrando pelas frestas das paredes rachadas, pelo vão das portas mal fechadas, pela dureza genuína dos vidros das janelas. Invade tudo sem nos darmos conta, faz gélida a fronte, nos dificulta a respiração. O frio brota sabe-se lá de onde, causado pelos fenômenos naturais e pelas Estações do ano e pela inclinação da Terra e tudo tão bem explicado. Mas, em verdade em verdade vos digo: nunca sabemos quando ele chegará. Ele chega, simplesmente. E de tudo se apodera.

É o frio que congela os olhos e a tudo dá um tom de paralisia. Para a vida se faz necessário o calor – o sangue é quente. Do frio nada nasce – o ventre é quente. O frio não se emociona – a raiva e a paixão são quentes. O frio não se comove – a lágrima é quente. Do frio não há luz – o sol é quente. Frio não é vida.

Querendo ou não, ele chega. E fica. Às vezes, vai embora – por vezes se demora. É difícil vê-lo se aproximando, quem sabe. Talvez quando a luz vai sumindo, quando os bichos vão silenciando, quando as árvores vão perdendo as folhas… quando a vida se cala. Num sopro, quem sabe. O último sopro já frio. E ao sentir o frio não sentimos mais nada – ele corrói as alegrias da alma. Ele se alastra pelos pensamentos mais bonitos. Ele escurece a visão mais ampla.

Dizem lá os calculistas que um dia ele irá embora. Fácil assim, como na natureza onde para tudo há uma explicação, onde tudo é previsível. Enquanto isso, há os que sentem – e há aqueles para os quais é impossível explicar os sentimentos abstraídos em conceitos, nem mesmo explicar o frio posto que parecem nem ter a fina pele a cobrir seus corpos.

O escritor morto

Certos dias não nos dão inspiração. O escritor é este trabalhador das idéias e sonhos, também cumpre horários, agenda, por vezes trabalha em outras profissões, por vezes só escreve quando se aposenta. Ou, é claro, o escritor profissional, tanto pela arte quanto pelo dinheiro. De fato, pouco importa. Ser escritor sem ser reconhecido, nem pelos seus. Ser escritor sem ser publicado. Morrer, quem sabe, antes de alguém ler suas historietas. Escrever porque é o quinhão que Deus lhe deu – ou assim você pensa. A escrita é ingrata, dirão (eu sei). Não é não. Você não precisa de ninguém, só dela – e nos bastamos a ambos. Reconhecimento é outra coisa. Você pode ser reconhecido por tanta coisa, não é mesmo? Por ser o maior esquartejador da história de um país, por exemplo. Ou por ter levado um império à ruína. Ou por ter inventado o avião – ou qualquer coisa dessas que revolucionou as eras. Pouco importa. Para um escritor é preciso reconhecer-se nas linhas, no ritmo, nas rimas, no desespero de um personagem. Não falo de auto-escrita, longe de mim! Esse negócio do escritor que escreve sobre escrever é contemporâneo demais para mim. Pense na morte e na escrita. Você vai, seus textos ficam. Aquele mundo imaginado preso eternamente nas folhas do mundo. Deixa de ser você, certamente. Não apaziguará nenhuma eternidade, certamente.

Viveu, escreveu, foi feliz: parafraseando Merimèe. Ninguém entenderá. Talvez tenha querido mudar o mundo com suas palavras. Mais contente se fez o vento. Quiçá tenha encontrado admiradores. Outra coisa que de nada serve na vida: não se fica rico nem mais inteligente com isso. Saberá lidar com o desprezo alheio, mesmo dos mais próximos. Saberá lidar com o ego que almeja prêmios, publicações, fãs. Saberá. Senão, não o será. Para poucos escrever é dar a entrever um pedacinho de sua alma (para bem poucos). Outros têm grandes e importantes coisas a dizer. E que importância damos à alma alheia? Nenhuma. A vida passa, as letras ficam. Os livros acumulam-se nas estantes, os textos perdem-se na web algorítmica, as revistas viram lixo, os cadernos se perdem. O tempo passa e tudo o mais se produz novamente. As modas suplantam os gênios do passado.

O escritor era mais um alguém neste mundo. A morte não o cala, mas ele talvez quisesse dizer mais alguma coisa. Quem dera a vida se fizesse somente em palavras. Às vezes não há inspiração, às vezes não há nada, nem drama nem poesia nem personagens. E as palavras fluem porque escrever se traduz em ato e em ganas de viver. Viver, assim, por angústias que preenchem linhas vazias (que nem existem mais). De nada adianta. Se fosse sucesso, fama, dinheiro, teria. Mas quer aquilo que, enfim, ninguém entenderá.

Caminho

É preciso o caminho. Cada passo se faz entrega. A olhar casas de janelas fechadas e entre ruelas estreitas. É preciso caminhar sob o peso do que trazemos no peito, ao som das rodas daqueles que nos ultrapassam velozes. Tão rápido o andar alheio. É preciso dilatar o nariz a sorver mais ar, mais fôlego, quanto mais o chão se inclina. Sob os pés, cimento duro, asfalto escuro, barro e pedregulho. É a senda que te faz tão humano. Novo parágrafo é retomada após um breve descanso.
Esquinas a nos desafiar: me tomas ou segues? Feia é a queda de quem não tem resposta. E em qualquer parada perde-se a força, atraem o conforto e o abrigo e algum abraço. Chegada que nos parte, desejo não alcançado em parte alguma. O caminho exige bons calçados, os gastos ficam pelos canteiros ou presos em fios de luz. Teus passos por ali não são únicos. Não vês pegadas para não sucumbires. O sangue derramado inunda as esperanças e mina os caminhantes. É preciso amparar aqueles que não tecem seus próprios trajetos, nos atrasamos, assim, sem deixar a virtude. Muitas ficam pelo caminho – quanto mais demorado o passo, mais fácil mantê-las junto à alma. A pressa descarrega – se do que não considera útil.
No porto indiferente são os caminhos, de todos os lados vêm mãos vazias e cabeças cheias – não há ponto de largada nem bandeiras na chegada. Por isso, é preciso o caminho. É precioso caminhar – sozinho. Tanto lento se realiza tão grande se faz bonito. É o caminho. Preciso se dá em calma. Certeza de sucesso é que se morre pelo caminho.

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