Quando ele vem

Quando ele vem, o sol esquenta a porta da frente de casa. O ar fica leve e meu sorriso – que é todo para ele – aflora. Este sorriso, que é dele, às vezes deságua em gargalhada, por vezes em risos frouxos e cócegas, e de vez em quando até entre olhos marejados. É no ombro dele que lágrimas silenciosas dizem tudo o que preciso. E me deixam pronta pra outra. Ele é sempre bem-vindo e tem seu lugar à mesa do almoço. É por ele que eu espero a semana inteira – quando não há os, também santos, feriados e folgas.

Antes de tudo eu quis o abraço dele. Eu, que nunca gostei de abraços – ainda não gosto, só do dele. É neste abraço que eu gosto de estar depois de dias e noites de tanto trabalho e agruras da vida. Essas que a gente tem que suportar, lidar, resolver e seguir em frente. Ele diz que eu sou boa nisso. Eu cá tenho minhas dúvidas. E quando eu pergunto como faremos com os percalços, ele me diz que passaremos por eles e os deixaremos para trás. Acho que nunca ouvi algo tão lindo. E, aliás, devo sublinhar as respostas perfeitas que ele dá (eu, que sou a lady das perguntas).

Quando ele vem, as gatas miam em algazarra. Meu cachorro agora tem seu melhor amigo. E eu nem sinto ciúme. A gente divide bons sentimentos numa boa. Ele toma meu tempo, quase todo meu tempo. E não saberia mais outra forma de ocupar as horas.

Quando ele vem, visto meu melhor humor ao acordar – mesmo que mal tenha dormido algumas poucas horas. Vasculho meu lado bom e distribuo minhas alegrias. Nem sempre, porém, sou só sorrisos. Ele já esteve ao meu lado nos piores momentos. Já ouviu meus impropérios (e acho que sou bem boa nisso). E ficou, ali, ao lado. Não só me abraçou como me levou ao alto do morro para termos aquelas conversas sinceras, profundas, entre almas que se entendem. E quando estou imersa em problemas, ele fecha janelas e cortinas ao anoitecer. Eu reparo.

Quando ele vem, até o dia na cidade fica bonito – com a chuva fina a nos levar para debaixo do cobertor ou o sol a nos garantir uma tarde no quintal. Nesses dias eu garanto o almoço me exibindo na churrasqueira. Ou apenas relembramos nossa história a confundirmos dias e meses. Ou desejamos nossas próximas datas juntos.

Quando ele vem de surpresa, é que eu tenho certeza.

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O minuto

Era um minuto. Aquele um minuto que não faria diferença nenhuma. Mas, você sabe, é o minuto que transforma a pontualidade no atraso. E atrasos são mal vistos. Atrasos são descontados. Eu tinha me tornado aquela pessoa que vivia de contar minutos, na minha vida eles faziam toda a diferença. Comprovei, naquele instante, que eu era agora essa pessoa que xinga no trânsito porque saiu dois minutos atrasada e se perder um sinal aberto parecerá o fim do mundo. Eu, eu tinha me transformado em quem eu nunca quis ser. Tinha alguns minutos para resolver: ou me odiaria para o resto da vida ou mudaria tudo agora.

O tempo e eu sempre fomos amigos, bons amigos. O transcorrer diário dele, inicialmente, era um problema. Mas até nisso consegui me dar bem. Eu não me importava com ele. Vivíamos bem. E começamos a ser escravos um do outro. Comecei a vender meu tempo. Comecei a ficar sem tempo. As linhas da agenda sempre escassas para tanto compromisso marcado, remarcado e acumulados. De amigos passamos àquelas duas pessoas que convivem próximas diariamente e não se suportam. Nem nos olhamos direito. É evidente, me odiarei para o resto da vida caso não faça nada a respeito, caso não façamos as pazes.

Minha maior vitória, por vezes, é num dia ter este tempo sagrado para duelar idéias. É ter o tempo sagrado de algumas páginas à luz do abajur no silêncio das cobertas antes de dormir – que nem o sono mais tem sido meu refúgio. Essa inimizade tem me custado horas de sonhos. Eu trocaria alegremente alguns dias inteiros por meia hora dos meus sonhos. Eu não queria ser a pessoa em quem eu me transformei.

Foi, então, naquele minuto, que decidi que precisava fazer alguma coisa – por mim. O tempo era meu amigo, continuaria sendo. Precisava dar um jeito. E foi quando me dei conta que eu tinha me transformado naquela pessoa que diz “pelo preço deste creme só se me deixar com a pele da Elisabeth Taylor”. Foi assim mesmo, na sequência. Eu era a pessoa que eu odiava. Que nunca tinha tempo e achava tudo caro. A vida, enfim, desse tal capitalismo selvagem resume-se à falta de tempo e ao dinheiro contado. Tudo resume-se a tempo e dinheiro. Eu sou quem eu odiaria pro resto da vida: em busca de tempo e dinheiro.

Estou presa neste instante. Seguirei sendo quem odiarei para o resto da vida ou há alguma saída, algum caminho que não me faça ser quem eu nunca quis ser? Há, ainda, ao meu alcance uma decisão que mude as consequências dos fatos? Posso viver com tempo e sem dinheiro?

Estou presa neste instante. No momento só odeio quem eu sou. Vejo no horizonte: ou ficarei indiferente ou a revolução se fará.

Arrumarei a mala

Hoje eu arrumarei a mala. Já é tarde, veja, a noite desceu seus braços gélidos sobre nós e nos arrasta na escuridão. É bom andar pelas ruas no inverno, eu gosto. Mas, hoje, eu queria ir ao inferno. Dizem que lá faz calor. Arrumarei a mala para ir ao teu encontro. O dia pesa, o cansaço mortifica, a rotina sangra e os problemas perfilam-se diante da porta. Deixarei, prometo, tudo isso fora da bagagem. Irei leve. Arrumarei a mala com meu sorriso e uns vestidos: se fizer frio, terás que me esquentar.

Arrumarei a mala. Está decidido. Pegarei o rumo das nossas alegrias. Quero tanto te ver sorrir. Me dividirei em três – quatro, quem sabe – para mandar cada uma de mim a todos os compromissos e obrigações e pegarei a estrada rumo ao teu endereço. Quero estar junto. Quero te dizer saltitante “olha a lua!” no meio da tarde. Quero suspirar ao pé do teu ouvido “que luz linda tem o sol do inverno…”. Quero, porém, ir longe. Quero aprofundar os nós que nos unem e desatar as nódoas com que a distância nos surpreendeu. Quero encher a mala com lembranças de cumplicidades à beira-mar e gargalhadas no sofá – me prometa que nada disso faltará e irei ainda mais cedo. Levarei num cantinho da mala um bilhete laranja para esconder sob a dobra da colcha no dia da despedida – porque, inevitavelmente, ela chegará. Viver sem teu abraço é um desperdício de dias… nossos “até breve” contêm a imensidão de um amor que conta dias, horas, tardes e sábados.

Arrumarei a mala agora e chegarei assim de surpresa. Eu sei que você gosta. Arrumarei a mala com as certezas de uma vida inteira e dúvidas de um dia sem sol. Arrumarei a mala com a ânsia de quem sequer precisa dela, é vontade e partir e te ver. Arrumarei com a pressa de quem tardou em dizer que não quer mais o tempo entre nós. Quem sabe eu leve um livro para ler em voz alta nos nossos momentos só nossos. Arrumarei a mala com dezenas de angústias do passado que quero afogá-las no rio que margeia o porto, que a maré as leve para nunca mais.

Arrumarei a mala, com cuidado enrolarei num cachecol meu coração, vívido de esperanças coloridas a querer dar-se a quem o aceitou. Arrumarei a mala para ir ao teu encontro. Arrumarei a mala nas últimas horas que me restam do dia. Que dias sem ti vazios se esvaem em friezas.

Enquanto o frio…

Talvez a chuva não passasse a esmo os meus pensamentos. A cada passo encharcava mais meus tênis e sentia os pés frios. Talvez o frio me lembre sempre a morte e, por isso, não consigo suportá-lo. Eu detesto a morte. Detesto pés frios. Detesto sentir frio. Talvez estar próxima do mar me fizesse sentir menos, menos solidão, menos tristeza, menos pessimismo diante de tudo. As idéias não haviam me abandonado, era só um “momento de introspecção” eu diria a quem quer que fosse. Os silêncios jamais me abandonariam. E eu reparava nas folhas dos sombreiros – que dizem estar mortos – abandonando-se na calçada tão bem preservada. Era poético, como a névoa chuvosa que chegara à praia habitada apenas por algumas garças – quase nunca vistas ali, pois incomodam-se com o chiar das pessoas. Eu observava as garças, sem querer atormentá-las com a minha presença. Talvez eu sempre tivesse reparado no charme da Estação. Talvez, ainda, eu tenha preferido ignorá-la porque a tristeza sempre me visitava por esta época. O frio, talvez, fosse o culpado.

E eu que detesto coisas artificiais – sobrancelha pintada, silicone nos peitos, unhas de gel, megahair, cílio postiço: de tudo isso Deus me livre – vivia esses dias no aquecedor, na água aquecida da piscina. Só assim conseguia suportar o frio. O frio que não me lembra em nada a vida. Essa era minha agonia saudosista, sentir o calor sobre a pele, sentir o cheiro de pele queimada de sol. Talvez eu banhasse em brasas de vinho meus sentimentos para passar mais rápido esses longos meses em que escurece tão cedo – tão cedo. Escurece muito cedo. Por aqui logo estão todos aninhados procurando o calor que deve ser a mesma coisa que amor. Eu tenho, por vezes, um pavor do frio. Tenho pavor de ficar tanto tempo sem ver o sol – é como se não houvesse vida.

Os dias vão passando e em nada eu busco contar dias a menos – somente dias a mais, de mais frio e de mais chuva e de mais nuvens. São menos dias que me separam da próxima (sempre inesquecível) Estação e eu insisto em não ver assim. Meus planos não duram uma tarde inteira. Meus entusiasmos não duram um fim de semana. Minha alegria nunca chega ao fim de uma segunda-feira. Em breve o dia finda, as cortinas se fecham, a escuridão toma conta e o silêncio se impõe. Até às sete da manhã seguinte. Como num túnel sufocante que mascara todas as nossas possibilidades. E só há possibilidades aos que estão vivos. A morte é o fim das possibilidades – todas elas. Talvez como um garapuvu que morre todo ano no frio para reviver alegremente no calor. Talvez tenhamos essa vida intermitente para apaziguar a alma. Talvez os fins sejam, quase sempre, recomeços. Às vezes, porém, são apenas tropeços.

A noite em pó se transforma antes de virar uma interminável madrugada. Enquanto isso eu choro ter perdido o que, por vezes, nem sei direito. Os livros que não li, os olhares que não amei, os lírios que nunca plantei, os desaforos que não vinguei. Nesse intervalo busco inspirações antigas, aguço o olhar à procura de poesia onde há somente vida, praguejo contra o tempo, sorrio de pés molhados, tomo um banho quente, experimento não pensar, às vezes. Daqui um pouco, lá se foi o mês, lá se foram os planos, lá me vou ao sonho.

Mapeando

Há mapas que devem ser feitos e destruídos. Eles revelam realidades, obstáculos e perigos que melhor seria caso nunca fossem visitados por mais ninguém. São traçados em cicatrizes que, se estão fechadas, certeza que podem doer como quando abertas. As feridas cicatrizam, mas jamais deixarão de existir. Nossos corpos são mapas das nossas vidas, físicos ou metafísicos, escondem cada pedacinho da nossa existência – e não nos deixam mentir, nem fingir. Por vezes, nem esquecer.

São essas rugas ao redor dos olhos. Esse pequeno corte no joelho esquerdo e a pequenina cicatriz na palma da mão. Vejam só, a cicatriz debaixo do olho direito ninguém percebe, nem de perto – e é a que mais te dói. É por este mapa que o outro precisa se aventurar… sem segunda chance, sem dicas nem bússolas. Ele deve percorrê-lo por sua conta e risco, simplesmente. Deve te abraçar e com as mãos leves e temerosas seguir tua espinha a buscar tuas contradições e medos. Não há como guiá-lo, ele deve escorregar pelos teus erros e pelos teus fracassos, deve deparar-se com as tuas alegrias e tuas esperanças.

Certas respostas não existem, assim como não existem explicações para ser como somos. E não podemos fazer nada além de guardar os mapas. Corajosos são os que se aventuram por eles, os que decidem navegar pela vida de alguém – caso este alguém valha a pena ou seja a razão da sua felicidade. Ainda assim é dada a opção de aventurar-se com este alguém, sem sequer tocar-lhe os mapas – a maioria, aliás, das pessoas faz isso. Elas escolhem viver com alguém, mas não entregam seus mapas. Sábia escolha, diriam uns. Mas jamais serão vidas completas, eu garanto.

Os mapas, contudo, por si, não dão garantia – de nada. Você pode navegar anos a fio num alto-mar revolto e sem rumo, ou perder-se numa mata densa e fria por um tempo sem conta. Acontece muito, eu bem sei. Nem toda a tecnologia disponível, que une pessoas que estão a milhares de quilômetros de distância numa pequena tela, substituiu o bom e velho mapa feito a mão. Ele tem a textura das descobertas, as cores das dores e esquiva-se das perguntas num leve enrolar de folhas.

São nesses mapas que, por vezes, tropeçamos. São deles que não falamos à mesa do jantar nem no dia que te pediram a mão em casamento. Há quem se contente com GPS e desculpas sem fim sobre qualquer uso inteligente de novos meios de guiar-se pelo mundo. Eu não conheço, ainda, nenhum melhor e mais eficaz do que as mãos a tatearem peles lisas intercaladas por cicatrizes. As mãos que induzem os olhos a se revirarem no quarto escuro. Olhos que, ao amanhecer, percorrem as rotas mais tortuosas do outro que se encontra adormecido ao lado. Mas só é possível quando não destruímos todos os nossos mapas, quando decidimos guardá-los para nossa lembrança de tempos e destinos que nos trouxeram ao presente – e para, quem sabe, entregá-los a alguém, com as mãos trêmulas e os olhos rasos d’água e dizendo mentalmente “toma, são teus, porque és digno de saber todos os meus caminhos” – desatinados, certamente, e são uma minoria expressiva.

Temores

Eu temo por quem viu o saldo do banco hoje, mas perdeu o pôr do sol. Temo por aqueles que correram tanto, mas tanto, para chegar ao mesmo lugar. Pelos que não reconhecem seus filhos e pelos que choram sozinhos. Eu temo por quem não teve tempo de rever um grande amigo. Temo por aqueles que não se renderam ao prazer e à preguiça, pelos que não olharam para quem estava ao seu lado. Eu temo.

É esse meu temor que me leva a caminhar pelas cidades observando vidas que não me dizem respeito. Quero um tipo de certeza de que temos escolhido viver melhor, viver, enfim, de verdade. Temo que estejamos, ainda, perdendo tempo com as coisas poucas, com o banal e insignificante. É esse meu temor que me faz refém, dias em casa, da suspeita de que não sabemos como corrigir erros do passado. Soubemos refazer nossos caminhos? Soubemos repensar nossas atitudes? Ou apenas repetimos as ações que vimos nos outros, durante toda a nossa vida?

Imitamos os gestos que nos trouxeram para caminhos insípidos, sem cor nem gosto. Pergunto-me: não aprendemos? Temo pela resposta. Temo saber que giramos em falso, que falhamos em desbravar novas realidades. Temo abrir bem os olhos… e ver que nada mudou, nunca. É uma sensação bíblica, temer. Eu temo que exista uma força muito superior que veja ao vivo e em cores toda a nossa podridão e má vontade em fazer disso aqui um lugar melhor. E se essa tal força resolver se vingar? E se ela descer sobre nós sua mão pesada e impiedosa a nos cobrar pelas nossas faltas, das mais graves às mais severas? Nada restará de nós. Nada.

Eu temo não ter tempo o suficiente para pregar que podemos (se devemos for pesado demais) ser outras pessoas: mais gentis, conscientes e solidárias. Eu temo ser pouco clara e objetiva ao tentar converter novos fiéis às minhas crenças de um mundo justo, bom e recíproco. Eu temo, todos os dias, não dar conta da minha parte. Eu temo, por vezes, escorregar imperceptivelmente para o egoísmo… temo que minha desatenção sutil prefira o caminho suave e sem pedras.

Eu sei que é possível, mais do que o tanto que eu quero acreditar que é. Eu vejo minha esperança refletir nesses olhinhos opacos que mal viram o bem e o mal a lançarem-se em batalhas ignóbeis. Nem por mágica, porém, conseguirei arrastá-la pupilas adentro. São olhos assim, menos inocentes do que ignorantes, que imitam as velhas almas das quais precisamos nos livrar. Precisamos, é uma certeza. Eu temo que haja um círculo vicioso.

Temo não saber para onde voltar, qualquer dia desses, com a vista enevoada sob uma pesada fumaça cinza do rancor das nossas ações. Temo não encontrar mais a placa de salvação anunciando um retorno para breve ou um simples atalho – quem sabe um “Vá devagar: estamos em obras”. Temo pelo dia em que todos os relógios pararão e nossos dias serão o inferno da repetição. Temo acordar e lutar pelo que não me satisfaz a alma. Temo que, depois, eu veja que foi tudo em vão.

Foi-se

Eu deveria ter desistido – enquanto havia tempo. Deveria ter dito aquele “não” que ficou enrolado na língua que cedia e se lambuzava de arrependimento. Deveria ter arrumado a mala quando deu uma vontade irresponsável, quiçá cruel, e partido – sem volta. Deveria ter pensado em mim, senão sempre ou em primeiro lugar, pelo menos em algum momento. Deveria ter seguido quando fizeram sinal pra parar perto da estação e com um trem vindo noutra direção. Mas eu parei. E fiquei a olhar a poeira que o trem deixou para trás. Sem dó de mim.

Quando deveria ter acabado, eu coloquei reticências. Foi uma besteira, eu sei. São essas sucessivas besteiras. Eu deveria ter me afastado e quando vi estava ali bem no meio, envolvida até a raiz dos cabelos. Em algum momento eu deveria ter pedido ajuda – mas e o orgulho? Eu deveria ter descansado naquela tarde chuvosa depois do almoço. Deveria ter dito que eu te queria – tanto – ali, agora, logo, e que você viesse de qualquer jeito. Boba que fui, escrevi sinais. Você não leu. Eu deveria, veja só, ter sido clara e objetiva. Deveria ter aberto mão das metáforas – em tantas oportunidades da vida.

Uma única vez eu deveria ter dito sim – e quem sabe eu tenha dito, mas só em pensamentos. Deveria ter tentando uma vez mais, só uma, ao ver que o sonho se partia ao meio. Deveria, é certo, ter sido ainda mais feliz naquele dia, naquela ilha, ao deitar os olhos sobre o mar que me separava do mundo… Deveria ter desejado o bem a quem nem conheço direito. Por umas vezes eu deveria ter caminhado bem devagar sob a chuva, a pensar que a água me benzia. Deveria ter sentido o frio a me congelar as mãos numa noite sem esperança.

Eu deveria ter recomeçado a vida, em todos os ontens. Deveria ter deixado aquele remédio escondido debaixo da língua para jogá-lo fora quando me dessem as costas, e deveria ter engolido o gosto da desilusão com dois copos extras de água. Hoje mesmo eu deveria ter deixado o coração bater mais sossegado. Deveria ter rezado ao acordar, ansiando que o fardo ficasse menos pesado. Deveria ter suplicado a Deus que me ignorasse na minha mesquinhez.

Perdi a conta de quantas vezes eu deveria ter me penitenciado menos. Não quero lembrar de todas as vezes que eu deveria ter chorado – e segurei até os olhos racharem a beleza do mundo. Nem sei ao certo se houve algum momento que eu deveria ter sido mais dramática, entrado em desespero e me jogado ao chão. Deveria mesmo ter aprendido a compor para nessas horas ficar só com um violão a melodiar as coisas do coração. Eu nem sabia, mas deveria ter pensado mais no amanhã – viesse ele ou não, nunca se sabe. Às vezes, ele vem.

Deveria ter esquecido… e tomado aquele chá para dor de estômago. Deveria ter evitado uma gastrite, uma cirrose, uma anemia. Deveria ter pensado menos – bem menos, é claro. Deveria ter fechado os olhos antes que eles se arregalassem demais. E deveria ter perguntado qual caminho seguir antes da encruzilhada. Ou antes que a noite chegasse. Ou antes que minha alma se cansasse.

O pessimismo do mundo

A nossa felicidade é um erro. Pessoas passam fome, não vê? Pessoas sofrem vidas inteiras. Pessoas morrem nos hospitais, todos os dias. A nossa felicidade é um crime. Meu tempo em sorrisos e mergulhos é um desaforo contra o mundo. Somos desaforados, meu bem, em viver o amor. Porque não devemos ignorar o sofrimento alheio, porque devemos contrição em dias e noites de vigília. E eu, eu daria um naco desta felicidade para os infelizes inúteis de plantão e – claro – aos sofredores de dores reais. Simples assim. Por vezes seria mais eficaz que mil orações.

Eu já quis crer, inclusive, no futuro. Um futuro onde nossa felicidade não fosse contaminada pelos desamores alheios nem pelas tristezas de uns muitos. “Se parar pra pensar”, pois bem, penso sem parar. Não quero parar agora, nem aqui. Vamos em frente. A felicidade sempre será (mau) julgada. É como despertar uma ira dos deuses do mal aos desafiá-los com abraços à beira-mar. Como podemos ser felizes? Veja aí como o mundo se despedaça aos nossos pés: degolas em presídios, amigos em coma, crianças abandonadas por passarem fome, pais perdendo os filhos para a droga, pais que matam seus filhos e mulheres. Isso é mundo, meu bem? Que futuro terá este mundo?

Eu te espero aqui a pensar que não podemos perder um segundo. Perdoe de praxe essa minha eterna pressa – essa minha enorme gula pela vida (e por uns doces). Calculo o tempo, veja só. O futuro do mundo está condenado. E é isso que mais me motiva para jogar-me à margem das falsas esperanças. É preciso guiar-se por outras leis, por outros códigos de conduta. Os do mundo envelheceram e o levaram à desgraça. Precisamos de novos. Que não condenem a felicidade alheia – nem a nossa nem a de ninguém.

Quereria doar pedaços da nossa felicidade a ver se assim posso fazer mais pelos outros do que levar roupas velhas a um asilo, do que acender velas aos santos e do que doar cestas básicas às famílias pobres. Hoje é o que tenho a oferecer: pegue e vá ser feliz. Felicidade aquece, salva vidas e enche o bucho, sim. A gente é que é pessimista. Muito pessimista.

A nossa felicidade, meu bem, é o melhor que temos. Dirão até que é perda de tempo ou que não cumprimos as regras ou esperarão de nós coisas que nem imaginamos. Quererão que sejamos infelizes, por certo – é o que fazem algumas pessoas, sempre. Mas sou boa guardiã do que me interessa. Só não garanto que a louça esteja lavada quando você chegar, ou que eu tenha fechado a casa como deveria (acontece). Me perdoe de praxe essa falta de atenção e tempo para todas as coisas que deveriam ser menos importantes.

Amuletos

O primeiro sinal é não olhar-se ao espelho. A imagem não é mais duplicada, é única. Mesmo invertida, desnuda-se mais do que convém. O segundo sinal demora a aparecer: é a mão que não está só – nem apertando convulsivamente a outra mão de si mesmo. Mas, voltemos ao espelho. Ele, como diria o poeta, é amuleto dos ciganos. Por vezes tão difícil conviver consigo mesmo, qualquer droga nos alivia este peso. E o espelho ali na sala, perto da porta de entrada, não nos deixa escapar. O espelho do banheiro aprisiona a cara lavada – deste, mesmo, impossível fugir. Ele não nos despe, ele nos invade. Não tem melhor ângulo nem a cara de malvado: ele nos vê no todo. E ele percebe.

A mão cofia a barba no meio de um trabalho complicado. Ela cutuca aquela espinha dolorosa no nariz. Tamborila o vidro da mesa numa reunião chata. Sacode freneticamente o lápis durante o desenho que não sai como deveria. Agarra com vontade a colher de pau diante da panela fumegante. A mão, eis nosso símbolo mais solitário. Ela vive por si sem mais. E, por isso, é o segundo sinal: mete-se entrelaçada em outra. Aconchega-se nas reentrâncias da mão de alguém. Antes disso, entre o primeiro e o segundo sinal há uma longa distância – e muito pode-se fazer para não chegar de um a outro, caso se deseje.

Voltemos ao espelho. Ele é indesejável. Quem dera um Photoshop ligasse automático quando nossos olhos fixam o perfil de soslaio: tudo seria mascarado. É o olhar, por certo. Ele denuncia qualquer movimento intenso do coração. Mas é também aquela ruga minúscula debaixo dos olhos que nos contam das horas sem dormir à espera das palavras e gestos. Quando menos se quer, são os lábios que escancaram o prazer que tens sentido – e, quem sabe, desejaria camuflar. Só pra não dar, assim, na cara. Ou a tristeza, vejo-a bem, que deixa os lábios secos e pálidos. Mira o piscar, lânguido e demorado. Os olhos não fixam de imediato, todo o rosto questiona a realidade em volta: o que foi mesmo?

Aí não tem mais volta. Pelo menos por enquanto. Logo, logo as mãos serão surpreendidas. Então, talvez os espelhos nem importem mais. Ou deixaremos de reparar neles. Não me admira que o espelho tenha caído em desuso. As telas dos celulares refletem a nossa aparência, recorremos às dúzias de autorretratos quando queremos saber como estamos. Assim, não vemos nada. Não vemos mais nada. Assim não se vê o primeiro sinal: os olhos vêem só o que queremos ver de nós.

O espelho rouba-nos a alma, sabedoria indígena. Nossa reação ao roubo é sempre de autodefesa. Não somos capazes de enfrentá-lo: vai, espelho, toma, leva-me a alma. O espelho é o traidor dos apaixonados. Apunhala de frente, sem acovardar-se, no meio da testa. Crava-nos a verdade e nos desalma sem amparo. Sábia lição dos ciganos. Levaria muitas páginas a descrever todos os sinais seguintes. Não têm importância, de fato. Quando necessário, só recorrer aos espelhos – há muitos deles por aí. Alguns mais especiais que outros, pois lhe dirão com todas as letras, te chamarão pelo nome, inclusive. Para os mais inseguros, recomendo aqueles de bolso, perfeitos para momentos de emergência – apesar de pequenos, elucidam grandes dúvidas. E são do tamanho dos mais preciosos amuletos.

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