Perdoei

Aprendi a inundar a alma

cada onda passa

sussurrando os nomes

dos inimigos

Atiraram – me pedras

Rogaram – me pragas

Derrubaram – me

Zombaram das minhas conquistas

Mergulhei

afoguei as desonras alheias

                em perdão. 

O mar se esbalda 

nos pecados dos desamados;

Desejam o mal

Respiram o mal

Alimentam – se de ver

Vidas se perderam

Lava, molha, afoga 

            perdoa. 
Perdoa aos que te doeram. 

Perdoa aos que sucumbiram. 

Perdoa como eu perdoei. 

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Histórias de Natal–A Neve

A menina de cachos castanhos, sentada à janela aberta, com os cotovelos apoiados no beiral admirava o que via lá fora. Seu cachorro, sobre as duas patas traseiras, também olhava arregalado para a vasta branquidão. A mãe passava pela porta do quarto a trovejar “fecha esse vidro, menina, vai ficar doente nesse frio! Que mundo louco, em pleno dezembro! O mundo ficou louco! O mundo ficou louco!” e seguia atarantada pela casa, sem saber ao certo o que fazer – como muitas e muitas pessoas pelo globo afora.

Nevava. E a menina deslumbrada observava aquela maravilha em floquinhos a cair do céu e o tapete congelante e fofo que se espalhava pelo pequeno jardim e pela rua. Crianças sem roupas apropriadas corriam sem jeito, mães ficavam pelos cantos, espantadas e segurando sombrinhas. Nunca nevara por ali – como numa grande parte do mundo. As TVs tagarelavam aflitas em busca de explicações, especialistas, alguém que pudesse entender o que acontecia no mundo. Era dezembro, Verão no hemisfério Sul, previsão de calor; que nevasse no hemisfério Norte era esperado, mas estes assistiam atônitos à neve que se apoderava do mundo todo.

Naquele dia nevava em absolutamente todos os lugares do mundo. Alguns citavam que era o verdadeiro white Christmas all over the world, outros prediziam alguma tormenta de Deus ou a volta do Seu filho, muitos correram às igrejas e templos, poucos puseram-se em oração, milhões registravam o momento temendo que fosse efêmero – e tornando-o efêmero na sua experiência apenas sentida em fotografias e vídeos. E a menina suspirou e sorriu ao ver o céu despejar mais flocos de uma branquidão calmante e peculiar – sem dúvida peculiar naquela terra onde raramente fazia menos de vinte graus.

Cogitava-se algum erro brusco no cálculo dos metereologistas ou uma catástrofe não testemunhada pelos satélites ou, temia-se ainda mais, era, finalmente, a resposta da natureza ao modo de vida abusado e dispendioso de humanos que só exploravam e se reuniam em tentativas de absorver o impacto de uma população gigante num mundo finito. Ou, na verdade, não se sabia de nada. A menina ouvia a TV da sala ao lado na pequena casa, muito se falava e se mostrava, nada se sabia. Seu cachorro vidrado no branco que não motivava a sair e, vez ou outra, a olhava de soslaio como se de tudo soubesse. A menina sorria e seus olhos brilhavam.

Equipes de socorro e de prevenção de desastres foram chamadas às pressas no feriado do dia santo do nascimento do menino, largaram suas famílias, suas mesas fartas, seus presentes embrulhados. Políticos também, mas não compareceram – não parecia um problema que lhes dissesse respeito, afinal era algum capricho da natureza. Fazia-se cálculos e a preocupação aumentava, para onde escoaria toda aquela água depois de degelada?, as pessoas de países pobres do hemisfério Sul não estavam preparadas para um frio extremo, pois são de pasíses quentes, quantas vidas se perderiam?, e o mundo, todo branquinho, parecia – para alguns de pouca fé – ter chegado ao fim. A menina, porém, via o início naquela neve manchada de barro onde agoa alguns meninos pisoteavam tentando fazer um boneco.

A neve caía em paz cobrindo todo o mundo, misturava-se à areia das praias, espalhava-se sobre telhado e ruas, repousava sobre árvores que desconhecia. Florestas foram tomadas, cidades inteiras ficaram em silêncio sob seu manto, e ela sossegadamente não parava de cair naquela véspera e durante todo o dia seguinte. E a menina ali ficou, cotovelos doloridos, a observar a neve da sua janela. Ela sorria. Ainda persistia a dúvida e muita previsão foi feita. Nada, de fato, ainda se sabia.

A menina vivia numa casinha na periferia. Pai pedreiro e mãe costureira – que já se aventurava a arrumar um casaquinho para a filha, colocando um forro extra para agasalhá-la melhor naqueles dias tenebrosos. Com sorte, a menina terminaria a escola. Com muita sorte a menina conseguiria um emprego dali muitos anos. Sem sorte, sua vida seguiria… A menina suspirou pela milésima vez a contemplar a beleza que via. O cachorro, enrodilhado aos seus pés, gania baixinho como se tivesse pesadelos. A mãe dormia agarrada ao terço e com lágrimas secas nos olhos – o frio era caro, aquecer a casa, a menina, os bichos, muita roupa molhada e tudo isso lhe custava mais ainda a pregar os olhos.

O pai levantou-se da TV e passou na porta do quarto da menina, que estava na janela desde o primeiro floco de neve que caíra na véspera. A menina era sonhadora, um tanto avoada, o pai não quis atrapalhar a contemplação e foi deitar. Quem sabe ela estivesse sem sono mesmo. Preocupava-o o trabalho, tudo parado devido àquela neve suspeita e odiosa, sem dinheiro reserva, sem aquecimento na casa. Mas ele dormiria.

A menina suspirou mais uma vez e ao ouvir todos dormindo, a janela aberta ainda, sussurrou um “muito obrigada”. Apoiou o queixinho nas duas mãos e viu que, quanto mais o ponteiro se aproximava da meia-noite, mais a neve ia escasseando. Sorriu e deu mais uma olhada para o papel que trazia dentro da manga do casaco, a cartinha para o Papai Noel, que ela deixara naquele mesmo parapeito na noite anterior. Sorriu ao ler o recado “assim seja!” e a assinatura do velhinho das barbas tão brancas quanto a neve. Sorriu ao ver os montes brancos no jardim. Leu, mais uma vez, seus garranchos que ingenuamente explicavam ao Papai Noel que ela era pobre, como seus pais, e assim seria sempre, por isso pedia para ver a neve do Natal de que tanto ela via nas toalhas de decoração e nos filmes na TV.

A TV estava quieta. A menina esticou os bracinhos, estralou os dedos, viu a branquidão começar a sumir do entorno, feito mágica, e o céu deixar de despejar seus flocos. Era meia-noite. Ficou ali uns minutos ainda, sorrindo e agarrada à sua cartinha. Hoje ela dormiria feliz.

Histórias de Natal – A ceia

A mesa estava finamente decorada. Era o primeiro ano, em décadas, que não seria dona Lourdes a fazer a ceia do Natal. Ela preparava cada detalhe, durante uma semana, desde a louça que seria usada, os guardanapos decorados, até o peruzão recheado e assado durante horas para satisfazer todos os familiares, entre filhos, filhas, netos, genros, noras e agora até bisneto. A família era grande e, por isso, palpite não faltava. Mas dona Lourdes mantivera o poder em suas mãos: a ceia era sempre na casa dela, feita por ela.

Naquele ano ela esquecera o fogão ligado duas vezes, à noite. Também batera o carro pela primeira vez, porque não viu um pilar na garagem do prédio da filha mais velha. Aos burburinhos os parentes decretaram: ela estava velha. Um Alzheimer, talvez, em fase inicial. “Mãe, você já não pode fazer isso”, “Vó, não quero que a senhora fique sozinha” e todas aquelas preocupações. Desde a viuvez, há mais de vinte anos, ela tomara as rédeas da própria vida. E agora a consideravam gagá. Imprestável, inútil, incapaz.

Por isso, naquele dia 24 ela havia orientado a arrumação da mesa – tinham medo até que ela quebrasse a porcelana italiana, que algumas noras cobiçavam – e ficara sentada na sua poltrona. Fizera apenas duas exigências: a ceia teria que ser na sua casa e feita por alguém da família. Como ninguém tinha tempo, a nora, esposa do filho mais velho, se dispôs. Dona Lourdes, sentada ali, observava o vai e vem. Da cozinha vinha um cheiro indefinido. A nora estava com olheiras e gritava com os filhos.

– Oi, vó! Já está aí? – era sua neta mais nova, acabara de chegar de férias, pois estudava em outra cidade.

– Oi, minha querida! Estou só de olho. – cochichou a avó com um sorriso matreiro.

– Nem vou querer jantar, viu. Se não é a sua comida, nem quero! – disse a neta ao pé do ouvido da avó.

– Não se preocupe. Faremos jejum! – e dona Lourdes caiu numa gargalhada.

Todos sabiam do apreço da avó pela neta mais nova. Eram opostos, porém. Dona Lourdes fora criada como antigamente, o trabalho da mulher era cuidar da casa, do marido, dos filhos, aprendera a bordar, costurar, cozinhar, limpar e a artrose espalhada pelo corpo testemunhava quantas vezes ficara de joelhos a esfregar o chão – da loja de relógios do marido, inclusive – e quanta roupa lavara no tanque para que os filhos fossem impecáveis à escola. Laura tinha nem vinte anos, dez tatuagens, uma lista de ex-namorados que nem ela sabia de cor, o cabelo roxo, era feminista de ir às ruas, não sabia fritar um ovo e, somente nisso deixava sua avó horrorizada, usava roupas rasgadas. Nem preciso mencionar que Laura era o patinho feio, a ovelha negra, e o pai se alegrou quando ela decidiu estudar História na capital – ele não sabia conviver com a filha.

A família foi chegando, a nora se estressando, os presentes engordavam o chão da sala aos pés da árvore de Natal. A noite prometia. E dona Lourdes, impaciente, sentada na poltrona. Nunca ficara sem fazer nada na vida.

Anoiteceu. Risadas e presentes.

Foi quando o neto do meio, entre tantas netas, veio do banheiro.

– Vó, tá um cheiro ruim lá na cozinha. A vó não quer dar uma olhada?

Dona Lourdes, depois de abrir uns pacotes com toalhas e meias, levantou-se prontamente. Ela era necessária, então. Correu a passos firmes para a cozinha. O desastre era completo. O peru tivera perda total. Torrado por fora e cru por dentro. O risoto grudara na panela. A salada estava puro sal. A farofa queimara. A nora, que estivera cochilando sobre os braços na mesa da sala, ergueu a cabeça e chorou. “Tanto trabalho, meu Deus, mas, também, ninguém pra me ajudar…” e as lamúrias não foram poucas.

– Vou anunciar que não teremos jantar. – disse dona Lourdes seriamente.

– Mas, mãe, como não teremos jantar? As crianças estão mortas de fome. Eu também, claro. Como que alguém não consegue assar um peru?! – o filho demonstrava toda sua compreensão.

– Alguém? Por que, você consegue, Maurício? – a mãe repreendeu-o enquanto se dirigia à sala.

– Vó, espera aí. Te digo, eu resolvo, tá? – era Laura – Deixa comigo, nem fala nada com ninguém, eu já volto. – Amore, vem cá. – o namorado da vez, que ninguém ainda havia decorado o nome, veio e ambos saíram.

Dona Lourdes olhou e olhou. Não sabia como pegar aquilo direito. O silêncio de todos diante da mesa arruamda fora quebrado pela algazarra das crianças, contentes diante de tanta batata frita e hamburguer. Laura fizera as honras e dava mordidas satisfeitas no seu lanche.

– Bisa, tá delícia! – era o bisneto mais novo, dois aninhos.

Orgulhosa pelos créditos, porém lambuzada de ketchup e maionese e um hamburguer fugindo pelo canto do pão, dona Lourdes arrematou:

– Então é isso que vocês comem quando não estão na minha casa, é? – e sorriu para Laura.

Histórias de Natal – O Diabo

Só Diabo mesmo, diminutivo de “pobre diabo”, como ficou conhecido pelas redondezas. Vivia no barranco atrás de uma casa grande, em um barraquinho feito de lona e restos de madeira, do tamanho de uma casa de bonecas, mas sem a beleza, debaixo de um frondoso flamboyant. Quando chovia, vocês imaginem, o chão de terra era uma cachoeira. Os pezinhos saltitavam de pedra em pedra evitando o lodaçal. Eram pezinhos e pouco cresciam tão magrinho o menino.

Fazia de tudo um pouco pra lá e pra cá, moedas lhe davam ainda menos – por vezes um pão velho ou uma carne apodrecida – como se a Deus louvassem e suas almas salvassem. A pele escura demais para ser branco e clara demais para ser negro, todos lhe evitavam, ninguém o considerava igual. A casa grande era barulhenta e distante com seus filhos engomadinhos e aparelhos de liquidificador na cozinha. Ele nem luz tinha e se aquietava ao apagar a vela antes de dormir em paz.

Corria o boato de que a casa grande uma benção lhe fazia, pois desde que ele surgira cederam o barraquinho para morar e quando ainda muito pequeno leite lhe davam. O pastor assentia, a vizinhança achava bonito o gesto. E assim todos viviam.

Por aquelas terras, numa época muito chovia. Frio também fazia. O Diabo vivia com a roupa do corpo, o que sobrava das crianças que cresciam. Quase não falava e feliz muito sorria. Se virava com as moedas que ajuntava e com os peixes que pescava. Desde cedo aprendera a pescar: não era só por necessidade, também pescava porque aquilo lhe alegrava.

O Diabo a ninguém importava. O dono da venda bufava e de olho de rabo controlava os gestos do Diabo quando por ali ele passava a comprar algum vívere. As velhinhas o nariz trancavam quando por ele passavam. Os homens todos muito mal ficavam com sua presença – apesar de sempre lhe chamarem para pequenos serviços – a observar disfarçados um traço do perfil, o gesto, o jeito de caminhar e até o olhar límpido. O medo de reconhecer-se assombrava a todos. Assombraria-os para sempre.

Naquele dia o céu muita chuva prometia. As casas ressoavam os cânticos do nascimento de um outro menino, aquele que, dizem, à humanidade salvaria. Muita fartura se via nas mesas dos abastados donos de perus e galinhas e bois. Uma fartura menos farta nas casas menos grandes dos plantadores de arroz e milho e trigo. Até nas simples casas dos cultivadores de couve e morangos e bananas muito havia de comer e calor humano e presentes dados e recebidos. A tudo isso de longe o Diabo ouvia.

Sentadinho na sua banqueta à beira do rio o Diabo pescava. Parecia que até os peixes festejavam o nascimento e nada queriam de ser a sua simbólica ceia. Paciente e esperançoso, o Diabo atento vigiava a linha. A fome lhe chamava mas com essa ele bem demais se dava. As nuvens ribombaram, os raios trovejaram e lá vinha um carro lotado de alguns que de uma festa voltavam. O Diabo nada pescara e nem tempo teve de fugir dos pingos grossos. Ajuntava seus apetrechos já encharcado quando tudo se deu.

O carro rápido demais vinha. O motorista o bafo denunciava-lhe. A tragédia correu com o chão da ponte molhada direto à correnteza do rio. O Diabo imediato lançou a corda das brincadeiras de rio de dias de sol. Nadou com seu corpinho a puxar braços e pernas para as pedras às margens do leito. O Diabo, pobre diabo, nem saberia quantos salvou. E os braços fraquinhos, a fome turvando-lhe a vista, a água transbordando seu caminho e ninguém lembrou de a corda puxar, naquela noite de alegria e nascimento, onde se agarrava sem forças o Diabo a acenar. Cansou-lhe a alma de ser invisível e submergiu no turvo do rio enlameado com a chuva que o abençoava, enfim.

Pele

Queria fazer um corte, justo aqui próximo à garganta, e ir puxando a pele, descolando-a da carne… quero despir-me da minha pele. Ninguém sabe o que é estar nela, não é o que dizem? Pois, hoje, eu não quero estar na minha pele. Quero sentir-me só carne – carne viva, vivíssima, livre a sentir. Tem dias assim, que nem eu quero estar na minha própria pele. Quem quereria? Um dia, assim, eu sumo. Pego meu rumo sem volta, sem retorno a duzentos metros, não deixo saudades nem despedidas. Um dia eu fujo, sem pensar em quem fica, sem malas nem ilusões. É essa pele que, por vezes, não quero-a minha. Tudo o que ela já viveu, todas as lembranças que ela traz impressa – tem dias que não quero tê-las. Tem esses dias que quero ser somente carne, esta que vive embalada e submersa, protegida de si mesma por uma pele enrugada, manchada, que suporta e já suportou tanto. Um dia eu fujo pra nunca mais. Não responderei mais mensagens nem telefonemas – hoje esta pequenina liberdade significaria tudo pra mim – não darei satisfações nem nada. Um dia eu fujo para alcançar a liberdade plena da solidão. Não existe nada mais insuportável do que a convivência. É nessa pele de hoje que eu não quero estar. Desejo arrancá-la com as unhas, se preciso for, aos pedaços e ver-me livre, ao final de toda a história e experiência e obrigações que ela carrega sem que ninguém perceba. É só uma pele, afinal. Branca demais, comum demais. É a pele que limita meus nervos e carne e sangue contra este mundo – este, este mundo, este mundo do qual, um dia, fugirei. Um dia eu sumo, levo um sorriso escondido, o corpo despido, a carne pulsante, a pele em retalhos – e deixarei a vida abandonada aos restos do passado.

Poetas na varanda

Entendo os poetas

que escrevem sob a brisa

dos cafés das belas cidades

acolhidos por portos e faróis

diante de guardanapos

e xícaras vazias

O olhar a perder-se no rio

que mancha o mar

em marés baixas

e obcecados pelo jardineiro ao lado

o som do cortador

e o cheiro da grama

Somos pequenos

em silêncio observamos

a vida em vagas e idas

e o velho que com calma

percorre o passeio

com o tablado de cocada

na cabeça

Apenas observamos 

poeta não julga

poeta é livre desses pecados

das mentes mesquinhas 

das almas que envelhecem

Sento-me aqui

e em cada flamboyant há verso

no mar crispado há Verão

O poeta escava

a vida alheia no prazer e na labuta

a natureza que verga e luta

Não é o poeta dono dos tribunais

das inqusições e do inferno

O poeta é livre das morais

e também o deveriam ser os cronistas

Entendo os poetas

entregues ao solícito garçom

que lhes traz mais chá

ao detalhe sutil do candelabro

iluminado antes do fim da tarde

ao beija-flor que visita o bebedor

e aos ponteiros parados

na varanda auspiciosa:

empunham seu binóculo 

mirando o mundo. 

Naufrágio

Os ratos começaram a pular para fora. Preferiram a água incerta do oceano a ficar ali num barco à deriva, flutuando graças às graças de um bom Deus. Alguns insanos de sol e sal tiravam loucamente água do casco avariado; não percebiam mais seus atos, apenas continuavam incessantemente com olhos vermelhos e ardidos que nada mais viam. Nessas horas há aqueles que a ação invade os pensamentos e mesmo que seus atos em nada resultem, eles não pensam mais. Apenas agem. Mas, pelo menos, diante da situação, fazem alguma coisa.

Sempre teremos os que ficarão encostados na amurada, de braços cruzados, empilhando críticas e defeitos nos que tiram água do barco, nos que pulam fora, no capitão que dá ordens sem ser obedecido, nos que querem se reunir para pensar em soluções – e morrem afogados nas suas eternas discussões. Esses talvez (só talvez) são maioria. Não encontram em si meios de resolver nada, talvez de fato nem queiram procurar ou encontrar. Apenas jogam palavras ao chão, que parecem aumentar o peso do barco e fazê-lo afundar ainda mais rápido.

Com menos palavras que eles, só os que se reúnem procurando soluções. Querem construir um barco novo, encontrar meios que os conectem com quem possa salvá-los, querem inverter a ordem do mundo e fazer barcos terem rodas. No entanto, ali estão, palavras ao oceano e quando for tarde demais sentirão suas roupas encharcadas, a água entrando pela boca, ouvidos, nariz e em meio ao desespero de que nada mais poderá ser feito, ainda estarão abraçados às suas idéias brilhantes – alguns, garanto, terão as melhores e salvadoras idéias justo naquele momento: como não pensei nisso antes?! E morrerão. Afogados, por certo. Nas suas próprias idéias e ideais.

O capitão, pouco se sabe dele. É fácil (e rápido, porém nem sempre indolor) mudarem o capitão, nessas horas. A tentação de ser o líder num momento de catástrofe salta aos olhos dos mais ambiciosos. Assim, o capitão pode ser destituído a qualquer momento. Se conseguir alguma proeza para salvar a vida de todos (ou ao menos tomar alguma atitude que minimize os danos) será lembrado heroicamente para todo o sempre – e aumentarão seus feitos, é claro. Porém, se seu lugar for tomado por outro (e outro e outro…) ou se ele juntar-se à desgraça de todos, será docemente esquecido (e, digamos, será até melhor pra ele). Nas perdas não há hierarquia, todos perdem igualmente.

Interessante perceber que nessas horas ninguém mais sequer sabe porque está no barco, ou de onde ele veio, porque foi construído. Cada um pensa na sua casa, na sua família, na sua próxima refeição. Por isso os ratos saltam fora – mesmo diante do tão incerto escuro oceano. Os ratos pouco se importam com este barco, suas razões e origens, querem apenas salvar-lhes a própria pele. O couro cinza e feio de um rato, é a isso que eles querem salvar. Não hesitam nem mesmo em largar filhos, pais, mães aflitas, lares, o chinelo velho ou o travesseiro de estimação. Saltam com algo de arrogância, como se o obscuro oceano (sabemos que lhe será ingrato e cruel, lá serão apenas ratos, encontrarão outros barcos e rastejarão nos seus porões) fosse um paraíso. Saltam e fazem questão de a todos mostrar como são grandiosos e espertos (como os que ficam de braços cruzados, muito criticam) e melhores que nós. Nós, que ficamos ali, pregando uma tábua, amparando um órfão, tirando água do convés, buscando idéias e também trabalhando para que o barco onde escolhemos ficar não vá por água abaixo.

Salvar-se jamais será nobre. Salvar-se deixando todos para trás é a legítima covardia. São estes que apontam os culpados por todo o caos que se instalou no barco, sem perceber que eles o afundam mais que qualquer buraco no casco. São eles que aqui deveriam ficar e trabalhar suas boas idéias para que o barco chegue são e salvo ao porto – com todos dentro. Mas eles não se importam. Querem ser sempre ratos.

Nossa Esperança

De esperança se enche

nos últimos dias

enquanto houver

Esperança, sempre haverá

ao levantar os olhos ao altar

banha meus dias

enaltece meu coração

em cada queda

Não morre, não me abandona

mantém-me de pé

mesmo a chorar

e a querer voltar

Tempo não volta

tempo se vai

em fios de esperança

De tão bonita Senhora

nossa, a amparar-me

cheguei até aqui

viverei, ainda

só a esperança

sob meus pés.

Cemitérios no inverno

O caminho é pedregoso e necessário. Longo e cheio de curvas aborda rios por vezes. A poeira embaça o olhar que tenta atirar-se para todo aquele verde quase negro dos morros. É preciso estirar o corpo lançando-se aos caminhos sem destino nem objetivo. Era quase inverno, ou, quem sabe, era um inverno como esse que hoje se apodera da minha primavera.

Há todo esse mundo distante do correr de tantas vidas para pouco tempo. Você me levou e o silêncio permeava estes pensamentos que não se aquietam. Eu sorri ao ver os patos em linha irem dormir pois o sol se punha: a natureza é assim belíssima e exata.

Foi quando nos deparamos com um cemitério, onde você por acaso fez a volta. Casa dos mortos, singelo e solitário naquele dia frio, cinza e silencioso. É uma lembrança que guardo do inverno. Quando você me salvou daquele dia sufocante e meu olhar perdeu-se nos pensamentos cemitério adentro. Não há nada mais triste. Os mortos ali a me lembrar que tudo finda. Os mortos têm o mau gosto de sempre nos lembrar que tudo acaba. Esses cemitérios de interior fincam no coração que mesmo em meio ao mundo a parte, mesmo nos rincões mais perdidos, mesmo longe desta vida – sufocante sufocante sufocante – a morte chega. E fica. E constrói seus túmulos frios.

A natureza é assim belíssima e exata. Vivemos a vida, nos alcança a morte – quando, e somente quando, já tivermos concluído nossa missão na Terra. De nada serviria que fosse diferente.

Tenho tantas lembranças boas do inverno. Esta me perseguia, enquanto não fosse martelada nas letras não me deixaria em paz. Naquele dia senti o alívio da surpresa e do respiro. Hoje a surpresa – e eu que sempre surpreendo por vezes me quedo surpresa, mas é raríssimo – obrigou-me a anotar no céu das lembranças as cenas do último inverno. Eu gosto de cemitérios. Tanto no inverno quanto na primavera – já te contei como ficam belos cheios de andorinhas? Às vezes também gosto da tristeza. Diria que gosto até de dias frios. E nublados – desde que não abafados.

A natureza é assim belíssima e exata. É assim também o amor, posto que tão natural quanto a morte. Amemo-nos, por certo. Até o próximo inverno. Até a próxima surpresa. E renovemos sempre a beleza e exatidão que nele há.

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