Histórias de Natal – O Diabo

Só Diabo mesmo, diminutivo de “pobre diabo”, como ficou conhecido pelas redondezas. Vivia no barranco atrás de uma casa grande, em um barraquinho feito de lona e restos de madeira, do tamanho de uma casa de bonecas, mas sem a beleza, debaixo de um frondoso flamboyant. Quando chovia, vocês imaginem, o chão de terra era uma cachoeira. Os pezinhos saltitavam de pedra em pedra evitando o lodaçal. Eram pezinhos e pouco cresciam tão magrinho o menino.

Fazia de tudo um pouco pra lá e pra cá, moedas lhe davam ainda menos – por vezes um pão velho ou uma carne apodrecida – como se a Deus louvassem e suas almas salvassem. A pele escura demais para ser branco e clara demais para ser negro, todos lhe evitavam, ninguém o considerava igual. A casa grande era barulhenta e distante com seus filhos engomadinhos e aparelhos de liquidificador na cozinha. Ele nem luz tinha e se aquietava ao apagar a vela antes de dormir em paz.

Corria o boato de que a casa grande uma benção lhe fazia, pois desde que ele surgira cederam o barraquinho para morar e quando ainda muito pequeno leite lhe davam. O pastor assentia, a vizinhança achava bonito o gesto. E assim todos viviam.

Por aquelas terras, numa época muito chovia. Frio também fazia. O Diabo vivia com a roupa do corpo, o que sobrava das crianças que cresciam. Quase não falava e feliz muito sorria. Se virava com as moedas que ajuntava e com os peixes que pescava. Desde cedo aprendera a pescar: não era só por necessidade, também pescava porque aquilo lhe alegrava.

O Diabo a ninguém importava. O dono da venda bufava e de olho de rabo controlava os gestos do Diabo quando por ali ele passava a comprar algum vívere. As velhinhas o nariz trancavam quando por ele passavam. Os homens todos muito mal ficavam com sua presença – apesar de sempre lhe chamarem para pequenos serviços – a observar disfarçados um traço do perfil, o gesto, o jeito de caminhar e até o olhar límpido. O medo de reconhecer-se assombrava a todos. Assombraria-os para sempre.

Naquele dia o céu muita chuva prometia. As casas ressoavam os cânticos do nascimento de um outro menino, aquele que, dizem, à humanidade salvaria. Muita fartura se via nas mesas dos abastados donos de perus e galinhas e bois. Uma fartura menos farta nas casas menos grandes dos plantadores de arroz e milho e trigo. Até nas simples casas dos cultivadores de couve e morangos e bananas muito havia de comer e calor humano e presentes dados e recebidos. A tudo isso de longe o Diabo ouvia.

Sentadinho na sua banqueta à beira do rio o Diabo pescava. Parecia que até os peixes festejavam o nascimento e nada queriam de ser a sua simbólica ceia. Paciente e esperançoso, o Diabo atento vigiava a linha. A fome lhe chamava mas com essa ele bem demais se dava. As nuvens ribombaram, os raios trovejaram e lá vinha um carro lotado de alguns que de uma festa voltavam. O Diabo nada pescara e nem tempo teve de fugir dos pingos grossos. Ajuntava seus apetrechos já encharcado quando tudo se deu.

O carro rápido demais vinha. O motorista o bafo denunciava-lhe. A tragédia correu com o chão da ponte molhada direto à correnteza do rio. O Diabo imediato lançou a corda das brincadeiras de rio de dias de sol. Nadou com seu corpinho a puxar braços e pernas para as pedras às margens do leito. O Diabo, pobre diabo, nem saberia quantos salvou. E os braços fraquinhos, a fome turvando-lhe a vista, a água transbordando seu caminho e ninguém lembrou de a corda puxar, naquela noite de alegria e nascimento, onde se agarrava sem forças o Diabo a acenar. Cansou-lhe a alma de ser invisível e submergiu no turvo do rio enlameado com a chuva que o abençoava, enfim.

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Pele

Queria fazer um corte, justo aqui próximo à garganta, e ir puxando a pele, descolando-a da carne… quero despir-me da minha pele. Ninguém sabe o que é estar nela, não é o que dizem? Pois, hoje, eu não quero estar na minha pele. Quero sentir-me só carne – carne viva, vivíssima, livre a sentir. Tem dias assim, que nem eu quero estar na minha própria pele. Quem quereria? Um dia, assim, eu sumo. Pego meu rumo sem volta, sem retorno a duzentos metros, não deixo saudades nem despedidas. Um dia eu fujo, sem pensar em quem fica, sem malas nem ilusões. É essa pele que, por vezes, não quero-a minha. Tudo o que ela já viveu, todas as lembranças que ela traz impressa – tem dias que não quero tê-las. Tem esses dias que quero ser somente carne, esta que vive embalada e submersa, protegida de si mesma por uma pele enrugada, manchada, que suporta e já suportou tanto. Um dia eu fujo pra nunca mais. Não responderei mais mensagens nem telefonemas – hoje esta pequenina liberdade significaria tudo pra mim – não darei satisfações nem nada. Um dia eu fujo para alcançar a liberdade plena da solidão. Não existe nada mais insuportável do que a convivência. É nessa pele de hoje que eu não quero estar. Desejo arrancá-la com as unhas, se preciso for, aos pedaços e ver-me livre, ao final de toda a história e experiência e obrigações que ela carrega sem que ninguém perceba. É só uma pele, afinal. Branca demais, comum demais. É a pele que limita meus nervos e carne e sangue contra este mundo – este, este mundo, este mundo do qual, um dia, fugirei. Um dia eu sumo, levo um sorriso escondido, o corpo despido, a carne pulsante, a pele em retalhos – e deixarei a vida abandonada aos restos do passado.

Poetas na varanda

Entendo os poetas

que escrevem sob a brisa

dos cafés das belas cidades

acolhidos por portos e faróis

diante de guardanapos

e xícaras vazias

O olhar a perder-se no rio

que mancha o mar

em marés baixas

e obcecados pelo jardineiro ao lado

o som do cortador

e o cheiro da grama

Somos pequenos

em silêncio observamos

a vida em vagas e idas

e o velho que com calma

percorre o passeio

com o tablado de cocada

na cabeça

Apenas observamos 

poeta não julga

poeta é livre desses pecados

das mentes mesquinhas 

das almas que envelhecem

Sento-me aqui

e em cada flamboyant há verso

no mar crispado há Verão

O poeta escava

a vida alheia no prazer e na labuta

a natureza que verga e luta

Não é o poeta dono dos tribunais

das inqusições e do inferno

O poeta é livre das morais

e também o deveriam ser os cronistas

Entendo os poetas

entregues ao solícito garçom

que lhes traz mais chá

ao detalhe sutil do candelabro

iluminado antes do fim da tarde

ao beija-flor que visita o bebedor

e aos ponteiros parados

na varanda auspiciosa:

empunham seu binóculo 

mirando o mundo. 

Naufrágio

Os ratos começaram a pular para fora. Preferiram a água incerta do oceano a ficar ali num barco à deriva, flutuando graças às graças de um bom Deus. Alguns insanos de sol e sal tiravam loucamente água do casco avariado; não percebiam mais seus atos, apenas continuavam incessantemente com olhos vermelhos e ardidos que nada mais viam. Nessas horas há aqueles que a ação invade os pensamentos e mesmo que seus atos em nada resultem, eles não pensam mais. Apenas agem. Mas, pelo menos, diante da situação, fazem alguma coisa.

Sempre teremos os que ficarão encostados na amurada, de braços cruzados, empilhando críticas e defeitos nos que tiram água do barco, nos que pulam fora, no capitão que dá ordens sem ser obedecido, nos que querem se reunir para pensar em soluções – e morrem afogados nas suas eternas discussões. Esses talvez (só talvez) são maioria. Não encontram em si meios de resolver nada, talvez de fato nem queiram procurar ou encontrar. Apenas jogam palavras ao chão, que parecem aumentar o peso do barco e fazê-lo afundar ainda mais rápido.

Com menos palavras que eles, só os que se reúnem procurando soluções. Querem construir um barco novo, encontrar meios que os conectem com quem possa salvá-los, querem inverter a ordem do mundo e fazer barcos terem rodas. No entanto, ali estão, palavras ao oceano e quando for tarde demais sentirão suas roupas encharcadas, a água entrando pela boca, ouvidos, nariz e em meio ao desespero de que nada mais poderá ser feito, ainda estarão abraçados às suas idéias brilhantes – alguns, garanto, terão as melhores e salvadoras idéias justo naquele momento: como não pensei nisso antes?! E morrerão. Afogados, por certo. Nas suas próprias idéias e ideais.

O capitão, pouco se sabe dele. É fácil (e rápido, porém nem sempre indolor) mudarem o capitão, nessas horas. A tentação de ser o líder num momento de catástrofe salta aos olhos dos mais ambiciosos. Assim, o capitão pode ser destituído a qualquer momento. Se conseguir alguma proeza para salvar a vida de todos (ou ao menos tomar alguma atitude que minimize os danos) será lembrado heroicamente para todo o sempre – e aumentarão seus feitos, é claro. Porém, se seu lugar for tomado por outro (e outro e outro…) ou se ele juntar-se à desgraça de todos, será docemente esquecido (e, digamos, será até melhor pra ele). Nas perdas não há hierarquia, todos perdem igualmente.

Interessante perceber que nessas horas ninguém mais sequer sabe porque está no barco, ou de onde ele veio, porque foi construído. Cada um pensa na sua casa, na sua família, na sua próxima refeição. Por isso os ratos saltam fora – mesmo diante do tão incerto escuro oceano. Os ratos pouco se importam com este barco, suas razões e origens, querem apenas salvar-lhes a própria pele. O couro cinza e feio de um rato, é a isso que eles querem salvar. Não hesitam nem mesmo em largar filhos, pais, mães aflitas, lares, o chinelo velho ou o travesseiro de estimação. Saltam com algo de arrogância, como se o obscuro oceano (sabemos que lhe será ingrato e cruel, lá serão apenas ratos, encontrarão outros barcos e rastejarão nos seus porões) fosse um paraíso. Saltam e fazem questão de a todos mostrar como são grandiosos e espertos (como os que ficam de braços cruzados, muito criticam) e melhores que nós. Nós, que ficamos ali, pregando uma tábua, amparando um órfão, tirando água do convés, buscando idéias e também trabalhando para que o barco onde escolhemos ficar não vá por água abaixo.

Salvar-se jamais será nobre. Salvar-se deixando todos para trás é a legítima covardia. São estes que apontam os culpados por todo o caos que se instalou no barco, sem perceber que eles o afundam mais que qualquer buraco no casco. São eles que aqui deveriam ficar e trabalhar suas boas idéias para que o barco chegue são e salvo ao porto – com todos dentro. Mas eles não se importam. Querem ser sempre ratos.

Nossa Esperança

De esperança se enche

nos últimos dias

enquanto houver

Esperança, sempre haverá

ao levantar os olhos ao altar

banha meus dias

enaltece meu coração

em cada queda

Não morre, não me abandona

mantém-me de pé

mesmo a chorar

e a querer voltar

Tempo não volta

tempo se vai

em fios de esperança

De tão bonita Senhora

nossa, a amparar-me

cheguei até aqui

viverei, ainda

só a esperança

sob meus pés.

Cemitérios no inverno

O caminho é pedregoso e necessário. Longo e cheio de curvas aborda rios por vezes. A poeira embaça o olhar que tenta atirar-se para todo aquele verde quase negro dos morros. É preciso estirar o corpo lançando-se aos caminhos sem destino nem objetivo. Era quase inverno, ou, quem sabe, era um inverno como esse que hoje se apodera da minha primavera.

Há todo esse mundo distante do correr de tantas vidas para pouco tempo. Você me levou e o silêncio permeava estes pensamentos que não se aquietam. Eu sorri ao ver os patos em linha irem dormir pois o sol se punha: a natureza é assim belíssima e exata.

Foi quando nos deparamos com um cemitério, onde você por acaso fez a volta. Casa dos mortos, singelo e solitário naquele dia frio, cinza e silencioso. É uma lembrança que guardo do inverno. Quando você me salvou daquele dia sufocante e meu olhar perdeu-se nos pensamentos cemitério adentro. Não há nada mais triste. Os mortos ali a me lembrar que tudo finda. Os mortos têm o mau gosto de sempre nos lembrar que tudo acaba. Esses cemitérios de interior fincam no coração que mesmo em meio ao mundo a parte, mesmo nos rincões mais perdidos, mesmo longe desta vida – sufocante sufocante sufocante – a morte chega. E fica. E constrói seus túmulos frios.

A natureza é assim belíssima e exata. Vivemos a vida, nos alcança a morte – quando, e somente quando, já tivermos concluído nossa missão na Terra. De nada serviria que fosse diferente.

Tenho tantas lembranças boas do inverno. Esta me perseguia, enquanto não fosse martelada nas letras não me deixaria em paz. Naquele dia senti o alívio da surpresa e do respiro. Hoje a surpresa – e eu que sempre surpreendo por vezes me quedo surpresa, mas é raríssimo – obrigou-me a anotar no céu das lembranças as cenas do último inverno. Eu gosto de cemitérios. Tanto no inverno quanto na primavera – já te contei como ficam belos cheios de andorinhas? Às vezes também gosto da tristeza. Diria que gosto até de dias frios. E nublados – desde que não abafados.

A natureza é assim belíssima e exata. É assim também o amor, posto que tão natural quanto a morte. Amemo-nos, por certo. Até o próximo inverno. Até a próxima surpresa. E renovemos sempre a beleza e exatidão que nele há.

Terrorismo: o tema queridinho do cinema atual

Não é de hoje que eu digo que o cinema francês é o melhor em lidar com suas questões contemporâneas. E nem precisaria ser eu a dizer. Todos os “problemas” sociais, questões pertinentes para o presente são tratadas com faca afiada pelos melhores diretores e roteiristas. Na pauta dos últimos temas estavam o desemprego, a imigração e agora a presença do terrorismo.

Talvez seja de mau gosto a comparação, mas é interessante. Se fosse os EUA a sofrer os últimos ataques desde o do Charlie Hebdo, teríamos no cinema a recriação da História encenando os fatos e, claro, teríamos os heróis americanos, os dramas do povo em luta pela sua liberdade. O cinema focaria na sequência dos fatos ocorridos e teriam um prato cheio para um filme de ação com o atropelamento em massa de Nice ou o massacre no Bataclan.

Porém, para o cinema francês a preocupação é outra. Foi recentemente veiculado na TV francesa um filme (feito para a TV) sobre uma mãe que descobre que a filha estudiosa está recrutada pelo Estado Islâmico. O drama tem alguns problemas, é claro. Mas segue o padrão filme para TV e tem claramente a intenção (todo cinema tem) de ser pedagógico, para instruir os pais. Existem lá programas e associações para pais “órfãos” de filhos que seguiram para se juntar ao Estado Islâmico. O ponto forte do filme é mostrar que esses jovens enganam bem todos a sua volta (pais são, no geral, bem desatentos) e evita o preconceito mostrando que são ricos, inteligentes e estudiosos.

Nas escolhas dos países para a indicação a Oscar estrangeiro figura o holandês que trata da mesma questão. Infelizmente há uma maioria de escolhas nacionais focadas no político, nas questões de gênero principalmente. Uma jovem também é recrutada e se casa pela internet com outro jovem que já está na jihad. Neste, porém, a jovem chega a ir para o Oriente Médio. Lá ela descobre que o seu ímpeto de lutar e defender seus novos valores e povo serão tolhidos por leis e regras ainda mais severas.

O Oscar não gosta muito de filmes políticos para a categoria de Estrangeiros (talvez achem que em termos políticos eles podem fazer melhor, com seus diretores que inventam histórias para tratar dos temas atuais sem dizer uma única palavra sobre tal: parece até que há algum tipo de censura). No começo imaginei que o holandês seria uma boa opção, afinal a luta contra o terrorismo, segundo os americanos, é deles. Porém, o filme traça um perfil que responsabiliza os pais (descendentes de país e com origens no Oriente Médio e África) de se afastarem da religião e dos seus valores, criando, assim, uma ruptura que faz falta aos seus filhos – ao se sentirem oprimidos pelas leis e preconceitos por terem a pele mais escura ou pertencerem ao islamismo tornam-se alvo fácil dos recrutadores e seu discurso de liberdade e defesa do próprio povo. O filme não culpabiliza os jovens por serem tão inocentes e criminosos de aceitarem explodir pessoas inocentes. Os jovens recrutados são vítimas de uma sociedade ocidentalizada (mesmo os “recém” chegados) que discrimina e não dá espaço nem valoriza valores que estão no sangue deles, como vítimas de não poder usar seu véu ou reunirem-se em espaços públicos, eles decidem revidar, encontram na religião o amparo que não têm nem em casa.

Desta forma, parece-me que o holandês não será um dos indicados. Porque o discurso não só é politizado como bate de frente com os ideais americanos. No caso francês o filme foi um sucesso exibido na TV em seguida de um programa que procurava instruir pais de como identificar os sinais de recrutamento nos filhos. Didático, pedagógico, alarmista (neste ponto quase americano). O indicado da França para o Oscar? Um filme sobre direitos homossexuais (ainda não assisti, portanto sem comentários). Poucas chances tem o suíço, apesar de ser um filme divertido e necessário; o sul-coreano, com toda a qualidade dos filmes de lá e que nós amamos, retrata um fato histórico com muito drama e heroísmo (boas chances, do ponto de vista americano).

A diferença entre o cinema francês e o americano não é apenas a forma como trata sua história recente, é claro. Mas isso diz muito de ambos. Os cinemas nacionais (para além dos EUA) têm muito a mostrar e a nos fazer entender sobre o mundo e a nós mesmos. Porém, comercialmente, etc etc etc. Cinema é contemporâneo, a história do agora é inerente a ele – mesmo quando faz releituras sobre fatos do passado. E é só uma das coisas que faz do cinema a arte mais apaixonante de todos os tempos.

À beira-baía 

(para Itajaí) 

Desfaz, vento

Ondas em par

Nuvens nenhumas

De sábados de sóis

Que amanhã é domingo

Em paz de dia frio

E almoços e sobremesas

Desfaz, vento

O alinhado dos cabelos

O desenho das areias

Que é sábado de praia

E amanhã é domingo

À beira-baía e crianças

E barquinhos atracados

Ouvindo o ondular

Das águas nas pedras

“que hoje é domingo

não é dia de pescar ”

Desfaz, vento

O domingo a passar

Até os peixes descansam

E ninguém quer ver

A segunda chegar

A Filosofia e a Omissão

Por vezes eu me sinto culpada. Principalmente por ter sido omissa. A omissão é a pior das culpas. E não adianta dizerem “mas você fez o que podia” ou, pior, “você não podia ter feito nada”. A culpa persiste. Já fui omissa algumas vezes na vida, reconheço – e lamento, de um jeito meio doloroso.

Uma ex-aluna minha, de Filosofia do Ensino Médio, fez vestibular para o curso de graduação em Filosofia, para a mesma universidade onde eu fiz. Fiquei feliz, óbvio. A sensação de fazer diferença na vida de algumas pessoas é muito boa. E pela Filosofia, então, essa desesperançada beleza que está mais em desuso e em desvalorização do que qualquer área do conhecimento. Não fui, claro, a única influência dela para seguir neste curso, mas sei que tive lá minha pontinha de responsabilidade.

Depois de um tempo que ela entrou no curso eu acompanhei relatos e a luta dela, e de outras alunas, diante dos abusos e assédios no curso. Meninas mulheres sendo assediadas por professores, colegas e funcionários do departamento. Além disso, complicado dizer “ainda pior”, elas também relataram a luta que é para que sejam reconhecidas como capazes e iguais, numa das áreas mais difíceis dentro de uma universidade. Sim, pode parecer incrível (e, de fato, é), mas mulheres, hoje, em 2017, no Brasil, precisam lutar para mostrar algo tão óbvio: somos intelectualmente tão (ou mais) capazes que os homens.

Eu fiquei triste. Porque eu sabia que era assim – e em nenhum momento a preveni do que ela teria pela frente. Se eu tivesse prevenido, sei que não teria a desencorajado – mulheres que fazem Filosofia são destemidas. Mas ela não teria se desiludido tanto, talvez. Ou ela já estaria melhor “armada” quando se deparasse com as agruras da vida acadêmica de uma estudante de Filosofia.

Mas, pior ainda mesmo, é a sensação de culpa por eu ter silenciado. (vocês estão de prova, não silencio mais: a gente aprende) Eu não lutei e não me fiz ser ouvida quando fui assediada no curso, por professores, por colegas. Eu não expus os abusadores que mantêm o status quo atrás de suas poses intelectuais. Eu deixei de frequentar a lanchonete do prédio, eu ficava chateada e de vez em quando pensava duas vezes antes de me vestir para ir à aula. Eu não ficava em certos horários, em certos lugares. Nem mesmo quando era de conhecimento de muitos que eu estava em algum relacionamento, na época, eu me livrei dos assédios. Coisa que, de vez em quando, nos dá um pouco de sossego.

Eu silenciei. Talvez seja hipócrita, por isso, hoje eu dizer para que não silenciem. Ou não. Porque eu não silencio mais. Eu exponho homem machista, abusador, assediador, intransigente, intolerante, agressor e tudo o mais. A gente aprende.

Além do assédio, que parece tão comum nas ruas e em todos os ambientes, existe esse ranço de superioridade intelectual. Sim, há. E não é só nas Engenharias. Aliás, nesta área os melhores profissionais que eu conheço são mulheres. E sei que elas tiveram que batalhar o dobro para mostrar que são capazes. Porque é essa a nossa vida: mostrar que somos capazes. Até quando? Até quando esse mundo e esses homens vão ficar nos forçando a mostrar que somos iguais? Ou até melhores (e é bem isso que eles não aceitam). Filosofia é difícil pra caramba. Nós, mulheres, também nos destacamos. Nós também somos capazes. Coisa inteligente não é só pra homem.

É triste. É triste ver essas meninas e essas mulheres desde cedo tendo que exibir na testa a sua força – física, intelectual, emocional. A gente queria só viver sossegada, às vezes. As universidades são muito machistas. Porque foram, por muito tempo, dominadas por homens, enquanto as mulheres, no máximo, podiam fazer pedagogia pra cuidar de crianças – porque isso é coisa de mulher. Aliás, curioso o relato de um moço que eu conheci. Ele fazia Pedagogia, único homem da turma, e nem estágio nas escolas e creches ele conseguia porque “um pai não vai querer que um homem cuide da filha dele”. O reverso é raro, mas é verdadeiro.

Sofremos muito preconceito em sala de aula na Filosofia. Teve uma professora que um dia nos chamou de galinhas. Simples assim. Nada aconteceu. No relato da minha ex-aluna ficou claro que não farão nada, na reunião de departamento disseram que só os casos reportados deverão ser examinados e seguir o que rege as regras da universidade. A gente sabe no que vai dar.

A gente aprende. A duras penas, mas aprende. E quanto mais cedo, melhor. Ser mulher não é pra qualquer um. Mas nós somos e estamos fazendo cada vez melhor. Levo minhas culpas comigo, para fazer ainda mais, dia a dia. O que aprendi foi a ser menos omissa. Parece pouco. Pouquíssimo.

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