Puzzle

“C’est fini !” – je ma dit trois ou quatre fois la dernière semaine

Qu’est-ce qui “est fini”, Fahya ? – ma dit mon cœur

L’attente, parfois

ou l’espérance

C’est pas fini, c’est pas terminé

Je ne suis pas un cœur fermé

je suis seule peau et chaud

dans un monde idiot

La patience me manque, c’est ça

Tes yeux, ton voix

Mon amour et mon désire

C’est pas fini

Tous les pas de cette puzzle que sommes nous

Au mystère sous le ciel et sur la terre

J’espère le destin de nouveau

Et en septembre toujours il pleut avant du bonheur

Feio é passar fome, Joinville

Ao sair de casa naquele sábado de chuviscos, de máscara, caminhando pela beira-rio, deparei-me com a surpresa. De longe, pensei ter visto uma tarrafa ser lançada no rio Cachoeira. Surpreendida pela visão, um segundo lance confirmou que era mesmo uma tarrafa que se espatifava contra a turva água do rio, logo ali atrás do prédio verde, aquele prédio que fica num lugar de destaque na cidade, dizem que sobre o rio, o que não é verdade.

Continuei caminhando solitária, como gosto, e me aproximei do tarrafeador. Ele vestia-se com roupa impermeável, como pedia o dia e a atividade que ele praticava, e ao lado jazia uma zica em lamentável condições. Deparei-me, então, com minha incredulidade: dois peixes gordos caíam da rua tarrafa no chão úmido da beira do rio. Eles se debatiam para minha incredulidade e de mais dois que assistiam à cena a poucos metros. Éramos três espectadores daquela cena inusitada no centro da cidade, a poucos metros da nobre e imponente prefeitura da cidade, que fica ali sobre o morro, na frente do prédio verde, como de atalaia – dos cidadãos, não dos peixes.

Estava já próxima do cidadão joinvilense que praticava aquela façanha, digo, pescaria, quando me senti atarantada. Ele, sorrindo, via que era o motivo da minha curiosidade, e dos outros dois da plateia, e declarou “Dois dias de almoço garantido!”. Havia júbilo naquele sorriso triste. Dois peixes gordos, porém pequenos, garantiam o que comer na mesa de um brasileiro, cidadão joinvilense, que vê os preços dos alimentos básicos explodirem há meses. Eu parei por alguns segundos, ouviu-se o silêncio das caras pasmas. Ele baixou os olhos e recolheu a tarrafa para um novo lanço – do qual ela voltou vazia, assim como dos seguintes. Teria almoço somente para os dois próximos dias, mesmo.

Segui meu caminho sem tracejado pelas calçadas, amparando-me nos pensamentos. Uma cidade grande, uma cidade operária, uma cidade que se quer nobre, mas não é. Uma cidade enclausurada nos seus apartamentos de elite com janelas que vêem o horizonte, mas ignoram o que jaz aos seus pés. Uma cidade que não olha no espelho, que não elege quem a representa na maioria. Na volta, subi a rua da prefeitura, caminhei até a entrada, onde há um varandão com vista para o rio, para a praça do chafariz, para o prédio verde, para as costas do monumento à barca, para a bandeira do Brasil hasteada na praça que leva seu nome. Fiquei ali por um tempo olhando aquele pequeno pedaço da cidade que não a representa em nada e onde tudo começou. Ali construíram as primeiras casas, ali o lamaçal fez morada a um povo miserável que foi trazido com falsas promessas. O rio abandonado. A praça do chafariz, sem chafariz, e recuperada. A barca, que a mim lembra o engodo, jamais o sucesso. Aquela triste bandeira tremulando fraca, como sem fôlego. E tentei ver além, tentei ver ao pescador inusitado atrás do prédio verde, tentei buscar os bairros onde a vista não alcança, dali da vista do prefeito. Não se vê, é verdade. A vista daquele varandão só vê o falso e o artificial.

Dias depois, a notícia da derrubada do prédio verde. Por quê? A verdade ou o que contam? Porque ele é feio, é a verdade. Contam que é para obras de mobilidade (sem comentários). A perplexidade tomou conta de mim. A decisão do prefeito logo foi apoiada, ele é feio, dizem os cidadãos, do calor dos seus apartamentos com vista para as serras, nas redes sociais. Não é permitida feiúra na janela da prefeitura. Por isso repaginaram a praça do chafariz e plantaram meia dúzia de flores no canteiro do monumento à barca. O prefeito e a vice esses dias haviam sido fotografados no varandão em frente a prefeitura, “vendo” a cidade. O prédio verde enfeiava a fotografia.

Por alguns dias me perguntei se seria plano de governo extirpar a feiúra da cidade. O que fariam com os feios e feias? Teremos vale-cirurgia estética, quem sabe. Humor ruim, eu sei. Ou só incomoda o feio que suja a vista da janela da prefeitura? Feio é passar fome. E isso nem o prédio verde esconde, senhor prefeito. Feio é pedir para os outros fazerem o que sua responsabilidade – pedir doação de alimentos para quem vai se vacinar, para serem doados aos necessitados; pedir pra empresas plantarem flores nos canteiros da cidade e recuperarem praças; pedir para empresas trocarem o piso da Casa da Cultura. Isso é muito feio: não assumir suas responsabilidades.

Repito: feio é passar fome. E o joinvilense passa fome, mas, das suas janelas não é possível ver isso. O feio, em Joinville, nos ronda, é só olhar.

Mudou a minha vida

(escrevo este texto pois sinto-me em dívida com uma pessoa,

e sem ter como agradecê-la, deixo o registro, que provavelmente nunca será lido)

Imagino que já aconteceu com todo mundo, mesmo que nem todos tenham se dado conta. Há gestos, nossos e dos outros, que mudam a vida das pessoas. Por vezes, nem é um gesto, é apenas uma frase. Quiçá um olhar.

Dirão que é coisa de quem vê em tudo a mão do Destino (e é), ou que é coisa de quem vive acreditando em misticismo e superstições. Por certo que quem vê a vida assim é mais feliz e encontra mais sentido em toda nossa passagem pela Terra. Alguns, religiosos, terão outras interpretações – que em nada impedem de ser acrescentadas às outras explicações. Se alguém ainda acha que a vida é algo racional, exato e calculado, acho melhor parar por aqui.

Eu acredito no Destino e inclusive já falei dele, o tal velho safado. Ele ri de mim, se diverte, me leva à loucura. É o segundo bom amigo que tenho neste mundo, pois todos sabem que o primeiro é o Tempo (sempre foi). E certeza que é o Destino que coloca as pessoas diante umas das outras, com funções específicas, e neste momento as coisas acontecem.

Quando eu estudava na graduação, à noite e longe de onde eu morava, eu pegava o ônibus. Volta e meia via um senhor, figura atípica num ônibus que tinha o embarque na universidade, dez da noite, direto para a outra cidade. Ele sentava em qualquer lugar do ônibus, ao contrário de mim, que sempre sentei no mesmo lugar (como boa velhinha que sou), ali na frente do cobrador. Eu via-o sentar e sempre puxar conversa, mesmo que os jovens arrogantes e arredios não fizessem muita questão com seus fones de ouvido e desinteresse natural. Um dia ele sentou ao meu lado e conversamos o trajeto todo. Não sou de conversar gratuitamente, mas naquela época eu fazia isso e acho, hoje, que é herança (obrigada, vô) ter essa disposição de bater papos com desconhecidos. Sobre o que foi a conversa? Nem saberia dizer depois de tanto tempo. Mas lembro que falamos sobre um assunto em específico que, na época, me marcou muito e “ajudou” a tomar uma decisão que eu precisava tomar. Cheguei em casa eufórica, pensando sobre a conversa, tomei banho, preparei minha janta e fui dormir com a resolução que tomaria no dia seguinte – e que provocaria inúmeras mudanças na minha vida. Nunca mais vi aquele senhor na vida.

Podem ser situações assim, inexplicáveis. Podem ser questões mais concretas, como o Elias na rodoviária de Goiânia (eu sempre falo nele). A pessoa que te ajuda, que faz além do que ela deveria, para resolver as coisas. Essas pessoas existem e estão sempre pelo nosso caminho. Mas, depende de nós.

Primeiro, depende de nós termos ouvidos e olhar atento. Se ignoramos sempre tudo e todos à nossa volta, jamais teremos contato com o extraordinário. Tem pessoas que são assim, só olham para si, só vivem no seu mundinho. Que pena. E também depende de nós saber compreender, ver o contexto, refletir sobre os acontecimentos, sobre os milagres e acreditar no Destino. Essa, acredito eu, é a parte mais difícil. Porque, simplesmente, não há regras, não há cartilha, não há certezas. É preciso desenvolver, ao longo da vida, uma visão profunda das coisas que acontecem para, às cegas, apenas acreditar. Vale intuição? Vale. Mas a reflexão e a observação também são bem confiáveis.

Tem dias que não esperamos nada da vida, e aí ela nos chama para dançar. Não vale a pena dizer não. Quem se recusa jamais saberá o que está perdendo. Quem aceita, se joga. É preciso se jogar de cabeça, sem perguntas. Quem sabe as explicações virão, às vezes nunca saberemos ao certo qual era a música ou para onde fomos. O certo é que tudo aquilo terá um efeito.

Nesses gestos, pode ser uma mera frase, ou um verso, dito por quem você não conhece. E você se depara com uma verdade que na tua vida inteira nunca tinha se dado conta. Pode ser simples assim, ou essa simplicidade pode ser apenas o começo do entendimento de toda a situação. Vai depender do quanto você está disposto a mergulhar nessa aventura com o Destino. E, como ao senhor daquele ônibus, talvez, como eu, você nunca terá a oportunidade de agradecer.

A verdade é que nós nunca sabemos como os nossos gestos, as nossas ações, mudam a vida das pessoas. Pode ser algo muito fortuito, pode ser com relacionamentos e presenças mais frequentes e próximas. Uma conversa, um convívio, uma lembrança, uma ajuda, uma declaração, um gesto, um olhar, um sorriso. O oposto também é verdadeiro, temos poucas chances de dizer às pessoas como elas mudaram a nossa vida – com tão pouco.

A morte do Cinema Brasileiro

Ontem foi o dia da Morte do Cinema Brasileiro. Foram anos gloriosos, alguns não tanto, não por culpa dele mesmo, é claro. Fazemos e assistimos ao cinema brasileiro desde aquela famosa filmagem na Baía da Guanabara, em 19 de junho de 1898. Para além da discussão de datas, se devemos comemorar a primeira filmagem ou a primeira exibição, a vida e a permanência do nosso cinema sempre esteve ameaçada.

Ontem faleceu o ator Paulo Gustavo, vítima de covid-19. Um dos atores de maior sucesso do nosso cinema, campeão de bilheteria, popular e talentoso. Considero, portanto, digno marcar a data como a morte do Cinema Brasileiro. Os últimos suspiros foram Bacurau e Democracia em Vertigem, provavelmente, antes de alçarem ao poder este governo de genocidas. Morre com Paulo Gustavo toda a última Era brilhante e profícua do cinema que tanto nos orgulha, pois desde a última eleição o cinema tem sido paulatinamente destruído e sufocado.

O mesmo governo que faz campanha pela morte dos seus cidadãos, incitando violência, caos, irresponsabilidade e tratamentos ineficazes diante de uma pandemia é aquele que destruiu as políticas públicas de cultura, censura e censurou obras e artistas e propaga o ódio à esta classe trabalhadora. Nem quero comentar a desfaçatez do presidente em dar uma nota de pesar pela morte de Paulo Gustavo. Junto a ele foram tantos outros artistas, compositores, cantores, atores e atrizes, técnicos vítimas de um vírus que não teve nenhuma política pública de contenção por parte do governo federal (e de tantos governos estaduais e municipais). Vale ressaltar que instituições internacionais alertam para este assassinato da nossa cultura, apontando paralelos com Rússia, Turquia e Hungria, onde não há leis explícitas de censura, porém o controle silencioso de tudo que é produzido. Dizem elas que estamos praticando a mesma coisa.

Sempre estudamos, na História do Cinema Brasileiro, que o governo Collor foi a “pá de cal” no cinema, quando tivemos um ano sem produções de longa-metragem. O setor todo sentiu, de uma hora para outra, o fim das políticas públicas e apoios à produção cinematográfica. Depois disso, nosso cinema sobreviveu aos anos Itamar, FHC e floresceu nos anos do Lula e da Dilma. Tivemos leis aprovadas, criação do Fundo Setorial, uma real e efetiva estruturação de toda a cadeia do setor, forte presença da ANCINE e de várias regulamentações, editais, patrocínios e financiamentos que permitiram ao setor crescer e se desenvolver. Permitiram uma ligação inédita com o público, permitiram filmes como os que o Paulo Gustavo fazia, foi nessa época que os recordes de bilheteria da década de 1970 foram batidos. O nosso cinema já era reconhecido lá fora (não que isso importe), e o que mudou foi termos um aumento na qualidade e na quantidade de filmes produzidos. Foi nessa época que “ganhamos” espaço na TV por assinatura e nas salas de cinema, nos inúmeros festivais que inundaram o país, e cresceram os cursos na área. Nunca fomos um cinema vira-lata, mendicante, pobre.

As comédias, inclusive, são nosso ponto forte. Campeãs de bilheterias, são elas que falam mais diretamente com o público, vivem cravadas na nossa cultura, nos hábitos e costumes. Por isso mesmo, não são elas que fazem tanto sucesso lá fora, porque é sabido que as comédias tendem a tratar de questões mais corriqueiras e entranhadas numa cultura, sendo, por isso, às vezes mais difíceis de serem compreendidas por pessoas de culturas diferentes daquelas onde foram produzidas. Os atores e atrizes desses filmes caem no gosto popular, participam de tantos programas e especiais, inclusive na TV, que são facilmente adorados e reconhecidos. Quando são bons, é claro, e esses não nos faltam. 

Porém, tudo mudou. Antes mesmo da pandemia, projetos que haviam sido aprovados ficaram sem recursos e sofreram censuras e o Ministério da Cultura, criado em 15 de março de 1985 foi aniquilado (no governo Temer houve a tentativa de acabar com o Ministério, revertida sob pressão popular). A ANCINE é vítima de um desmonte sem precedentes, a Lei Rouanet (que só mudaram o nome), está paralisada, não contratam avaliadores, os projetos estão represados nas mãos de um único indicado (ex policial militar). A Cultura, de forma geral, é o bode expiatório deste governo de genocidas, pois é do que eles mais têm medo. Eles têm medo do que somos capazes, porque nós somos muito capazes. Curiosamente, com a pandemia não foi só a produção nacional que sofreu congelamento, pois até mesmo você que ama seu super sucesso clássico hollywoodiano ficou sem ter acesso às salas de cinema – enquanto o vírus circular livremente, ninguém terá acesso à elas e poucas sobreviverão abertas depois.

Quando falamos de um governo que tem como política a destruição – de vidas, da educação, da cultura, do sistema de saúde, do meio ambiente – é a isso que nos referimos. Ontem o cinema brasileiro morreu junto com Paulo Gustavo. Não vemos no horizonte sequer a possibilidade de retomada do setor. Não é apenas um problema de não termos salas de cinema e festivais abertas para exibirmos nossos filmes: a produção, as gravações estão todas paradas. Quer dizer, quem trabalha com cinema, e tem consciência que entrar num set hoje é fazer o vírus circular, está paralisado. Infelizmente, também dentre nós há aqueles que insistem em “produzir mesmo assim” e sequer usam os EPIs adequadamente. É lamentável, ainda mais vindo de pessoas que dizem ser contra o atual governo e seus desmandos, que tenhamos entre nós essa gente irresponsável (é a única palavra que me ocorre). Contudo, a realidade do setor é a paralisação, é a falta de trabalho, é a necessidade. Muitos profissionais do setor abandonaram suas funções e buscaram trabalhos os mais diversos para manter seu sustento, esta é a mais cruel realidade, até porque os auxílios do governo, previstos para a área da Cultura, foram insuficientes e mal distribuídos. 

O problema se dá que queremos voltar a trabalhar, só isso. Não estamos pedindo esmola nem nada (a recordar o que tanto falam dos trabalhadores da Cultura). Queremos que o número de contágios e o número de mortes seja controlado com medidas eficazes oriundas do setor público – e, não posso deixar de lembrá-los, da própria população. Sei que há, apesar de não saber o que se passa na cabeça de pessoas assim, quem defenda que não precisamos de cinema aqui no Brasil. Essa gente não se importa com a produção cultural do próprio país, acredita que não temos nada de qualidade, prefere assistir a outras coisas (de origem e qualidade duvidosas, inclusive) e, para piorar, ignora que somos muitos trabalhadores que vivem disso. Assim como uma pessoa escolhe ser advogada ou encontra sua vocação no design, na engenharia, nas vendas, e em qualquer outra profissão, nós temos o nosso conhecimento, formação e amor à profissão no cinema. No mínimo, é ignorância e egoísmo achar que não temos direito a isso.

Não temos previsão de retomada. Aliás, curioso usar esta palavra: “retomada”. É por ela que conhecemos o período que segue o “fim” da Era Collor. O Cinema da Retomada é o período quando voltamos a respirar, retomamos o fôlego, mostramos a nossa cara – o marco, inclusive, é um filme muito popular e excelente: Carlota Joaquina. Fazemos rir e rimos de nós mesmos. Hoje a realidade nos cala, não duvido que na próxima “retomada” nós ainda riremos muito disso tudo – o talento do nosso cinema e dos nossos roteiristas, diretoras e diretores, atores e atrizes nunca deixa de nos surpreender. Acredito que antes disso ainda entraremos em choque com os documentários e ficções que nos levarão a refletir sobre tudo isso que temos passado: com socos no estômago e tapas na cara. É, afinal, para isto (também) que estamos aqui.

A maior culpa é do governo instituído e composto por genocidas (lembrem, ninguém faz um governo sozinho). Porém, cada um de nós que faz o vírus circular também é culpado. Muito culpado. Cada um de nós que tomou atitudes irresponsáveis (indo à praia, à festas, ao supermercado, ao bar porque “o dia está tão lindo”, dizendo “ah, eu já peguei mesmo” e tudo mais que nem tenho mais paciência para listar) é responsável pela morte do Paulo Gustavo e dos mais de quatrocentos mil mortos. Chega de querermos só responsabilizar os outros, né? O desemprego, a crise e as mortes são culpa de cada um que não teve consciência e tornou-se cúmplice do governo de genocidas. Nós só queríamos trabalhar com segurança. Só queríamos viver este sonho que é trabalhar com cinema e audiovisual, no Brasil. Só queríamos estar vivos. Enquanto estamos paralisados, sem produzir, muitos de nós morrem, como o Paulo Gustavo e o nosso Cinema. Eu quero crer que voltaremos, um dia, com toda a força que tentam nos tirar. Hoje, eu só me revolto e lamento o sucesso que os genocidas e seus cúmplices alcançaram. 

Quando for a data da Nova Retomada eu voltarei com alegria e desforra a escrever aqui.

Cabeça no travesseiro

Hoje não acordei bem. Com um dia cheio e tantas coisas para fazer e resolver, tudo em casa e online. Mas, eu não estava bem, o corpo cansado, a dor de cabeça e a frustração. Na agenda vi horas depois que era o 344º dia do isolamento rigoroso. Antes, deparei-me com o post de uma conhecida do Facebook que narrava também ter acordado mal, atingida pelo isolamento. Em pouco tempo vi outros comentários, de nós, pouquíssimos, que temos seguido isolamentos radicais e como nos sentimos derrotados. Não há vacinas, os outros não se importam com a vida, os governantes preferem a morte, o peso acachapante de um ano de pandemia, como as notícias nos têm derrotado dia a dia, a sensação de impotência diante desta realidade – e muito mais.

Nunca proteger a quem amamos fez tanto sentido, nunca tudo aquilo que é, de fato, supérfluo se fez tão ausente. Por um tempo, ao longo deste quase um ano, eu me debatia (em silêncio) sem entender a estupidez e a ignorância humanas. Pensava que talvez o vírus, tão invisível, não gerasse a resposta de precaução necessária nas pessoas. Procurava mil e centenas de respostas para este show de horrores que temos presenciado há meses, praias cheias, pessoas indo ao shopping, restaurantes, bares e baladas clandestinas, os xingamentos aos professores “que não querem trabalhar”, a disseminação de mentiras (que matam). Fui silenciando aos poucos, até que calei-me. Entendi, finalmente, que não há razão, razoabilidade nem lógica que ultrapasse o limiar da cegueira coletiva.

Relacionamentos terminaram no isolamento, não porque a pandemia causou o fim, mas porque ele já estava determinado – principalmente não falta de respeito pelo outro. Enquanto uns punham fim aos seus amores, porque preferem preservar a vida, outros tantos relacionamentos começavam, em pleno auge de um vírus altamente contagioso! – bem, esses não dão tanto valor à vida. Os mortos não são crianças nem jovens, e sucessivamente têm sido desprezados em números e números nos jornais diários. Enquanto morrerem velhos, está tudo bem. E milhares de idosos convivem com este desdém coletivo social, cientes de que a vida deles não vale nada para o resto – e que nem vacinas estão garantidas para salvar suas vidas.

Havia o medo de uma segunda onda, quem sabe uma terceira. E depois de uma semana (justo a semana antes do Carnaval) em azul – baixa do número de contágios – Santa Catarina cai no precipício, com o sistema de saúde colapsado. Mas o comércio peita decretos, as baladas continuam acontecendo e você foi até tomar um café na confeitaria. Entre ondas, naufragamos todos.

Abri o portão para receber uma encomenda e novamente uma entregadora estava sem máscara. Ao ser questionada ainda quis discutir, “não vou entrar na tua casa”. Ronda meus pensamentos que não são somente os governantes os culpados pelo nosso fim, mas toda essa população que corrobora os discursos abusivos e criminosos dos governantes. Sair algemado do Planalto é pouco para aquele lá, mas e para todos e todas que estão ao meu redor? E para cada um que publica suas fotos e stories ignorando que vivemos a pior pandemia do último século? Bem, só posso falar desse mundo virtual no qual convivo com vocês porque não tenho – felizmente – convivido com vocês presencialmente. Pelas telas eu não corro risco de me contaminar, mas o nojo e o desprezo pela irresponsabilidade de vocês cresceu tanto que nem vejo-os mais. Eu cancelei vocês da minha vida.

O corpo não respondeu bem ao dia, a cabeça voltou a doer depois que passou o efeito do remédio, a chuva não acalmou os ânimos e sinto há meses essa vontade louca de andar. Só isso mesmo, sair andando – é o que tenho sentido falta no cotidiano. Poderia fazer a lista do que me falta nesse isolamento, é curta e pungente. Porém, ao final do dia, respiro, faço o balanço do que resolvi e do que ficará para amanhã, pressinto que a noite me fará bem (longe da realidade) e sei que amanhã será igual. 

Se penso em quebrar um pouco a rotina de 345 dias no isolamento radical? Se penso que estou “adoecendo” física e psicologicamente? Não. Força de vontade e consciência não me faltam – e não me faltarão até o fim desta longa pandemia. Esta que será ainda mais longa por culpa de todos aqueles que decidiram ser estúpidos e ignorantes – sabendo que a conta de milhares de vidas está nas suas costas. Eu, como sempre disse minha mãe, posso encostar a cabeça no travesseiro e dormir tranquila. Aos pouquíssimos que estamos seguindo o isolamento, ter a razão não nos conforta, porém, nos une. Saibam disso.

Natureza e Cultura

Talvez o que muito me alarme é ver que as pessoas não se dão conta de que fazem parte da natureza. E então, século XXI, temos um mísero vírus que veio mostrar a todos sua condição de humano, mortal e integrante da natureza. Não fossem as queimadas arrasadoras da Amazônia e do Pantanal, com as quais destruímos tudo o que tínhamos, que nos foram dadas de mãos beijadas, para que ainda sobrevivêssemos muito tempo por aqui, e o ser humano diante de um vírus que mata e adoece, além de deixar sequelas graves, e ainda não nos vemos como parte da natureza.

Logo no início da pandemia, numa missa o padre Bertino falou sobre a natureza. Claro, do ponto de vista religioso Deus fez tudo isso, toda a vida e a natureza. Mas, mesmo para quem não acredita em Deus (e dentre esses e aqueles há tipos das piores espécies), a natureza existe e nós somos parte dela. Simples assim. As crianças hoje não sabem disso. Tive a infeliz oportunidade de me deparar com esta questão em sala de aula, crianças que não sabiam que o ser humano não é “criação” de si mesmo e pertence ao mesmo mundo que os animais, as plantas, o mar, o vento, a terra.

Sem precisar de nenhuma Greta Thunberg, sem desmerecer o trabalho louvável que ela faz, deveríamos ser capazes de nos entender enquanto ser que vem da natureza. Mas, crescemos cada vez mais desligados da terra, longe das árvores, ralando o joelho no cimento das calçadas e dos pátios dos prédios. Nascemos vendo a natureza nas telas da TV e do celular, ouvindo falar dela com o distanciamento das salas de aula enquanto crescemos e, quando muito, temos um contato fugaz e vil (que assim se dá o prazer de algo que nos é útil apenas) quando de férias em alguma praia ou parque. Ganhamos um cachorrinho porque temos inveja do colega, se ele morre logo nos dão outro, porque a vida e a natureza são substituíveis.

Assim como nossos avós que estão (ainda) morrendo às centenas na pandemia, eles morrem porque são velhos, mal os enterramos e a vida segue. Distanciamos as crianças de tal maneira do que é a vida, dos seus ciclos, da sua perenidade, do quanto precisamos da natureza para estarmos vivos, que machucá-la é machucar a nós mesmos, que não há mais volta. Nem um vírus violento pôde lograr fazê-los entender que é preciso respeitar a natureza. O vírus, em si, já existia na natureza há muito tempo. Nós, como seres humanos, que desrespeitamos regras simples. E, ao que tudo indica, continuaremos a fazê-lo com sofreguidão. Tantas conquistas que o último século nos trouxe caem por terra diante do medo do ser humano morrer contaminado – e voltamos aos plásticos, aos descartáveis, a não reciclar objetos contaminados.

Em meio à pandemia entreguei-me de corpo e alma, ainda mais, à natureza. Tenho o privilégio de viver cercada dela, somos resistência. Enquanto todos colocavam pisos e brita, nós mantivemos a terra. A cada flor que desabrochou nestes mais de cento e oitenta dias de isolamento, a cada galho brotado, a cada centímetro de crescimento das mudas, a cada pulo alegre dos cachorros, a cada sabiá cantando na janela, meu sorriso não me abandonou. Mantive, assim, a sanidade. Sinto-me parte desta natureza. Sinto falta de tantos outros espaços, além do meu quintal, nos quais sempre pude ver e viver a natureza – muito melhor que qualquer barzinho sufocante ou lanchonete fechada com ar condicionado, desses não sinto falta nenhuma. Mas, voltarei a eles, quando a presença do ser humano não for mais um risco de vida. Hoje, é isso, a presença de outros seres humanos é um risco de vida. A natureza algoz de si mesma, por nossa própria culpa.

Certo que também me entreti com as obras do ser humano, com tudo isso que produzimos para provar que somos diferentes (melhores?) do que os outros animais e árvores e plantas. Tudo o que o ser humano produz é cultura. Curiosamente, também a cultura tem sido paulatinamente destruída neste mundo – pelo próprio ser humano, com essa gana de destruir a si mesmo. Não é o vírus o nosso maior inimigo.

Eu acredito tanto numa quanto na outra: tanto na natureza quanto na cultura. Não vivo, absolutamente, sem nenhuma das duas. Aliás, vivo todos os dias muito próxima delas. A humanidade, confesso, é que não me faz falta (assunto para outro dia). Leio livros, jornais e revistas, assisto séries e filmes, convivo com todo tipo de tecnologia, vivo com meus animais e plantas, planto, colho, faço compostagem. Há um ritual em tudo isso: viver. Minha alegria foi, nestes tempos, encontrar dois filmes que falavam justamente da nossa relação com a natureza. Curiosamente, dois filmes filmados na Bolívia.

Um deles, Salt and Fire, dirigido por Herzog, tem atuações péssimas. É, infelizmente, o que coloca tudo a perder. Porém, o argumento era bom, prometia um percurso de uma mulher diante de questões grave sobre a usurpação da natureza pelo ser humano. Numa sequência lúdica, vemos dois meninos presos com a protagonista numa ilha no meio do lago de sal: tinha tudo para ser excelente, não fosse a direção incerta e a atuação pífia. Porém, seu significado é tocante. Somos parte da natureza, por vezes nem quem a defende entende isso. Herzog é mais um diretor homem superestimado. Sem negar seus filmes bem-sucedidos, sabemos que é exagero tudo o mais. A sequência final do filme é totalmente esquecível, bem ao tom do cinemão mais do mesmo. (mas reparem nas péssimas atuações novamente)

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Aparentemente Salt and Fire não era para ser filmado na Bolívia. Mas, no caso de También la lluvia, seria difícil pensá-lo em outro lugar. Um filme adorável, com atuações brilhantes, uma direção decidida e impecável. Dirigido por uma mulher, Iciar Bollain, da Espanha, também com participação de Gael Bernal (em Salt and Fire ela começa o filme e depois some), apesar de protagonizada por homens, conta duas histórias. A história da produção de um filme nos rincões bolivianos e a história de uma América colonizada pelos espanhóis, num gesto quase de mea culpa. También la lluvia nos apresenta um mundo corrompido, onde a natureza perdeu-se dos seres humanos, mas que é, ainda, protegida pelos indígenas que sabem (nunca deixaram de saber, como nós) que dela vivem e dependem. Além das piadas internas sobre as figuras do produtor e do diretor, assim como sobre os egos e personalidades dos atores, o filme flui confrontando as duas histórias, até que, finalmente, um boliviano possa ensinar ao espanhol o que vale a vida.

Não é de se espantar que a cultura, essa coisa criada pelo ser humano e sobrevivente dos ataques dos seus próprios criadores, essa coisa que nós criamos (todos os dias!) para fazer do mundo ainda mais belo (pois a natureza já o embeleza o suficiente), essa coisa que dá sentido às nossas vidas; não é de se espantar que a própria cultura pague tributo à natureza. Eis um gesto inteligente dos meros mortais que nós somos. Porque nunca imaginei que precisaríamos de um vírus invisível aos olhos, mortal aos pulmões, tão pertencente à natureza quanto nós, para nos fazer entender o quão errados andávamos pelo mundo. Nunca terei imaginação o bastante para entender o que faz tantos e tantos ainda andarem errados pelo mundo. Enfim, seja bem-vinda a Primavera. Apesar de termos conseguido, depois de séculos tentando, transtornar até mesmo as Estações do ano.

Lúcia morreu em vão

Diante de tanta indecência e imoralidade, fica difícil entender o que nos causa mais dano. Indecência e imoralidade, entendam, não é sobre gente pelada e cenas de sexo, não. Isso aí é até um refresco para os olhos nos tempos que vivemos. A indecência e a imoralidade ficam mesmo por conta das atrocidades dos governos e da irresponsabilidade desenfreada do povo. Por primeiro, quero dizer: você, querido e querida, que tem respeitado o isolamento social, que sabe que não precisa ir pro shopping, pra praia, pra academia, subir o mirante, fazer churrasco com os amigos, sair pra namorar, que só sai pro essencial (supermercado, farmácia e tal) devidamente paramentado de máscara, luva e álcool em gel porque protege e respeita quem ama e aos outros, você não está sozinho. Esses dias ainda pensei “mas será que eu estou exagerando?”; não, não estamos exagerando, somos nós que estamos garantindo que este Estado, que esta cidade, que este país não esteja numa situação ainda muito pior.

Mas, afinal, como sentir-se diante de um governo que tem por política de Estado a morte? Como sentir-se sã diante do incentivo ao extermínio de idosos e pessoas com doenças crônicas? Como ser saudável e preocupar-se com o corpo e com a mente quando o país se empenha em matar a periferia? Como? O tempo sempre faz com que entendamos melhor as coisas, porém, ninguém precisava de tempo para saber que este criminoso que chamam de presidente era só isso mesmo, um criminoso. Esses dias lembrei de quando acompanhei angustiada o julgamento do STF, sobre o crime de racismo que o Bolsonaro cometeu: eles o absolveram. Tomara que se arrependam até a alma, pois colaboraram em deixar livre um criminoso que tornou-se presidente (sob o aval de boa parte do povo, nunca esqueçamos) e hoje os ameaça semanalmente.

A morte, atirar brasileiros e brasileiras à morte, é o princípio deste governo. E, não, não tem nada a ver com a economia. É o prazer sádico de enviar à morte pretos, pobres, velhos e doentes. Por pouco, não iriam os judeus junto. Exceto esta ausência, sabemos bem com qual lista de extermínio ela se assemelha. É extermínio, não tem outra palavra. E, por falar em extermínio, lembrei-me várias vezes, nos últimos tempos, da Hannah Arendt. Como não lembrar dela, não é? Esta confusão absurda entre público e privado, este povo que cumpre as ordens dos seus superiores sem questionar-se. Então, se ele manda fazer algo imoral e criminoso, você fará? Ah, claro, o amor ao emprego. Se fôssemos mais éticos, como trabalhadores, obrigaríamos, à força, que os patrões o fossem também. Mas, negligenciamos nossa moral. Calamos e procedemos feito gado com medo, sabendo, porém, que ao final só nos caberá o abate.

Enfim, tudo isso para falar só uma coisa… da Lúcia. Conhecíamos a Lúcia faz muitos anos. Em algumas ocasiões minha mãe foi tratada por ela, que atendia os curativos, pontos e tal no hospital da Unimed, em Joinville. Foi um espinho um dia, uma mordida do cachorro no outro, um corte de qualquer coisa acolá (minha mãe é sapeca, eu sei). Ao longo dos anos estabelecemos uma relação muito boa, Lúcia sempre conversava durante os atendimentos (eu e minha mãe temos esse costume também). Mesmo quando não era atendida no curativo, víamos a Lúcia, pois a sala do curativo era próxima dos consultórios e inúmeras vezes lá estava ela quando passávamos. A última vez que a vimos foi final de janeiro, começo de fevereiro deste ano. Levei minha mãe para uma consulta e ela passou por nós, sempre gentil.

Minha mãe, há mais de setenta dias sem sair de casa, sem contato com ninguém além de nós, há meses acompanha a situação da pandemia pelo mundo. Lamentou muito a situação na Itália, onde ela esteve recentemente. Sei que sofreu calada vendo as imagens e os números de Manaus, para onde ela já viajou e voltou encantada com o povo, com a natureza, com tudo. Com Guayaquil não foi diferente, até tentei evitar que ela visse os vídeos que rodaram a internet. Ela via, de longe, lugares que ela conhece, sempre lembrando das pessoas que ela conheceu por lá, pois, sim, mamãe faz amizade onde quer que ela vá.

Quando li, há uns dias, do falecimento da Lúcia, enfermeira de Joinville, não sabia se devia contar pra minha mãe. Lúcia, enfermeira, que tantas e tantas pessoas cuidou durante anos e anos de profissão, ficou dois meses internada com covid-19. Não, Lúcia não era idosa nem tinha comorbidades, fatos tão queridos pela imprensa local para justificar as mortes. Lúcia não foi a única profissional de saúde da cidade que morreu decorrente da contaminação por covid-19. Lúcia morreu, vocês entendem?

Lúcia morreu por causa de você que vai pro shopping. Lúcia morreu porque você achou que era só uma gripe e foi pro hospital pegar um atestado, mas não lavou as mãos direito e pegou nos trincos das portas, porque você espirrou sem máscara. Lúcia morreu porque você acha que não pode descuidar do corpinho e exigiu a reabertura das academias. Lúcia morreu porque você achou o cúmulo o Estado intervir no fechamento da igreja e hoje vai à/ao missa/culto de máscara, só por obrigação, mas abraça todo mundo, e fica, sem máscara, conversando na porta da igreja. Lúcia morreu porque, é claro, a economia não pode parar. Lúcia morreu porque, “e daí?”. Lúcia morreu porque os ônibus precisam voltar a rodar, porque os pais não aguentam mais seus próprios filhos dentro de casa e as aulas, é óbvio, precisam voltar, expondo professores, funcionários e o escambau, afinal, a economia, é claro. Lúcia morreu pela estupidez humana que abriu baladas e bares pro pessoal poder encher a cara e ouvir música. Lúcia morreu. Lúcia morreu porque estas gerações nunca passaram por uma pandemia nem por uma guerra e, sem a experiência empírica, não têm capacidade intelectual de compreender uma nova situação que se apresenta. Lúcia, a Lúcia morreu.

Lúcia morreu para satisfazer a ganância de alguns e a ignorância violenta de um Estado que vai perdurar apesar das mortes, dela e de milhares de brasileiros. Lúcia morreu porque há alucinados a negar os fatos, as estatísticas e a Ciência. Lúcia morreu porque você acha que tudo bem não sossegar o facho e passar uns finais de semana em casa. Lúcia morreu e as pessoas não entendem que recuperar onze mil diariamente não é número a ser comemorado quando nas mesmas vinte e quatro horas confirmamos mais trinta mil casos e mais de mil mortes. A conta não fecha. E, acima de tudo, essas vidas não voltarão. Assim como a doença é dolorosa, de lenta recuperação, aniquila a pessoa, além de usar métodos invasivos para garantir a sobrevivência. Quem, por livre e espontânea vontade, assume que não se preocupa com isso? Ah, sim, só os atletas que acreditam que com eles será só uma gripezinha. É a política de Estado: matar, matar, matar. Você que hoje vai ao shopping e à academia, você pratica a política de Estado assassina. Você que não pensa nos seus funcionários e cumpre as regras meia boca, você pratica a política de Estado assassina.

É só entrar num comércio, num colégio, no shopping, na loja de departamento, num escritório. Em nenhum lugar você verá as pessoas seguindo as normas à risca. Vide as máscaras no pescoço ou no bolso, a economia no álcool em gel, as conversas e risadas, etc..

Nós vivíamos num mundo tão difícil, no qual a luta pela conscientização contra o machismo, a violência, o racismo, as desigualdades tomavam nossos dias. E, hoje, a pandemia só evidencia como a ignorância e a estupidez são latentes – e a política de Estado é assassina. Não me venham querer fazer crer que tudo será melhor, depois. Lúcia morreu, em vão.

Não há normalidade nos nossos dias

Duas frases têm me cansado bastante nestes tempos de pandemia. A primeira, otimista aos raios da irritação, “Tudo vai passar (logo)”; a segunda, inocente na sua ignorância analítica, “seremos outros depois disso tudo” (ou equivalente com “tudo vai mudar”). Além das previsões estapafúrdias que tenho visto por todos os lados, além da discussão política sobre os limites do Estado sobre nós. Discutem sem olhar o básico.

O ponto principal, me parece: não estamos vivendo uma situação normal. Portanto, não finjamos que está tudo normal, não sigamos nossos dias como se houvesse normalidade, não trabalhemos como se fosse uma situação igual à anterior. A minha geração, a geração dos meus pais, as gerações depois de mim, nenhuma viveu uma pandemia. Os nossos idosos (tão, mas tão, maltratados pelas suas famílias, pelo governo, por tudo e todos) acima de uns oitenta anos podem ter lembranças de epidemias de tifo e outras, quando as pessoas, naquela época, passaram por situação semelhante.

Como exigir normalidade numa situação extraordinária? Como manter dias e horários? Como pressionar e manter prazos e datas? Trabalhos e estudos online, compras por entrega, bancos com atendimentos restritos, protocolos para todos os lugares. Onde está a normalidade? Máscaras, meus queridos… não há nada de normal nestes dias.

E as dicas e reportagens sobre o que fazer na quarentena? Livros, filmes, séries, receitas… eu dava conta disso tudo, antes da quarentena. O volume de trabalho, problemas e responsabilidades na quarentena acabaram com meu “tempo livre”. Admiro quem está aproveitando a quarentena em casa até para aprender a cozinhar, maratonar séries e fazer cursos online. A quarentena acabou com tudo isso pra mim – e, por favor, cozinhar e tantas outras coisas cotidianas sempre fiz. O que faziam antes da quarentena essas pessoas que fizeram seu primeiro pão ou bolo em casa? O que faziam da vida antes da quarentena esses pais e mães que não aguentam seus próprios filhos? O que faziam da vida antes da quarentena essas pessoas que foram ler tutoriais de como limpar a casa? Viviam no shopping? Não saíam da academia? Confesso que prefiro não conhecê-las (nem às suas respostas). Que a quarentena mostrou o quão vazios são muitos dos indivíduos contemporâneos, já sabemos.

Ninguém estava preparado para a quarentena global, eis a verdade. Os sistemas de saúde muito menos. Mas, tudo faz parte de um processo de adaptação temporário. Não se pode transferir em pé de igualdade a realidade presencial para a virtual. Toda adaptação prevê considerações sobre os meios – posso falar da minha área, como a discussão de adaptar um livro para o cinema, são meios diferentes, impossível apenas “reproduzir” a história escrita em imagens. Mas, as pessoas não pararam para refletir.

Aliás, talvez a quarentena devesse ter sido apenas isso: parar e refletir. Deveríamos todos ter parado absolutamente tudo, e ficado em nossas casas, reclusos e contemplativos, consumindo apenas o essencial (comida, água e tal, nada perto das MPs desvairadas do pseudo-presidente). Não há que se discutir a economia. Paremos, apenas isso. Somos seres humanos, apenas isso. Humanos que, mesmo diante de tecnologias e ciência tão avançadas em plena segunda década do século XXI não sabemos direito o que fazer diante de um vírus invisível (e que é negado por muitos, não apenas por ser invisível). Nos falta, em geral, momentos de reclusão, contemplação e reflexão. É o que a vida contemporânea nos quitou. Neste momento é crucial pensar, e pensar novamente. Repensar o modelo de sociedade na qual vivemos, repensar nossos hábitos (e não esses discursos fúteis das redes sociais), repensar nosso modelo de trabalho, repensar nosso modelo de ensino (e aprendizagem, às vezes esquecemos que é uma via de duas mãos), repensar nossos espaço habitacional, repensar nossos hábitos alimentares, repensar nossas atitudes em relação aos outros. Repensar tudo, enfim.

Mas, como contemplar e refletir enquanto temos que assumir papéis que não nos cabem, diante de meios que desconhecemos (e que não são feitos para nossas necessidades!), na tensão e angústia da vida e da morte, na preocupação com os que amamos, com responsabilidades que acumulamos? Impossível. E, assim, nos quitaram, também, nossa humanidade. Somos seres humanos, apenas. Não somos máquinas. E, num repente, reproduzimos uma relação homem x máquina mais atroz do que a Revolução Industrial (naqueles tempos, dizem uns, havia justificativa para não se saber ao certo os efeitos da máquina sobre o ser humano – hoje, não há nenhuma).

Esse mundo contemporâneo do século XXI mostrou-se estúpido e embrutecido. Estúpido, visto que não aprendeu nada com os últimos milhares de anos. Embrutecido, visto que acha que se garante tanto com suas máquinas e tecnologias e ciência, mas, na verdade, está apenas assustado e sem rumo.

Parem o ENEM, parem os vestibulares, parem as fábricas, parem as escolas, parem as instituições, parem as igrejas, parem as praias, parem (os governos), parem as academias, parem os shoppings, parem tudo. Apenas, parem. Não há normalidade nos nossos dias. Para voltarmos à vida, teremos que estudar uma outra realidade. E, não, não acredito que será tudo diferente porque as pessoas, essas mesmas que não vêem motivos para pararmos, continuarão a existir. Se não pararmos para refletir sobre o hoje, o amanhã será muito pior – passará longe desses olhares otimistas e inocentes.

(Quase caí na tentação de terminar com um “quem viver, verá”, mas, não só pelo clichê, não quero desrespeitar as centenas de milhares de mortos; nem quero ser mais uma a rabiscar previsões. De fato, só temos o hoje.)

A angústia de cada pôr-do-sol

O pôr-do-sol de todos os dias me trouxe algo novo: uma angústia que não passa. Logo ele, que sempre tanto amei. Aliás, sempre tanto amei a natureza, estar em contato com ela, longe dos seres humanos, mais próxima de mim. Todos os dias, acordo e abro as cortinas janelas. Ao cair da tarde faço o movimento inverso. Tenho parado uns instantes a ver o sol ao longe fazendo do céu uma pintura sempre linda. Vê-lo, trancada em casa há mais de um mês, assim furtivamente me enche de angústia. O sol, por sinal, tem aparecido com mais frequência do que a usual para esta época. O calor do nosso querido Verão estendeu-se como quem dizia “vim pra ficar”. E nós dentro de casa.

A princípio, não me angustia ficar tanto tempo em casa. Amo minha casa. Começo a sentir falta da natureza, por certo. Mas a angústia tem outra razão de ser. O que existe lá fora.

Quando pensamos que nosso maior inimigo seria um vírus de alta letalidade que já entrou para a História Contemporânea, com imagens da Lombardia e de Guayaquil como impressão profunda desses tempos em nossa consciência, nos deparamos com algo muito mais letal. Sim, a ignorância de um povo que já havia jogado o próprio país ao precipício. 

Nosso inimigo não é a fome. Não será o desemprego. Não é a falta de UTIs e respiradores. Nosso maior problema não é a crise econômica que virá para o mundo todo nem as consequências práticas de uma pandemia global. Nosso inimigo é o discurso assassino. É o desvario coletivo sob a batuta da mais pura e indigna maldade. Não me digam que são só alguns poucos, porque não foram poucos os que correram ao comércio, não são poucos os que vão todos os dias às padarias, não são poucos os que querem academias reabertas, não foram poucos os que correram ao litoral para aproveitar o feriadão nas praias. Enquanto isso, quem pode, sob a mesma batuta, faz demissões em massa, pressionando seus funcionários a que trabalhem dobrado, apenas para lucrar mais com uma situação de calamidade global. 

O desvario é o tom do discurso, porque a essência é a maldade. Há dias tenho pensado como deve ser, no mínimo, constrangedor estar do lado errado da História. Tento encontrar outra palavra para constrangedor, mas que mantenha o decoro do texto. Como deve ser doloroso, estupidificante, nojento, quem sabe, descobrir-se na contramão dos fatos históricos. Gostam tanto sempre de usar o exemplo do nazismo, tentemos: como deve ter sido para milhares de alemães, levados pelo discurso de desvario e maldade apedrejar, cuspir e denunciar judeus (muitos seus amigos, vizinhos, colegas). Um exemplo mais próximo que me apetece sempre usar: como deve ter sido para gerações perceberem-se escravagistas neste país, saber que a riqueza de sua família veio do sangue dos negros, para muitas das mocinhas e mocinhos da época que desprezavam a pele negra e foram se dando conta, ao longo do tempo, que eles eram cruéis bestas que chicoteavam seus iguais. 

Deve ser um encontro interessante dessas pessoas com suas próprias consciências, ao verem que a História clamava por eles no momento, que defendessem o que era certo como um imperativo categórico apenas e pronto. Mas, optaram pelo erro, guiados ou não pelo discurso desvairado de uns, explícitos na maldade. Já diz a igreja que temos, de fato, o livre-arbítrio para tomar essas decisões, enquanto igrejas que já estiveram do lado errado da História tentam acertar pelo menos desta vez- outras disseminam a mais rasa ignorância a mascarar a completa maldade de suas ações, que também não são de hoje. Contudo, não há como negar, foi o ser humano que buscou este vírus. É o ser humano que escolhe propagá-lo,  em carreatas pelo país, em caminhadas aparentemente inocentes na beira da praia, em idas ao supermercado aos risos e conversas desbragadas. 

A natureza deve assistir a tudo pasmada. Precisou que um vírus inocente que vivia em seu seio viesse tomar metrópoles para que nós a deixássemos em paz. A produção de petróleo parou. Nosso consumismo estúpido parou. As máquinas assassinas de todo tipo pararam. A natureza vive seu devir a ignorar nossa estupidez e desespero. Ou, quem sabe, ela nos olhe como eu, com uma angústia sem fim, a cada pôr-do-sol… pensando, talvez, que a humanidade nunca aprendeu com seus próprios erros, que a humanidade sabe propagar melhor a maldade contra seus iguais do que sabe curar as doenças. E, vejam só, a natureza é testemunha dos nossos atos desde tempos imemoriais. Nós passaremos, ela permanecerá.

Damas da noite

Um dia me perguntaram o que era o amor. Sim, eu sei. É cada pergunta… quem diria que eu tinha resposta para esta. O amor é a dama da noite florida numa noite de Primavera.

Ela encanta meus dias e noites. Obrigo-me a deixar as janelas abertas até mais tarde – a despeito dos pernilongos – para conviver com seu perfume entorpecedor. Que perfume! Se o amor não cheira a isso, melhor não me contarem. Damas da noite floridas mudaram minha vida. Conheci-as há um tempo, quando caminhava longas caminhadas noturnas com paixões e sonhos e idéias. Sabia identificá-las à distância, cheguei a mapeá-las pela cidade. Eu era feliz. Hoje tenho duas no jardim, coisa linda é contemplá-las carregadas com suas pequeninas flores brancas e tão perfumadas. Nas Primaveras chuvosas desta terra onde me exilei, elas caem e estampam o terreno por onde meus cachorros correm alegres. Eu sou feliz. Penso que deveria plantar uma delas mais próximo ao portão, para despertar nas pessoas tudo aquilo que, anos atrás, elas me despertaram. Enfim, dizem, sou egoísta. Eu quero ser feliz. Por aqui não há muitas damas da noite, nem eu faço longas caminhadas. O cinza nos espanta. O cinza nos exila em nossas próprias casas. Mas, é preciso ser feliz. Reparo que há, ainda, alguns ipês, amarelos na sua maioria, e azáleas. Um salve aos nobres de coração que cultivam tais belezas que nos encantam os olhos todas as Primaveras e Invernos. Não é fácil cultivá-las, precisa dedicação, tempo, amor e prazer.

É como o florescer das damas da noite. Talvez, sem saber, eu as tenha sequestrado ao meu jardim para ter amor – para sempre. Nem sempre, eis que florescem apenas na Primavera e parte do Verão. No Outono, sabemos, não há amor. E o amor, por vezes, hiberna… não há amor que dure um ano inteiro. Por vezes, penso, ela chega intempestiva bem naquela época do ano que o peso da vida nos carrega à desesperança e impaciência. Ela me avisa: calma. Faz com que eu não desista depois de tempos tão sombrios. Procura mostrar-me amor, novamente, o conheces tão bem. Vê-la cheia e vistosa muda meus dias – ainda exaustivos, ainda carregados da vida mesquinha e diária. Motivo do meu sorriso em dias desenganados. O amor, enfim, faz promessas. Mas não dura o ano inteiro.

É preciso viver algum tempo sem amor para saber dar a ele a devida atenção. É fácil (quem sabe até mais fácil) viver sem ele. Não me recordo de algo fácil na minha vida. Sei que aguardo pela Primavera e seu vizinho Verão, ano após ano, no longo exílio. A dama da noite é o símbolo da minha espera, que nunca é em vão. A dama da noite sacode a umidade do corpo e o torpor das sensações. É seu perfume forte e doce que irrompe meus pensamentos, dia após dia – mesmo sem as longas caminhadas, ainda há sonhos, paixões e idéias. Ela surge exatamente quando eu poderia iniciar a implosão, para segurar-me firme nos desejos que me assolam (porque eles sempre estarão aqui). Todos os dias, paro a fitá-la curiosa do poder que exerce sobre mim. É o amor, enfim. Passei meses a vê-la verde como mais uma das árvores do jardim, às vezes em expectativa, confesso – às vezes, indiferente. Diante dela revejo a vida nos seus explícitos detalhes: eu amo.

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