Amores pensados

Senti falta de escrever – de escrever aqui. E o que me fez voltar é nobre: cinema e relacionamentos (não falemos de amor, que raramente este é o problema). Nada menos que um filme argentino com o Darín, Un amor menos pensado (Juan Vera, 2018). Darín é o ator perfeito para o papel do hombre tierno e a história trata de um relacionamento como todos os outros, que sofre aquilo que todos sofrem: a ação do tempo, seu maior inimigo. Porém, é um belo filme com uma preocupação detalhista que engrandece-o diante dos espectadores. Talvez não seja para qualquer espectador reparar nos enquadramentos a partir das luminárias e abajures, tampouco reparar no design dos copos que se repetem ou na direção que nos prende em diálogos exatamente ao ritmo deles.

Um casal de meia idade que se separa após a partida do filho para estudar no exterior. Simples assim. E a esposa, após esta viagem, se vê numa madrugada, sem sono, se perguntando o que é tudo aquilo a sua volta, para que cada xícara, cada móvel. O marido não entende bem e prefere justificar com uma explicação psicológica de “síndrome do ninho vazio” e logo, do nada, eles se separam.

O filme é muito bem escrito, dosando ritmos necessários a cada cena. Até a separação o drama predomina, você acompanha o cotidiano e a cumplicidade do casal. Após a separação o humor (por vezes hilário) predomina e vemos os “novos” relacionamentos dos personagens, cada um tentado a vida de algum jeito – vale ressaltar que é a esposa que irá “desbundar”, enquanto o marido se debate na precariedade da vida sozinho e demora mais para envolver-se com outras mulheres (cenas hilárias, Darín escondendo o corpinho numa cena pós-sexo – para quem lembra da juventude dele quando seu derrière era bastante explorado). Boa também a introdução do uso da tecnologia digital de redes sociais e aplicativos num filme com personagens acima dos cinquenta.

Como filme ele mostra que a experiência como Produtor e Roteirista permitiu a Juan Vera afinar sua Direção num nível bastante sutil e elevado. Como história nos leva a pensar… a pensar o que fazemos com nossas vidas a dois. Parece-me que os casais, quando se juntam, vivem de objetivos: o anel, o noivado, a festa de casamento, a casa, o carro, as viagens, os filhos, os empregos estáveis, etc.. Mas, e quando este “etc.” acaba, o que acontece? Por que os relacionamentos são feitos de metas a serem cumpridas – e, normalmente, com prazos? Por que não se pode viver a vida a dois pelo que se sente um pelo outro? Porque, neste meio, há um relacionamento. E quase tudo num relacionamento é problema. Muitos desses problemas são disfarçados pela busca incessante em cumprir os objetivos, juntar dinheiro para as metas, que se multiplicam junto à multiplicação dos filhos.

Eis o fracasso do amor: os relacionamentos. E o tempo vai corroendo tudo aquilo que se constrói dia a dia. Diante dos nossos questionamentos interiores – que, quando exteriorizados são impossíveis de ser compreendidos por quem amamos – pouco importa que o outro é um excepcional degustador de empanadas. Os objetos de decoração, as lembranças da vida a dois, as fotografias de momentos felizes se despedaçam diante de novos objetivos. Tudo o que fazia o relacionamento ter sentido incomoda e atrapalha: não se está mais apaixonado. Esquece-se que manter-se apaixonado toda uma vida é obra diária e que requer todas as nossas forças e atenção. Justamente um dos grandes erros das pessoas num relacionamento: que tudo está garantido (they take it for granted, é a expressão que me parece sob medida). Nos conhecemos, apaixonamos, começamos o relacionamento, estipulamos as metas e seguimos em frente. O “apaixonar-se” fica lá no início e, assim, esquecido.

Por isso, no filme eles decidem se apaixonar novamente – ela mais que ele, sejamos justo, mas é o dado especial para o hombre tierno do Darín, porque, de modo geral é mais raro encontrar estes homens. Em nenhum momento, sabemos, se trata de sentimento. O amor não é o problema e por isso o título em português, derivada da tradução do inglês (sei lá porque, né, afinal espanhol é nosso parente, inglês não), “Um amor inesperado” (“An unexpected love”, em inglês) não faz jus ao original El amor menos pensado. É, de fato, o amor mais esperado (o final não surpreende, nem deveria). Mas, é aquele amor que nós não pensamos, que existe e não é um problema – é, bem provável, a solução.

Quando não pensamos, nos perdemos em todos os perrengues de uma relação sujeita às intempéries. A burrice de todo casal é não perceber que as tempestades passam, as boas obras resistem. O casal do filme prova que o fim dos objetivos e das metas esvazia o que existe na vida a dois e o amor não parece o suficiente para garantir a felicidade – pensar numa tarde de domingo es peligroso e abandonar o programa do cinema à noite porque ficou tarde minam tudo. O amor menos pensado reconstrói uma vida sem toda aquela lista de obrigações e objetivos a serem alcançados. Eu nunca vi um relacionamento desta forma, devo ser exceção.

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Corta a cidade

O trem cortou a noite

dezenas de vezes ouvi-o

esvaziar meus pensamentos

naquele instante

porque o trem cortou a noite.

A alma que, de madrugada,

sonha acordada

com as férias? O futuro? O nada?

desperta assustada

é o trem varando a friaca.

O tempo passou, me veio a idade

encontro-me em certezas

questiono o brilho das estrelas!

julgo partir em pedaços a hipocrisia.

Olho ao redor…

somos todos os mesmos.

E, ainda,

o trem, à noite, corta a cidade

(e minh’alma).

Cambiar mi suerte

Mira
Me conoces poco
Te quiero mucho
Haces flores de mis destrozos
¿Cuánto cuesta tu sonrisa?
Tu alma me extraña
¿No?
Mira
Yo no quiero todo
Puedes tenerme sólo
Puedes tenerme hoy
Te quedas en dudas
Quedate conmigo, niño
Mira
Esto es imposible
Yo, sinto, no soy la misma
Tengo un corazón a proteger
Y un cuerpo a desear
Pues, hoy, te los quiero dar
Mira
No tengas vergüenza
Sé que soy un riesgo
(Una chica de verdad)
Que ni sueñan los padres
Pues te garantizo placeres, niño
Mira
No me hagas decirle dos veces
Te quiero mucho
No me engañas tu mirada, niño
La vida puede que me sea una tormenta
Y no tengo ojos al pasado
Si no vas a cambiar mi suerte
Quedate acá, cerca del mar
¿Sabes que no voy a volver?

Em dia de Santo Antônio

O sorriso de quem batia à porta do céu

em dia de Santo Antônio

avisando que vinha num pôr-do-sol

depois de fechar os olhos ao amanhecer.

Elias, também, para aí partiu

em carruagens de fogo

que os bons Deus leva

ao seu encontro.

Nossa mania de lavar as mãos

em demasia

e o que a esquerda fazia

a direita não via.

Há quem nunca aprenda

o que a vida ensina:

a amar nos resquícios do dia

nos labirintos do silêncio.

O coração gigante dos olhos azuis

captei para lembrar

como era chegar em casa

e vê-la dependente e frágil.

“Nossa Senhora” sussurrava

aos meus sorrisos

“Puta, tudo puta” gritava

às minhas gargalhadas.

Versos, apenas

para não esquecer.

Saudade imatura irrompe

às portas abertas do guarda-roupa

dos dias que descobri, por fim

o vazio. O vazio.

Foi sacrifício

agarrou-se a todo o respiro

invencível e forte – que forte!

um de nós, teria sucumbido.

Instalou-se aqui como uma prece

inundou-nos com parábolas

e lições de ouro e de prata

ditou seu evangelho e nos salvou.

Do teu olhar lúcido e passageiro

às tuas últimas palavras.

O amor vence

a memória.

O que a universidade pública faz por NÓS

Diante das atrocidades do atual governo, foi incentivada intuitivamente uma campanha para mostrar aos outros (àqueles que acham que “sustentam vagabundo com seu dinheiro”) o que a universidade pública fez por nós. Por nós, porque mesmo que ela tenha feito por mim, eu replico, todos os dias, os efeitos dela na Cultura, no Conhecimento e na Educação. E isso é fundamental para o país. O governo Bolsonaro é inimigo do nosso futuro. Estava conversando com um estrangeiro que mora aqui e ele disse não entender a atual política, chamando-a de “política da destruição”. E é isso mesmo, uma política que visa destruir o Meio Ambiente, a Cultura e a Educação é uma política que aniquila o Futuro. O Brasil sempre foi o “país do futuro”, desde minha infância ouço isso; de um futuro que nunca chegou. Agora, até este sonho querem nos tirar.

Eu que nem gosto de sair por aí falando da minha vida darei o testemunho do que o ensino fez por mim. Porque tem pai e mãe apoiando este imbecil eleito sem saber que, se não fosse a universidade pública, seus filhos não teriam professores de qualidade em sala de aula. É simples assim.

Estudei o Fundamental e o Médio em escola particular, uma opção dos meus pais em busca da melhor educação que eles poderiam nos dar. O Médio só consegui terminar com bolsa. Fiz curso de Inglês dos seis aos dezessete, fiz curso de Espanhol. Minha mãe sempre repetia o que meu avô dizia: a educação é a melhor herança que eu posso deixar pra vocês. E eles deixaram mesmo.

Aos dezoito anos saí de Joinville, sozinha, para ir fazer graduação em Florianópolis. Levei comigo uma mala com roupas e uma pequena caixa com livros. Fui fazer Filosofia na Universidade Federal de Santa Catarina e Cinema e Vídeo na UNISUL, esta particular. Foi a minha escolha. Meus pais haviam cursado ensino superior, meus irmãos também, todos apenas em faculdades particulares devido à dificuldade de acesso, histórica, ao ensino superior público. Meus avós não tiveram esta oportunidade. Não foi fácil, eu garanto. Os gastos, os perrengues, as dificuldades de viver sozinha longe de casa. Mas, me sentia feliz e corajosa, pois vi muitos, inúmeros colegas até bem mais estudiosos que eu, ficarem pelo caminho. Ouvi de colegas do ensino médio, que o pai preferia que ele/a fizesse faculdade em Joinville mesmo, nem tentasse o vestibular da Federal, porque a mensalidade seria o valor dos gastos em outra cidade. Uma idéia péssima, eu garanto.

Em cinco anos eu me formei nas duas. Mera coincidência, a formatura das duas foi exatamente no mesmo dia. Optei pela cerimônia da Federal, porque até nisso uma universidade federal faz diferença – eles não cobram pelo local, etc.. Foram cinco anos intensos, fui bolsista do PET (Programa de Ensino Tutorial), do governo federal, do curso de Letras da UFSC. Uma das melhores experiências da vida, pois vivíamos envolvidos em atividades de pesquisa, ensino e extensão, além de um convívio intelectual enriquecedor. Fui bolsista de iniciação científica, na UNISUL, com verba federal, na área do Cinema. Participei de eventos na universidade, comi no bandeijão pagando R$1,50, paguei passe estudante (em 2004 o valor do passe era R$1,50 e pagávamos metade), conheci gente de todo canto do país e do mundo, tive acesso a uma biblioteca maravilhosa. Vivi intensamente.

Depois eu fiz mestrado em História na Universidade do Estado de Santa Catarina, hoje também ameaçada de cortes. Ampliei ainda mais meus estudos e visão de mundo. No primeiro ano do curso, trabalhei em sala de aula como professora substituta de Filosofia na rede estadual em uma cidade pequena, com menos de 30 mil habitantes, que sempre sofreu com falta de professores. Ia de uma cidade para outra, toda semana. No segundo ano recebi bolsa Capes, até defender minha dissertação de mestrado na data, sem prorrogação nenhuma. Nestes dois anos de mestrado participei de vários eventos científicos da área, apresentei trabalhos, publiquei textos e artigos. Uma vez tive dinheiro de verba para viajar, pela universidade, mas em todos os outros eventos paguei com o valor da bolsa. Bolsa de R$1.500 (o valor hoje continua o mesmo), para pagar tudo (aluguel + transporte + comida + etc. etc.), e dedicar-me exclusivamente à pesquisa, à leitura, ao aprimoramento intelectual. E não foi pouco, eu garanto.

Depois do mestrado fui professora de Filosofia na rede estadual, no Ensino Médio, numa cidade da grande Fpolis. Em todas essas escolas eu vivi o dia a dia de alunos que são abandonados pela sociedade. Eu vivi o dia a dia de profissionais que dão o sangue pela Educação, conheci pessoas maravilhosas, admiráveis em caráter e empenho.

Há alguns anos sou professora da rede particular, professora de Filosofia do sexto ano do Fundamental ao terceiro ano do Ensino Médio. E há dois anos sou professora de graduação em Cinema e Audiovisual. É o trajeto de uma vida toda. É estar em sala de aula, todo dia, defendendo a Educação. Defendendo a formação que eu não pude ter em Joinville, pois aqui faltam professores de Filosofia e só tem, sei lá, eu e mais um graduados em Cinema – em toda uma cidade de seus quinhentos mil habitantes. Porque, acreditem, há um mundo além de ser chão de fábrica e trabalhar em prestação de serviços – sem desmerecê-los, mas não podemos condenar uma juventude inteira de uma cidade a essas ocupações.

Meu sonho era ter uma escola de Cinema em Joinville, com filiais em Lages e Criciúma, por exemplo, para descentralizar o conhecimento e o acesso. Sou defensora da UFSC em Joinville (“em Joinville”, não na BR) com cursos de Licenciaturas de todas as áreas, esta sempre foi a minha bandeira. Eu nunca quis ser professora – achava chato, repetitivo, entediante. Até que descobri como é fazer algo por tanta gente (hoje tenho mais de trezentos alunos) e ver como isso, de fato, muda o mundo. Como é bom deixá-los em dúvida, como é bom vê-los questionarem, como é bom vê-los crescerem intelectualmente. Eu mudo o mundo e construo o futuro, todos os dias, dentro da sala de aula.

Hoje sou orientadora de Iniciação Científica, na graduação, na mesma área do mestrado e da Iniciação Científica que fiz lá na graduação. São anos desenvolvendo trabalhos, estudos e crescendo para poder trabalhar junto com alunos e novos profissionais. E minha formação não foi “paga” por esses aí que desmerecem e achincalham a universidade pública, foi paga com a vida inteira correta e trabalhadora dos meus pais. E, hoje, eu posso dizer com orgulho o quanto devolvo para a sociedade o investimento que fiz na minha formação. Por isso, senti como ofensa pessoal o corte aleatório de bolsas dos programas de pós-graduação. Vi ontem na TV pesquisadores sendo estrevistados, tendo que mostrar a importância dos seus estudos para o país (pré-sal, vacina da zika) e que estão à mercê de parar por questão de não conseguir se manter sem a verba das bolsas. Ninguém fica rico “ganhando” bolsa de pós, ok? E, também, porque sei que o conhecimento não pode ficar parado, quero ver no horizonte do meu futuro a possibilidade de continuar os estudos em universidade pública.

Ouvi de uma educadora de respeito, ontem, “Todos deveriam aderir, pois afetará a todos” se referindo às escolas e universidades particulares, estaduais, etc. diante da greve que começa hoje, dia 15 de maio. Concordo com ela, e digo mais: toda a sociedade deveria aderir à greve da Educação porque esta é uma luta de todo um país. É uma luta de todos nós contra esse disparate inconsequente que estão perpetrando. História como a minha e a de milhares estão em jogo diante da alucinação de cortar verba da Educação.

Mais alucinação ainda foi entender que o governo “contingenciou” a verba da Educação para ameaçar a população a apoiar a reforma da Previdência. Ouvi do ministro que não há corte de verba, mas se houver apoio à reforma, então os valores serão liberados normalmente. É ameaça, é chantagem, estamos reféns de um governo de incompetentes que, diante de uma população que não quer perder mais e mais – enquanto eles não abrem mão de nada – diz “não”. São uns canalhas. É canalhice dizer que não haverá verba para pagar as aposentadorias, dentro de meses – por que não cortar os salários de deputados e senadores, e suas verbas de gabinete, por seis meses? (eles não trabalhariam por amor à pátria?).

A partir de hoje, declaro-me em greve. Mesmo estando em sala de aula, pois trabalho para a iniciativa privada e se eu faltar sofrerei as consequências – até o momento que todos, mesmo estas instituições, seus alunos e funcionários, tomem consciência que a luta é necessária e fundamental ao Brasil -, estarei em situação de greve. Estou em greve pelos valores e atitudes de toda uma vida.

As balas perdidas do Bolsonaro já fazem as primeiras vítimas

Sei que muitos de nós estão esmorecendo. Já nos sentimos doentes e, por vezes, o corpo sucumbe aos maus tratos pscicológicos que temos sofrido no último ano. Aquilo que parecia inacreditável se realizou: Bolsonaro tornou-se presidente. E, deste posto, desfere suas balas perdidas em muitos – milhares, milhões – de nós.

Escrevo para todos aqueles que se sentem como eu e, em especial, aos colegas e amigos que estão caindo diante das ameaças e atitudes concretas do esfacelamento que planejaram para o nosso país – porque o país não é nem jamais será deles. Ele não é meu presidente, ele não me representa. Ele, não.

Estudo, trabalho e atuo em duas das grandes áreas que ele escolheu como inimigas: Educação e Arte/Cultura. Ele as escolheu como inimigas porque são essas duas áreas que nos tornam quem somos: seres humanos críticos e combatentes. Sem arte e educação a pessoa não se torna grande. Como eles, aliás, não o são. E, além disso, sou uma pessoa que vive e trabalha neste país, atacada, também, pelos outros desmandos de ordem estúpida e conluios com os empresários que querem mais e mais para si – vide as mudanças em leis de questões relacionadas ao trânsito e à reforma da previdência. Em tudo, sinto-me atacada, diariamente.

Alguns colegas foram para o exterior – e decidiram ficar, atrasando sua volta porque não vêem horizonte por aqui. Não os culpo. Milhares de jovens só sabem dizer “quando tiver a chance, vou embora” – colegas e amigos dentre estes. Só fica quem não tem como sair, quem tem outros motivos que os prendem aqui, ou, ainda, poucos que preferem lutar. Porque, agora, não há mais espaço para a ingenuidade.

Ano passado, assim que ele foi eleito, um aluno me disse “Não será assim tão ruim, professora” diante dos meus temores. Bem, nem ele acredita mais nisso, e dizer que temos só quatro meses do pior governo deste país. Apoiado por militares e seus filhos, que o ajudaram a se eleger, todos ignorantes e com a maldade evidente nas suas ações e discursos, já abandonado por muitos que nele votaram e até mesmo pelos que fizeram campanha por anos em prol da sua candidatura. O fenômeno Bolsonaro eu conheci, eu vi crescer, eu acompanhei a cooptação e proliferação de idéias populistas e violentas que atraíram uma juventude agressiva e desiludida e idosos raivosos, principalmente, além da classe patronal ressentida.

Estamos adoecendo, estamos nos sentindo fracos a cada ataque. Sem preparo nenhum, rodeado de incompetentes, o governo destila maldade contra a Educação e a Arte/Cultura, investindo em ações que querem cumprir “promessas de governo” a partir de frases feitas e uma estupidez que parece não ter fim. Primeiro foi a ANCINE, depois a Lei Rouanet, agora as Humanidades. Um estúpido que quer que o seu filho tenha um “ofício” (termo em desuso desde o começo do século passado). Um estúpido que governa pelo Twitter, divulgando mentiras e infâmias. Uma equipe que não consegue colocar sequer um site no ar, que divulga “mudanças” numa lei que ninguém viu.

Vejo colegas e amigos doentes. Eu também fiquei, ano passado. Porque não quis acreditar que vocês votariam e votaram nele. A propagação de idéias maliciosas foi tão bem arquitetada há anos que pessoas lúcidas preferiram ignorar o fato de que estavam votando num energúmeno maldoso a posicionarem-se contra este senhor que, até o momento, acha que acabar com o horário de Verão foi uma atitude benéfica em relação aos “péssimos governos anteriores”. Que estúpido acredita nisso? E dizer que muitos votaram nele por isso mesmo, para acabar com o horário de Verão.

E ele quebrará o país como tem quebrado muitos de nós. As privatizações, os ataques ao funcionalismo público, o assassinato de idosos aposentados e pensionistas, o desemprego, os salários baixos, a exclusão escolar. Se ele ficar quatro anos é isso que teremos: um país quebrado, com uma população miserável, inflação explodindo, hospitais sem atender, falta de itens básicos nos supermercados. Tipo a Venezuela. Enquanto eles estarão no poder, fazendo piada no Twitter. Ele, que viveu a vida inteira às custas do dinheiro público – como militar e parlamentar.

A tristeza também adoece e mata. Ver as Humanidades atacada de forma tão vil e inconsequente me revoltou. Ele jamais saberia, pois nunca pôs os pés num curso superior, que até as engenharias precisam dos graduados em Filosofia. Pois a Lógica, a Filosofia da Matemática, a Filosofia da Ciência existem. Não que ele saiba, é claro. Os cursos de Pedagogia, Direito, Psicologia, Comunicação, e até mesmo a Biologia nasceu pelas idéias de um filósofo. O desconsolo de alguns amigos que, sabiamente, afastaram-se das notícias e do contato com as pessoas me assusta e entristece. Porque estes ataques não têm sido em vão e têm alcançado seus objetivos. E, com uma canetada, digo, uma tuitada, ele ceifará muitas vidas.

Somos resistência, porém. A cada dia, todos os dias. Eu estou com bandeira em punho, vinte e quatro horas por dia, em todos os espaços e canais que tenho contato. Porque eu sei que eu mudo o mundo a minha volta, todos os dias. E esse era meu sonho de adolescente: mudar o mundo. Não o abandonarei jamais – nem a vocês, caros amigos e colegas. Devemos nos deixar cair, de vez em quando, porque o fardo é pesado e difícil de assimilar. Mas, é preciso mostrar porque e para que estudamos tantos, lemos tanto, nos posicionamos o tempo todo e nos tornamos grandes. É preciso mostrar que eles não são maioria – e que nós somos melhores. É hora de levantar a cabeça.

Produtividade e hipocrisia

Saiu de moda criticar a sociedade. Afinal de contas, precisamos nos enquadrar para sustentá-la e ser crítico em relação às coisas como são não é produtivo. Porém, esta produtividade é tão hipócrita e sem sentido que é impossível não criticá-la.

Ontem conheci uma moça que tem três empregos. (e ela nem é professora…) Porque, se não fosse assim, não teria como sustentar-se – vejam bem, não é que não teria a “vida dos sonhos”. Um trabalho só não nos basta – e não estou falando de preenchimentos espirituais, mas apenas práticos, ou financeiros mesmo. O salário das pessoas mal dá pra se manter, esta é a realidade. E ainda com jornadas absurdas, patrões tirando vantagens de tudo e de todos (e se fazendo de injustiçados), descontos de tudo quanto é lado (até o governo, vejam só, que diz que nós é que somos o problema da iminente quebra dele), os preços em alta constante. Ninguém vive com mil reais por mês. Ninguém vive com o salário médio do brasileiro.

Assumimos uma vida que não nos satisfaz em nada. Trabalhamos cada vez mais, sem tempo nenhum para cultivar o espírito nem para estudar, divertir-se ou adquirir mais conhecimento. Até divertir-se tornou-se uma obrigação apenas para que os outros vejam. Aliás, sempre digo que adquirir conhecimento, no Brasil, não é visto como deveria. O brasileiro despreza o conhecimento, diariamente temos provas do tamanho dos erros aos quais a ignorância nos leva – e a escola virou mera obrigação, curso superior é caminho pra profissão, nada que faça elogio à busca pelo conhecimento. Saber é poder, já diria o filósofo. Mas, pra que estudar Filosofia, né?

Pensamos, erroneamente, que estamos nos dedicando aos que amamos, trabalhamos cada vez mais para dar um “futuro a eles”. Quase todo pai pensa assim. Passa horas no trabalho e não tem tempo nem para colocar o filho para dormir, contar-lhe uma história, perguntar como foi o dia ou levá-lo às lágrimas de tanto rir. Os pais nem conhecem os próprios filhos porque tudo aquilo que fazem hoje, pensando no seu futuro, os afastam de quem aquele ser é, em formação. Já ouvi criança dizer “mas em casa ninguém conversa mesmo”. Imagine o que passa uma criança para conseguir elaborar esta afirmação – nada sai por acaso da boca de uma criança. E aí os pais trabalham, trabalham, e seus filhos têm tudo do bom e do melhor: o tênis novo, o celular de última, os jogos e roupas da moda, as melhores escolas e cursos, vão ao shopping encher a praça de alimentação aos sábados e domingos. Mas, à noite, antes de dormir, nem se importam que não viram o pai naquele dia porque estão imersos em qualquer baboseira na internet.

E o que fazemos? O que estamos fazendo enquanto aqueles que amamos precisam de nós, da nossa presença? Presença física e espiritual, presença prática, de exemplo e companhia. Nos cansamos em trabalhos cada vez mais exaustivos e menos gratificantes, atropelamos nossos desejos e sonhos pensando no quinto dia útil. Quando, por fim, temos um pouco de tempo com eles, a irritação toma conta. Não estamos mais acostumados a conviver, não nos conhecemos, não temos a intimidade necessária. E cada um escapa para o seu lado, enterrando-se no vazio deste mundo que foi feito para que, mesmo nas horas de lazer, desejássemos voltar ao trabalho.

Não é novidade que adoro banho de mar. E se tem uma coisa que me desgosta é, durante o banho de mar, ouvir pessoas (nas férias! durante o banho de mar!) falando de… trabalho. É sintomático. Fomos treinados para isso, a vida não faz sentido se não estamos trabalhando. Se até quando temos nossos momentos de lazer saímos com… os colegas do trabalho. Vivemos internados neste ambiente, sendo catequisados que dele precisamos e dele dependemos. Como se não houvesse vida, afinal. Porém, vale lembrar que o trabalho deveria ser apenas uma parte da vida.

E como somos hipócritas! Aliás, apontar a hipocrisia nunca esteve na moda. Ninguém gosta, eu sei. Dizemos que estamos fazendo tudo “pelo futuro”, “porque amamos” e que tipo de amor é esse que não sabe conviver? Que nunca tem tempo? Que futuro é esse, do qual nem certeza temos? Que amor é esse que soma, todo mês, um pouco mais na poupança e passa todos os dias do mês ausente? Estamos distantes daquilo que pregamos. “Tuas idéias não correspondem aos fatos”. Estar junto ainda é a única significação do amor (já escrevi sobre isso). Mas, preferimos nos enganar. Preferimos emburrecer. Preferimos horas e horas no vazio de uma internet que mal sabemos usar. Porque esquecemos como é viver aqui fora. Porque o trabalho pesa e só queremos esquecer disso, mas sem pensar.

Trocamos a qualidade de vida pela produtividade, cada vez mais enfurnados em casas e apartamentos, em redes sociais, no trânsito parado, em fofocas e falsidades, em notícias falsas e ignorância travestida de novas idéias. E nem mais sonhamos com uma reforma nos padrões que diminua a carga horária e aumente os salários, para que tenhamos tempo para conviver com quem amamos e para que possamos cultivar o espírito – porque nem saberíamos o que fazer com isso.

O vazio intolerável

Os espaços eram menores, as casas também, de tão pequenas já haviam sido empilhadas umas sobre as outras e formavam longas colunas em direção ao céu. As cabeças diminuíram, os corações seguiram o mesmo caminho. E a TV ficava muito perto dos olhos, dormiam todos estreitados entre paredes frias. As ruas largas apertavam terrenos contra si mesmos e num só, onde haviam laranjeiras, goiabeiras, bananeiras, pinheiros e floreiras agora apertavam-se três ou quatro casas, da largura de um carro. O barro, dele nem se lembravam, atolados em asfalto e piso e chuva que não tinha mais para onde ir – quando chovia. Até os computadores eram menores, mais leves e finos, ou haviam sido trocados por telas menores e sem teclados – haviam, até, desaprendido a escrever, pois os teclados virtuais sabiam fazê-lo sozinhos.

Tudo ia diminuindo num mundo cada vez, ainda, mais cheio de gente. Os pensamentos, nas cabeças que minguavam à falta de estímulos e engordamento, também murchavam – nuns, quase desapareciam – e, obscuros, não atinavam com o sentido (da vida, do existir, da felicidade, do ser: porque estas respostas precisam de tempo e espaço). Aquelas cabecinhas esvaziavam-se nas telas pagas para dizer o que eles achavam que queriam – pois sequer sabiam no que acreditavam. Muito se repetia nos templos, mas sabia-se a tempos que tanta certeza só faz nascer desespero. Era um novo mundo, cheio de letrinhas e imagens que preenchiam toda a tela, mas as quais ninguém lia. Ninguém atinava com tanta coisa que de nada lhe servia. Alguns lembravam das quedas dos altos galhos, outros nem as conheciam. E a cabeça, cada vez mais vazia.

O vazio era intolerável a todos. Alguns mal reagiam, o movimento mecânico os denunciava – e a voz que vinha de longe não nos atingia. Era mais uma alma perdida. Àqueles que pediam socorro, não davámos ouvidos. Era mais uma alma que podia ter sido salva. O vazio nos perseguia, nos atingia nos momentos de alegria diante de inúmeras fotos que ninguém via. O vazio nos fazia companhia, entrelaçava nossos dedos na hora do intervalo, ia para a cama junto conosco e nos ninava os olhos. O vazio nos perseguia nas parcas idéias que ainda tínhamos, contaminava nossos monólogos: afinal, o que postaríamos naquele dia? O vazio, por certo, nos adoecia ao nos afastar do que um dia haviam chamado de vida.

E quem nunca conhecera o que havia antes do vazio se dava por vencido. “Se a vida é isto, estamos perdidos.” o imediato e o dado lhes eram necessários. Não havia mais caminho, nem suas pedras e suas poesias. Não sabiam como constuir o que desejavam, quiçá nem sabiam o que eram os sonhos. Não sonhavam, por Deus! Nem Deus lhes preenchia o vazio. E foi assim que também seus corações esvaziaram… amores não os tinham. Paixões em instantes satisfaziam. Seguiam modas e modismos, mas coração sempre foi coração. E coração é só coração. Vazio, morre e mata. E aquilo mais me assustava: coraçõezinhos tão pequenininhos e lá dentro, pu, nadinha – um resto de vento que soprava gelado. Tão grande e rápido o mundo de cá, esmagava os corações que nem mais batiam. Fraquinhos e suspirantes sem jeito nada viviam nem aprendiam. O mundo este que nos parecia tanto progresso e sucesso não precisava de cabeças nem de corações – tudo nos esmagava e nem percebíamos. Os corações, então, só falavam pelos teclados que existiam nas telas – sem voz, sem choro, sem abraço.

Sem abraços, por Deus! Que as mãos estavam ocupadas a segurar seus controles – que sugavam suas cabeças e corações e esmagavam sua existência. O vazio era intolerável e tentávamos preenchê-lo com aquilo que nos diminuía muito a cada dia. Nos envenenávamos quando podíamos e o gosto amargo descia lancinante a dizer-nos “aprecia!”. Tudo diminuía. Tudo nos dava azia. E repetíamos. Às casas apertadas a solução era um bar da esquina, onde nos lançávamos à falsa alegria contando a todos que lá, enfim, a dor nos redimia. Mas, de nada valia se não contássêmos a todos. E o vazio, ah!, este crescia – sorridente e indiferente. O vazio, ah!, era intolerável pois não o abandonavámos. Os gritos de socorro calaram-se, os índices aumentaram. Fazíamos que nos preocupávamos. Se também erámos vítimas, como salvá-los? A nossa vez aguardávamos na fila. A fila, esmagada entre gavetas umas sobre as outras, pois também ali os morros haviam diminuído – ou os corpos queimávamos, assim ao vazio voltávamos.

Outros campos

Olhos abertos ao sol

São tristezas passageiras

Agosto sopra à nuca

Meus desgostos à tona

Do topo avisto outros campos

Permaneço pés imóveis

há montanhas demais a galgar

A descida é uma escolha

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