Ensino-te

Ensino-te

a pisar caminhos e tropeçar sem medo

escapamos de dias de desespero

de sábados sem sol e de domingos mornos.

Ensino-te

o doce lambuzar das palavras mais sútis

em troca de olhares e nervosos sinais

sobre ondas do nascer do sol primaveril.

Ensino-te

a não morrermos de tédio em frente a TV

a despedaçarmos os amores vãos e frios

a superarmos distâncias num piscar da lua.

Ensino-te

meu bem, que a vida é mesmo assim

superar dores e lambermos afagos

a cada perigo na esquina, olhares atentos.

Ensino-te

que não sou de ninguém nem nunca fui

que o tempo é um velho amigo

a deslizar pela estrada que tracei.

Ensino-te

o tanto que tenho fome do mundo

o tanto que o mundo me destrói

o tanto de invernos que já sofri.

Ensino-te

o tamanho das coisas sem importância

a palavra amarga dos filósofos

e a câmera nervosa que nos desperta.

Ensino-te

eis quem sou.

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Descalça

Desnuda estas pernas
deixa o colo à mostra
Seduz, teu sorriso
De alma velha
de quem já sofreu
e não se entrega
Mais uma Primavera!
Entrega teus pensamentos
ao sol
confessa teus desejos
brinca em segredo
Teu corpo ama
Entrega – te aos dias que virão
a paz tu mereces
mas não a quer teu coração
Ele quer vida bamba
Calor e paixão
Desafias o destino
descalça e cabelo ao vento
sorriso e vestido
e o olhar despido
mais uma…
Primavera.

Canção popular

Estou sem rima

para o teu sorriso

nego querer tê-lo

como abraço

e remetê-lo

ao desejo


Estou sem poesia

outra tarde, outro dia

quis morar no pôr-do-sol

e deixei a vida

mais bonita


Estou sem inspiração

a chuva infiltra

cada canto da canção

bebo pra não perder

horas vagas em oração


Estou sem pressa

a amar a Primavera

o sol e as flores

meu coração

de novo em cores


quis ser popular a fazer versos de paixão

e neles nos enroscavámos assim:


Me deixa cair no abraço dos teus lábios

a roçar no canto do teu sorriso

esse desejo proibido dia e noite comigo

o futuro é incerto, eu te digo

mas no sonho e no Verão a gente pode

se amar como dois conhecidos

e ninguém tem nada com isso!

Atravessar rios

Atravesso rios. Pulo, feliz, de pedra em pedra e a água corre límpida. Não sabemos aonde vamos. Aceitei o convite sem nada na cabeça – esta mesma que deitou no teu ombro. Atravesso rios que em tempos ruins secaram e a visão do leito me angustiava. Sim, sinto; sinto angústia. Atravessar rios, contigo, é livrar a alma deste desvario que é a vida. A alma, afinal, sai do corpo e pode cruzar rios tranquilos no teu abraço. Nos outros dias ela geme baixinho a inclemência de uma vida que ela nunca quis assim. Tantos ruídos nos separam, além do leito seco. Atravesso rios, já os vi mais caudalosos, mais violentos, mais sedutores. Rios vi que me fazem sorrir sempre que lembro deles. Atravessar rios minha alma necessita. Surpresa foi tê-lo comigo. Pois sei, atravesso-os sozinha – como de costume. Sorri ao tão bem cair no teu aconchego e partirmos. Surpresa me vi atravessando mais um rio – tão bonito e infinito. Atravesso rios em noites de chuva neste impasse entre estações. Atravesso rios quando travam batalhas, dentro de mim, idéias e mundos reais. Lembra-te da leveza dos nossos pés a saltar as pedras, a molhar os pés, a sentirmo-nos seguros – quem diria! – como nunca me senti. E o leito secou e a realidade virou pó e os gritos lancinantes das vozes incabíveis e o desgosto chegou. A angústia, por si, voltou. E as horas giram o relógio, as horas repelem os sonhos, as horas não sabem quem eu sou. As horas viram dias que viram noites – e quem sabe atravessemos mais rios – que viram semanas que viram finais de semana que viram meses e meu tempo não chega. Conto cada milímetro de passos que não dou. Conto cada centímetro da cela onde estou. Conto cada centavo da hora que me pagam. A angústia conta as histórias dos rios que atravessei, cada noite antes de dormirmos. Enfim, não iremos a lugar algum. E o corpo deixa de existir naquelas horas que teu braço me envolve e atravessamos rios. Eis meu sorriso mais sincero.

Sorriso falso

Devolve minh’alma. Devolve que peno dias sem tê-la, sem meu corpo ter rumo. De matéria se desfaz e ignora a desfaçatez de toda esta grande merda que nos circunda. Devolve que quase já não respiro. Busco luz, busco calor – é inverno, bem sabes. Devolve esta que até me tira o sorriso do rosto, por bons motivos quando nos entretemos só eu e ela. Que este sorriso simpático exibo de pura falsidade – é, é mesmo, creia-me. Falta-me a alma a florir este corpo e a brilhar estes olhos – porque vêem o sorriso no rosto e mal percebem o opaco dos olhos, seus frouxos. Alma é para poucos. Tirou férias de mim, deixo-me às lamúrias de em nada ver alegria, de folhear páginas a bocejar, de morrer de tédio ao fio dos dias que passam sem memória. Quero-te, volta pra mim? Faça-me tripudiar das ladainhas estridentes destas gazelas ao meu redor. Faça-me encontrar-te ao lado da cama, todas as noites, para nossa charla sincera. Faça-me de novo ouvir música como o universo a clamar meus sonhos. Cadê tu, alma querida? Esqueceu-se de mim; sofreste, eu sei. Não queres mais a pentelhação de tantos nós nas cordas que me amarram – não queres mais sentir-te amarrada. Nem eu. O que faremos, então? Faço-te promessas. Quaisquer e todas. Não foste por vontade própria, bem sei. Teu algoz é a dor. Devolve minh’alma, sem ela sofro em dobro. Sem ela o chão fica e a queda é dura demais. Sem ela só resta o chão, em verdade. Sem ela este inverno nunca terá fim – e já há flores nas pitangueiras e nas cerejeiras; apressa-te. Vem, alma, foge e vem ao meu encontro. Faço-te promessas sem intenção de cumprir (vês como te amo de verdade?). Prometerei o mundo, porque sem ti as manhãs demoram a chegar e os dias demoram a acabar. Devolve minh’alma, dor. Que estar sozinha é minha melhor companhia. Que com ela sinto-me segura e capaz e até as coisas banais tiro de letra – ela é meu apoio e minha guia. Devolve minh’alma que sem ela desatino, atiro e mato. Dela dependo para ter paciência e elevar-me desta mediocridade, desviando dos ignorantes e infelizes. Dela tiro forças para chegar feliz a cada degrau, sabendo aonde chegarei. Devolve minh’alma, sua filhadaputa. Devolve que nem contigo mais tenho limites. Fico boca suja e desdenho de medo e autoridades. Danem-se. Quero minh’alma a dar-me colo, quando preciso. Vê-se bem que minha cabeça dela também precisa. Nem às idéias mais presto atenção, deixo-as no ir e vir do desalento – só em minh’alma há paixão. Vê só, sumiu-me até a paixão. Aí não tem mais jeito. Devolve minh’alma senão farei revolução – mas como se só com ela ponho o mundo de cabeça para baixo? Amuada, sem alma, quero mais que o mundo se exploda. Alma, volta. Prometerei tudo, mas duvido que sequer consiga te levar a ver o nosso mar. Mas, volta. Peço-te, assim desesperançada e emputecida. É que sem ti, só sei pedir. Volta pra nossa vida que está aí parece música de descornado que toca na rádio. Volta, não sei até quando este sorriso eu saberei fingir.

Falta da chuva

Os dias assim na cidade me carregam para um túnel de introspecção. Tudo o que já foi entretém meus pensamentos, silencio as palavras para me assoberbar de passado. Onde você estará? Talvez tenha sido alguma música na rádio, ou o sonho pela manhã, o que me trouxe você às lembranças. Você, ou os outros. Tanto faz. É o momento de não lamentar nada, nem ninguém. De sorrir das coisas boas – elas existiram, não sei negar. Também é malícia. Passo as curvas e a chuva fina a lembrar das declarações e elogios. Tenho especial apreço por ambos. Guardo-os a sete chaves (guardo-os todos, nem você nem ninguém sabe). Quem me elogia por vezes nem lembra – mas eu sempre saberei. As declarações… as pessoas deveriam se empenhar mais em declarar-se. Dizer o que ama no outro, o que ele significa para você… Tuas declarações foram inesquecíveis.

A chuva polvilha o vidro do carro e desenha poesia com as cores dos faróis. É isso que me convence a viver, hoje. Quem sabe tenha sentido falta da chuva. No sonho o passado estava vívido no que vivemos e, muito mais, em tudo o que nem chegamos perto de viver – nem poderíamos. A vida juntos não era para nós. Essa vidas que se encontram nos piores momentos e se afastam porque, simplesmente, não era para ser. Assim é. Nos sonhos somos quem não podemos ser. Atamos os laços que a vida desfez o nó. Em dias assim a vida faz todo sentido, porque ela permanece enquanto tudo muda. Não está ao nosso alcance prendê-la. E é bonito olhar para trás, hoje.

O frio sorrateiro foi o golpe certeiro para reavivar o corpo e a memória. Sou a mesma de sempre, não tenho como negar. São as músicas companheiras, a solidão amiga, os sinais conselheiros, a natureza amante, o distanciamento inerente… sou eu. É preciso voltar ao prumo. É preciso ser quem se é. Meu desespero foi tentar ser aquilo que não posso ser. É bom deixar o mundo do lado de fora, ouvir uma canção de dor de cotovelo aos risos e lembrar das tuas palavras sedutoras. Por um instante retomo meu tempo e dou menos valor ao bizarro da repetição do cotidiano. E não esqueço tuas declarações. A chuva persiste a embalar nossos desejos e quem sabe os sonhos que a noite trará…

The dogs

I found the sun behind the mountain

the children are playing in the garden

I left the books in the grove

Look all the lost smiles

Think about all the nights

I’ve spent dreaming with these days

You’ll never know, but try

The beach was empty

everyone has gone

the stars also

There’s not enough faith

for the time that will never come back

there was not a chance to go wrong again

I found the rain unspeakable on the streets

the children left their toys on the grass

the dogs are barking, they’re hungry

I want a map to the present

maybe a boat trying to reach my heart

There always some dreams to dream

today

Listen to the end of the silence

they’re coming back

the moon too

Les poèmes de l’est

Tes yeux ne atteint pas

Mon rêves son vers de l’est

De pierre, ils disent, si je regarde

Belles beautés, séductions sans fin

Je rêve avec le jeune fille sourient

Elle chanter les poèmes écrits sur le mur

Je sais : je peux toucher, ne regarde jamais

Yo no creo

Yo no creo

En diosas ni en el diablo

Yo no creo que te vayas

Yo no creo

En cielo azul o lluvia buena

Cierro los ojos ante esperanzas

Yo no creo en buenas intenciones

Yo te invito al peor camino

Al camino del dolor y traiciones

Yo no creo

Que el mundo nos quiera

Yo no creo

En la muerte

Yo no creo

Que me esperaste la vida entera

Y hoy soy yo

La persona que no habla

Y no cree

Yo no creo

En cartas de amor

En los días de sol y frío

Yo no creo

Yo no creo que ya está, es invierno

Y tus besos pasen lejos de mi boca

Y el mar se quede revuelto

Yo no creo, venga

En las borboletas como señal

Cuando me cuentas tus sueños

Y que no tienes dudas del futuro

Vea, yo no creo

es mi piel, son mi cicatrices

nadie lo olvide

tengo todo diseñado en mis ojos

mi sangre lo diga a todos: yo no creo

Es tan sencillo cómo los bebés

no hay nada más que llanto y hambre

y, por veces, las pesadillas

Yo no creo

que se crea

entre fe y desesperos

soy quien pasa

y nunca se queda

a oír las sirenas.

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