Quando um povo ataca sua própria Cultura…

É doloroso ver os ataques constantes que a Cultura do país tem sofrido. Avisei que teríamos um retrocesso sem precendentes num provável governo deste que vocês elegeram. Agora o povo acha que não precisa de cultura e arte. Claro que não, eles têm Netflix. Nossa pobreza intelectual chegou a patamares desconhecidos, por isso muito do que virá será desconcertante.

Acompanho a página do MinC no Facebook e percebo a luta dos seus funcionários, técnicos na maioria, em mostrar como o Ministério é importante, o quanto ele investe em todo tipo de cultura e arte pelo país todo. Mas essa “era da internet”, de ler manchetes nas timelines e já achar que sabe tudo, está destruindo com nossas chances de país melhor. O MinC é essencial. Ele não pode ser vilipendiado. Ele investe e dissemina arte e cultura, ele preserva nosso patrimônio e incentiva produções de todas as áreas. Mas, tem uma leva de analfabetos culturais (é como um desenvolvimento dos funcionais) que prefere só xingar e bradar que Ministério da Cultura só “dá” dinheiro para grandes artistas e “dá” dinheiro para filmes ruins. É o que dá falar sem conhecer. É o que dá o colonialismo.

Quando falávamos de um “american way of life” que nos foi tentado vender goela abaixo (apesar de nunca termos tido cacife para tal) parecia coisa do passado. Não é. Quando percebemos a importância de um segundo idioma, pelo menos, como o inglês do mundo globalizado (como o foi o Francês, etc.) era para alçar nossas gerações ao contato com o mundo. Porém, saber inglês tornou-se o dominar-se pela cultura de tudo que em inglês se produz. Um jovem brasileiro hoje aprenderia muito mais do mundo, da sociedade e da vida se fosse fazer um intercâmbio para o interior da Argentina ou para a Índia. Certeza que ele não aprenderá nada com uns meses de subemprego na Disney. Esse mundo fácil, de dinheiro “em dólares”, num país onde “tudo é barato”, que se não é “o melhor” é “melhor que aqui”. Quando e onde que Estados Unidos é melhor para um brasileiro do que o Brasil? Pra Bündchen, talvez (tenho minhas dúvidas). Esse USA que se vende nas séries, filmes, clipes, músicas é ilusório para um povo pobre, aculturado.

A proporção da calamidade ainda é pouco percebida. Temos crianças e adolescentes que reproduzem o modo de ser dos personagens de séries americanas. Suas vidas tornaram-se iguais às deles. Hoje novas gerações assistem Friends e sonham em ser garçonete em New York, é claro. A pizza que o brasileiro pede fim de semana é uma extensão desse american way of life. Crescemos vendo os personagens gostando e agindo de uma determinada forma, comemorando isso ou aquilo, e queremos igual. A cultura estadunidense é cultuada (e eles nem percebem).

Se vão assistir a um filme indiano, ou francês que seja, estranham, não gostam. Aliás, sentem-se assim com os brasileiros também, é claro. Porque conhecimento e cultura são coisas que a gente nunca “acaba” de apreender. É o modo de vida, mas é também a narrativa, os dramas, o ritmo, tudo – assimilado de uma vida que não nos pertence. Nós não somos americanos – sul-americanos, meus queridos. São séculos de História, de miscigenação, de Cultura, de tradições que nos afastam. Eis porque a importância do nosso Ministério da Cultura, também para fazer o brasileiro conhecer a sua própria Cultura e a sua Arte.

Quando falam de “qualidade”, então… o que dizer? Existe algo que se chama “formação de público”, todos os produtos americanos têm uma extensa formação de público, que o “educa” (formação neste sentido) a entender e gostar do que é feito por eles. Se o público não conhece o que se produz aqui, não conseguirá um contato com isso. E por mais que a gente pense em influências e apropriações, é curioso ver brasileiro que renega a qualidade de tudo que é feito aqui (desde funk até Cinema Novo) e só gosta de arte e cultura estrangeira. Aí só um psicanalista, né – ou Nelson Rodrigues. As linguagens artísticas causam estranheza nas pessoas, através dos nossos sentidos. É preciso que nos eduquemos em arte e cultura. Mas, educação é o fraco deste país (dos EUA também). Só vai gostar de arte e cultura brasileiras quem for educado a gostar? Não. Mas para o povo iletrado, que mal escreve o próprio idioma, exposto desde cedo aos produtos culturais mais duvidosos, sim. E, também, para um povo que prefere desconhecer a própria cultura – porque prefere os clássicos, o que a crítica especializada diz, tudo aquilo que for “bem falado”.

É doloroso saber de pessoas que desconhecem cinema brasileiro. Que não ouvem música brasileira. Que nunca vão às exposições de artes visuais. Que nunca leram um autor brasileiro. É doloroso vê-los lendo crônicas de-sei-lá-o-quê sobre culturas riquíssimas que não nos pertencem. É doloroso vê-los xingando o dinheiro que o governo “dá” para os “vagabundos” enquanto adoram Harry Potter e a baixa literatura comercial que se produz aqui. É doloros ver um país com tantos problemas sociais e educacionais como os EUA servindo de modelo e exemplo para nós, pobres brasileiros. É doloroso ver a expansão de escolas bilíngues onde formaremos mais e mais alienados adoradores de culturas que nos são alheias.

Minha esperança reside no fato de que temos funcionários de carreira, técnicos com boa formação dentro de alguns ministérios e eles já mostraram que estão dispostos a resistir. Quem dera tivessem o apoio de boa parte da população. Que eles resistam em nome do nosso futuro. Alguns, felizmente já abriram os olhos diante do engodo que elegeram – outros levarão mais tempo. Porém, diante disso não podemos entregar o país de joelhos. Será uma longa batalha. Salve a Arte e a Cultura Brasileiras, hoje e sempre.

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Lições

Minha mãe me ensinou, dentre tantas e tantas coisas, uma das mais importantes (que eu nunca vi ninguém dizer que havia aprendido): a nunca desejar o mal, nunca regozijar-se com o mal do outro. Assim, quando criança já ouvia que não devia rir dos outros, nunca deveria dizer “bem feito!” quando algo de ruim acontecesse a alguém, nem desejar o mal, mesmo que em momentos de fúria, com um “quero que você se dane!”, “quero que você morra”. E eu sempre ouço comm muita atenção o que mamãe diz. Ela sabe das coisas da vida.

Foi assim que cresci. Nunca disse um “bem feito!” maldoso. Nunca desejei o mal de ninguém, além de brincadeiras bobas (meu humor, né). Ela também me ensinou a nunca odiar. O que, também, levo para a vida. O ódio é um troço muito violento, não dá pra gastar assim. Uma vez ou outra na vida já me odiei, foi rápido, foi necessário, passou. Mas, odiar outrem não sou capaz. Óbvio que não tenho sangue de barata e já passei muita raiva na vida.

Porém, essa bondade toda de minha mãe sempre contrastou com a maldade ao meu redor. Conheci pessoas muito ruins, de todo jeito, daquelas da gente duvidar que tenham coração (não tem, a gente sabe). Fui vítima da maldade incessante de algumas (não poucas) delas. Minha mãe foi mais do que eu. E sempre de coração leve, aberto, tranquilo. Não é à toa que dizem que somos muito parecidas. Eu via aquelas crianças que riam dos coleguinhas quando algo acontecia de ruim com eles e olhavam umas às outras, a gritar “bem feito!” e seus olhares eram malvados, muito malvados. Fui criada com muitas restrições, chamadas de atenção, questões éticas e religiosas, dentre outras. Aprendi muito com tudo isso.

Hoje reconheço muito mais e melhor o quanto minha educação faz diferença. Eu vejo adultos se regozijando com o mal que acontece aos outros. Eu vejo adultos querendo o mal das pessoas – sejam elas boas ou más. Gente querendo a morte de assassinos. Gente honesta que amaldiçoa e passa a perna em quem pode, quando pode. Gente que não sabe o que é o amor, que não é amada, que destila ódio e maldade e fofocas sem piedade. Elas não tiveram uma mãe como a minha. Ou, quem sabe, não ouviram suas mães.

Se é fácil? Nadinha. Hoje eu agarrei o volante com força (sem reparar) e roguei a Deus que me impedisse de desejar o mal a certas pessoas. Eu tomei conhecimento de algo tão vil, tão baixo, tão ignóbil e asqueroso que perdi o controle. Respirei fundo e me vi rezando em meio aos buracos da via e o trânsito tranquilo de um início de dezembro para que Deus me desse forças para não desejar mal algum àquelas pessoas. Talvez eu me justificasse dizendo que elas merecem todo mal do mundo. Sou ninguém para dar esta sentença. Às vezes a gente precisa rezar para evitar de rezar depois de arrependimento. Roguei praguejando, precisa de força para respirar fundo e deixar pra lá. Nas horas seguintes pensei em algo que seria muito semelhante à vingança – mas, mamãe também ensinou que vingança não leva a nada (com essas palavras mesmo). Mais uma lição dada e cumprida. Tem coisas que a gente pode tentar pelos meios cabíveis, legais. Outras é só a distância que resolve.

Foi difícil. Por isso é tão importante ter princípios. Nessas horas eles são nosso esteio. É só se agarrar a eles e deixar a tempestade passar. Princípios a gente aprende em casa, nos livros, na vida – ou com mamãe, né.

Eles não são maioria

Atônitos diante da certeza nada nos faria acreditar. Eles ganharam. Eles passaram por cima da moral de não acreditar em manipulações, eles foram imorais em dar suporte para quem vidas nada valem. Eles apoiaram quem defende o indefensável. Não era uma questão de lados, era uma questão moral. Eles não a têm. Mas julgam os outros pelos seus crimes, detentores da sabedoria dos desígnios de Deus, julgam e condenam sem pestanejar. Sempre duvide de quem não pestaneja ao defender o que quer que seja. Eles saíram às ruas para comemorar. Afinal, tinham ganhado. Eles, porém, não são maioria.

Os que querem ver mais mortos nas ruas. Os que desprezam minha luta feminina. Os que desprezam meu corpo de mulher, pois só deve servir ao seus desejos. Os que desprezam o conhecimento que se produz com afinco e dificuldades mil dentro das universidades. Os que desprezam nossos países vizinhos. Os que batem continência para o maioral do continente. Os que levam crianças – crianças! – às ruas ensinando-as gestos violentos, mas dizem defender as famílias. Eles não são maioria. Os que gritam palavras de ordem. Os que defendem a ditadura. Os que oram como se Deus nos governasse. Os que querem que creiamos no deus deles. Os que se aproveitam vilmente da ignorância de quem pouco tem além da sua fé. Os que querem calar a voz da imprensa. Os que querem nos calar! Os onanistas com um revólver na mão. Os chefes a incitar o medo de quem depende da merreca que lhe paga. Os que alardearam que estávamos à beira do abismo, enquanto passeávamos no shopping fazendo compras e comendo fast food. Eles não são maioria. Os que dormiram mandatos inteiros nas confortáveis cadeiras da Assembléia.

Os estúpidos que não jogaram a favor, mas jogaram contra, com todas as acusações possíveis – mas sem nenhum argumento que os convencesse de verdade da sua escolha. Os que em situações limite preferiram ir para o mal maior. Eles não são maioria. Um fantoche despertou o lobo que havia em criaturas que estavam nas suas tocas e eles saíram a praticar suas violências. Mas, eles não são maioria. Os que vivem encastelados nos seus condomínios vigiados nada temem, os 63 mil mortos por ano não têm a sua cor da pele nem moram nos mesmos bairros que eles. E estes sempre riem à toa. Os que se beneficiaram com o que veio antes, mas não perdoaram ter sido traídos – também não abrem mão dos seus benefícios. Os que sempre tiveram tudo. Os viúvos e viúvas de outros traidores. Eles não são maioria.

Eles saíram das tocas. Nós nos unimos até aos ladrões para defender o país, eis a sabedoria de um povo que entende e preza a liberdade. Foi preciso muita coragem para defendê-la com unhas e dentes até os últimos minutos. Porque sabíamos o que nos unia, um valor inegociável, o bem mais precioso. Por ele nos unimos a quem estivesse disposto, também, a defendê-lo das garras de uma alcatéia ensandecida em busca de vingança, sangue, poder e com os olhos toldados por mentiras e declarações populistas. Eles, porém, não são maioria. Dizem de nós que somos ingênuos, têm pena de nós, nos trataram (a mim, especialmente, por ser mulher) como um ignorante ao qual precisavam explicar o que é fascismo, o que aconteceu no país na última década, etc.. Eu não preciso das suas explicações. Eles detém todo ódio de classe. Eles odeiam não só quem está preso, mas todos aqueles que ousaram não cair na sua falta de argumento. Eles querem nos intimidar. (eu estou fervorosamente de SACO CHEIO deles) Eles querem rir da nossa cara. Eles acham que são maioria e, numa lógica esquisita, devem ser os bons. Aliás, eles se acham muito bons – mas era dos outros que queriam uma autocrítica. Eles não são maioria.

Conforta-me sair de casa, ir ao supermercado, à academia, à universidade e olhar para os lados sabendo que eles não são maioria. Nunca serão. Cairão, um a um, feito patos abatidos pela sua própria munição. Nos olharão com súplica por ajuda no desespero que virá. Porque nós já conhecemos o monstro que eles alimentaram. Nós não hesitaremos a bradar quando nos livros de História quiserem alterar para “regime” o que totalitário foi. Nós não deixaremos de pensar. Nós não pagamos para ver – mas a conta chegará para todos. O “milagre” será feito, como das outras vezes. Mas a conta, desta vez, será muito alta e chegará mais cedo. Eles queriam o “desconhecido”, o “novo”. Porque preferiram ignorar o fantoche que discursava aos uivos. Eles não são maioria. Nós passamos por cima das diferenças, nos aliamos aos inimigos, perdoamos os pecadores e nos juntamos para combater o mal. Eles, agora, são os nossos verdadeiros inimigos porque preferiram correr um risco que nós abominamos. Eles são os nossos inimigos, que, no momento oportuno, quando as mazelas chegarem para todos, serão por nós acolhidos. Eles não são maioria.

Eles, agora mais do que nunca, querem que tenhamos medo. Eles, não esqueçam, não são maioria.

Banho de mar

Li que esses dias foi o dia internacional da felicidade. Não sei bem porque criaram um dia assim. No Hemisfério Norte pode ser relacionado (justamente) à Primavera! Não para nós, a nos contentarmos com o Outono. O fim do Verão deveria ser o dia da saudade, ou da tristeza, algo assim. Porque, simplesmente, no Verão é quando mais podemos tomar banhos de mar.

Não há discussão, banho de mar é a melhor coisa da vida. Eu sei, eu sei. Comer é bom, sexo é bom, amar é bom, ganhar dinheiro é bom, ser pai/mãe é bom, enfim, a lista é infinita. Tudo aquilo que a gente considera que é muito bom não supera o banho de mar. Ah, claro, eu sei, eu sei. Tem quem não gosta de banho de mar. Tem quem detesta banho de mar. Bem, nem todos gostam do que é bom. Tem gente até, dizem, que gosta de sofrer.

Banho de mar supera todo o resto. Você entra naquele mar lindo e limpo, mergulha, boia, nada, conversa, abraça, não vê o tempo passar, sonha, se encanta com a natureza toda em volta, ouve os sons das conversas, das ondas… o banho de mar não te dá nada em troca além do prazer (quiçá felicidade), não te exige nada, em excesso não traz malefícios. Não há contraindicações. Não engorda. Não engravida.

O Verão se despediu com sensação de cinquenta graus e deixou um Outono com temperaturas mais ou menos e céu nublado. Praias bem vazias (feliz de quem pode). Claro que não precisa só de solzão e janeiro para tomar banho de mar. Mas as condições favorecem. Quem sabe que é a melhor coisa da vida encara-o em qualquer tempo, mata a saudade mesmo sob água gelada.

Eu me despeço do Verão com uma imensa saudade e contando três Estações até o próximo (por isso fico tão feliz na Primavera, é a proximidade do Verão). Quem dera poder viver só de banho de mar: acordar e tomar banho de mar, almoçar e tomar banho de mar, jantar e tomar banho de mar, dormir e… todos os dias. Porque acredito que não há nada de mal em desejar só o melhor, certo?

Não desejo discussões nem preciso enumerar argumentos – é só experimentar. Banho de mar é a melhor coisa da vida, do mundo – e ponto. Quem não concorda é porque não sabe das coisas. Talvez um dia entenda. Ou, que tristeza, jamais entenderá.

Quando duas pessoas se encontram

É o que acontece quando duas pessoas se encontram. Acreditam que serão felizes para sempre – nenhuma será, algumas descobrirão isso logo, outras fingirão pelo resto da vida. Por vezes, ninguém consegue ser feliz. Quando duas pessoas se encontram se faz a fé. A fé, claro está, ninguém abandona porque quer. A culpa sempre será da instituição, ou da ausência de milagres quando esperamos por eles, ou, ainda, quando a devoção cai em desuso.

Entre essas duas pode haver tantas outras – antes, durante ou depois – que mantêm esta combinação sem fim entre as pessoas. São tantas no mundo, uma encontrar outra não é nada difícil. Acontece todos os dias, todas as horas. Não tem um algoritmo exato, cada um crê no que prefere. Nas promessas, quem sabe. No cansaço da procura, também. Nos defeitos que poderão ser superados (nunca serão). Uns apostam nas diferenças, outros nas semelhanças – há os que já apostaram num, depois no outro, sucessivamente. Quando duas pessoas se encontram sabe-se bem o que vai acontecer.

É a necessidade de construir uma vida juntos, jamais de viver cada manhã. O hoje, invariavelmente, é um degrau, mero tijolo, para sustentar anos e anos de presença lado a lado a comprovar e dizer na cara de todos: deu certo. Está dando certo. É definitivo. Nascemos um para o outro. Porque precisam de afirmações, o ser humano (só as crianças sabem) têm a empáfia de adquirir certezas e espalhá-las aos ventos. Não é ir dormir com a dúvida “será que sentirei a mesma coisa amanhã?” (ou mais, ou menos). Porque as pessoas não querem dúvidas, muito menos questionamentos. As pessoas não se perguntam, todos os dias, o que sentem pelo outro. Elas apenas reafirmam o que diziam nos dias anteriores – desde o primeiro dia.

Quando duas pessoas se encontram elas querem contar a todos. Espalhar que ali nasceu uma relação duradoura e fazer a todos nós testemunhas das suas certezas e dos seus bons sentimentos. Quando duas pessoas se encontram deveria ser só para elas – se olharem e saberem que foi naquele momento. Deveria ser cada dia e não para sempre. A projeção é sempre venenosa, castiga os dias, corrói a fé, mina a verdade. E a verdade é o amor. Não há amor que sobreviva a qualquer exigência. Quando duas pessoas se encontram elas deveriam se amar.

O amor, porém, não exige publicidade, nem demanda prazos, muito menos busca exatidão ou certeza, não é feito de amarras. O amor entre duas pessoas pode existir do nada (nem sempre o encontramos em teorias de diferenças ou semelhanças ou admiração ou sensação de segurança ou ou ou ou ou…) e esvair-se diante dos mais sólidos relacionamentos. É do amor ser assim… Todo o resto, as datas, as festas, as certezas, os jogos, as artimanhas, as respostas, tudo – absolutamente tudo – é coisa das pessoas. E as pessoas, vocês sabem, são habilidosas em criar mil sentidos e razões onde nada disso é necessário.

Quando duas pessoas se encontram, deixem-nas a sós. O amor não precisa de fiscais. Não há regulamento a ser seguido, ouçam o que eu digo. Deixem-nas, por favor. Retirem-se com seus planos, com suas esperanças e indiscrições veladas. Nunca se sabe quanto durará este amor, deixem que elas vivam-no com suas dúvidas e seus próprios erros. Quando duas pessoas se encontram, enfim, o mundo é só elas. Eis a única lei do amor.

Naufrágio

Os ratos começaram a pular para fora. Preferiram a água incerta do oceano a ficar ali num barco à deriva, flutuando graças às graças de um bom Deus. Alguns insanos de sol e sal tiravam loucamente água do casco avariado; não percebiam mais seus atos, apenas continuavam incessantemente com olhos vermelhos e ardidos que nada mais viam. Nessas horas há aqueles que a ação invade os pensamentos e mesmo que seus atos em nada resultem, eles não pensam mais. Apenas agem. Mas, pelo menos, diante da situação, fazem alguma coisa.

Sempre teremos os que ficarão encostados na amurada, de braços cruzados, empilhando críticas e defeitos nos que tiram água do barco, nos que pulam fora, no capitão que dá ordens sem ser obedecido, nos que querem se reunir para pensar em soluções – e morrem afogados nas suas eternas discussões. Esses talvez (só talvez) são maioria. Não encontram em si meios de resolver nada, talvez de fato nem queiram procurar ou encontrar. Apenas jogam palavras ao chão, que parecem aumentar o peso do barco e fazê-lo afundar ainda mais rápido.

Com menos palavras que eles, só os que se reúnem procurando soluções. Querem construir um barco novo, encontrar meios que os conectem com quem possa salvá-los, querem inverter a ordem do mundo e fazer barcos terem rodas. No entanto, ali estão, palavras ao oceano e quando for tarde demais sentirão suas roupas encharcadas, a água entrando pela boca, ouvidos, nariz e em meio ao desespero de que nada mais poderá ser feito, ainda estarão abraçados às suas idéias brilhantes – alguns, garanto, terão as melhores e salvadoras idéias justo naquele momento: como não pensei nisso antes?! E morrerão. Afogados, por certo. Nas suas próprias idéias e ideais.

O capitão, pouco se sabe dele. É fácil (e rápido, porém nem sempre indolor) mudarem o capitão, nessas horas. A tentação de ser o líder num momento de catástrofe salta aos olhos dos mais ambiciosos. Assim, o capitão pode ser destituído a qualquer momento. Se conseguir alguma proeza para salvar a vida de todos (ou ao menos tomar alguma atitude que minimize os danos) será lembrado heroicamente para todo o sempre – e aumentarão seus feitos, é claro. Porém, se seu lugar for tomado por outro (e outro e outro…) ou se ele juntar-se à desgraça de todos, será docemente esquecido (e, digamos, será até melhor pra ele). Nas perdas não há hierarquia, todos perdem igualmente.

Interessante perceber que nessas horas ninguém mais sequer sabe porque está no barco, ou de onde ele veio, porque foi construído. Cada um pensa na sua casa, na sua família, na sua próxima refeição. Por isso os ratos saltam fora – mesmo diante do tão incerto escuro oceano. Os ratos pouco se importam com este barco, suas razões e origens, querem apenas salvar-lhes a própria pele. O couro cinza e feio de um rato, é a isso que eles querem salvar. Não hesitam nem mesmo em largar filhos, pais, mães aflitas, lares, o chinelo velho ou o travesseiro de estimação. Saltam com algo de arrogância, como se o obscuro oceano (sabemos que lhe será ingrato e cruel, lá serão apenas ratos, encontrarão outros barcos e rastejarão nos seus porões) fosse um paraíso. Saltam e fazem questão de a todos mostrar como são grandiosos e espertos (como os que ficam de braços cruzados, muito criticam) e melhores que nós. Nós, que ficamos ali, pregando uma tábua, amparando um órfão, tirando água do convés, buscando idéias e também trabalhando para que o barco onde escolhemos ficar não vá por água abaixo.

Salvar-se jamais será nobre. Salvar-se deixando todos para trás é a legítima covardia. São estes que apontam os culpados por todo o caos que se instalou no barco, sem perceber que eles o afundam mais que qualquer buraco no casco. São eles que aqui deveriam ficar e trabalhar suas boas idéias para que o barco chegue são e salvo ao porto – com todos dentro. Mas eles não se importam. Querem ser sempre ratos.

Terrorismo: o tema queridinho do cinema atual

Não é de hoje que eu digo que o cinema francês é o melhor em lidar com suas questões contemporâneas. E nem precisaria ser eu a dizer. Todos os “problemas” sociais, questões pertinentes para o presente são tratadas com faca afiada pelos melhores diretores e roteiristas. Na pauta dos últimos temas estavam o desemprego, a imigração e agora a presença do terrorismo.

Talvez seja de mau gosto a comparação, mas é interessante. Se fosse os EUA a sofrer os últimos ataques desde o do Charlie Hebdo, teríamos no cinema a recriação da História encenando os fatos e, claro, teríamos os heróis americanos, os dramas do povo em luta pela sua liberdade. O cinema focaria na sequência dos fatos ocorridos e teriam um prato cheio para um filme de ação com o atropelamento em massa de Nice ou o massacre no Bataclan.

Porém, para o cinema francês a preocupação é outra. Foi recentemente veiculado na TV francesa um filme (feito para a TV) sobre uma mãe que descobre que a filha estudiosa está recrutada pelo Estado Islâmico. O drama tem alguns problemas, é claro. Mas segue o padrão filme para TV e tem claramente a intenção (todo cinema tem) de ser pedagógico, para instruir os pais. Existem lá programas e associações para pais “órfãos” de filhos que seguiram para se juntar ao Estado Islâmico. O ponto forte do filme é mostrar que esses jovens enganam bem todos a sua volta (pais são, no geral, bem desatentos) e evita o preconceito mostrando que são ricos, inteligentes e estudiosos.

Nas escolhas dos países para a indicação a Oscar estrangeiro figura o holandês que trata da mesma questão. Infelizmente há uma maioria de escolhas nacionais focadas no político, nas questões de gênero principalmente. Uma jovem também é recrutada e se casa pela internet com outro jovem que já está na jihad. Neste, porém, a jovem chega a ir para o Oriente Médio. Lá ela descobre que o seu ímpeto de lutar e defender seus novos valores e povo serão tolhidos por leis e regras ainda mais severas.

O Oscar não gosta muito de filmes políticos para a categoria de Estrangeiros (talvez achem que em termos políticos eles podem fazer melhor, com seus diretores que inventam histórias para tratar dos temas atuais sem dizer uma única palavra sobre tal: parece até que há algum tipo de censura). No começo imaginei que o holandês seria uma boa opção, afinal a luta contra o terrorismo, segundo os americanos, é deles. Porém, o filme traça um perfil que responsabiliza os pais (descendentes de país e com origens no Oriente Médio e África) de se afastarem da religião e dos seus valores, criando, assim, uma ruptura que faz falta aos seus filhos – ao se sentirem oprimidos pelas leis e preconceitos por terem a pele mais escura ou pertencerem ao islamismo tornam-se alvo fácil dos recrutadores e seu discurso de liberdade e defesa do próprio povo. O filme não culpabiliza os jovens por serem tão inocentes e criminosos de aceitarem explodir pessoas inocentes. Os jovens recrutados são vítimas de uma sociedade ocidentalizada (mesmo os “recém” chegados) que discrimina e não dá espaço nem valoriza valores que estão no sangue deles, como vítimas de não poder usar seu véu ou reunirem-se em espaços públicos, eles decidem revidar, encontram na religião o amparo que não têm nem em casa.

Desta forma, parece-me que o holandês não será um dos indicados. Porque o discurso não só é politizado como bate de frente com os ideais americanos. No caso francês o filme foi um sucesso exibido na TV em seguida de um programa que procurava instruir pais de como identificar os sinais de recrutamento nos filhos. Didático, pedagógico, alarmista (neste ponto quase americano). O indicado da França para o Oscar? Um filme sobre direitos homossexuais (ainda não assisti, portanto sem comentários). Poucas chances tem o suíço, apesar de ser um filme divertido e necessário; o sul-coreano, com toda a qualidade dos filmes de lá e que nós amamos, retrata um fato histórico com muito drama e heroísmo (boas chances, do ponto de vista americano).

A diferença entre o cinema francês e o americano não é apenas a forma como trata sua história recente, é claro. Mas isso diz muito de ambos. Os cinemas nacionais (para além dos EUA) têm muito a mostrar e a nos fazer entender sobre o mundo e a nós mesmos. Porém, comercialmente, etc etc etc. Cinema é contemporâneo, a história do agora é inerente a ele – mesmo quando faz releituras sobre fatos do passado. E é só uma das coisas que faz do cinema a arte mais apaixonante de todos os tempos.

Diz-me, poeta

Diz-me, poeta: tão fácil saem as palavras das tuas mãos para o papel? Flutuam nuvens de céus encantados a dourar o branco do papel que te espera angustiado? Diz-me, poeta, se preciso alçar vôos sobre tantos amores para compor êxtases e desilusões em páginas com fins cada vez mais tristes. Seria a vida um pesadelo a registrar nossos medos em tintas cada vez mais esmaecidas? Diz-me, poeta, que só tu me permite estes devaneios e dúvidas. Diz-me, poeta, tu, também, amas?

Míseras comparações enchem versos vazios. Pobres metáforas acordam o tilintar do alarme falso. São os sofredores de falsas emoções que a todo custo querem desafinar a vida em poesia. Mas, tu, despreocupado poeta, escreves com a alma em sintonia. De onde tiras tanta inspiração? Diz-me, poeta. Sei dos ventos, dos faróis, dos barcos a navegar, também da lua, do sol e do mar. A qualquer um estão ao alcance. Mas só tu, querido poeta, a tudo enquadra em traços os mais belos. Diz-me, poeta, como não sentir a brisa ao tamborilar teus versos nos meus lábios?

Diz-me, poeta: acaso te inspiro? Meus olhares ou, quem sabe, meu sorriso? Diz-me, poeta, te causam calafrios? Pois já quis ser musa dos teus versos, dona dos teus suspiros, amante das tuas madrugadas. É o que sonham alguns dos que mal sabem conversar com a pena, como tu. Não é nada fácil, diz-me, poeta, confessar explicitamente o que te atravessa o coração? Sangrar diante dos olhos que farejam desgraças como urubus em beira de estrada? Diz-me, poeta. De onde tiras coragem para adentrar as almas que vagam solitárias pelos nossos dias, tristes dias?

Imagino-te feito de olhares velados e gestos sombrios. O que te encerra o corpo flameja em palavras. Diz-me, poeta, o que vês no espelho quando estás diante dele? Nenhum verso atrapalhado, nenhuma palavra fora do lugar, nenhuma pontuação sem sentido? Ou, quem sabe, algum verso mal conjugado. Diz-me, poeta, como não escorrem por ti os versos que lacrimejam nossos olhos? Como não vemos as pétalas das tuas poesias caindo-lhe das mãos quando atravessas a rua?

Diz-me, poeta. Diz-me, poeta, como te encontro a disparar-me, sem dó, verdades em três palavras de três linhas? Diz-me como amar-te até os próximos outubros, pelo resto dos anos que nos sobram? Diz-me onde escondes as poesias que ainda não escrevestes. Guarda-as tão bem dentro do peito e as aprisiona atrás destes olhos de desespero? Diz-me, poeta. Ou te desmanchas em segredos até para mim?

Tínhamos um encontro marcado

Tínhamos um encontro marcado para este século: nos tornarmos pessoas melhores. Diante de tanta evolução científica, de condições de vida acima de qualquer patamar de antes, nós tínhamos tudo para que fôssemos melhores. Melhores pessoas.

Neste encontro traríamos o respeito – às diferenças, às liberdades individuais – acima de tudo. Porque já aprendemos, a duras penas e longas guerras sangrentas, que a condição especial para ser mais humano é o respeito. Independente das nossas crenças e convicções individuais é sempre necessário o respeito a criar cercas invisíveis ao nosso redor e ao redor de todos nós. Tínhamos o encontro marcado com diminuir as nossas diferenças: deveríamos, sempre que pudéssemos, fazer mais pelo outro, por quem tem menos que nós. Reconheceríamos, depois de tantos séculos, que alguns têm condições mais favoráveis e que outros não dependem apenas da má sorte ao nascer.

Para este encontro não poderíamos trazer nenhum rancor, nenhum ódio, nenhuma vontade de fazer o mal. Porque deveríamos trazer amor numa cesta de piquenique e, no momento do encontro, ofereceríamos uns aos outros. Amor, simplesmente. Do mais tímido ao mais espalhafatoso. Do mais suave ao mais arrojado. Mas somente amor. Já sabíamos, é claro, que não amaríamos uns aos outros como Aquele que nos ama, mas tínhamos o encontro marcado com a certeza de conhecer as nossas feridas e cicatrizes de tanta ausência de amor, por tanto tempo.

Tínhamos a certeza que neste encontro não mais primariam as disputas: pelo poder, por terras, por credos, por lucros. Todos nós deveríamos ter alcançado o nobre sentimento da satisfação de viver com o que nos cabe. Os sentimentos mesquinhos estariam, era fácil prever, todos enterrados junto ao nosso desgosto de ver irmãos se matando, famílias inteiras expulsas de casa, milícias religiosas explodindo inocentes, pessoas trabalhando doentes e adoecendo ao trabalhar.

Tínhamos um encontro marcado com cada um cuidar mais de si em busca de um corpo e uma mente de onde brotassem idéias e atitudes singulares. E nesse caminho de cuidar de si, compreender o cuidado com o mundo onde habitamos, com nossos lares e nossos habitats. Tínhamos um encontro marcado e sabíamos de tudo isso, data e horário.

Tínhamos um encontro marcado. Fugimos acovardados pela nossa incompetência em reconhecer erros do passado. Faltou-nos coragem para assumir que, hoje, não poderíamos ser nada mais do que pessoas melhores. Rastejamos, hoje, sobre nossa culpa.

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