Eles não são maioria

Atônitos diante da certeza nada nos faria acreditar. Eles ganharam. Eles passaram por cima da moral de não acreditar em manipulações, eles foram imorais em dar suporte para quem vidas nada valem. Eles apoiaram quem defende o indefensável. Não era uma questão de lados, era uma questão moral. Eles não a têm. Mas julgam os outros pelos seus crimes, detentores da sabedoria dos desígnios de Deus, julgam e condenam sem pestanejar. Sempre duvide de quem não pestaneja ao defender o que quer que seja. Eles saíram às ruas para comemorar. Afinal, tinham ganhado. Eles, porém, não são maioria.

Os que querem ver mais mortos nas ruas. Os que desprezam minha luta feminina. Os que desprezam meu corpo de mulher, pois só deve servir ao seus desejos. Os que desprezam o conhecimento que se produz com afinco e dificuldades mil dentro das universidades. Os que desprezam nossos países vizinhos. Os que batem continência para o maioral do continente. Os que levam crianças – crianças! – às ruas ensinando-as gestos violentos, mas dizem defender as famílias. Eles não são maioria. Os que gritam palavras de ordem. Os que defendem a ditadura. Os que oram como se Deus nos governasse. Os que querem que creiamos no deus deles. Os que se aproveitam vilmente da ignorância de quem pouco tem além da sua fé. Os que querem calar a voz da imprensa. Os que querem nos calar! Os onanistas com um revólver na mão. Os chefes a incitar o medo de quem depende da merreca que lhe paga. Os que alardearam que estávamos à beira do abismo, enquanto passeávamos no shopping fazendo compras e comendo fast food. Eles não são maioria. Os que dormiram mandatos inteiros nas confortáveis cadeiras da Assembléia.

Os estúpidos que não jogaram a favor, mas jogaram contra, com todas as acusações possíveis – mas sem nenhum argumento que os convencesse de verdade da sua escolha. Os que em situações limite preferiram ir para o mal maior. Eles não são maioria. Um fantoche despertou o lobo que havia em criaturas que estavam nas suas tocas e eles saíram a praticar suas violências. Mas, eles não são maioria. Os que vivem encastelados nos seus condomínios vigiados nada temem, os 63 mil mortos por ano não têm a sua cor da pele nem moram nos mesmos bairros que eles. E estes sempre riem à toa. Os que se beneficiaram com o que veio antes, mas não perdoaram ter sido traídos – também não abrem mão dos seus benefícios. Os que sempre tiveram tudo. Os viúvos e viúvas de outros traidores. Eles não são maioria.

Eles saíram das tocas. Nós nos unimos até aos ladrões para defender o país, eis a sabedoria de um povo que entende e preza a liberdade. Foi preciso muita coragem para defendê-la com unhas e dentes até os últimos minutos. Porque sabíamos o que nos unia, um valor inegociável, o bem mais precioso. Por ele nos unimos a quem estivesse disposto, também, a defendê-lo das garras de uma alcatéia ensandecida em busca de vingança, sangue, poder e com os olhos toldados por mentiras e declarações populistas. Eles, porém, não são maioria. Dizem de nós que somos ingênuos, têm pena de nós, nos trataram (a mim, especialmente, por ser mulher) como um ignorante ao qual precisavam explicar o que é fascismo, o que aconteceu no país na última década, etc.. Eu não preciso das suas explicações. Eles detém todo ódio de classe. Eles odeiam não só quem está preso, mas todos aqueles que ousaram não cair na sua falta de argumento. Eles querem nos intimidar. (eu estou fervorosamente de SACO CHEIO deles) Eles querem rir da nossa cara. Eles acham que são maioria e, numa lógica esquisita, devem ser os bons. Aliás, eles se acham muito bons – mas era dos outros que queriam uma autocrítica. Eles não são maioria.

Conforta-me sair de casa, ir ao supermercado, à academia, à universidade e olhar para os lados sabendo que eles não são maioria. Nunca serão. Cairão, um a um, feito patos abatidos pela sua própria munição. Nos olharão com súplica por ajuda no desespero que virá. Porque nós já conhecemos o monstro que eles alimentaram. Nós não hesitaremos a bradar quando nos livros de História quiserem alterar para “regime” o que totalitário foi. Nós não deixaremos de pensar. Nós não pagamos para ver – mas a conta chegará para todos. O “milagre” será feito, como das outras vezes. Mas a conta, desta vez, será muito alta e chegará mais cedo. Eles queriam o “desconhecido”, o “novo”. Porque preferiram ignorar o fantoche que discursava aos uivos. Eles não são maioria. Nós passamos por cima das diferenças, nos aliamos aos inimigos, perdoamos os pecadores e nos juntamos para combater o mal. Eles, agora, são os nossos verdadeiros inimigos porque preferiram correr um risco que nós abominamos. Eles são os nossos inimigos, que, no momento oportuno, quando as mazelas chegarem para todos, serão por nós acolhidos. Eles não são maioria.

Eles, agora mais do que nunca, querem que tenhamos medo. Eles, não esqueçam, não são maioria.

Anúncios

Banho de mar

Li que esses dias foi o dia internacional da felicidade. Não sei bem porque criaram um dia assim. No Hemisfério Norte pode ser relacionado (justamente) à Primavera! Não para nós, a nos contentarmos com o Outono. O fim do Verão deveria ser o dia da saudade, ou da tristeza, algo assim. Porque, simplesmente, no Verão é quando mais podemos tomar banhos de mar.

Não há discussão, banho de mar é a melhor coisa da vida. Eu sei, eu sei. Comer é bom, sexo é bom, amar é bom, ganhar dinheiro é bom, ser pai/mãe é bom, enfim, a lista é infinita. Tudo aquilo que a gente considera que é muito bom não supera o banho de mar. Ah, claro, eu sei, eu sei. Tem quem não gosta de banho de mar. Tem quem detesta banho de mar. Bem, nem todos gostam do que é bom. Tem gente até, dizem, que gosta de sofrer.

Banho de mar supera todo o resto. Você entra naquele mar lindo e limpo, mergulha, boia, nada, conversa, abraça, não vê o tempo passar, sonha, se encanta com a natureza toda em volta, ouve os sons das conversas, das ondas… o banho de mar não te dá nada em troca além do prazer (quiçá felicidade), não te exige nada, em excesso não traz malefícios. Não há contraindicações. Não engorda. Não engravida.

O Verão se despediu com sensação de cinquenta graus e deixou um Outono com temperaturas mais ou menos e céu nublado. Praias bem vazias (feliz de quem pode). Claro que não precisa só de solzão e janeiro para tomar banho de mar. Mas as condições favorecem. Quem sabe que é a melhor coisa da vida encara-o em qualquer tempo, mata a saudade mesmo sob água gelada.

Eu me despeço do Verão com uma imensa saudade e contando três Estações até o próximo (por isso fico tão feliz na Primavera, é a proximidade do Verão). Quem dera poder viver só de banho de mar: acordar e tomar banho de mar, almoçar e tomar banho de mar, jantar e tomar banho de mar, dormir e… todos os dias. Porque acredito que não há nada de mal em desejar só o melhor, certo?

Não desejo discussões nem preciso enumerar argumentos – é só experimentar. Banho de mar é a melhor coisa da vida, do mundo – e ponto. Quem não concorda é porque não sabe das coisas. Talvez um dia entenda. Ou, que tristeza, jamais entenderá.

Quando duas pessoas se encontram

É o que acontece quando duas pessoas se encontram. Acreditam que serão felizes para sempre – nenhuma será, algumas descobrirão isso logo, outras fingirão pelo resto da vida. Por vezes, ninguém consegue ser feliz. Quando duas pessoas se encontram se faz a fé. A fé, claro está, ninguém abandona porque quer. A culpa sempre será da instituição, ou da ausência de milagres quando esperamos por eles, ou, ainda, quando a devoção cai em desuso.

Entre essas duas pode haver tantas outras – antes, durante ou depois – que mantêm esta combinação sem fim entre as pessoas. São tantas no mundo, uma encontrar outra não é nada difícil. Acontece todos os dias, todas as horas. Não tem um algoritmo exato, cada um crê no que prefere. Nas promessas, quem sabe. No cansaço da procura, também. Nos defeitos que poderão ser superados (nunca serão). Uns apostam nas diferenças, outros nas semelhanças – há os que já apostaram num, depois no outro, sucessivamente. Quando duas pessoas se encontram sabe-se bem o que vai acontecer.

É a necessidade de construir uma vida juntos, jamais de viver cada manhã. O hoje, invariavelmente, é um degrau, mero tijolo, para sustentar anos e anos de presença lado a lado a comprovar e dizer na cara de todos: deu certo. Está dando certo. É definitivo. Nascemos um para o outro. Porque precisam de afirmações, o ser humano (só as crianças sabem) têm a empáfia de adquirir certezas e espalhá-las aos ventos. Não é ir dormir com a dúvida “será que sentirei a mesma coisa amanhã?” (ou mais, ou menos). Porque as pessoas não querem dúvidas, muito menos questionamentos. As pessoas não se perguntam, todos os dias, o que sentem pelo outro. Elas apenas reafirmam o que diziam nos dias anteriores – desde o primeiro dia.

Quando duas pessoas se encontram elas querem contar a todos. Espalhar que ali nasceu uma relação duradoura e fazer a todos nós testemunhas das suas certezas e dos seus bons sentimentos. Quando duas pessoas se encontram deveria ser só para elas – se olharem e saberem que foi naquele momento. Deveria ser cada dia e não para sempre. A projeção é sempre venenosa, castiga os dias, corrói a fé, mina a verdade. E a verdade é o amor. Não há amor que sobreviva a qualquer exigência. Quando duas pessoas se encontram elas deveriam se amar.

O amor, porém, não exige publicidade, nem demanda prazos, muito menos busca exatidão ou certeza, não é feito de amarras. O amor entre duas pessoas pode existir do nada (nem sempre o encontramos em teorias de diferenças ou semelhanças ou admiração ou sensação de segurança ou ou ou ou ou…) e esvair-se diante dos mais sólidos relacionamentos. É do amor ser assim… Todo o resto, as datas, as festas, as certezas, os jogos, as artimanhas, as respostas, tudo – absolutamente tudo – é coisa das pessoas. E as pessoas, vocês sabem, são habilidosas em criar mil sentidos e razões onde nada disso é necessário.

Quando duas pessoas se encontram, deixem-nas a sós. O amor não precisa de fiscais. Não há regulamento a ser seguido, ouçam o que eu digo. Deixem-nas, por favor. Retirem-se com seus planos, com suas esperanças e indiscrições veladas. Nunca se sabe quanto durará este amor, deixem que elas vivam-no com suas dúvidas e seus próprios erros. Quando duas pessoas se encontram, enfim, o mundo é só elas. Eis a única lei do amor.

Naufrágio

Os ratos começaram a pular para fora. Preferiram a água incerta do oceano a ficar ali num barco à deriva, flutuando graças às graças de um bom Deus. Alguns insanos de sol e sal tiravam loucamente água do casco avariado; não percebiam mais seus atos, apenas continuavam incessantemente com olhos vermelhos e ardidos que nada mais viam. Nessas horas há aqueles que a ação invade os pensamentos e mesmo que seus atos em nada resultem, eles não pensam mais. Apenas agem. Mas, pelo menos, diante da situação, fazem alguma coisa.

Sempre teremos os que ficarão encostados na amurada, de braços cruzados, empilhando críticas e defeitos nos que tiram água do barco, nos que pulam fora, no capitão que dá ordens sem ser obedecido, nos que querem se reunir para pensar em soluções – e morrem afogados nas suas eternas discussões. Esses talvez (só talvez) são maioria. Não encontram em si meios de resolver nada, talvez de fato nem queiram procurar ou encontrar. Apenas jogam palavras ao chão, que parecem aumentar o peso do barco e fazê-lo afundar ainda mais rápido.

Com menos palavras que eles, só os que se reúnem procurando soluções. Querem construir um barco novo, encontrar meios que os conectem com quem possa salvá-los, querem inverter a ordem do mundo e fazer barcos terem rodas. No entanto, ali estão, palavras ao oceano e quando for tarde demais sentirão suas roupas encharcadas, a água entrando pela boca, ouvidos, nariz e em meio ao desespero de que nada mais poderá ser feito, ainda estarão abraçados às suas idéias brilhantes – alguns, garanto, terão as melhores e salvadoras idéias justo naquele momento: como não pensei nisso antes?! E morrerão. Afogados, por certo. Nas suas próprias idéias e ideais.

O capitão, pouco se sabe dele. É fácil (e rápido, porém nem sempre indolor) mudarem o capitão, nessas horas. A tentação de ser o líder num momento de catástrofe salta aos olhos dos mais ambiciosos. Assim, o capitão pode ser destituído a qualquer momento. Se conseguir alguma proeza para salvar a vida de todos (ou ao menos tomar alguma atitude que minimize os danos) será lembrado heroicamente para todo o sempre – e aumentarão seus feitos, é claro. Porém, se seu lugar for tomado por outro (e outro e outro…) ou se ele juntar-se à desgraça de todos, será docemente esquecido (e, digamos, será até melhor pra ele). Nas perdas não há hierarquia, todos perdem igualmente.

Interessante perceber que nessas horas ninguém mais sequer sabe porque está no barco, ou de onde ele veio, porque foi construído. Cada um pensa na sua casa, na sua família, na sua próxima refeição. Por isso os ratos saltam fora – mesmo diante do tão incerto escuro oceano. Os ratos pouco se importam com este barco, suas razões e origens, querem apenas salvar-lhes a própria pele. O couro cinza e feio de um rato, é a isso que eles querem salvar. Não hesitam nem mesmo em largar filhos, pais, mães aflitas, lares, o chinelo velho ou o travesseiro de estimação. Saltam com algo de arrogância, como se o obscuro oceano (sabemos que lhe será ingrato e cruel, lá serão apenas ratos, encontrarão outros barcos e rastejarão nos seus porões) fosse um paraíso. Saltam e fazem questão de a todos mostrar como são grandiosos e espertos (como os que ficam de braços cruzados, muito criticam) e melhores que nós. Nós, que ficamos ali, pregando uma tábua, amparando um órfão, tirando água do convés, buscando idéias e também trabalhando para que o barco onde escolhemos ficar não vá por água abaixo.

Salvar-se jamais será nobre. Salvar-se deixando todos para trás é a legítima covardia. São estes que apontam os culpados por todo o caos que se instalou no barco, sem perceber que eles o afundam mais que qualquer buraco no casco. São eles que aqui deveriam ficar e trabalhar suas boas idéias para que o barco chegue são e salvo ao porto – com todos dentro. Mas eles não se importam. Querem ser sempre ratos.

Terrorismo: o tema queridinho do cinema atual

Não é de hoje que eu digo que o cinema francês é o melhor em lidar com suas questões contemporâneas. E nem precisaria ser eu a dizer. Todos os “problemas” sociais, questões pertinentes para o presente são tratadas com faca afiada pelos melhores diretores e roteiristas. Na pauta dos últimos temas estavam o desemprego, a imigração e agora a presença do terrorismo.

Talvez seja de mau gosto a comparação, mas é interessante. Se fosse os EUA a sofrer os últimos ataques desde o do Charlie Hebdo, teríamos no cinema a recriação da História encenando os fatos e, claro, teríamos os heróis americanos, os dramas do povo em luta pela sua liberdade. O cinema focaria na sequência dos fatos ocorridos e teriam um prato cheio para um filme de ação com o atropelamento em massa de Nice ou o massacre no Bataclan.

Porém, para o cinema francês a preocupação é outra. Foi recentemente veiculado na TV francesa um filme (feito para a TV) sobre uma mãe que descobre que a filha estudiosa está recrutada pelo Estado Islâmico. O drama tem alguns problemas, é claro. Mas segue o padrão filme para TV e tem claramente a intenção (todo cinema tem) de ser pedagógico, para instruir os pais. Existem lá programas e associações para pais “órfãos” de filhos que seguiram para se juntar ao Estado Islâmico. O ponto forte do filme é mostrar que esses jovens enganam bem todos a sua volta (pais são, no geral, bem desatentos) e evita o preconceito mostrando que são ricos, inteligentes e estudiosos.

Nas escolhas dos países para a indicação a Oscar estrangeiro figura o holandês que trata da mesma questão. Infelizmente há uma maioria de escolhas nacionais focadas no político, nas questões de gênero principalmente. Uma jovem também é recrutada e se casa pela internet com outro jovem que já está na jihad. Neste, porém, a jovem chega a ir para o Oriente Médio. Lá ela descobre que o seu ímpeto de lutar e defender seus novos valores e povo serão tolhidos por leis e regras ainda mais severas.

O Oscar não gosta muito de filmes políticos para a categoria de Estrangeiros (talvez achem que em termos políticos eles podem fazer melhor, com seus diretores que inventam histórias para tratar dos temas atuais sem dizer uma única palavra sobre tal: parece até que há algum tipo de censura). No começo imaginei que o holandês seria uma boa opção, afinal a luta contra o terrorismo, segundo os americanos, é deles. Porém, o filme traça um perfil que responsabiliza os pais (descendentes de país e com origens no Oriente Médio e África) de se afastarem da religião e dos seus valores, criando, assim, uma ruptura que faz falta aos seus filhos – ao se sentirem oprimidos pelas leis e preconceitos por terem a pele mais escura ou pertencerem ao islamismo tornam-se alvo fácil dos recrutadores e seu discurso de liberdade e defesa do próprio povo. O filme não culpabiliza os jovens por serem tão inocentes e criminosos de aceitarem explodir pessoas inocentes. Os jovens recrutados são vítimas de uma sociedade ocidentalizada (mesmo os “recém” chegados) que discrimina e não dá espaço nem valoriza valores que estão no sangue deles, como vítimas de não poder usar seu véu ou reunirem-se em espaços públicos, eles decidem revidar, encontram na religião o amparo que não têm nem em casa.

Desta forma, parece-me que o holandês não será um dos indicados. Porque o discurso não só é politizado como bate de frente com os ideais americanos. No caso francês o filme foi um sucesso exibido na TV em seguida de um programa que procurava instruir pais de como identificar os sinais de recrutamento nos filhos. Didático, pedagógico, alarmista (neste ponto quase americano). O indicado da França para o Oscar? Um filme sobre direitos homossexuais (ainda não assisti, portanto sem comentários). Poucas chances tem o suíço, apesar de ser um filme divertido e necessário; o sul-coreano, com toda a qualidade dos filmes de lá e que nós amamos, retrata um fato histórico com muito drama e heroísmo (boas chances, do ponto de vista americano).

A diferença entre o cinema francês e o americano não é apenas a forma como trata sua história recente, é claro. Mas isso diz muito de ambos. Os cinemas nacionais (para além dos EUA) têm muito a mostrar e a nos fazer entender sobre o mundo e a nós mesmos. Porém, comercialmente, etc etc etc. Cinema é contemporâneo, a história do agora é inerente a ele – mesmo quando faz releituras sobre fatos do passado. E é só uma das coisas que faz do cinema a arte mais apaixonante de todos os tempos.

Diz-me, poeta

Diz-me, poeta: tão fácil saem as palavras das tuas mãos para o papel? Flutuam nuvens de céus encantados a dourar o branco do papel que te espera angustiado? Diz-me, poeta, se preciso alçar vôos sobre tantos amores para compor êxtases e desilusões em páginas com fins cada vez mais tristes. Seria a vida um pesadelo a registrar nossos medos em tintas cada vez mais esmaecidas? Diz-me, poeta, que só tu me permite estes devaneios e dúvidas. Diz-me, poeta, tu, também, amas?

Míseras comparações enchem versos vazios. Pobres metáforas acordam o tilintar do alarme falso. São os sofredores de falsas emoções que a todo custo querem desafinar a vida em poesia. Mas, tu, despreocupado poeta, escreves com a alma em sintonia. De onde tiras tanta inspiração? Diz-me, poeta. Sei dos ventos, dos faróis, dos barcos a navegar, também da lua, do sol e do mar. A qualquer um estão ao alcance. Mas só tu, querido poeta, a tudo enquadra em traços os mais belos. Diz-me, poeta, como não sentir a brisa ao tamborilar teus versos nos meus lábios?

Diz-me, poeta: acaso te inspiro? Meus olhares ou, quem sabe, meu sorriso? Diz-me, poeta, te causam calafrios? Pois já quis ser musa dos teus versos, dona dos teus suspiros, amante das tuas madrugadas. É o que sonham alguns dos que mal sabem conversar com a pena, como tu. Não é nada fácil, diz-me, poeta, confessar explicitamente o que te atravessa o coração? Sangrar diante dos olhos que farejam desgraças como urubus em beira de estrada? Diz-me, poeta. De onde tiras coragem para adentrar as almas que vagam solitárias pelos nossos dias, tristes dias?

Imagino-te feito de olhares velados e gestos sombrios. O que te encerra o corpo flameja em palavras. Diz-me, poeta, o que vês no espelho quando estás diante dele? Nenhum verso atrapalhado, nenhuma palavra fora do lugar, nenhuma pontuação sem sentido? Ou, quem sabe, algum verso mal conjugado. Diz-me, poeta, como não escorrem por ti os versos que lacrimejam nossos olhos? Como não vemos as pétalas das tuas poesias caindo-lhe das mãos quando atravessas a rua?

Diz-me, poeta. Diz-me, poeta, como te encontro a disparar-me, sem dó, verdades em três palavras de três linhas? Diz-me como amar-te até os próximos outubros, pelo resto dos anos que nos sobram? Diz-me onde escondes as poesias que ainda não escrevestes. Guarda-as tão bem dentro do peito e as aprisiona atrás destes olhos de desespero? Diz-me, poeta. Ou te desmanchas em segredos até para mim?

Tínhamos um encontro marcado

Tínhamos um encontro marcado para este século: nos tornarmos pessoas melhores. Diante de tanta evolução científica, de condições de vida acima de qualquer patamar de antes, nós tínhamos tudo para que fôssemos melhores. Melhores pessoas.

Neste encontro traríamos o respeito – às diferenças, às liberdades individuais – acima de tudo. Porque já aprendemos, a duras penas e longas guerras sangrentas, que a condição especial para ser mais humano é o respeito. Independente das nossas crenças e convicções individuais é sempre necessário o respeito a criar cercas invisíveis ao nosso redor e ao redor de todos nós. Tínhamos o encontro marcado com diminuir as nossas diferenças: deveríamos, sempre que pudéssemos, fazer mais pelo outro, por quem tem menos que nós. Reconheceríamos, depois de tantos séculos, que alguns têm condições mais favoráveis e que outros não dependem apenas da má sorte ao nascer.

Para este encontro não poderíamos trazer nenhum rancor, nenhum ódio, nenhuma vontade de fazer o mal. Porque deveríamos trazer amor numa cesta de piquenique e, no momento do encontro, ofereceríamos uns aos outros. Amor, simplesmente. Do mais tímido ao mais espalhafatoso. Do mais suave ao mais arrojado. Mas somente amor. Já sabíamos, é claro, que não amaríamos uns aos outros como Aquele que nos ama, mas tínhamos o encontro marcado com a certeza de conhecer as nossas feridas e cicatrizes de tanta ausência de amor, por tanto tempo.

Tínhamos a certeza que neste encontro não mais primariam as disputas: pelo poder, por terras, por credos, por lucros. Todos nós deveríamos ter alcançado o nobre sentimento da satisfação de viver com o que nos cabe. Os sentimentos mesquinhos estariam, era fácil prever, todos enterrados junto ao nosso desgosto de ver irmãos se matando, famílias inteiras expulsas de casa, milícias religiosas explodindo inocentes, pessoas trabalhando doentes e adoecendo ao trabalhar.

Tínhamos um encontro marcado com cada um cuidar mais de si em busca de um corpo e uma mente de onde brotassem idéias e atitudes singulares. E nesse caminho de cuidar de si, compreender o cuidado com o mundo onde habitamos, com nossos lares e nossos habitats. Tínhamos um encontro marcado e sabíamos de tudo isso, data e horário.

Tínhamos um encontro marcado. Fugimos acovardados pela nossa incompetência em reconhecer erros do passado. Faltou-nos coragem para assumir que, hoje, não poderíamos ser nada mais do que pessoas melhores. Rastejamos, hoje, sobre nossa culpa.

As autovitimizações on line

A cena: uma mulher com o braço roxo no atendimento de plantão de uma clínica de ortopedia. Chega a filha esbaforida perguntando o que aconteceu, surpresa ao ver a mãe em pé aguardando um raio-X. Em seguida a mãe relata o ocorrido e outra filha aparece, também assustada. Depois surge o marido. Telefones apitam sem parar. O fato: a mulher estava andando numa rua em obras, passou um cara que tentou pegar o celular dela do bolso, ela reagiu e caiu na calçada esburacada. O relato: a primeira coisa que a mulher fez foi avisar a todos do Facebook e Whatsapp, falando em assalto, emergência, hospital.

Os celulares apitavam, ao que as filhas atendiam e contavam a história toda novamente, tentando acalmá-los, enfim, a mãe não tinha ido parar no hospital e estava bem (saiu com uma tipoia).

E bem nesses dias eu me perguntava sobre algo que foi ao encontro do que o escritor Miguel Sanches Neto materializou numa frase (nas redes sociais): Vivemos a era da autovitimização midiática? Uma espécie de performance on line dos constrangimentos sofridos?

Foi, também, por esses dias o fato do estupro de uma escritora por um motorista de Uber. Mas poderia ter sido qualquer caso. Não li, aliás, sobre o caso. Não sei porque, mas evito. Ou, também, não tenho tempo para me manter a par de todos os últimos mais novos escândalos do mundo virtual.

É simples: se eu fosse estuprada, qual seria meu primeiro movimento? Ligar a câmera do celular, relatar tudo e correr publicar nas redes sociais? Será? Por que tudo o que nos ocorre precisa ir imediatamente para o mundo on line? Para que tenham pena de mim? Para que me “solidarizem” (visto a falsidade absurda inerente a um “fica bem”)? Foi aquilo que nunca entendi sobre as selfies cotidianamente postadas: é para ler “que linda!” todo dia?

Talvez, é claro, eu que ainda não entendi alguma coisa. Ou quem sabe nos faltem pensadores para refletir sobre este novíssimo mundo. Eu realmente sinto falta de pensadores sobre o nosso tempo. Diante deste problema da autovitimização midiática e da performance on line eu lembrei do Benjamin, o Walter. Porque na mesma semana assisti a um filme no qual o protagonista era um ex-combatente da Primeira Guerra Mundial vítima daquilo que foi identificado à época como uma dificuldade narrativa. Para resumir, os horrores da guerra eram tais que quem voltava não conseguia narrá-los, verbalizá-los, e tornaram-se pessoas de fato traumatizadas.

Quando eu vejo as pessoas correrem publicar seus eventos traumáticos e suas perdas eu concluo que não existem mais nem o trauma nem o luto. Porque são os dois momentos humanos mais íntimos que existem. Quando você passa por uma situação de violência, você tem toda uma experiência traumática nova, sua consciência e pensamentos precisam aprender a lidar com aquilo, o sistema nervoso desenvolve escapes e descontroles. Existe um tempo ali, e este tempo não é mais respeitado. Quando alguém próximo falece a primeira coisa que a pessoa faz é escrever uma publicação enorme e colocar dúzias de fotos. E a dor real da perda? Por que querer a comiseração alheia? E o silêncio inerente ao luto? Vejo muita foto de perfil em preto e branco escrito “luto” de pessoas que não fazem a menor idéia do que isso significa. Por que relatar as dores em tempo real?

É óbvio que cada um trata dos seus traumas e dores como bem entender. Mas, relatá-las em tempo real on line não é uma forma de lidar com elas. Isso é evidente. Acima de tentar narrá-las, que era o que faltava aos soldados da Primeira Guerra, vivemos nessa necessidade de exposição. Vivemos achando, agora, que precisamos contar a todos sobre o que nos acontece. Antes, ao menos, eram só as alegrias e a vida maravilhosa que (nem todos) tínhamos. Aos poucos isso se estendeu a tudo – até as maiores desgraças. Se esta constatação não te incomoda, sugiro parar a leitura.

Tudo começou com não vivenciarmos mais as nossas experiências. Lembram da piada antiga sobre os japoneses? Que eles viajavam e tiravam fotos, que só “viam” os lugares quando as revelavam ao voltar pra casa? Então, nós não casamos mais, não parimos mais, não cantamos mais parabéns, nem pegamos o canudo ou viajamos de férias. Nós só gravamos stories, ou publicamos posts e fotos. “Compartilhar” é a palavra maldita da década. Já paramos pra pensar por que compartilhamos todos os nossos momentos on line? Sim, porque há o outro lado, compartilhar a vida com as pessoas reais a nossa volta, aqueles a quem amamos e tal.

Por que todas as nossas ações precisam (tornou-se um caso de necessidade) ser publicadas? Daí foi um pulo para também publicarmos nossos desesperos, eventos traumáticos, acidentes, problemas e dores. Eu cairia no clichê dizer que não vivemos mais. O ponto não é este. A questão é não termos o nosso tempo para experenciar tudo o que acontece conosco. E assim, talvez, perder o que os fatos podem nos dizer no mais íntimo.

Gosta de praia? Foi à praia no feriadão? Senta lá com o pé na areia e aproveita o solzão, o mar lindo. Não fará diferença para ninguém saber onde você está (só para ladrões, por exemplo). Teu filho nasceu? Aproveita, dizem que é uma experiência única na vida. Preserva a imagem dele de fotos que caem no mundo obscuro da internet (nem todos teus “amigos” são amigos) e, sério, o que interessa aos outros saber com quantos quilos ele veio ao mundo?

Teu pai morreu? É duro. Fica ao lado da tua mãe, irmãos, aproveita os últimos minutos do velório (que são cada vez mais breves) para pensar nele. Esquece de rede social, pede pra alguém pegar a agenda do telefone e avisar aos mais próximos. Era assim que a gente fazia no século passado, sabia? Teu companheiro fiel morreu depois de mais de dez anos ao teu lado? Ô, dói. Chora em silêncio no quarto. Tudo isso leva tempo e silêncio pra gente aprender a conviver. Textão nenhum vai resolver – nem ajudar. Ah, e, claro, ainda não temos certeza que falecidos leem redes sociais. Pode ser inútil escrever para eles por este meio.

Casou? Aproveita a festa. Aproveita a lua de mel (que é a dois, por favor). Ninguém mesmo tem nada com isso. Agora, a gente desconfia das pessoas que não suportam viver a própria vida sem estar o tempo todo a publicar o que faz, sofre, ganha ou perde. E a desconfiança parece-me legítima.

E eu não poderia deixar de acrescentar uma crítica: as pessoas que usam essa autovitimização alheia para se promover. É uma crítica que eu tenho entalada aqui faz um tempo. Sabemos que a internet tornou-se a escada para muitas pessoas alcançarem o “sucesso”, dizem que um espaço mais democrático que dá visibilidade para artistas e afins que, numa outra época, ficariam sempre restritos aos produtores e interesses. Porém, utilizar a dor e o sofrimento do outro para ganhar cliques e compartilhamentos é demonstração de falta de caráter.

É complicado falar em exemplos porque alguns casos foram próximos. É como usar a preocupação dos pais com um jogo de adolescentes para promover o seu trabalho com campanha contra o bullying nas escolas. Ou usar casos de estupro, seja de funcionária da Globo, de anônimas no ônibus ou da tal escritora para promover a sua música que fala sobre a condição de ser mulher. Mas é geral, muitos perfis engraçadinhos e tal se utilizam dos “casos do momento” para autopromoção, nem aí para a situação trágica ou para a dor alheia.

A internet não veio com manual de instrução, eu sei. Por isso que na última década surgiram novos crimes e novas leis para tentar pôr ordem nesse território vasto e ainda nebuloso. O nosso comportamento deveria ser analisado minuciosamente – senão pelos pensadores contemporâneos que nos faltam, por nós mesmos. Porque parece-me que nem todos os casos são de pessoas carentes de atenção. O problema, como eu sempre digo, não é a coisa/objeto/meio, mas o uso que fazemos deles.

Em nome da preguiça

O dia vai escurecendo e o vento sublinha as tentações da preguiça. Já vivemos tanto, já trabalhamos tanto. A vida, por vezes, assemelha-se à árvore desfolhada pelo inverno que vejo todos os dias pela janela. Sem sintomas de nenhuma patologia grave, queremos apenas o aconchego. Ou um chamego no aconchego. Mas dentre horários e agendas não há previsão para imprevistos do tipo: agora me cairia bem jogar-me no sofá, comer biscoitos, rir e conversar. Certeza que todo resto renderia brilhantemente depois dessas interrupções, mas ninguém confiaria.

É que nos preveem máquinas a trabalhar feito formiguinhas impulsionando a roda gigante da economia. Não nos enxergam nas nossas fraquezas e pele e osso que envelhecem e sustentam uma cabeça pesada e um coração incansável. Nos preveem rendimentos e sustentos, obrigações e responsabilidades. Nos preveem números e horários. Dizem, já faz tempo, que assim é melhor para todos e a melhor forma encontrada para manter o mundo de pé. Enquanto nós já não aguentamos as dores nas costas.

A legitimidade da preguiça até pelas religiões foi contestada. Por deuses e pelos homens a preguiça é condenada. Pobre preguiça. A única coisa que ela quer é não fazer nada. É tão de boa que nem a revoltar-se ela se digna. Não é o abuso, o excesso, a vagabundice. É só a preguiça, a rebeldia passageira da rotina, a noite mal dormida, o cansaço fora de dia. É querer o abraço quente na noite fria, o almoço demorado, a caminhada em tardes de sol. Não é sempre que essas vontades se dão aos finais de semana, no dia de folga ou quando já batemos o cartão de saída.

Tem dias que é só assim, mesmo. A preguiça, esse sentimento que nos dá liberdade de ser quem somos quando queremos. A preguiça é poder. A preguiça é genuinamente humana (e felina, e canina…) porque nos percebe não-máquinas, não-instrumentos. A preguiça legitima nossas personalidades e nos dá o tempo que precisamos – como o olhar que dei pela janela antes das primeiras destas linhas. Aos nossos corpos não existe a necessidade de exauri-lo em busca de riquezas para os outros.

De todos os sentimentos, a preguiça é a que mais precisa ser restituída ao seu devido lugar. O do sofá, é claro.

Blog no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: