Não há normalidade nos nossos dias

Duas frases têm me cansado bastante nestes tempos de pandemia. A primeira, otimista aos raios da irritação, “Tudo vai passar (logo)”; a segunda, inocente na sua ignorância analítica, “seremos outros depois disso tudo” (ou equivalente com “tudo vai mudar”). Além das previsões estapafúrdias que tenho visto por todos os lados, além da discussão política sobre os limites do Estado sobre nós. Discutem sem olhar o básico.

O ponto principal, me parece: não estamos vivendo uma situação normal. Portanto, não finjamos que está tudo normal, não sigamos nossos dias como se houvesse normalidade, não trabalhemos como se fosse uma situação igual à anterior. A minha geração, a geração dos meus pais, as gerações depois de mim, nenhuma viveu uma pandemia. Os nossos idosos (tão, mas tão, maltratados pelas suas famílias, pelo governo, por tudo e todos) acima de uns oitenta anos podem ter lembranças de epidemias de tifo e outras, quando as pessoas, naquela época, passaram por situação semelhante.

Como exigir normalidade numa situação extraordinária? Como manter dias e horários? Como pressionar e manter prazos e datas? Trabalhos e estudos online, compras por entrega, bancos com atendimentos restritos, protocolos para todos os lugares. Onde está a normalidade? Máscaras, meus queridos… não há nada de normal nestes dias.

E as dicas e reportagens sobre o que fazer na quarentena? Livros, filmes, séries, receitas… eu dava conta disso tudo, antes da quarentena. O volume de trabalho, problemas e responsabilidades na quarentena acabaram com meu “tempo livre”. Admiro quem está aproveitando a quarentena em casa até para aprender a cozinhar, maratonar séries e fazer cursos online. A quarentena acabou com tudo isso pra mim – e, por favor, cozinhar e tantas outras coisas cotidianas sempre fiz. O que faziam antes da quarentena essas pessoas que fizeram seu primeiro pão ou bolo em casa? O que faziam da vida antes da quarentena esses pais e mães que não aguentam seus próprios filhos? O que faziam da vida antes da quarentena essas pessoas que foram ler tutoriais de como limpar a casa? Viviam no shopping? Não saíam da academia? Confesso que prefiro não conhecê-las (nem às suas respostas). Que a quarentena mostrou o quão vazios são muitos dos indivíduos contemporâneos, já sabemos.

Ninguém estava preparado para a quarentena global, eis a verdade. Os sistemas de saúde muito menos. Mas, tudo faz parte de um processo de adaptação temporário. Não se pode transferir em pé de igualdade a realidade presencial para a virtual. Toda adaptação prevê considerações sobre os meios – posso falar da minha área, como a discussão de adaptar um livro para o cinema, são meios diferentes, impossível apenas “reproduzir” a história escrita em imagens. Mas, as pessoas não pararam para refletir.

Aliás, talvez a quarentena devesse ter sido apenas isso: parar e refletir. Deveríamos todos ter parado absolutamente tudo, e ficado em nossas casas, reclusos e contemplativos, consumindo apenas o essencial (comida, água e tal, nada perto das MPs desvairadas do pseudo-presidente). Não há que se discutir a economia. Paremos, apenas isso. Somos seres humanos, apenas isso. Humanos que, mesmo diante de tecnologias e ciência tão avançadas em plena segunda década do século XXI não sabemos direito o que fazer diante de um vírus invisível (e que é negado por muitos, não apenas por ser invisível). Nos falta, em geral, momentos de reclusão, contemplação e reflexão. É o que a vida contemporânea nos quitou. Neste momento é crucial pensar, e pensar novamente. Repensar o modelo de sociedade na qual vivemos, repensar nossos hábitos (e não esses discursos fúteis das redes sociais), repensar nosso modelo de trabalho, repensar nosso modelo de ensino (e aprendizagem, às vezes esquecemos que é uma via de duas mãos), repensar nossos espaço habitacional, repensar nossos hábitos alimentares, repensar nossas atitudes em relação aos outros. Repensar tudo, enfim.

Mas, como contemplar e refletir enquanto temos que assumir papéis que não nos cabem, diante de meios que desconhecemos (e que não são feitos para nossas necessidades!), na tensão e angústia da vida e da morte, na preocupação com os que amamos, com responsabilidades que acumulamos? Impossível. E, assim, nos quitaram, também, nossa humanidade. Somos seres humanos, apenas. Não somos máquinas. E, num repente, reproduzimos uma relação homem x máquina mais atroz do que a Revolução Industrial (naqueles tempos, dizem uns, havia justificativa para não se saber ao certo os efeitos da máquina sobre o ser humano – hoje, não há nenhuma).

Esse mundo contemporâneo do século XXI mostrou-se estúpido e embrutecido. Estúpido, visto que não aprendeu nada com os últimos milhares de anos. Embrutecido, visto que acha que se garante tanto com suas máquinas e tecnologias e ciência, mas, na verdade, está apenas assustado e sem rumo.

Parem o ENEM, parem os vestibulares, parem as fábricas, parem as escolas, parem as instituições, parem as igrejas, parem as praias, parem (os governos), parem as academias, parem os shoppings, parem tudo. Apenas, parem. Não há normalidade nos nossos dias. Para voltarmos à vida, teremos que estudar uma outra realidade. E, não, não acredito que será tudo diferente porque as pessoas, essas mesmas que não vêem motivos para pararmos, continuarão a existir. Se não pararmos para refletir sobre o hoje, o amanhã será muito pior – passará longe desses olhares otimistas e inocentes.

(Quase caí na tentação de terminar com um “quem viver, verá”, mas, não só pelo clichê, não quero desrespeitar as centenas de milhares de mortos; nem quero ser mais uma a rabiscar previsões. De fato, só temos o hoje.)

A angústia de cada pôr-do-sol

O pôr-do-sol de todos os dias me trouxe algo novo: uma angústia que não passa. Logo ele, que sempre tanto amei. Aliás, sempre tanto amei a natureza, estar em contato com ela, longe dos seres humanos, mais próxima de mim. Todos os dias, acordo e abro as cortinas janelas. Ao cair da tarde faço o movimento inverso. Tenho parado uns instantes a ver o sol ao longe fazendo do céu uma pintura sempre linda. Vê-lo, trancada em casa há mais de um mês, assim furtivamente me enche de angústia. O sol, por sinal, tem aparecido com mais frequência do que a usual para esta época. O calor do nosso querido Verão estendeu-se como quem dizia “vim pra ficar”. E nós dentro de casa.

A princípio, não me angustia ficar tanto tempo em casa. Amo minha casa. Começo a sentir falta da natureza, por certo. Mas a angústia tem outra razão de ser. O que existe lá fora.

Quando pensamos que nosso maior inimigo seria um vírus de alta letalidade que já entrou para a História Contemporânea, com imagens da Lombardia e de Guayaquil como impressão profunda desses tempos em nossa consciência, nos deparamos com algo muito mais letal. Sim, a ignorância de um povo que já havia jogado o próprio país ao precipício. 

Nosso inimigo não é a fome. Não será o desemprego. Não é a falta de UTIs e respiradores. Nosso maior problema não é a crise econômica que virá para o mundo todo nem as consequências práticas de uma pandemia global. Nosso inimigo é o discurso assassino. É o desvario coletivo sob a batuta da mais pura e indigna maldade. Não me digam que são só alguns poucos, porque não foram poucos os que correram ao comércio, não são poucos os que vão todos os dias às padarias, não são poucos os que querem academias reabertas, não foram poucos os que correram ao litoral para aproveitar o feriadão nas praias. Enquanto isso, quem pode, sob a mesma batuta, faz demissões em massa, pressionando seus funcionários a que trabalhem dobrado, apenas para lucrar mais com uma situação de calamidade global. 

O desvario é o tom do discurso, porque a essência é a maldade. Há dias tenho pensado como deve ser, no mínimo, constrangedor estar do lado errado da História. Tento encontrar outra palavra para constrangedor, mas que mantenha o decoro do texto. Como deve ser doloroso, estupidificante, nojento, quem sabe, descobrir-se na contramão dos fatos históricos. Gostam tanto sempre de usar o exemplo do nazismo, tentemos: como deve ter sido para milhares de alemães, levados pelo discurso de desvario e maldade apedrejar, cuspir e denunciar judeus (muitos seus amigos, vizinhos, colegas). Um exemplo mais próximo que me apetece sempre usar: como deve ter sido para gerações perceberem-se escravagistas neste país, saber que a riqueza de sua família veio do sangue dos negros, para muitas das mocinhas e mocinhos da época que desprezavam a pele negra e foram se dando conta, ao longo do tempo, que eles eram cruéis bestas que chicoteavam seus iguais. 

Deve ser um encontro interessante dessas pessoas com suas próprias consciências, ao verem que a História clamava por eles no momento, que defendessem o que era certo como um imperativo categórico apenas e pronto. Mas, optaram pelo erro, guiados ou não pelo discurso desvairado de uns, explícitos na maldade. Já diz a igreja que temos, de fato, o livre-arbítrio para tomar essas decisões, enquanto igrejas que já estiveram do lado errado da História tentam acertar pelo menos desta vez- outras disseminam a mais rasa ignorância a mascarar a completa maldade de suas ações, que também não são de hoje. Contudo, não há como negar, foi o ser humano que buscou este vírus. É o ser humano que escolhe propagá-lo,  em carreatas pelo país, em caminhadas aparentemente inocentes na beira da praia, em idas ao supermercado aos risos e conversas desbragadas. 

A natureza deve assistir a tudo pasmada. Precisou que um vírus inocente que vivia em seu seio viesse tomar metrópoles para que nós a deixássemos em paz. A produção de petróleo parou. Nosso consumismo estúpido parou. As máquinas assassinas de todo tipo pararam. A natureza vive seu devir a ignorar nossa estupidez e desespero. Ou, quem sabe, ela nos olhe como eu, com uma angústia sem fim, a cada pôr-do-sol… pensando, talvez, que a humanidade nunca aprendeu com seus próprios erros, que a humanidade sabe propagar melhor a maldade contra seus iguais do que sabe curar as doenças. E, vejam só, a natureza é testemunha dos nossos atos desde tempos imemoriais. Nós passaremos, ela permanecerá.

Amores pensados

Senti falta de escrever – de escrever aqui. E o que me fez voltar é nobre: cinema e relacionamentos (não falemos de amor, que raramente este é o problema). Nada menos que um filme argentino com o Darín, Un amor menos pensado (Juan Vera, 2018). Darín é o ator perfeito para o papel do hombre tierno e a história trata de um relacionamento como todos os outros, que sofre aquilo que todos sofrem: a ação do tempo, seu maior inimigo. Porém, é um belo filme com uma preocupação detalhista que engrandece-o diante dos espectadores. Talvez não seja para qualquer espectador reparar nos enquadramentos a partir das luminárias e abajures, tampouco reparar no design dos copos que se repetem ou na direção que nos prende em diálogos exatamente ao ritmo deles.

Um casal de meia idade que se separa após a partida do filho para estudar no exterior. Simples assim. E a esposa, após esta viagem, se vê numa madrugada, sem sono, se perguntando o que é tudo aquilo a sua volta, para que cada xícara, cada móvel. O marido não entende bem e prefere justificar com uma explicação psicológica de “síndrome do ninho vazio” e logo, do nada, eles se separam.

O filme é muito bem escrito, dosando ritmos necessários a cada cena. Até a separação o drama predomina, você acompanha o cotidiano e a cumplicidade do casal. Após a separação o humor (por vezes hilário) predomina e vemos os “novos” relacionamentos dos personagens, cada um tentado a vida de algum jeito – vale ressaltar que é a esposa que irá “desbundar”, enquanto o marido se debate na precariedade da vida sozinho e demora mais para envolver-se com outras mulheres (cenas hilárias, Darín escondendo o corpinho numa cena pós-sexo – para quem lembra da juventude dele quando seu derrière era bastante explorado). Boa também a introdução do uso da tecnologia digital de redes sociais e aplicativos num filme com personagens acima dos cinquenta.

Como filme ele mostra que a experiência como Produtor e Roteirista permitiu a Juan Vera afinar sua Direção num nível bastante sutil e elevado. Como história nos leva a pensar… a pensar o que fazemos com nossas vidas a dois. Parece-me que os casais, quando se juntam, vivem de objetivos: o anel, o noivado, a festa de casamento, a casa, o carro, as viagens, os filhos, os empregos estáveis, etc.. Mas, e quando este “etc.” acaba, o que acontece? Por que os relacionamentos são feitos de metas a serem cumpridas – e, normalmente, com prazos? Por que não se pode viver a vida a dois pelo que se sente um pelo outro? Porque, neste meio, há um relacionamento. E quase tudo num relacionamento é problema. Muitos desses problemas são disfarçados pela busca incessante em cumprir os objetivos, juntar dinheiro para as metas, que se multiplicam junto à multiplicação dos filhos.

Eis o fracasso do amor: os relacionamentos. E o tempo vai corroendo tudo aquilo que se constrói dia a dia. Diante dos nossos questionamentos interiores – que, quando exteriorizados são impossíveis de ser compreendidos por quem amamos – pouco importa que o outro é um excepcional degustador de empanadas. Os objetos de decoração, as lembranças da vida a dois, as fotografias de momentos felizes se despedaçam diante de novos objetivos. Tudo o que fazia o relacionamento ter sentido incomoda e atrapalha: não se está mais apaixonado. Esquece-se que manter-se apaixonado toda uma vida é obra diária e que requer todas as nossas forças e atenção. Justamente um dos grandes erros das pessoas num relacionamento: que tudo está garantido (they take it for granted, é a expressão que me parece sob medida). Nos conhecemos, apaixonamos, começamos o relacionamento, estipulamos as metas e seguimos em frente. O “apaixonar-se” fica lá no início e, assim, esquecido.

Por isso, no filme eles decidem se apaixonar novamente – ela mais que ele, sejamos justo, mas é o dado especial para o hombre tierno do Darín, porque, de modo geral é mais raro encontrar estes homens. Em nenhum momento, sabemos, se trata de sentimento. O amor não é o problema e por isso o título em português, derivada da tradução do inglês (sei lá porque, né, afinal espanhol é nosso parente, inglês não), “Um amor inesperado” (“An unexpected love”, em inglês) não faz jus ao original El amor menos pensado. É, de fato, o amor mais esperado (o final não surpreende, nem deveria). Mas, é aquele amor que nós não pensamos, que existe e não é um problema – é, bem provável, a solução.

Quando não pensamos, nos perdemos em todos os perrengues de uma relação sujeita às intempéries. A burrice de todo casal é não perceber que as tempestades passam, as boas obras resistem. O casal do filme prova que o fim dos objetivos e das metas esvazia o que existe na vida a dois e o amor não parece o suficiente para garantir a felicidade – pensar numa tarde de domingo es peligroso e abandonar o programa do cinema à noite porque ficou tarde minam tudo. O amor menos pensado reconstrói uma vida sem toda aquela lista de obrigações e objetivos a serem alcançados. Eu nunca vi um relacionamento desta forma, devo ser exceção.

Produtividade e hipocrisia

Saiu de moda criticar a sociedade. Afinal de contas, precisamos nos enquadrar para sustentá-la e ser crítico em relação às coisas como são não é produtivo. Porém, esta produtividade é tão hipócrita e sem sentido que é impossível não criticá-la.

Ontem conheci uma moça que tem três empregos. (e ela nem é professora…) Porque, se não fosse assim, não teria como sustentar-se – vejam bem, não é que não teria a “vida dos sonhos”. Um trabalho só não nos basta – e não estou falando de preenchimentos espirituais, mas apenas práticos, ou financeiros mesmo. O salário das pessoas mal dá pra se manter, esta é a realidade. E ainda com jornadas absurdas, patrões tirando vantagens de tudo e de todos (e se fazendo de injustiçados), descontos de tudo quanto é lado (até o governo, vejam só, que diz que nós é que somos o problema da iminente quebra dele), os preços em alta constante. Ninguém vive com mil reais por mês. Ninguém vive com o salário médio do brasileiro.

Assumimos uma vida que não nos satisfaz em nada. Trabalhamos cada vez mais, sem tempo nenhum para cultivar o espírito nem para estudar, divertir-se ou adquirir mais conhecimento. Até divertir-se tornou-se uma obrigação apenas para que os outros vejam. Aliás, sempre digo que adquirir conhecimento, no Brasil, não é visto como deveria. O brasileiro despreza o conhecimento, diariamente temos provas do tamanho dos erros aos quais a ignorância nos leva – e a escola virou mera obrigação, curso superior é caminho pra profissão, nada que faça elogio à busca pelo conhecimento. Saber é poder, já diria o filósofo. Mas, pra que estudar Filosofia, né?

Pensamos, erroneamente, que estamos nos dedicando aos que amamos, trabalhamos cada vez mais para dar um “futuro a eles”. Quase todo pai pensa assim. Passa horas no trabalho e não tem tempo nem para colocar o filho para dormir, contar-lhe uma história, perguntar como foi o dia ou levá-lo às lágrimas de tanto rir. Os pais nem conhecem os próprios filhos porque tudo aquilo que fazem hoje, pensando no seu futuro, os afastam de quem aquele ser é, em formação. Já ouvi criança dizer “mas em casa ninguém conversa mesmo”. Imagine o que passa uma criança para conseguir elaborar esta afirmação – nada sai por acaso da boca de uma criança. E aí os pais trabalham, trabalham, e seus filhos têm tudo do bom e do melhor: o tênis novo, o celular de última, os jogos e roupas da moda, as melhores escolas e cursos, vão ao shopping encher a praça de alimentação aos sábados e domingos. Mas, à noite, antes de dormir, nem se importam que não viram o pai naquele dia porque estão imersos em qualquer baboseira na internet.

E o que fazemos? O que estamos fazendo enquanto aqueles que amamos precisam de nós, da nossa presença? Presença física e espiritual, presença prática, de exemplo e companhia. Nos cansamos em trabalhos cada vez mais exaustivos e menos gratificantes, atropelamos nossos desejos e sonhos pensando no quinto dia útil. Quando, por fim, temos um pouco de tempo com eles, a irritação toma conta. Não estamos mais acostumados a conviver, não nos conhecemos, não temos a intimidade necessária. E cada um escapa para o seu lado, enterrando-se no vazio deste mundo que foi feito para que, mesmo nas horas de lazer, desejássemos voltar ao trabalho.

Não é novidade que adoro banho de mar. E se tem uma coisa que me desgosta é, durante o banho de mar, ouvir pessoas (nas férias! durante o banho de mar!) falando de… trabalho. É sintomático. Fomos treinados para isso, a vida não faz sentido se não estamos trabalhando. Se até quando temos nossos momentos de lazer saímos com… os colegas do trabalho. Vivemos internados neste ambiente, sendo catequisados que dele precisamos e dele dependemos. Como se não houvesse vida, afinal. Porém, vale lembrar que o trabalho deveria ser apenas uma parte da vida.

E como somos hipócritas! Aliás, apontar a hipocrisia nunca esteve na moda. Ninguém gosta, eu sei. Dizemos que estamos fazendo tudo “pelo futuro”, “porque amamos” e que tipo de amor é esse que não sabe conviver? Que nunca tem tempo? Que futuro é esse, do qual nem certeza temos? Que amor é esse que soma, todo mês, um pouco mais na poupança e passa todos os dias do mês ausente? Estamos distantes daquilo que pregamos. “Tuas idéias não correspondem aos fatos”. Estar junto ainda é a única significação do amor (já escrevi sobre isso). Mas, preferimos nos enganar. Preferimos emburrecer. Preferimos horas e horas no vazio de uma internet que mal sabemos usar. Porque esquecemos como é viver aqui fora. Porque o trabalho pesa e só queremos esquecer disso, mas sem pensar.

Trocamos a qualidade de vida pela produtividade, cada vez mais enfurnados em casas e apartamentos, em redes sociais, no trânsito parado, em fofocas e falsidades, em notícias falsas e ignorância travestida de novas idéias. E nem mais sonhamos com uma reforma nos padrões que diminua a carga horária e aumente os salários, para que tenhamos tempo para conviver com quem amamos e para que possamos cultivar o espírito – porque nem saberíamos o que fazer com isso.

O vazio intolerável

Os espaços eram menores, as casas também, de tão pequenas já haviam sido empilhadas umas sobre as outras e formavam longas colunas em direção ao céu. As cabeças diminuíram, os corações seguiram o mesmo caminho. E a TV ficava muito perto dos olhos, dormiam todos estreitados entre paredes frias. As ruas largas apertavam terrenos contra si mesmos e num só, onde haviam laranjeiras, goiabeiras, bananeiras, pinheiros e floreiras agora apertavam-se três ou quatro casas, da largura de um carro. O barro, dele nem se lembravam, atolados em asfalto e piso e chuva que não tinha mais para onde ir – quando chovia. Até os computadores eram menores, mais leves e finos, ou haviam sido trocados por telas menores e sem teclados – haviam, até, desaprendido a escrever, pois os teclados virtuais sabiam fazê-lo sozinhos.

Tudo ia diminuindo num mundo cada vez, ainda, mais cheio de gente. Os pensamentos, nas cabeças que minguavam à falta de estímulos e engordamento, também murchavam – nuns, quase desapareciam – e, obscuros, não atinavam com o sentido (da vida, do existir, da felicidade, do ser: porque estas respostas precisam de tempo e espaço). Aquelas cabecinhas esvaziavam-se nas telas pagas para dizer o que eles achavam que queriam – pois sequer sabiam no que acreditavam. Muito se repetia nos templos, mas sabia-se a tempos que tanta certeza só faz nascer desespero. Era um novo mundo, cheio de letrinhas e imagens que preenchiam toda a tela, mas as quais ninguém lia. Ninguém atinava com tanta coisa que de nada lhe servia. Alguns lembravam das quedas dos altos galhos, outros nem as conheciam. E a cabeça, cada vez mais vazia.

O vazio era intolerável a todos. Alguns mal reagiam, o movimento mecânico os denunciava – e a voz que vinha de longe não nos atingia. Era mais uma alma perdida. Àqueles que pediam socorro, não davámos ouvidos. Era mais uma alma que podia ter sido salva. O vazio nos perseguia, nos atingia nos momentos de alegria diante de inúmeras fotos que ninguém via. O vazio nos fazia companhia, entrelaçava nossos dedos na hora do intervalo, ia para a cama junto conosco e nos ninava os olhos. O vazio nos perseguia nas parcas idéias que ainda tínhamos, contaminava nossos monólogos: afinal, o que postaríamos naquele dia? O vazio, por certo, nos adoecia ao nos afastar do que um dia haviam chamado de vida.

E quem nunca conhecera o que havia antes do vazio se dava por vencido. “Se a vida é isto, estamos perdidos.” o imediato e o dado lhes eram necessários. Não havia mais caminho, nem suas pedras e suas poesias. Não sabiam como constuir o que desejavam, quiçá nem sabiam o que eram os sonhos. Não sonhavam, por Deus! Nem Deus lhes preenchia o vazio. E foi assim que também seus corações esvaziaram… amores não os tinham. Paixões em instantes satisfaziam. Seguiam modas e modismos, mas coração sempre foi coração. E coração é só coração. Vazio, morre e mata. E aquilo mais me assustava: coraçõezinhos tão pequenininhos e lá dentro, pu, nadinha – um resto de vento que soprava gelado. Tão grande e rápido o mundo de cá, esmagava os corações que nem mais batiam. Fraquinhos e suspirantes sem jeito nada viviam nem aprendiam. O mundo este que nos parecia tanto progresso e sucesso não precisava de cabeças nem de corações – tudo nos esmagava e nem percebíamos. Os corações, então, só falavam pelos teclados que existiam nas telas – sem voz, sem choro, sem abraço.

Sem abraços, por Deus! Que as mãos estavam ocupadas a segurar seus controles – que sugavam suas cabeças e corações e esmagavam sua existência. O vazio era intolerável e tentávamos preenchê-lo com aquilo que nos diminuía muito a cada dia. Nos envenenávamos quando podíamos e o gosto amargo descia lancinante a dizer-nos “aprecia!”. Tudo diminuía. Tudo nos dava azia. E repetíamos. Às casas apertadas a solução era um bar da esquina, onde nos lançávamos à falsa alegria contando a todos que lá, enfim, a dor nos redimia. Mas, de nada valia se não contássêmos a todos. E o vazio, ah!, este crescia – sorridente e indiferente. O vazio, ah!, era intolerável pois não o abandonavámos. Os gritos de socorro calaram-se, os índices aumentaram. Fazíamos que nos preocupávamos. Se também erámos vítimas, como salvá-los? A nossa vez aguardávamos na fila. A fila, esmagada entre gavetas umas sobre as outras, pois também ali os morros haviam diminuído – ou os corpos queimávamos, assim ao vazio voltávamos.

Quando um povo ataca sua própria Cultura…

É doloroso ver os ataques constantes que a Cultura do país tem sofrido. Avisei que teríamos um retrocesso sem precendentes num provável governo deste que vocês elegeram. Agora o povo acha que não precisa de cultura e arte. Claro que não, eles têm Netflix. Nossa pobreza intelectual chegou a patamares desconhecidos, por isso muito do que virá será desconcertante.

Acompanho a página do MinC no Facebook e percebo a luta dos seus funcionários, técnicos na maioria, em mostrar como o Ministério é importante, o quanto ele investe em todo tipo de cultura e arte pelo país todo. Mas essa “era da internet”, de ler manchetes nas timelines e já achar que sabe tudo, está destruindo com nossas chances de país melhor. O MinC é essencial. Ele não pode ser vilipendiado. Ele investe e dissemina arte e cultura, ele preserva nosso patrimônio e incentiva produções de todas as áreas. Mas, tem uma leva de analfabetos culturais (é como um desenvolvimento dos funcionais) que prefere só xingar e bradar que Ministério da Cultura só “dá” dinheiro para grandes artistas e “dá” dinheiro para filmes ruins. É o que dá falar sem conhecer. É o que dá o colonialismo.

Quando falávamos de um “american way of life” que nos foi tentado vender goela abaixo (apesar de nunca termos tido cacife para tal) parecia coisa do passado. Não é. Quando percebemos a importância de um segundo idioma, pelo menos, como o inglês do mundo globalizado (como o foi o Francês, etc.) era para alçar nossas gerações ao contato com o mundo. Porém, saber inglês tornou-se o dominar-se pela cultura de tudo que em inglês se produz. Um jovem brasileiro hoje aprenderia muito mais do mundo, da sociedade e da vida se fosse fazer um intercâmbio para o interior da Argentina ou para a Índia. Certeza que ele não aprenderá nada com uns meses de subemprego na Disney. Esse mundo fácil, de dinheiro “em dólares”, num país onde “tudo é barato”, que se não é “o melhor” é “melhor que aqui”. Quando e onde que Estados Unidos é melhor para um brasileiro do que o Brasil? Pra Bündchen, talvez (tenho minhas dúvidas). Esse USA que se vende nas séries, filmes, clipes, músicas é ilusório para um povo pobre, aculturado.

A proporção da calamidade ainda é pouco percebida. Temos crianças e adolescentes que reproduzem o modo de ser dos personagens de séries americanas. Suas vidas tornaram-se iguais às deles. Hoje novas gerações assistem Friends e sonham em ser garçonete em New York, é claro. A pizza que o brasileiro pede fim de semana é uma extensão desse american way of life. Crescemos vendo os personagens gostando e agindo de uma determinada forma, comemorando isso ou aquilo, e queremos igual. A cultura estadunidense é cultuada (e eles nem percebem).

Se vão assistir a um filme indiano, ou francês que seja, estranham, não gostam. Aliás, sentem-se assim com os brasileiros também, é claro. Porque conhecimento e cultura são coisas que a gente nunca “acaba” de apreender. É o modo de vida, mas é também a narrativa, os dramas, o ritmo, tudo – assimilado de uma vida que não nos pertence. Nós não somos americanos – sul-americanos, meus queridos. São séculos de História, de miscigenação, de Cultura, de tradições que nos afastam. Eis porque a importância do nosso Ministério da Cultura, também para fazer o brasileiro conhecer a sua própria Cultura e a sua Arte.

Quando falam de “qualidade”, então… o que dizer? Existe algo que se chama “formação de público”, todos os produtos americanos têm uma extensa formação de público, que o “educa” (formação neste sentido) a entender e gostar do que é feito por eles. Se o público não conhece o que se produz aqui, não conseguirá um contato com isso. E por mais que a gente pense em influências e apropriações, é curioso ver brasileiro que renega a qualidade de tudo que é feito aqui (desde funk até Cinema Novo) e só gosta de arte e cultura estrangeira. Aí só um psicanalista, né – ou Nelson Rodrigues. As linguagens artísticas causam estranheza nas pessoas, através dos nossos sentidos. É preciso que nos eduquemos em arte e cultura. Mas, educação é o fraco deste país (dos EUA também). Só vai gostar de arte e cultura brasileiras quem for educado a gostar? Não. Mas para o povo iletrado, que mal escreve o próprio idioma, exposto desde cedo aos produtos culturais mais duvidosos, sim. E, também, para um povo que prefere desconhecer a própria cultura – porque prefere os clássicos, o que a crítica especializada diz, tudo aquilo que for “bem falado”.

É doloroso saber de pessoas que desconhecem cinema brasileiro. Que não ouvem música brasileira. Que nunca vão às exposições de artes visuais. Que nunca leram um autor brasileiro. É doloroso vê-los lendo crônicas de-sei-lá-o-quê sobre culturas riquíssimas que não nos pertencem. É doloroso vê-los xingando o dinheiro que o governo “dá” para os “vagabundos” enquanto adoram Harry Potter e a baixa literatura comercial que se produz aqui. É doloros ver um país com tantos problemas sociais e educacionais como os EUA servindo de modelo e exemplo para nós, pobres brasileiros. É doloroso ver a expansão de escolas bilíngues onde formaremos mais e mais alienados adoradores de culturas que nos são alheias.

Minha esperança reside no fato de que temos funcionários de carreira, técnicos com boa formação dentro de alguns ministérios e eles já mostraram que estão dispostos a resistir. Quem dera tivessem o apoio de boa parte da população. Que eles resistam em nome do nosso futuro. Alguns, felizmente já abriram os olhos diante do engodo que elegeram – outros levarão mais tempo. Porém, diante disso não podemos entregar o país de joelhos. Será uma longa batalha. Salve a Arte e a Cultura Brasileiras, hoje e sempre.

Lições

Minha mãe me ensinou, dentre tantas e tantas coisas, uma das mais importantes (que eu nunca vi ninguém dizer que havia aprendido): a nunca desejar o mal, nunca regozijar-se com o mal do outro. Assim, quando criança já ouvia que não devia rir dos outros, nunca deveria dizer “bem feito!” quando algo de ruim acontecesse a alguém, nem desejar o mal, mesmo que em momentos de fúria, com um “quero que você se dane!”, “quero que você morra”. E eu sempre ouço comm muita atenção o que mamãe diz. Ela sabe das coisas da vida.

Foi assim que cresci. Nunca disse um “bem feito!” maldoso. Nunca desejei o mal de ninguém, além de brincadeiras bobas (meu humor, né). Ela também me ensinou a nunca odiar. O que, também, levo para a vida. O ódio é um troço muito violento, não dá pra gastar assim. Uma vez ou outra na vida já me odiei, foi rápido, foi necessário, passou. Mas, odiar outrem não sou capaz. Óbvio que não tenho sangue de barata e já passei muita raiva na vida.

Porém, essa bondade toda de minha mãe sempre contrastou com a maldade ao meu redor. Conheci pessoas muito ruins, de todo jeito, daquelas da gente duvidar que tenham coração (não tem, a gente sabe). Fui vítima da maldade incessante de algumas (não poucas) delas. Minha mãe foi mais do que eu. E sempre de coração leve, aberto, tranquilo. Não é à toa que dizem que somos muito parecidas. Eu via aquelas crianças que riam dos coleguinhas quando algo acontecia de ruim com eles e olhavam umas às outras, a gritar “bem feito!” e seus olhares eram malvados, muito malvados. Fui criada com muitas restrições, chamadas de atenção, questões éticas e religiosas, dentre outras. Aprendi muito com tudo isso.

Hoje reconheço muito mais e melhor o quanto minha educação faz diferença. Eu vejo adultos se regozijando com o mal que acontece aos outros. Eu vejo adultos querendo o mal das pessoas – sejam elas boas ou más. Gente querendo a morte de assassinos. Gente honesta que amaldiçoa e passa a perna em quem pode, quando pode. Gente que não sabe o que é o amor, que não é amada, que destila ódio e maldade e fofocas sem piedade. Elas não tiveram uma mãe como a minha. Ou, quem sabe, não ouviram suas mães.

Se é fácil? Nadinha. Hoje eu agarrei o volante com força (sem reparar) e roguei a Deus que me impedisse de desejar o mal a certas pessoas. Eu tomei conhecimento de algo tão vil, tão baixo, tão ignóbil e asqueroso que perdi o controle. Respirei fundo e me vi rezando em meio aos buracos da via e o trânsito tranquilo de um início de dezembro para que Deus me desse forças para não desejar mal algum àquelas pessoas. Talvez eu me justificasse dizendo que elas merecem todo mal do mundo. Sou ninguém para dar esta sentença. Às vezes a gente precisa rezar para evitar de rezar depois de arrependimento. Roguei praguejando, precisa de força para respirar fundo e deixar pra lá. Nas horas seguintes pensei em algo que seria muito semelhante à vingança – mas, mamãe também ensinou que vingança não leva a nada (com essas palavras mesmo). Mais uma lição dada e cumprida. Tem coisas que a gente pode tentar pelos meios cabíveis, legais. Outras é só a distância que resolve.

Foi difícil. Por isso é tão importante ter princípios. Nessas horas eles são nosso esteio. É só se agarrar a eles e deixar a tempestade passar. Princípios a gente aprende em casa, nos livros, na vida – ou com mamãe, né.

Eles não são maioria

Atônitos diante da certeza nada nos faria acreditar. Eles ganharam. Eles passaram por cima da moral de não acreditar em manipulações, eles foram imorais em dar suporte para quem vidas nada valem. Eles apoiaram quem defende o indefensável. Não era uma questão de lados, era uma questão moral. Eles não a têm. Mas julgam os outros pelos seus crimes, detentores da sabedoria dos desígnios de Deus, julgam e condenam sem pestanejar. Sempre duvide de quem não pestaneja ao defender o que quer que seja. Eles saíram às ruas para comemorar. Afinal, tinham ganhado. Eles, porém, não são maioria.

Os que querem ver mais mortos nas ruas. Os que desprezam minha luta feminina. Os que desprezam meu corpo de mulher, pois só deve servir ao seus desejos. Os que desprezam o conhecimento que se produz com afinco e dificuldades mil dentro das universidades. Os que desprezam nossos países vizinhos. Os que batem continência para o maioral do continente. Os que levam crianças – crianças! – às ruas ensinando-as gestos violentos, mas dizem defender as famílias. Eles não são maioria. Os que gritam palavras de ordem. Os que defendem a ditadura. Os que oram como se Deus nos governasse. Os que querem que creiamos no deus deles. Os que se aproveitam vilmente da ignorância de quem pouco tem além da sua fé. Os que querem calar a voz da imprensa. Os que querem nos calar! Os onanistas com um revólver na mão. Os chefes a incitar o medo de quem depende da merreca que lhe paga. Os que alardearam que estávamos à beira do abismo, enquanto passeávamos no shopping fazendo compras e comendo fast food. Eles não são maioria. Os que dormiram mandatos inteiros nas confortáveis cadeiras da Assembléia.

Os estúpidos que não jogaram a favor, mas jogaram contra, com todas as acusações possíveis – mas sem nenhum argumento que os convencesse de verdade da sua escolha. Os que em situações limite preferiram ir para o mal maior. Eles não são maioria. Um fantoche despertou o lobo que havia em criaturas que estavam nas suas tocas e eles saíram a praticar suas violências. Mas, eles não são maioria. Os que vivem encastelados nos seus condomínios vigiados nada temem, os 63 mil mortos por ano não têm a sua cor da pele nem moram nos mesmos bairros que eles. E estes sempre riem à toa. Os que se beneficiaram com o que veio antes, mas não perdoaram ter sido traídos – também não abrem mão dos seus benefícios. Os que sempre tiveram tudo. Os viúvos e viúvas de outros traidores. Eles não são maioria.

Eles saíram das tocas. Nós nos unimos até aos ladrões para defender o país, eis a sabedoria de um povo que entende e preza a liberdade. Foi preciso muita coragem para defendê-la com unhas e dentes até os últimos minutos. Porque sabíamos o que nos unia, um valor inegociável, o bem mais precioso. Por ele nos unimos a quem estivesse disposto, também, a defendê-lo das garras de uma alcatéia ensandecida em busca de vingança, sangue, poder e com os olhos toldados por mentiras e declarações populistas. Eles, porém, não são maioria. Dizem de nós que somos ingênuos, têm pena de nós, nos trataram (a mim, especialmente, por ser mulher) como um ignorante ao qual precisavam explicar o que é fascismo, o que aconteceu no país na última década, etc.. Eu não preciso das suas explicações. Eles detém todo ódio de classe. Eles odeiam não só quem está preso, mas todos aqueles que ousaram não cair na sua falta de argumento. Eles querem nos intimidar. (eu estou fervorosamente de SACO CHEIO deles) Eles querem rir da nossa cara. Eles acham que são maioria e, numa lógica esquisita, devem ser os bons. Aliás, eles se acham muito bons – mas era dos outros que queriam uma autocrítica. Eles não são maioria.

Conforta-me sair de casa, ir ao supermercado, à academia, à universidade e olhar para os lados sabendo que eles não são maioria. Nunca serão. Cairão, um a um, feito patos abatidos pela sua própria munição. Nos olharão com súplica por ajuda no desespero que virá. Porque nós já conhecemos o monstro que eles alimentaram. Nós não hesitaremos a bradar quando nos livros de História quiserem alterar para “regime” o que totalitário foi. Nós não deixaremos de pensar. Nós não pagamos para ver – mas a conta chegará para todos. O “milagre” será feito, como das outras vezes. Mas a conta, desta vez, será muito alta e chegará mais cedo. Eles queriam o “desconhecido”, o “novo”. Porque preferiram ignorar o fantoche que discursava aos uivos. Eles não são maioria. Nós passamos por cima das diferenças, nos aliamos aos inimigos, perdoamos os pecadores e nos juntamos para combater o mal. Eles, agora, são os nossos verdadeiros inimigos porque preferiram correr um risco que nós abominamos. Eles são os nossos inimigos, que, no momento oportuno, quando as mazelas chegarem para todos, serão por nós acolhidos. Eles não são maioria.

Eles, agora mais do que nunca, querem que tenhamos medo. Eles, não esqueçam, não são maioria.

Banho de mar

Li que esses dias foi o dia internacional da felicidade. Não sei bem porque criaram um dia assim. No Hemisfério Norte pode ser relacionado (justamente) à Primavera! Não para nós, a nos contentarmos com o Outono. O fim do Verão deveria ser o dia da saudade, ou da tristeza, algo assim. Porque, simplesmente, no Verão é quando mais podemos tomar banhos de mar.

Não há discussão, banho de mar é a melhor coisa da vida. Eu sei, eu sei. Comer é bom, sexo é bom, amar é bom, ganhar dinheiro é bom, ser pai/mãe é bom, enfim, a lista é infinita. Tudo aquilo que a gente considera que é muito bom não supera o banho de mar. Ah, claro, eu sei, eu sei. Tem quem não gosta de banho de mar. Tem quem detesta banho de mar. Bem, nem todos gostam do que é bom. Tem gente até, dizem, que gosta de sofrer.

Banho de mar supera todo o resto. Você entra naquele mar lindo e limpo, mergulha, boia, nada, conversa, abraça, não vê o tempo passar, sonha, se encanta com a natureza toda em volta, ouve os sons das conversas, das ondas… o banho de mar não te dá nada em troca além do prazer (quiçá felicidade), não te exige nada, em excesso não traz malefícios. Não há contraindicações. Não engorda. Não engravida.

O Verão se despediu com sensação de cinquenta graus e deixou um Outono com temperaturas mais ou menos e céu nublado. Praias bem vazias (feliz de quem pode). Claro que não precisa só de solzão e janeiro para tomar banho de mar. Mas as condições favorecem. Quem sabe que é a melhor coisa da vida encara-o em qualquer tempo, mata a saudade mesmo sob água gelada.

Eu me despeço do Verão com uma imensa saudade e contando três Estações até o próximo (por isso fico tão feliz na Primavera, é a proximidade do Verão). Quem dera poder viver só de banho de mar: acordar e tomar banho de mar, almoçar e tomar banho de mar, jantar e tomar banho de mar, dormir e… todos os dias. Porque acredito que não há nada de mal em desejar só o melhor, certo?

Não desejo discussões nem preciso enumerar argumentos – é só experimentar. Banho de mar é a melhor coisa da vida, do mundo – e ponto. Quem não concorda é porque não sabe das coisas. Talvez um dia entenda. Ou, que tristeza, jamais entenderá.

Quando duas pessoas se encontram

É o que acontece quando duas pessoas se encontram. Acreditam que serão felizes para sempre – nenhuma será, algumas descobrirão isso logo, outras fingirão pelo resto da vida. Por vezes, ninguém consegue ser feliz. Quando duas pessoas se encontram se faz a fé. A fé, claro está, ninguém abandona porque quer. A culpa sempre será da instituição, ou da ausência de milagres quando esperamos por eles, ou, ainda, quando a devoção cai em desuso.

Entre essas duas pode haver tantas outras – antes, durante ou depois – que mantêm esta combinação sem fim entre as pessoas. São tantas no mundo, uma encontrar outra não é nada difícil. Acontece todos os dias, todas as horas. Não tem um algoritmo exato, cada um crê no que prefere. Nas promessas, quem sabe. No cansaço da procura, também. Nos defeitos que poderão ser superados (nunca serão). Uns apostam nas diferenças, outros nas semelhanças – há os que já apostaram num, depois no outro, sucessivamente. Quando duas pessoas se encontram sabe-se bem o que vai acontecer.

É a necessidade de construir uma vida juntos, jamais de viver cada manhã. O hoje, invariavelmente, é um degrau, mero tijolo, para sustentar anos e anos de presença lado a lado a comprovar e dizer na cara de todos: deu certo. Está dando certo. É definitivo. Nascemos um para o outro. Porque precisam de afirmações, o ser humano (só as crianças sabem) têm a empáfia de adquirir certezas e espalhá-las aos ventos. Não é ir dormir com a dúvida “será que sentirei a mesma coisa amanhã?” (ou mais, ou menos). Porque as pessoas não querem dúvidas, muito menos questionamentos. As pessoas não se perguntam, todos os dias, o que sentem pelo outro. Elas apenas reafirmam o que diziam nos dias anteriores – desde o primeiro dia.

Quando duas pessoas se encontram elas querem contar a todos. Espalhar que ali nasceu uma relação duradoura e fazer a todos nós testemunhas das suas certezas e dos seus bons sentimentos. Quando duas pessoas se encontram deveria ser só para elas – se olharem e saberem que foi naquele momento. Deveria ser cada dia e não para sempre. A projeção é sempre venenosa, castiga os dias, corrói a fé, mina a verdade. E a verdade é o amor. Não há amor que sobreviva a qualquer exigência. Quando duas pessoas se encontram elas deveriam se amar.

O amor, porém, não exige publicidade, nem demanda prazos, muito menos busca exatidão ou certeza, não é feito de amarras. O amor entre duas pessoas pode existir do nada (nem sempre o encontramos em teorias de diferenças ou semelhanças ou admiração ou sensação de segurança ou ou ou ou ou…) e esvair-se diante dos mais sólidos relacionamentos. É do amor ser assim… Todo o resto, as datas, as festas, as certezas, os jogos, as artimanhas, as respostas, tudo – absolutamente tudo – é coisa das pessoas. E as pessoas, vocês sabem, são habilidosas em criar mil sentidos e razões onde nada disso é necessário.

Quando duas pessoas se encontram, deixem-nas a sós. O amor não precisa de fiscais. Não há regulamento a ser seguido, ouçam o que eu digo. Deixem-nas, por favor. Retirem-se com seus planos, com suas esperanças e indiscrições veladas. Nunca se sabe quanto durará este amor, deixem que elas vivam-no com suas dúvidas e seus próprios erros. Quando duas pessoas se encontram, enfim, o mundo é só elas. Eis a única lei do amor.

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