Noches

Haga lo que haga

No dejo de pensar

Las noches van despacio

mientras vuelvo al pasado

Cruel fuiste, creo

que no se mata lo que ni había nacido

Son noches inolvidables

y me veo atrapada en decisiones

Hoy o mañana, no hace falta

he perdido la confianza

Son mis errores que me persiguen

No me puedo perdonarme

Ya antes del tiempo

había todo y una mirada

hace falta una palabra

y el remordimiento

Pero, no lo sé

quizá no tardará

O menino e o mar

Estava na praia e não fazia nada além de observar – faço-o por gosto, porque gosto de deixar o olhar e a mente soltos vendo os detalhes do mundo e porque, enfim, é um gesto dos meus pensamentos, diria que nem poderia controlá-los, caso quisesse. Observava o mar, suas ondas sedutoras e misteriosas, observava o sol e seu brilho sobre as ondas, observava lá longe a linha do horizonte. Gosto especialmente de observar as crianças à beira-mar, elas como que existem em outra realidade deste mundo quando veem areia e mar.

Observava distraída e atenta, os olhos viam e a alma registrava, mas eu vivia ali o instante. Foi quando um menino chamou minha atenção: menino nos gestos e na idade, mas aquele olhar era de um homem adulto. O olhar é essa janela, mas não são todas as almas dispostas a ler outras almas, é preciso um olhar atento, um interesse perscrutador para decifrar o que há num olhar. Gostei daquele olhar. Há coisas, talvez, que não caibam nas palavras.

Ele brincava com os meninos e meninas da sua idade, iam lá baldes carregados com dificuldade, cheios de água do mar, buracos cavados, castelos de areia milimetricamente planejados e executados. Quando vinha a onda e desmanchava-os, às vezes mesmo antes de terminados, havia indignação, estupefação, tristeza. E logo eles recomeçavam a batalha, o menino sempre mais determinado e metódico que os outros – eu reparava.

Do mar, o que posso dizer? Ele não desfaz nossos sonhos e castelos por maldade. Nele também não há como confiar. O mar é só mistério e incerteza. Para entendê-lo não precisa saber nadar, nem prender a respiração, nem pular onda ou identificar um redemoinho: só nos cabe vivê-lo. Já ouvi muitos conselhos, avisos e até as experiências alheias sobre o mar. De nada me serviram. Já aprendi a nadar de tudo quanto é jeito, sei usar bóias e pés de pato, sei ver as marés e o vento, até as águas-vivas consigo achá-las antes de entrar na água. Nada disso faz diferença. Cada vez que me vejo diante do mar é como se nunca houvesse estado ali – deve ser isso que mantém nossa relação tão profunda. E ele me atrai tanto pelo mesmo motivo. O mar é o desconhecido, é aprendê-lo todo novamente, a cada vez.

Por isso o olhar curioso daquele menino para o mar me deixou tão feliz. Ele parecia antever que ali havia muito a ser descoberto. Ele era inteligente também, pois tentava decifrar o que precisava para adentrar naquele mar que já era tão interessante, mesmo se sabendo tão pouco dele. Ficamos amigos, entre castelos de areia e ondas estouradas na praia. Ele flertava com o mar, chegava perto, se distanciava, interessava-se por outras coisas. Eu ficava ali, sempre tão fechada em mim, mas apaixonada pelo mar e volta e meia buscava sua companhia. Cada um no seu casulo e na sua teimosia. Mas o mar, o mar é invencível.

Essa amizade durou e o tempo foi passando, como bom amigo que sempre foi. Aquele menino sempre me olhava com seus olhos de adulto, e eu ria dos outros que não percebiam isso. Os outros estranhavam nossa amizade, pois não sabiam de nada daquilo que ninguém precisa saber porque as pessoas somente procuram o óbvio.

O dia na praia foi tombando o sol atrás dos morros e já quase noite o menino encarou o mar com vontade e com tudo o que aquele olhar me dizia. Eu quis ir junto, quis estar ombro a ombro com ele também naquele momento. Mas, como aquele personagem, que diante do mar, das ondinhas batendo nos seus pés, de toda uma nova vida diante de si, chora e desiste, o menino também desistiu. O menino me contou que entendia esse personagem, que se via nele. Eu não pude dizer-lhe que o medo é sempre mau amigo, por isso digo agora. O mar nos inflige medo, muito medo. Toda vez que o reencontro sinto medo e, bem, não sei explicar como o medo não me paralisa – talvez o truque seja não pensar. Porque o medo em si só existe na nossa cabeça, são os nossos pensamentos que se comem e destroçam e causam medo e dor. O medo se alimenta da dor.

O menino, então, não entrou no mar. Eu senti tanto e tanto que nem sei dizer. Às vezes, não sei o que fazer com meus sentimentos, prefiro levá-los para casa. O medo é aquele extremo que nos acovarda diante de qualquer coisa. Queria poder entendê-lo um pouco, pelo menos, para me desculpar de julgar o menino que não quis entrar no mar. Não consigo. Sempre direi que é preciso entrar no mar, sem antes nem depois. Sem experiência e sem saber, sem medo e sem planos, só entrar e vivê-lo. Segui para casa triste e fico aqui revirando momentos de um dia intenso como só a praia proporciona.

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