A espoliação dos relacionamentos

Talvez o ano tenha sido morno, cinematograficamente falando. E o que eu gosto da temporada de premiações é que voltamos a falar (e ter acesso, coisa ainda difícil nestes cantões do mundo) de bons filmes, ou filmes que chegaram a algum lugar. Em especial eu gosto muito da produção latino americana, esta que é tão descreditada e, lembremos sempre, da qual fazemos parte. O primeiro latino da temporada que assisti foi um paraguaio.

Las herederas (Marcelo Martinessi, 2018) te deixa em dúvida desde o começo – mas tudo desaparece (ou não) com o final. Te deixa em dúvida e confuso, afinal, quem são as herdeiras, o que elas têm, quais são as intermináveis dívidas, o que uma é para a outra. Nessa onda de mudanças no Cinema mundial, o filme praticamente não tem homens no elenco (e eles não fazem falta!). É um filme sobre mulheres? Não. Sobre o que é? Bem, eu diria que só no último terço do filme que emerge com força o que o filme quer dizer – até lá ele vai lentamente descortinando uma história que vive às escuras, numa casa decrépita, diante de patrimônio e sentimentos que são dilapidados cena a cena.

Ponto extra pra Direção – e aí sentimos a influência forte de uma Martel no Continente, aliás, foi dela um dos melhores filmes que vi no ano. A câmera não encara ninguém, nem nenhuma situação, de frente. Ela “espia”, ela observa, ela parece estar ali por acaso. É uma história tão “feia”, tão distante dos olhos da sociedade, que a câmera também vai contando-a pelas beiradas. São poucos os momentos que a câmera é direta sobre um personagem, e nunca sobre as protagonistas. Para isso são usados muitos espelhos, muitas portas entreabertas, muitas distâncias e bancos traseiros do carro. Sinto que isso é que faz toda a diferença no filme, pois se não fosse pela Direção a história seria outra – e o que é Direção senão exatamente isso, transformar histórias?

O tempo todo de transformação se passa lentamente e só vê quem tem bons olhos (os outros desistirão no meio do caminho). Poderia ser um filme sobre o amor – o amor esse, de todos. Mas, é um filme sobre relacionamentos abusivos. Aviso: você demora muito para perceber isso. (se for assistir depois de ler, não) Filme sobre relacionamentos abusivos no qual só há mulheres: a surpresa eu não vou estragar. Porém, tem que prestar atenção nos detalhes, no carro (um personagem), nos figurinos, na maquiagem, nos cigarros…

Se é um grande filme? Talvez. É um filme que fala universalmente, algo que o cinema latino americano sabe fazer tão bem, e nossas mazelas não são só nossas. É um filme corajoso, ou vil, quem sabe. Fiquei na dúvida, realmente, ao final. Porque ele fala de algo tão pessoal, tão íntimo, dando liberdade às mulheres ou condenando-as? Talvez um filme mais necessário do que o badalado Una mujer fantástica. E talvez o cinema paraguaio (assim como o argentino, o peruano, o chileno,…) sirva como lição para o brasileiro: não precisa de circo, palhaço, heróis para uma grande história de qualquer sentimento universal. Um dia, talvez, a gente aprenda.

Fica um gostinho: http://remezcla.com/lists/film/latin-american-movies-best-foreign-language-film-oscar-2019/

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115 anos de cinema brasileiro: na História ou distante dela?

 

O dia de hoje é comemorado por um fato curioso: a primeira filmagem realizada em terras brasileiras, por um italiano. Já dizia lá o Bernardet que significa muito o Brasil comemorar o dia do Cinema Brasileiro (“nacional” implicaria muitas coisas) justamente quando foi feita a primeira filmagem, não a primeira exibição. Até hoje isso prevalece: valoriza-se mais a produção, menos a exibição. O fato de o primeiro realizador ter sido um estrangeiro também é curiosa: o Brasil importou muitos profissionais de cinema durante muito tempo – pouco houve ao contrário. O cinema veio de fora, pelas mãos de estrangeiros. Por essas e outras que “nacional” implica muitas coisas, inclusive por quem é feito e para quem é feito.

 

Semana passada tive o prazer de participar de uma oficina com o Fábio Andrade, editor da revista Cinética. Fábio é uma pessoa acessível (coisa difícil na área), as idéias e concepções dele sobre crítica cinematográfica casam muito com as minhas e foi uma delícia gratificante as discussões. Entre tantas coisas, uma frase dele me chamou a atenção justo no dia que lembrei que hoje seria dia do cinema brasileiro. Vou a ela: “Hoje, com a internet, a gente consegue assistir a praticamente tudo. Menos cinema brasileiro, esse é quase impossível de assistir.” Para um crítico, é imprescindível assistir a muitos filmes, a tudo que passar nas telas (e estiver disponível para baixar). E Fábio levantou uma questão que eu já trouxe algumas vezes aqui: a dificuldade em conseguir assistir ao que se produz no país.

 

Casos recentes de curtas e longas, inclusive catarinenses, realizados com edital principalmente, que tiveram inúmeras exibições pelo país e até no exterior e aqui nada – tipo caviar, a gente só ouve falar. Tal filme (curta/longa) ganhou prêmio não-sei-onde e foi exibido X números de vezes lá e acolá, aquela chuva de elogios (?!) nas redes sociais e afins e… nada de passar no Brasil e, no caso específico, Santa Catarina. Por quê? Eu me perguntei isso várias vezes. Medo? Descaso?

 

Antecipando um ponto, volta a questão: filme realizado com financiamento público que evita o próprio público? E os filmes que são realizados com financiamento público e cobram ingresso? Pois é. Reclamam da quantidade de cópias que os cinemas exibem de blockbusters e afins – a maioria dos cineastas brasileiros reclama disso – mas todos sabem que ainda existe a má vontade do brasileiro sobre o próprio cinema. Eu mesma já cheguei no cinema e preferi assistir a um filme estrangeiro, quando tinha duas opções e um era brasileiro. Se não todos, a maioria de nós já fez isso – alguns sempre fazem. Não pretendo abordar todos os problemas do cinema brasileiro, seria pretensão demais.

 

Quando pensava sobre o dia de hoje, lembrei do posicionamento do Paulo Emílio, destacado no seu trabalho escrito e professado por quem o conheceu pessoalmente. Todo filme brasileiro merece ser visto, dizia ele, e um filme brasileiro nos diz mais do que todos os outros de fora – afirmações com pequenas variações. Ouvi isso na graduação de cinema, assim como ouvi aquela máxima (que hoje me parece a mais covarde e rançosa) de que no Brasil, independente de qualquer coisa, o que sempre predominou foi o “fazer” filmes. Digo covarde e rançosa porque a realização sobrepõe-se a tudo, inclusive à exibição (reproduzindo a idéia da “origem” do cinema por essas terras), desprezando, desta forma, o seu próprio público que em contrapartida também o despreza. Concordo com Paulo Emílio, todo filme brasileiro merece ser visto, e todo filme daqui me diz muito mais do que qualquer outro de fora. Não, não acho um posicionamento nacionalista, ufanista ou qualquer bobagem da qual os fãs de Said poderão me acusar. É uma questão de formação, de consciência. Nem que seja uma questão econômica, afinal, a esmagadora maioria dos filmes brasileiros é paga por nós. Eu sei, dói tirar dinheiro do bolso para comprar o ingresso de um filme brasileiro se eu, de alguma forma, já paguei por ele. Bem, resta garimpar as exibições gratuitas. Mesmo que em alguns casos sejam raras e dificultadas, veja lá um curta de Santa Catarina que depois de rodar o país foi exibido em Fpolis num dia 30 de dezembro. Pois é, parece que não querem mesmo que o público brasileiro – e, vejam só, não estou falando de público de festivais! – assista aos filmes daqui. O motivo? Pois é, quem nos responderá?

 

Na minha família sempre ouvi o preconceito com filmes brasileiros: só tem putaria e palavrão. Nem falavam da questão do áudio, outro preconceito bastante difundido. Lembro que o primeiro filme brasileiro que assisti no cinema foi o do Menino Maluquinho, com a escola. Aliás, antes de entrar na universidade, só havia assistido a quatro filmes no cinema. Um deles daqui. A quinta vez que tentei ir assistir a um filme brasileiro (“O Xangô de Baker Street”) com minha mãe e minha avó (num ato de ineditismo total) fui barrada porque não portava a identidade. Vejam só. É uma peripécia conseguir assistir aos filmes brasileiros. E os cineastas reclamam de número de cópias, verbas para lançamento e cotas nos cinemas!

 

Me apaixonei pelo cinema brasileiro aos poucos. Foi uma picada aqui, outra ali e de uma hora para a outra me descobri apaixonada. Me encantava ver aquele povo, aquela realidade, aqueles lugares tão conhecidos nas telas. Sou até bem bairrista, vide a alegria em descobrir o “Burguesa” ou o “Ditadura Reservada”. Sou nacionalista, pelo jeito, porque gosto de garimpar paisagens brasileiras (na vida real) nos cinemas (um dia tentarei escrever sobre isso de “cinema” e “cinemas” – teoria em formação), garimpar sotaques, realidades. Sou bem bairrista em me apaixonar pela Curitiba em “Estômago”. Levo um soco no estômago por assistir “Menino do 5”, gravado em Salvador, e ver um espaço que não conheço mas com uma realidade que transcende os limites dos mapas. Me apaixonei perdidamente pela câmera cheia de destreza e consciente de uma linguagem própria do Glauber Rocha. Me apaixonei pelos críticos, historiadores e cineastas que tanto escrevem sobre o nosso cinema. Sou tão bairrista que olho com desconfiança para um Padilha que fez sucesso aqui e foi lá pra fora dirigir Robocop.

 

Poderia escrever mais parágrafos elencando minhas paixões. Vocês sabem, paixões são meu forte. Porém, essa paixão é ofuscada por algumas questões. Eu queria ver o cinema brasileiro independente. Queria vê-lo desatrelado dos intermináveis editais e financiamentos. Eu queria vê-lo maior de idade. Queria vê-lo superar-se – e aqui me refiro ao modo de produção e à linguagem. Cinemas novos não acontecem do nada. Cinemas crescem superando-se a si mesmos. É preciso crescer e não estou falando nos números, pois não sou a ANCINE para ficar divulgando números para tentar dizer algo que me parece sempre vazio. É preciso superar essa idéia de que “O Som ao Redor” ter tido cerca de 200 mil espectadores é um resultado “louvável”, tendo em conta o orçamento e a “competição” com blockbusters ou ainda por ser um filme “cult”. Para que ele se supere eu sonho com duas coisas: que os profissionais do setor tenham caráter e sejam realmente profissionais e que os que não são assim não ensinem os estudantes dos cursos de cinema a serem como eles – aquela velha história, pegar dinheiro para abrir produtora, meios de burlar orçamentos e prestações de contas, como viver só às custas de dinheiro público. É um círculo vicioso. Não criam nada novo com as obras e mantém um sistema falido (bem, “falido” é relativo, porque tem muita gente ganhando dinheiro com isso). Queria ver Meirelles, Furtado, Murat, Barreto´s family, Babenco e todo esse povo sem correr atrás de editais. Queria ver milhões de espectadores seja para “Pernas pro Ar” tanto quanto para “O Som ao Redor”.

 

Minha paixão é ofuscada por ainda não ter conseguido assistir a “O Som ao Redor”. Por ser, como disse o Fábio, tão difícil assistir aos filmes brasileiros. Mas marquei de assistir a “Elena” neste sábado, gratuitamente, em Joinville, numa exibição organizada por um grupo ligado a uma faculdade. Pra quem não sabe, muitos festivais só aceitam filmes que não foram ainda divulgados, por exemplo, na internet. E os realizadores acatam isso, preferem mandar seus filmes para inúmeros festivais a simplesmente colocá-los à disposição do público em geral. Público de festival, todo mundo sabe, é restrito e restritivo. Resta a pergunta: quem faz isso então produz para qual público? Para o crítico de revista, “crítico” de jornal e bonequinho, cinéfilos e alunos de cinema? Interessa formar platéia ou não?

 

Mas, caramba, falar de cinema com essa multidão toda nas ruas?! Pois é. Pensei nisso também. Cadê os cineastas? Cadê os cineastas nas ruas? Os cineastas brasileiros já testemunharam levantes, greves, fizeram “o que a TV não fazia”, mostraram o que as pessoas não viam. E cadê os cineastas quando temos o maior número de pessoas nas ruas em toda a nossa História? Cadê cineastas se posicionando, apoiando ou sendo contra? Acompanho algumas discussões de grandes cineastas e críticos e não vi uma palavra sobre o assunto. “Ah, mas essas manifestações estão sendo gravadas por milhares de celulares.” E isso tira a posição do cineasta? Então aquela imagem linda do povo sobre o teto do congresso com as sombras refletindo nas abóbadas não pode ser significada e ressignificada pelo cinema? É isso mesmo, colegas? Por que a comunidade cinematográfica se acovarda diante desta multidão? Tem medo que o dinheiro do próximo edital não caia na sua conta? Então já tivemos cineastas melhores, porque eles burlavam deliciosamente isso. Ah, não sabia? Será que estudamos cinema brasileiro mais do que aquela uma ou duas disciplinas perdidas em quatro anos de curso?

 

Normalmente, os filmes brasileiros mais aplaudidos são os que esmiuçam a nossa realidade. Ou que a ironizam, como o “Saneamento Básico”. Pois é, falar em cinema hoje com ruas cheias de gente insatisfeitas com (quase) tudo. Mas cadê o cinema pra protagonizar isso? Mostramos a realidade (quais realidades?) e nessa h♦ora damos um fade out? Brasil fazendo História e o cinema não sai da sua redoma?

 

Eu apoiaria menos festivais (muitos só comem dinheiro público também). Apoiaria salas de cinema públicas (“como na França” dizem tanto por aí). Apoiaria exibição de curtas antes dos longas nos cinemas. Será que os produtores e diretores apoiam? Ou está bom assim? E volto a dizer: quero cinema brasileiro independente. Quero editais de fomento, incentivo, não de sustento. O cinema brasileiro dá lucro, vamos superar esse mito e sair da zona de conforto.

 

 

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