115 anos de cinema brasileiro: na História ou distante dela?

 

O dia de hoje é comemorado por um fato curioso: a primeira filmagem realizada em terras brasileiras, por um italiano. Já dizia lá o Bernardet que significa muito o Brasil comemorar o dia do Cinema Brasileiro (“nacional” implicaria muitas coisas) justamente quando foi feita a primeira filmagem, não a primeira exibição. Até hoje isso prevalece: valoriza-se mais a produção, menos a exibição. O fato de o primeiro realizador ter sido um estrangeiro também é curiosa: o Brasil importou muitos profissionais de cinema durante muito tempo – pouco houve ao contrário. O cinema veio de fora, pelas mãos de estrangeiros. Por essas e outras que “nacional” implica muitas coisas, inclusive por quem é feito e para quem é feito.

 

Semana passada tive o prazer de participar de uma oficina com o Fábio Andrade, editor da revista Cinética. Fábio é uma pessoa acessível (coisa difícil na área), as idéias e concepções dele sobre crítica cinematográfica casam muito com as minhas e foi uma delícia gratificante as discussões. Entre tantas coisas, uma frase dele me chamou a atenção justo no dia que lembrei que hoje seria dia do cinema brasileiro. Vou a ela: “Hoje, com a internet, a gente consegue assistir a praticamente tudo. Menos cinema brasileiro, esse é quase impossível de assistir.” Para um crítico, é imprescindível assistir a muitos filmes, a tudo que passar nas telas (e estiver disponível para baixar). E Fábio levantou uma questão que eu já trouxe algumas vezes aqui: a dificuldade em conseguir assistir ao que se produz no país.

 

Casos recentes de curtas e longas, inclusive catarinenses, realizados com edital principalmente, que tiveram inúmeras exibições pelo país e até no exterior e aqui nada – tipo caviar, a gente só ouve falar. Tal filme (curta/longa) ganhou prêmio não-sei-onde e foi exibido X números de vezes lá e acolá, aquela chuva de elogios (?!) nas redes sociais e afins e… nada de passar no Brasil e, no caso específico, Santa Catarina. Por quê? Eu me perguntei isso várias vezes. Medo? Descaso?

 

Antecipando um ponto, volta a questão: filme realizado com financiamento público que evita o próprio público? E os filmes que são realizados com financiamento público e cobram ingresso? Pois é. Reclamam da quantidade de cópias que os cinemas exibem de blockbusters e afins – a maioria dos cineastas brasileiros reclama disso – mas todos sabem que ainda existe a má vontade do brasileiro sobre o próprio cinema. Eu mesma já cheguei no cinema e preferi assistir a um filme estrangeiro, quando tinha duas opções e um era brasileiro. Se não todos, a maioria de nós já fez isso – alguns sempre fazem. Não pretendo abordar todos os problemas do cinema brasileiro, seria pretensão demais.

 

Quando pensava sobre o dia de hoje, lembrei do posicionamento do Paulo Emílio, destacado no seu trabalho escrito e professado por quem o conheceu pessoalmente. Todo filme brasileiro merece ser visto, dizia ele, e um filme brasileiro nos diz mais do que todos os outros de fora – afirmações com pequenas variações. Ouvi isso na graduação de cinema, assim como ouvi aquela máxima (que hoje me parece a mais covarde e rançosa) de que no Brasil, independente de qualquer coisa, o que sempre predominou foi o “fazer” filmes. Digo covarde e rançosa porque a realização sobrepõe-se a tudo, inclusive à exibição (reproduzindo a idéia da “origem” do cinema por essas terras), desprezando, desta forma, o seu próprio público que em contrapartida também o despreza. Concordo com Paulo Emílio, todo filme brasileiro merece ser visto, e todo filme daqui me diz muito mais do que qualquer outro de fora. Não, não acho um posicionamento nacionalista, ufanista ou qualquer bobagem da qual os fãs de Said poderão me acusar. É uma questão de formação, de consciência. Nem que seja uma questão econômica, afinal, a esmagadora maioria dos filmes brasileiros é paga por nós. Eu sei, dói tirar dinheiro do bolso para comprar o ingresso de um filme brasileiro se eu, de alguma forma, já paguei por ele. Bem, resta garimpar as exibições gratuitas. Mesmo que em alguns casos sejam raras e dificultadas, veja lá um curta de Santa Catarina que depois de rodar o país foi exibido em Fpolis num dia 30 de dezembro. Pois é, parece que não querem mesmo que o público brasileiro – e, vejam só, não estou falando de público de festivais! – assista aos filmes daqui. O motivo? Pois é, quem nos responderá?

 

Na minha família sempre ouvi o preconceito com filmes brasileiros: só tem putaria e palavrão. Nem falavam da questão do áudio, outro preconceito bastante difundido. Lembro que o primeiro filme brasileiro que assisti no cinema foi o do Menino Maluquinho, com a escola. Aliás, antes de entrar na universidade, só havia assistido a quatro filmes no cinema. Um deles daqui. A quinta vez que tentei ir assistir a um filme brasileiro (“O Xangô de Baker Street”) com minha mãe e minha avó (num ato de ineditismo total) fui barrada porque não portava a identidade. Vejam só. É uma peripécia conseguir assistir aos filmes brasileiros. E os cineastas reclamam de número de cópias, verbas para lançamento e cotas nos cinemas!

 

Me apaixonei pelo cinema brasileiro aos poucos. Foi uma picada aqui, outra ali e de uma hora para a outra me descobri apaixonada. Me encantava ver aquele povo, aquela realidade, aqueles lugares tão conhecidos nas telas. Sou até bem bairrista, vide a alegria em descobrir o “Burguesa” ou o “Ditadura Reservada”. Sou nacionalista, pelo jeito, porque gosto de garimpar paisagens brasileiras (na vida real) nos cinemas (um dia tentarei escrever sobre isso de “cinema” e “cinemas” – teoria em formação), garimpar sotaques, realidades. Sou bem bairrista em me apaixonar pela Curitiba em “Estômago”. Levo um soco no estômago por assistir “Menino do 5”, gravado em Salvador, e ver um espaço que não conheço mas com uma realidade que transcende os limites dos mapas. Me apaixonei perdidamente pela câmera cheia de destreza e consciente de uma linguagem própria do Glauber Rocha. Me apaixonei pelos críticos, historiadores e cineastas que tanto escrevem sobre o nosso cinema. Sou tão bairrista que olho com desconfiança para um Padilha que fez sucesso aqui e foi lá pra fora dirigir Robocop.

 

Poderia escrever mais parágrafos elencando minhas paixões. Vocês sabem, paixões são meu forte. Porém, essa paixão é ofuscada por algumas questões. Eu queria ver o cinema brasileiro independente. Queria vê-lo desatrelado dos intermináveis editais e financiamentos. Eu queria vê-lo maior de idade. Queria vê-lo superar-se – e aqui me refiro ao modo de produção e à linguagem. Cinemas novos não acontecem do nada. Cinemas crescem superando-se a si mesmos. É preciso crescer e não estou falando nos números, pois não sou a ANCINE para ficar divulgando números para tentar dizer algo que me parece sempre vazio. É preciso superar essa idéia de que “O Som ao Redor” ter tido cerca de 200 mil espectadores é um resultado “louvável”, tendo em conta o orçamento e a “competição” com blockbusters ou ainda por ser um filme “cult”. Para que ele se supere eu sonho com duas coisas: que os profissionais do setor tenham caráter e sejam realmente profissionais e que os que não são assim não ensinem os estudantes dos cursos de cinema a serem como eles – aquela velha história, pegar dinheiro para abrir produtora, meios de burlar orçamentos e prestações de contas, como viver só às custas de dinheiro público. É um círculo vicioso. Não criam nada novo com as obras e mantém um sistema falido (bem, “falido” é relativo, porque tem muita gente ganhando dinheiro com isso). Queria ver Meirelles, Furtado, Murat, Barreto´s family, Babenco e todo esse povo sem correr atrás de editais. Queria ver milhões de espectadores seja para “Pernas pro Ar” tanto quanto para “O Som ao Redor”.

 

Minha paixão é ofuscada por ainda não ter conseguido assistir a “O Som ao Redor”. Por ser, como disse o Fábio, tão difícil assistir aos filmes brasileiros. Mas marquei de assistir a “Elena” neste sábado, gratuitamente, em Joinville, numa exibição organizada por um grupo ligado a uma faculdade. Pra quem não sabe, muitos festivais só aceitam filmes que não foram ainda divulgados, por exemplo, na internet. E os realizadores acatam isso, preferem mandar seus filmes para inúmeros festivais a simplesmente colocá-los à disposição do público em geral. Público de festival, todo mundo sabe, é restrito e restritivo. Resta a pergunta: quem faz isso então produz para qual público? Para o crítico de revista, “crítico” de jornal e bonequinho, cinéfilos e alunos de cinema? Interessa formar platéia ou não?

 

Mas, caramba, falar de cinema com essa multidão toda nas ruas?! Pois é. Pensei nisso também. Cadê os cineastas? Cadê os cineastas nas ruas? Os cineastas brasileiros já testemunharam levantes, greves, fizeram “o que a TV não fazia”, mostraram o que as pessoas não viam. E cadê os cineastas quando temos o maior número de pessoas nas ruas em toda a nossa História? Cadê cineastas se posicionando, apoiando ou sendo contra? Acompanho algumas discussões de grandes cineastas e críticos e não vi uma palavra sobre o assunto. “Ah, mas essas manifestações estão sendo gravadas por milhares de celulares.” E isso tira a posição do cineasta? Então aquela imagem linda do povo sobre o teto do congresso com as sombras refletindo nas abóbadas não pode ser significada e ressignificada pelo cinema? É isso mesmo, colegas? Por que a comunidade cinematográfica se acovarda diante desta multidão? Tem medo que o dinheiro do próximo edital não caia na sua conta? Então já tivemos cineastas melhores, porque eles burlavam deliciosamente isso. Ah, não sabia? Será que estudamos cinema brasileiro mais do que aquela uma ou duas disciplinas perdidas em quatro anos de curso?

 

Normalmente, os filmes brasileiros mais aplaudidos são os que esmiuçam a nossa realidade. Ou que a ironizam, como o “Saneamento Básico”. Pois é, falar em cinema hoje com ruas cheias de gente insatisfeitas com (quase) tudo. Mas cadê o cinema pra protagonizar isso? Mostramos a realidade (quais realidades?) e nessa h♦ora damos um fade out? Brasil fazendo História e o cinema não sai da sua redoma?

 

Eu apoiaria menos festivais (muitos só comem dinheiro público também). Apoiaria salas de cinema públicas (“como na França” dizem tanto por aí). Apoiaria exibição de curtas antes dos longas nos cinemas. Será que os produtores e diretores apoiam? Ou está bom assim? E volto a dizer: quero cinema brasileiro independente. Quero editais de fomento, incentivo, não de sustento. O cinema brasileiro dá lucro, vamos superar esse mito e sair da zona de conforto.

 

 

Ditadura Reservada, mais uma boa surpresa audiovisual joinvilense

Já escrevi aqui sobre o Catavídeo, se não estou enganada, ano passado. Até então eu nunca tinha ido ao evento. Sou anti-social e anti-eventos (sejam eles acadêmicos ou mostras, exibições, etc.). Não adianta, tenho que fazer um esforço sobrenatural para ir a essas coisas. E normalmente me dou muito mal num ambiente desses. Além do mais, me deixar presa numa sala por muito tempo sempre foi e talvez sempre será algo que me deixa feito bicho enjaulado. Por agora, então, anda bem complicado.

Porém (ah! porém!), a amiga convidou e eu topei (tenho dessas de topar tudo, e nem é por dinheiro!).

Lá fomos nós a um dia do Catavídeo deste ano. Ele ainda não terminou, mas resolvemos ir terça-feira. Saio correndo da praia no meio da tarde (a praia estava, em vários sentidos, uma delícia – tão mais fácil me deixar num lugar a céu aberto!) e em uma hora chego na Fundação BADESC.

O que havia me chamado a atenção na programação do dia era um vídeo joinvilense. Fiquei curiosa, é claro. Não sei porque, mas me bate um orgulho chinfrim quando vejo Joinville produzindo audiovisual. Meu pé atrás: era sobre a ditadura.

Sinceramente, acho que esse papo de ditadura já deu o que tinha que dar. E penso que é tão desagradável hoje falar em ditadura ao tentar mostrar que não foi tudo ruim. Eu não quero que meus filhos (pobrezinhos, acredito que ainda ouvirão os saudosistas da ditadura!) fiquem nessa ladainha batida do terror da ditadura. Mas, enfim, se o presente anda nessa, com o atual mundinho lindão do governo PT e afins, acho que o futuro não será lá grandes coisas. Ninguém nega que aconteceram coisas horríveis, atrocidades, o que poucos tentam é ter um olhar um pouco além, é questionar.

Esses dias ainda meu pai estava serrando uma madeira e me contou que na época dele na escola tinha aula de marcenaria e tantas outras. Coisas que eu não tive na escola. Ah, escola pública nas décadas de 1960 e 1970. Mas, voltemos…

O título era Ditadura Reservada – achei difícil, antes e mesmo depois de assistí-lo, entender o título. Ficamos surpresas quando o rapaz apresentou-o como um longa. Eu pensava que só passavam curtas.

A obra tem cerca de uma hora e meia, se não estou enganada. E aí já começa a crítica. Apesar do tempo, bastante para um documentário, ele não cansa, não entedia. Porém, há uma repetição em algumas falas que seriam dispensáveis. Como há várias falas em momentos diferentes com os personagens (idosos) é natural que eles repitam histórias e fatos, e aí a edição precisa dar aquela lapidada. Senti falta de uma presença mais veemente da edição em conseguir coordenar o bom roteiro apresentado. Contudo, a questão da memória ficou bem mais evidente por este motivo – não sei se foi intenção do diretor. Um determinado personagem numa fala diz que ficou trinta dias preso, na outra diz que foram dez dias. Como foram várias prisões em circunstâncias específicas e com todo um contexto nebuloso, é eminente que estes dados ficarão obscuros na fala do depoente.

O documentário trata de apresentar alguns presos políticos joinvilenses do período militar. Há um casal (sou péssima com nomes!) que protagoniza o roteiro, porém os depoimentos mais enfáticos e emocionantes são dos coadjuvantes. E aqui, partindo de um comentário da amiga que assistia comigo, surge uma coisa curiosa sobre o vídeo.

Ela disse que ficou confusa, que não conseguia dizer o que o diretor quis com o documentário. Eu achei divertido o comentário. Sei lá, devo gostar de “obras em aberto” demais pra não me deixar incomodar com isso. Aí fiquei pensando em algo que um professor sempre comenta sobre obras audiovisuais, quando elas apresentam um problema, mas não apresentam uma solução. Nunca comentei com ele, mas sempre me perguntei: e precisam? Uma obra audiovisual precisa dar uma resposta para o problema que apresenta? Era da opinião que não. Mas, assistindo uma coisa aqui, outra ali, comecei a delinear que talvez, em alguns casos, isso realmente falte. Não sei se foi assistindo 7 Dias em Havana ou Tropicália, sei que foi tanto com ficção quanto com documentário.

E a questão aqui é, Ditadura Reservada precisa dizer a que veio? Precisa posicionar-se contra ou a favor de algo? Seria só mais um documentário sobre presos políticos, ou comunistas, de um período tão famoso e exaustivamente levado às telas se não houvesse um depoimento fundamental ali no meio. Nelson Bender, prefeito da cidade na época da ditadura, conta como o período foi decisivo para a cidade, como a visita dos presidentes foram bem vistas pela população, como ele era amigo íntimo do Geisel (Ou seria do Costa e Silva? Agora não recordo). (Já esqueceram da última eleição para prefeito? Bender teve um papel fortíssimo, assim como as acusações de “nazista” ao Udo.)  Ele reitera o discurso de que os “comunistas” queriam tomar o poder para ter a ditadura sob o jugo deles – este discurso é bem conhecido e repetido infinitas vezes, daí a julgar se é ou não verdade ficamos somente no “se”. O que se sabe é o que o comunismo fez (e faz) em alguns países. Coloquei comunistas ali entre aspas porque a impressão que fica é que era um comunismo de bar.

Aqui terei que ser um pouco cruel, mas me amparo nos depoimentos. Ao falar dos encontros do grupo, eles dizem que se encontravam em casamentos e batismos. Mais para o final há a questão do batizado de uma filha do casal protagonista, o qual eles faziam questão. A mulher deste casal saiu de um convento quando o conheceu. Meu pouco conhecimento do comunismo me fez estranhar e muito esta ligação com a igreja católica (apesar da forte presença luterana na cidade por questões óbvias). Além disso, Júlio Serpa diz com todas as letras que o que eles fizeram na época foi muito pouco – provavelmente tão pouco que não fez diferença. Minha amiga comentou que os comunistas pareciam os caras que ficavam em casa lendo. Há reiteradas falas sobre esconder livros do partido, da vida de Lênin, das buscas que encontravam estes livros.

O sentimento que fica é de que aquelas pessoas sofreram, mas o motivo parece pouco construído. Falam em reuniões, em distribuir panfletos, em arrebanhar pessoas, mas o que eles faziam além disso não fica claro. Sei que pode ser um modo de proteção ou a questão do trauma, mas mesmo assim fica difícil desenhar a luta deles para criar a empatia.

Em vários momentos, também, eles relembram soldados que os tratavam bem, que “vinham conversar com a gente”. Em um determinado momento sai um “parecia que eles nem queriam estar ali”. Esse tipo de depoimento gera controvérsias sem fim para o pessoal da História! Ao mesmo tempo a senhora protagonista diz “Me jogou pra fora da sala, tratou pior do que a um cachorro. Quer dizer, a gente nem trata um animal assim.” (não exatamente com essas palavras, claro). Colocações assim me lembram o começo do documentário, num colégio eleitoral (eu nunca sei o nome, só sei que é ali perto de casa e onde minha irmã vota) no dia da votação a presidente em 2010. Algumas pessoas são entrevistadas sobre se lembram da ditadura, se era bom ou ruim. Uma senhora pergunta “quando foi isso?”. Outro senhor rasga elogios ao período. Um fala da questão da liberdade. Ali está dado o argumento do documentário: teve quem gostou, teve quem sofreu e teve quem nem sabia o que estava acontecendo. Qual era maioria em Joinville? Só sei que fiquei me remoendo por nunca ter tido a oportunidade de perguntar sobre essas coisas para o meu avô. Hoje ele teria alguns anos a mais que o Bender e sempre foi bastante politizado. Coisas da vida que deixam a gente assim, sem chance.

Eu acredito que a controvérsia sobre o período é que destaca-se no vídeo. Por isso essa confusão nas pessoas. E, também, por isso que cada um vai conseguir identificar o seu posicionamento nele. Quem tem a visão predominante de que foi tudo ruim e muita gente sofreu vai se amparar nos extensivos depoimentos sobre as prisões e perseguições. Quem tem seu pé atrás com a verdade do comunismo e dos seus seguidores, vai se amparar nas contradições e no Bender. Quem não tem posicionamento vai ficar intrigado e bastante confuso. Sinceramente? Acredito que este é o grande trunfo!

Não vejo o longa como um claro posicionamento diante do que apresenta. E isso pode ser muito bom num audiovisual.

Devo fazer um elogio à fotografia que dá fôlego ao formato. Sei que fazer documentário com tantas entrevistas é difícil, pois enquadramentos, espaços limitados, personagens-diretores são elementos que não estão o tempo todo sob o comando do diretor. Gostei particularmente dos momentos em que a fala está cortada no áudio e vemos a equipe pra lá e pra cá, um personagem mostrando algo. Se fossem só os depoimentos teria pesado negativamente no tempo. A câmera, apesar disso, é titubeante em alguns momentos como, por exemplo, a senhora conta que estava no canal 12 falando do marido desaparecido e que estava com muita luz “como essas duas agora aqui” e aponta para os refletores fora de quadro. E aí a câmera abre o quadro para tentar mostrá-los, mas eles acabam não aparecendo. Apesar de ser uma titubeada, é o tipo de coisa que eu adoro em documentários. Essas quebras, essas imperfeições atraem muito mais a obra à realidade do fazer audiovisual. Em alguns momentos, prejudica a fala externa ao quadro, do mediador, para completar o que o personagem quer dizer. Em compensação, o áudio é de uma qualidade admirável. Estes detalhes deixam perceber que o domínio da técnica é muito bom na equipe.

Não sei quais foram as condições da realização do vídeo, mas confesso que fiquei naquela animação por ver Joinville fazendo audiovisual com uma alegria extra por ver uma obra com tantas coisas boas e que mesmo no que poderia ser apontado como erro conseguiu desenvolver questões que eu considero importantíssimas.

Queria ainda ressaltar que o depoimento da Rosemerie Bittencourt (acho que é esse o nome) foi, de longe, o mais enfático, emocionante e emblemático para mim. Ela representou a dor, a consciência. Com a curta fala dela eu poderia facilmente entrar na linha dos que consideram o período da ditadura tudo de ruim. E foi o que mais me deixou intrigada porque foi pouco explorado, ela só diz que era assistente social e um dia ao chegar no trabalho foi presa. Não há relato dela presente nas tais reuniões do partido que reúne os outros.

Espero poder continuar a assistir coisas boas assim feitas em Joinville. Espero que o público joinvilense assista. Querendo ou não, em todo o tempo que morei na cidade nunca ouvi histórias sobre a ditadura, a impressão sempre foi que por ali mal tinha tido alguma diferença. Por isso comentei que sinto não ter interpelado meus avós. Onde está esta história da cidade? Onde estão tantas outras histórias e personagens da cidade? Não acredito tanto no mundo acadêmico para vasculhar isto quanto acredito no audiovisual.

(Na sessão seguinte assisti mais dois vídeos da região e alguns outros. Porém, o sofrimento audiovisual foi tão grande que não quero contaminar este post com isso. Fica para o próximo.)

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