A liquidez do hype

A sensação boa que eu tive ao assistir à And Just Like That. Poderia ser só um revival para as saudosas dos anos 1990 de uma televisão que foi sacudida por Sex and The City. Friends ficava no chinelo e sabemos disso. Talvez sejamos saudosas até da televisão diante de inúmeros streamings que querem nos oferecer o mundo e que não nos entregam nada – Adorno sorri com satisfação de onde quer que ele esteja. Mas, hoje não escreverei uma crítica à And Just Like That.

No primeiro capítulo somos informadas que Carrie agora não tem mais sua coluna (texto escrito) e participa de um podcast. A forma irônica como isso é colocado no texto (sim, é uma série, que tem sua origem no texto – e o meu texto de hoje é sobre isso) dá o tom da nova série. Nos anos 2020 é preciso se “adaptar” à fluidez do público, que já não lê mais, que consome o que é hype – aqui também estou sendo irônica, pois é só substituir por moda ou tendência.

O próprio podcast não é nenhuma novidade, pois o rádio e seus programas existem há mais de século. Mas, a contemporaneidade gosta disso, de reciclar algo velho, rebatizá-lo com um nome que vira tendência e voilà, logo estará bombando. Diriam alguns entendidos que são exemplos dos tempos líquidos que vivemos, essa liquidez que não nos prende à nada nem a ninguém e que nos faz robotizados diante de telas que replicam o que devemos assistir, do que devemos gostar, onde devemos ir, o que devemos praticar. É como aquele cara que cita Bauman e seu tempo líquido no perfil do Tinder, negando que queira relacionamentos líquidos… no Tinder, amigo? Ok, talvez devamos discutir coerência antes dos tais tempos líquidos.

Vejam como funciona, eu nunca li Bauman e acabo de escrever um parágrafo inteiro citando-o: eis o poder do hype e do vazio dos tempos atuais. Qualquer um pode falar sobre qualquer coisa e passar isso adiante. Não é difícil compreender o tanto de estupidez que essa “produção de conteúdo” gera. É muita publicação pra pouco conteúdo, é muita replicação de opinião sem base nem conhecimento, é muita gente – mas muita mesmo – querendo fama e sucesso sem ter o que oferecer. 

Quando vi Carrie se “adaptando” e trocando as letras escritas no papel/tela pelo podcast uma onda de reflexão me tomou neste janeiro ensolarado e ainda pandêmico. Tenho este site, originariamente um blog, há muitos anos e sempre publiquei textos escritos. São raros os posts que têm imagens, apesarde eu ser também fotógrafa. Pensei há quanto tempo temos desprezado o texto escrito, lembrando de anos atrás quando entrava num link de uma notícia e não era mais escrita, era um áudio ou um vídeo. Estamos emburrecendo? Óbvio. Ler dá trabalho e a multidão de analfabetos funcionais e digitais é gigante. Mas não é só sobre isso.

A maior tendência é de “adaptar-se” ao simplificar as coisas. Por isso eu não busco algo que dá trabalho e fico inerte diante de uma live qualquer. Tudo muito líquido, superficial e passageiro. Carrie, com seu talento e sua carreira, teve que adaptar-se a falar de bobagens num podcast, que os ouvintes mal prestarão atenção por alguns minutos enquanto fazem sua corrida do dia ou lavam a louça e esquecerão em ainda menos tempo. Porém, é a isso que hoje em dia chamam de “produção de conteúdo”. 

Eu sempre fui rígida com relação à escrita, comigo mesma e enquanto professora. Tudo passa pelo domínio do seu próprio idioma. Se você não domina o seu idioma, você é um fracasso. Além disso, além do desprezo atual que virou hype pelo texto escrito, eu me peguei pensando que o texto escrito é a origem de quase todo conteúdo que produzimos. Esses produtores de conteúdo de internet que não redigem um bom texto antes de dar o rec ou play nas suas publicações já são nada. Um podcast sem texto prévio? Uma live sem roteiro (texto)? Um post de Instagram sem texto/roteiro? Pior ainda é quando o texto é só réplica de outros conteúdos já produzidos – aqueles que somente repetem conteúdo lido de um livro ou de sites, por exemplo! Ou, pior ainda, que repetem o que outros já disseram em outros meios. Isso é até crime, né.

A “produção de conteúdo” que não tem origem no texto é irrelevante. Conseguimos imaginar uma série ou um filme, por exemplo, que não tenham origem no texto escrito? Mesmo filmes como Don’t look up, que é pior que ruim e virou a moda de dezembro passado, com inúmeras publicações em todas as redes – até aqueles que não publicam nada sobre cinema, publicaram sobre este filme – teve origem num texto escrito. 

Neste Verão além de acompanhar a nova série da Carrie, peguei um Hemingway para ler, o famoso Por quem os sinos dobram? (numa tradução de 1942, feita pelo Monteiro Lobato). Hemingway dispensa apresentações como todo clássico e digo que demorei para começar minha relação com ele – sofro do famoso temor respeitoso aos clássicos. E desde a primeira leitura entendi porque ele produziu clássicos e, enquanto pessoa, também é admirável. Foi um homem que viveu de verdade, coisa rara hoje em dia, com a coragem que a vida exige para ser encarada de frente. Li em outro Verão o As Ilhas da Corrente e me apaixonei. Num momento me dei conta que estava, deitada na rede, há dez páginas lendo a cena de uma pescaria. Ele sabe como escrever muito bem e as cenas relacionadas com elementos da natureza são mesmerizantes. Além dos livros há as adaptações para o cinema que são produções incríveis.

Por quem os sinos dobram? tem cerca de quatrocentas páginas. Num mundo no qual Carries são rebaixadas a fazer podcasts descartáveis, quem lê quatrocentas páginas de um homem que escreveu em outro século sobre a guerra na Espanha? Como desprender-se dos hypes e escolher fazer o que se quer? Não, não é arrogância e intelectualidade ou erudição. O problema é outro. O mais relevante e saudável de And Just Like That é a crítica ácida ao seu tempo, em apontar essas incoerências e em como o tempo passa e nós envelhecemos, é certo, mas não precisamos tornarmo-nos ridículas por isso.

Voltava caminhando da praia esses dias e brincava de imaginar o que seria de Hemingway se ele vivesse nos anos 2020. Jamais faria sucesso, coitado. Sendo homem, já de partida sua vida seria complicada, visto que não queremos mais saber de homens dominando o cenário (mentira, eles ainda dominam e têm todo o poder e apoio de homens e mulheres para isso, mesmo quando sabemos que são escrotos e uns merdas – mas é coisa bem de 2020s e da liquidez sermos hipócritas e superficiais nos discursos e práticas). Ninguém nem publicaria seus romances de quatrocentas páginas com alusões ao comunismo e condenações ao fascismo. Porque, é claro, não teria público para lê-los e ele sofreria pressões para não tocar “nessas questões políticas”. Seria mais rentável um romance de até cento e oitenta páginas sobre pessoas com problemas nos seus relacionamentos porque não suportam a pressão de viver numa sociedade… líquida. Pobre coitado do Hemingway se tivesse, como Carrie, que se “adaptar”.

Só segue os hypes quem não tem personalidade e vive o medo da não aceitação dessa sociedade que vive de cliques, seguidores e likes. Não vivem por si, vivem pelos outros e o tempo todo somos cercados pela “adaptação”. Adapte-se ou morra (virtualmente).

Morte digna, eu diria. Hemingway nem teria nascido nesta virtualidade, ou, quem sabe, se fosse das últimas gerações escreveria incríveis histórias em menos de trezentos caracteres – sobre as experiências de vida com suas amizades virtuais, esqueçam as guerras e viagens e boemia. Quem sabe se assim seria o Hemingway do século XXI? 

Morrer virtualmente é glorioso, pois o tanto que há de cadáveres não enterrados nas redes é incalculável. É tanta, mas tanta, gente querendo público, querendo seguidores, likes, cliques e tal que é virtualmente impossível atender à demanda (estou muito irônica hoje).

Eu não ouço podcasts. Não vejo necessidade alguma de ouvi-los e, se o fizesse, seria com total desatenção. Não publico interações da minha vida pessoal porque, enfim, eu sei o significado do termo pessoal (e, poxa, depois da Arendt alguém ainda tem dúvidas sobre esfera pública e privada?). Nunca entendi a tara das pessoas por saber da vida de pessoas famosas, imagine querer saber da vida de gente comum? (é que esses comuns querem ser famosos porque ser famoso significa… dinheiro? auto aceitação?) Hemingway era famoso. Já faz tempo que fomos vaticinados com os quinze minutos de fama, né? Lembrei daquelas crianças que eram meus alunos e que sonhavam em ser youtubers. É preciso adaptar-se, é claro. (ainda bem que ironia é de graça, senão hoje a conta seria alta)

Ou não. Ou você tem personalidade o suficiente para ter a vida que quiser, de acordo com os seus gostos e práticas, com a coragem necessária para que seus atos sejam coerentes com seu discurso. O hype é só hype e daqui duas horas já terá deixado de sê-lo. Até a Moda já entendeu isso e alterou suas práticas e padrões. Hemingway escrevia com papel e caneta e na máquina de escrever, Carrie escrevia no computador, nada de fato mudou, a palavra mantém sua força e a tecnologia também passa, talvez tão rápido quanto qualquer hype. O ser humano é que não se adapta ao que deveria e vive a superficialidade das relações mediadas, da covardia, da falta de personalidade e, desconfio, da falta de talento. Para produzir algo relevante e de qualidade é necessário ter conhecimento, aprofundar estudos, ter talento, espírito criativo – não cai do céu nem nascemos com, precisa dedicação, esforço, trabalho, empenho e muito mais. Nem todo mundo os tem – e querer “produzir conteúdo” sem ter nada ou quase nada disso e sem ter, de fato, algo a dizer é ser mais um cadáver não enterrado na esfera pública digital. Daí o que vemos é o hype camuflando a incompetência, o fracasso travestido de números, a imitação e a cópia (mortais e que merecem uma reflexão só sobre elas). 

Assim que fica viúva, Carrie volta a escrever um livro, já no segundo capítulo. É a resposta que nós, público da televisão dos anos 1990, precisávamos. A liquidez tem em si seu próprio inimigo: ela mesma passa. Nós permanecemos. O tempo sempre teve todas as respostas, Hemingway que o diga.

Mulheres – sempre querem nos fazer carregar a culpa e o pecado

De vez em quando gosto de ouvir o rádio do carro enquanto dirijo. Gosto de me ambientar no mundo. Vou trocando as estações compulsivamente até ouvir algo que me agrada ou simplesmente me chama atenção. O mercado hoje tem uma avalanche de canções de algo entre sertanejo ou o que chamam de sertanejo universitário ou o que veio depois e muito do que acabo ouvindo é disso. 

Ouvindo essas canções eu reparo na letra e em como há uma quantidade absurda de letras que culpabilizam a mulher. É sempre ela, né? A culpa é dela (seja morena ou não). De trair, de ser abandonado, de estar chorando e bebendo, de ter feito isso e aquilo. Além, é claro, de outras tantas que desejam coisas ruins às mulheres: que chorem, que sofram, que peçam pra voltar e tal. Hoje a reflexão é para as mulheres (dos homens eu desisti até que leiam e ouçam e reflitam sobre como são) e sobre algo que carregamos a vida inteira: a culpa.

É bíblico, né? A mulher é a fonte do pecado. É a mulher que faz a humanidade cair em tentação. E como o mundo é porramente machista e os homens que ainda dominam os discursos, narrativas e quase tudo mesmo esta culpa ainda é permanentemente incutida em nós – por eles, e por elas.

Como diz um amigo: quando é que homem assume o que faz? Pois é. Deve ser genético, não sou especialista na área, mas fica a dica para investigarem. Há uma atitude dos homens que se você é mulher certeza que já passou por isso, se não passou é porque não percebeu. Infelizmente a gente demora para perceber, para se dar conta que está passando pela culpabilização dos homens. Temos a tendência, inclusive, de concordar com eles! Por isso resolvi escrever. Porque cada vez mais mulheres precisam falar e se conscientizar disso.

A situação é simples, corriqueira. O homem faz algo (alguma merda, alguma grosseria, as típicas irresponsabilidades, etc.) e não assume, não se confronta com o que fez. Aí a mulher tenta dialogar, a mulher sofre, a mulher engole, a mulher sufoca. Mas, ela tenta lidar com aquilo, ela tenta fazer com que ele assuma e veja o que ele fez. Ele foge, reação mais comum, ignora, se acovarda, etc.. Então, a mulher reage (a maioria reage, à sua maneira). O que acontece? Com a reação, em maior ou menor escala, traduzida em atitudes, decisões, mensagens, gritos ou o que for (que nenhuma mulher é maravilha, não, pra aguentar esses despeitados) a mulher é culpada. Apesar do homem não ter proferido palavra sobre o que ele fez ou disse que desencadeou todo o problema, assim que a mulher reage (algumas vezes em profundo desespero) ele toma atitude e se pronuncia. Mas, para culpá-la! Foi ela que fez isso ou disse aquilo, ela é que deixou-o triste, ela é que acusou-o, ela que é assim, etc.. Nem um pio, novamente, sobre o que ele é responsável. Ele se sai com apontar o dedo para as falhas dela, para o overreacted dela.

Explica-se isso. A origem da psicanálise está aí. Lembram os manicômios cheios de mulheres histéricas? Pois é. Hoje ainda nós temos que passar pela mesma situação, de sermos chamadas de histéricas e doentes por homens que em nenhum momento assumem suas culpas e as merdas que fazem. Porque além de nos culparem pela reação que tivemos em decorrência da ação (ou falta de) deles, eles nos chamam de histéricas e doentes. Deve ser mui saudável não assumir suas responsabilidades.

Os exemplos são inúmeros! Toda vida de toda mulher tem vários deles. No trabalho, em casa, nos relacionamentos. Por que temos dificuldade de identificá-los? Porque crescemos sendo culpadas, crescemos e somos educadas a sermos culpadas e responsabilizadas pelas nossas reações a um mundo de homens estúpidos e grosseiros e merdas e irresponsáveis. A ação vem antes da reação, vale lembrar.

Um exemplo clássico, quantas vezes já ouvimos a mãe ou a sogra dizer, para a esposa traída “mas o que você fez (ou deixou de fazer)?”. O marido trair, é obvio, todo mundo sabe, é culpa da esposa porque ela faltou com alguma coisa. Em qualquer situação o cara faz merda, a mulher chora, é agredida de várias formas (nem sempre com violência física), está machucada, mas quando reage à humilhação de ver seus sentimentos destruídos, de ver-se ignorada, de não compreender o que ele fez, e diz o que a arrebenta por dentro, quando xinga, quando ofende, quando fala a verdade, principalmente (e àquela à qual o macho foge), ela é histérica e doente. Vem o homem paternalista do caramba dizer que foi feio o que ela fez, o que ela disse, como ela fez.

Sabe, todo dia é um peso estafante ser mulher. É um peso absurdo que nos fazem carregar toda hora que nos deparamos com o tratamento de merda que os homens ainda acham que têm o direito de nos dispensar. Eu sonho com o dia que tenhamos novas gerações que não mais terão que aprender a ser mulher desde cedo, a se defender, a reconhecer as armadilhas e o machismo inerente a todos os homens. Só sonho, porque perdi qualquer fé de ver os homens das novas gerações sendo menos piores. Não precisa muito para perder a fé. Eu ainda algum tempo atrás pensava e dizia que precisávamos que os homens estivessem ao nosso lado, criticando e condenando os seus iguais nas atitudes de merda e machistas deles. Mudei de idéia. Não precisamos deles porque nem eles jamais conseguirão fazer isso, assim como muitas mulheres. Vejo esse discurso de rede social sobre as “manas”, sobre empoderamento, sobre sororidade e, queridas, vocês estão falhando feio. O discurso nas redes é só discurso mesmo enquanto vocês apoiam homens que fazem merda, enquanto vocês mesmas fazem questão de prejudicar e fazer mal às outras mulheres. Vocês valem menos qu eles.

Eu já passei várias vezes pela culpabilização vinda de macho. Hoje já identifico bem mais rápido, mas no primeiro momento sempre nos faz mal. É como rever velhas cicatrices, é um momento de desnorteamento até que você olha de novo e “porra, tu acha que eu vou cair nisso?!”. Essa é a prova de que não somos histéricas nem doentes. Nós somos inteligentes. Enquanto eles reproduzem uma atitude tão vil e vulgar do machismo nosso de sempre, muitas de nós já superamos isso. 

Homens, fiquem com seus dedos apontados para as nossas “culpas” até eles apodrecerem junto com as irresponsabilidades e merdas de vocês. Nós passaremos.

Nem digo mais “homens, melhorem” porque é jogar palavras ao vento. Perdi totalmente a fé de que homens podem ser melhores, eles escolhem deliberadamente ser os merdas que são – é uma escolha consciente. Mas, cuidado, tem muitos homens por aí travestidos de “boas intenções” e, na verdade, só estão se aproveitando do discurso da inclusão das mulheres e diminuição das desigualdades e respeito e blábláblá. Abram o olho, o mundo real é a vida e as ações, e não as redes sociais e os discursos. 

Mulheres, melhorem. Superem essa coisa que corrói por dentro de querer competir com mulheres e prejudicar mulheres e achar que são fodonas mentindo e se enganando. Ajudem outras mulheres a ver quando são vítimas da culpabilização machista e quando estão sendo usadas e abusadas por homens – mesmo que elas resistam. O que a gente aprende enquanto mulher é tão doloroso que devemos passar esse conhecimento à frente para que menos mulheres sofram – e mais homens sejam desmascarados.

Não mudaremos o mundo nem essa sociedade machista podre, mas salvaremos algumas mulheres de um sofrimento que eu não desejo pra ninguém.

Bailando

Cuando bailaba

con Sinatra

en el medio de la sala

Iba de nuevo

a un Año Nuevo

sola y tranquila

y trayendo el corazón

vacío

Fuera a Monterey

o a la Luna que me lleva a volar

los pies tenían ganas

sufocadas de bailar

el cuerpo decía

casi sin cuidar

los ojos lucían

quiero volver a soñar

Curarse es el my way

que me quitaran todo

lo que queda debajo de mi piel

No quererte mañana

y bailar hasta el sonreír

de un verano

solo eso me entretiene

los días

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