Volto ao site para escrever com regularidade depois de um período muito profícuo. O tempo, como meus bons leitores sabem, é um grande amigo. Volto com o melhor que eu poderia dar de mim: falar sobre livros.
Dizem que fui privilegiada, e devo ter sido mesmo, por mais que ser “privilegiada” hoje em dia seja quase um xingamento. Eu tive o privilégio de ter à disposição, em casa, livros. Além disso, o ato de ler, ao qual me filiei muito cedo, não era condenado no convívio da minha família.
A este privilégio sou eternamente grata e devedora de coisas muito importantes e boas da minha vida (outras um pouco mais complicadas, é verdade – né, personagens maravilhosos?). Já faz tempo que também sou consciente de que este meu acesso ao mundo dos livros nunca deveria ser um “privilégio”.
Além dos livros em casa, além de ter sido uma leitora voraz (a vontade de saber, descobrir o mundo, enfim), além do armário de livros que minha mãe mantinha em casa, além dos livros que eu encontrava na casa da minha avó, além das Barsas e Enciclopédias onde fiz minhas primeiras pesquisas na vida, eu tive acesso às bibliotecas. Eu sei que já falaram muito, poeticamente, sobre o paraíso que é uma biblioteca para os leitores, mas não só para pessoas como eu, que quando criança e adolescente ia todo dia na biblioteca da escola ou municipal, mas também para quem precisa, como as bibliotecas universitárias.
Farei esse parênteses, meus leitores mais assíduos sabem que falo bastante de mim: minha mãe tinha armários com livros em casa, antes numa salinha nos fundos da casa onde estudávamos e onde fui alfabetizada pela minha irmã, depois ela colocou estes armários na sala de TV. A passagem dos armários de livros da sala de estudos para a sala de TV fez muita diferença na minha vida. Eu lia desde antes de entrar na primeira série, lia os livros obrigatórios das aulas, lia enciclopédias para fazer trabalhos da escola. Mas, ter os livros ali na sala, à mão num espaço de “entretenimento e diversão” fez uma mudança radical na minha percepção. Com a TV ligada eu sentava no chão e começava a folhear, via os nomes conhecidos de reportagens em revistas e jornais (também sempre gostei muito de lê-los). Minha mãe nos levava todos os domingos à revistaria para comprar os jornais do dia e coleções de livros e revistas, conforme o gosto de cada filho. Mudar o entendimento do espaço que a leitura poderia ocupar na minha vida mudou a minha vida e o meu caráter.
Eu frequentei todas as bibliotecas das escolas e colégios e universidades onde estudei. No Fundamental e Médio era todo dia, inclusive no final do Médio a unidade onde eu estudava não tinha biblioteca (precisava “solicitar” da outra unidade, afe), mas era perto da biblioteca municipal. Eu ia lá todo dia. Na universidade, elas eram fascinantes, para aquela menina, se deparar com a biblioteca da UFSC foi um sonho. Também pela questão financeira, pegava a bibliografia das disciplinas e corria pegar os livros, cópias custavam muito.
Foi com o tempo que construí minha modesta biblioteca. Esses dias me deu saudade do Zola, fui até ela e peguei um que ainda não li. Já não frequento mais bibliotecas como antes, é verdade, e esse é um erro.
As bibliotecas devem ser abertas, públicas, devem estar à mão de todos, devem proporcionar encontros por curiosidade e necessidade. Os livros mudam a gente. Livro nunca deveria ser objeto de decoração ou pretensão. Foi assim que tive o impulso a voltar ao site e escrever aos meus fiéis leitores.
Ontem vi no Twitter o Lula contando que todos os empreendimentos do programa Minha Casa, Minha Vida terão bibliotecas. Confesso que há tempos algo não me emocionava tanto (me emocionar é difícil). Sei que o atual governo federal foi uma virada de chave que demos após um período tão obscuro (do qual não desejo falar) e que coisas boas já surgiram, investimento aqui e ali, baixa do dólar, IBAMA fiscalizando e tal. Mas, exigir bibliotecas no programa de habitação mais importante do país é uma linha que foi ultrapassada, é entendermos qual país queremos, é saber que acesso ao livro não é privilégio. Hoje, ouvi na rádio o evento sobre o programa habitacional e soube que firmaram uma parceria com a Academia Brasileira de Letras para a disponibilização dos livros nestas bibliotecas. É entender que há um projeto de país, que não é matar.

Ano passado eu publiquei e lancei meu primeiro livro, não é de ficção, mas também não foi escrito em linguagem academicista, fruto da minha dissertação de mestrado em História, na UDESC, e publicado por meio do Edital SIMDEC Apoio, de Joinville. Eu estudei em universidade pública e isso também mudou a minha vida e construiu o meu caráter, publicar a dissertação em formato de livro por edital público foi mais uma conquista na vida. Mais um sonho realizado. Meus leitores sabem que vivo de realizá-los.
Este livro está sendo doado à bibliotecas. Isso não constava no projeto inicial, é uma vontade minha, que surgiu ao vê-lo publicado. Já estão disponíveis unidades dele na Biblioteca Estadual do Paraná (onde tive uma relação incrível em formação), na UFPR, PUC-PR, Universidade Tuiuti, FAP – Faculdade de Artes do Paraná, UNIVILLE, UNIVALI (Itajaí), Biblioteca Darcy Ribeiro (Curitiba) e na Biblioteca Comunitária Lutador Dito, na AMORABI (Associação dos Amigos e Moradores do Itinga), onde fizemos o lançamento do livro. Este local foi escolhido pelas parcerias que tivemos em vários projetos e atividades, além de ter sido uma resposta às livrarias que viam o lançamento de outro ponto de vista, que não o que eu tenho para este projeto.

Inclusive, fiquei muito feliz de vê-lo como indicação da Biblioteca da UNIVILLE, no dia do Cinema Brasileiro. Sim, o livro fala de cinema, afinal, por que não juntar duas paixões, não é mesmo?

Continuo a doação dos livros, aceito sugestões de bibliotecas e pedidos de doações (é só escrever pra mim ou aqui no “Contato” do site). Tenho já uma lista de bibliotecas às quais doarei, algumas das quais foram muito importantes na minha formação. Porque ler não pode ser um privilégio e agora não posso mais me descrever como uma escritora sem livros publicados (prometo que este não será o único).
Fazer cultura e arte neste país, ser uma trabalhadora da cultura, é o caminho que escolhi para a minha vida, sem nunca deixar o compromisso com a formação. E esse compromisso se traduz de várias formas, fomentar bibliotecas é um sentimento que eleva minha felicidade e demonstra que minhas escolhas têm um caminho do qual tenho profundo orgulho.
Ah, para encerrar por hoje: frequentem bibliotecas. Valorizem as bibliotecas.
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