Sola

De verdad prefiero estar sola unos días.

Quédate aquí, de todos modos no quiero estorbar tu vida con mis ideales y sueños. No quiero hacerte pensar demasiado sobre todo, todos los días, pues que es fatigante.

Me voy cierta de mis errores y de que no tengo mas fuerzas para seguir por lo mismo camino. Yo soy las sendas por la arena de la playa donde siempre he vivido, soy los árboles que he cultivado, soy los mundos que he creado – por toda la vida.

Cuándo vuelva, te diré. Te diré si me gustan las dudas aunque no te he dado esta opción. Pero puede que no vuelva. Aún peor, vuelvo y te vas a dar noticia por los otros. Vas a mirar mi vida pasándole diante de tus ojos como si fueran cercas de alambres, llorará, por lo menos, el sal y la oscuridad.

Voy a estar sola con el sonido del tiempo a decirme entre ollas de buen humor que nunca estuvimos lejos.

Voy a estar sola como siempre y siempre conmigo.

Serán solo unos días, fíjate. Haré una visita a alguna catedral, jugaré con los gatos de la calle, miraré hasta un cielo azul donde no llueve todos los días. Pensaré en volver cuando haya me hartado de sonreír y cuando la maleta esté llena de experiencias.

No te olvides de me olvidar. Porque, por supuesto, sabes que yo jamás volveré. Jamás volveré para tu vida.

Coração sincero

Podemos entrar no carro e fugir sem rumo até o coração dizer “é aqui”.

É aqui que quero ser feliz para o resto da vida. Mas, talvez, o resto da vida seja tempo demais.

O coração, ele sempre tem razão e merece ser perdoado pelas bordoadas que leva. Ele não se atreve a desacreditar das pessoas e suas intenções, ele vive com esperança.

Num dia assim, porém, o que salva é a fé. A fé persiste em dizer ao coração que é preciso ficar, que ele ama demais e de forma insaciável, que essa loucura de fugir ainda pode deixá-lo muito triste. Ele custa acreditar, ao mesmo tempo que nunca duvidou da fé. Afinal, o que seria dele sem fé?

O coração anseia por ver novas paisagens, por conhecer outras realidades, por ouvir quaisquer sotaques. Ele é sincero e fiel, nunca soube ser de outro jeito. Ele nunca pôde ser falso porque ama e entrega-se com paixão, de olhos fechados (o tolo). Ele jamais trairia – a si mesmo.

Este coração aprendeu a não tratar os outros como foi tratado.

Tem dias que ele respira seus anseios. Tem dias que ele precisa olhá-los com pena e lamentos, e manter-se sufocado. Ele poderia fugir, não como uma fraqueza, como quem escapa de suas responsabilidades e se acovarda. Ele poderia fugir num gesto de coragem e força, de quem tendo tudo busca não ter nada – para ser ainda mais.

Não entenderiam, é claro. E ele nunca se importou.

O coração acordou assim, num dia qualquer, e quis buscar onde ser feliz, algum outro lugar onde também pudesse ser feliz. Caso a vida já não lhe tivesse ensinado, ele teria ilusões.

Acreditaria até, quiçá, na humanidade. Por ora ele tem somente a si como escudeiro e confidente. Seus planos não os conta a ninguém, não encontrou quem fosse digno de confiança. Ele articula seus próximos passos e sorri solitário.

Qualquer dia, podemos entrar no carro sem rumo até encontrar uma árvore frondosa e carregada de mangas, cercada por terras alagadiças e cenas curiosas de um cotidiano do passado, cruzar uma estrada de barro até o mar revolto se descortinar e termos a surpresa de um amor caliente no banco do carro enquanto toca uma música alegre – de fé e esperança. O coração vai saber dizer “é aqui”. O coração, ele nunca se engana – nem é enganado.

O cinema que Joinville não vê

Lembrei de um dia, quando andava pelas ruas de Goiânia e me deparei com um cinema de rua: a porta ali aberta na calçada, meio da tarde, jovens entrando e saindo, cartaz das sessões nas paredes e no meio da rua, programação variada. Lembrei disso porque esses dias caminhava por uma pequena cidade da Argentina e, ao atravessar a praça, início de noite, fervilhava o cinema de rua em frente à igreja.

Como faz falta um cinema de rua! E pensar que eles existem em cidades grandes e cidades pequenas, como nos exemplos que citei. Como, inclusive, já existiu em Joinville como minha mãe sempre me contou. Lembrei disso tudo enquanto pensava esse árduo fazer cinema, com tantos obstáculos, mas tão imprescindível. 

Tenho três curtas-metragens produzidos, finalizados, prontinhos – viabilizados com verba pública – e não tenho onde exibi-los para as equipes e elencos que trabalharam neles, junto com alguns convidados. Essa, aliás, sempre foi uma crítica minha às obras de conhecidos e nas quais trabalhei. Depois de pronto, quem assiste ao filme? Ok, há a vida útil dele nos festivais, aos quais todas almejamos. MAS, eu só queria passar meu filme pra quem trabalhou comigo nele, aqui na cidade de Joinville onde eles foram gravados. É só isso. Só?

Bem, falem o que quiser, o cinema em Joinville ficou anos hibernando. Hoje temos muita gente produzindo, de várias gerações e formações. E daí falam tanto desses “tempos passados”mas Joinville, com sua alcunha de “maior cidade do Estado” (lembram?) não tem uma sala pública de cinema!

Um dia comentei num post do atual secretário de cultura de Joinville, que na ocasião estava passeando por Fpolis, para que ele desse uma olhada no CIC – Centro Integrado de Cultura e que este servisse de exemplo para a nossa cidade – quem sabe na destruída Cidadela Antarctica. Ele disse que era um belo exemplo, mas que dependeria do investimento do governo do Estado. Ah, mas, ah! E Joinville, uma cidade do tamanho e rica como Joinville, precisa do dinheiro do Estado para criar um espaço público para as artes?! E nem me venham com aquela opção de PPP na 9 de março com prédio pra rico e teatro pro “povo”.

Se tanto foi feito pelo cinema de Joinville, cadê? Ah, faziam umas exibições lá na (na época já não muito inteira) Cidadela Antarctica. Que fim levou? Onde estão as atividades contínuas? Onde está a perenidade das ações em cinema na cidade?

Ah, mas está no Plano Municipal de Cultura (aquele que fez dez anos e dele pouco se fez) que uma sala da antiga prefeitura (e, mais antiga ainda, rodoviária da cidade) seria uma sala pública de cinema! Começo deste ano a antiga prefeitura foi reinaugurada, depois de anos de restauração ou reforma (aqui nunca se sabe o que fazem com prédios históricos), sem nenhuma sala pública de cinema. Aliás, está lá o batizado Farol – que até agora os trabalhadores da classe artística não sabem bem para o que serve. 

Tem uma questão óbvia e ululante para os nossos gestores: os espaços culturais públicos precisam de investimento e equipamentos! Vejam os museus, o MAJ, o Sambaqui, a Casa da Cultura, andem por eles, falem com quem cuida deles, perguntem o que falta. Museu que não tem onde colocar seu acervo! Salas de auditório sem projetores e caixas de som! Tudo abandonado, sem estrutura nenhuma para uma apresentação de dança, para uma exposição, para um show ou exibição de filme. Por isso, caros gestores, os espaços públicos vão sendo abandonados pela população, porque vocês permitem que eles sejam sucateados – e nem nós, trabalhadores da arte e da cultura, conseguimos ocupá-los e chamar o público até eles.

Eu convivi com o cinema do CIC, filmes fora do circuito hiper comercial em cartaz, preço super acessível, localização boa pra todo mundo de busão. Ali assisti a alguns dos filmes que mais marcaram minha vida, fora do estadunidismo que sufoca essas salas de gente que só pensa em dinheiro fácil. Em Joinville o público tem que mendigar pra assistir aos filmes mais cotados da temporada – se eles forem brasileiros! Imagina se vai passar filme argentino, sul-coreano, italiano, francês (país onde nasceu o cinema!), italiano ou alemão! Nem filme alemão passa nessas terras que forjaram sua história num germanismo superficial.

Na sala de cinema do CIC quem quer fazer uma mostra, um cineclube, uma exibição qualquer, tem espaço. Porque é uma sala pública! Não depende dos interesses de quem abre sala de cinema em shopping para ganhar dinheiro. Problema com ganhar dinheiro? Nenhum.

Exatamente, vamos falar sobre dinheiro. Eu contratei todas as minhas equipes para trabalharem em Joinville, todos eles, sem exceção pagaram impostos para receber os cachês que lhes eram devidos. E não é pouca coisa, não. Eu pago meus impostos de produtora aqui na cidade. Tudo o que consumimos, entre transporte, alimentação, hospedagem, itens e serviços paga seus impostos aqui na cidade. E então, como fica? Para onde vai todo o dinheiro que as produções de cinema e audiovisual estão investindo na cidade? Por que não temos nada, nem um centavo disso, investido no mínimo que precisamos aqui?

Sei que volta e meia discutimos algumas questões sobre arte e cultura e, ainda, essa gente nos menospreza e blá-blá-blá. Nós produzimos, nós geramos emprego e renda. Nós contribuímos com a economia da cidade – e com muito mais, porque nem tudo se resume a dinheiro, mesmo numa sociedade capitalista. E até quando acham que vão nos desrespeitar? Até quando pensam que esta cidade foi feita para dois ou três sobrenomes? 

Felizmente as eleições do Conselho da Cidade já anunciaram que as coisas estão mudando. Felizmente há uma onda que não vai morrer na praia de um Novo Cinema sendo feito em Joinville – eu até diria “só não vê quem não quer”, mas, infelizmente não é bem assim. 

Cinema não existe sem público. Cinema não é para exibir aos amiguinhos e tá tudo bem. Não tá tudo bem. Ah, mas o SESC! Sim, o SESC é a melhor sala equipada e acessível, em termos, para exibir filmes. Mas o SESC não é uma sala pública de cinema e tem sua programação também. Até quando vamos remendar os problemas evidentes?

É muito bonito, poético até, isso de sussurrarem as coisas, das críticas veladas e silenciosas, os tapinhas nas costas – que é como fazem muitos da arte e cultura de Joinville. Tenho a forte impressão que essa prática não surtiu resultados em seus mais de cento e tantos anos de cidade e que ela não se sustentará mais diante de uma população diversa, composta por muita gente que vem de fora tentar a vida aqui porque ela parece terra de oportunidades – não pode mais ter oportunidades só na linha de produção. A cidade não é de uns poucos e seus nomes e sobrenomes. A arte e a cultura não são só feirinhas na praça e enfeite de natal na rua.

Nós estamos organizados e bem armados. Eu produzo aqui e a economia não vai me deixar de lado – enquanto dá isenções para grandes indústrias. Quando vi o governador visitar Joinville, não encontrei agenda com o secretário de cultura exigindo um CIC em Joinville – soube que o governador assinou duplicação para a rua que leva à cidade industrial. Se cada uma e um que trabalhou nas minhas equipes cobrasse o investimento do imposto que foi deduzido do seu cachê nos equipamentos públicos de cultura da cidade, já teríamos um avanço. Se cada um e uma que trabalha com cultura tivesse a visão da força do seu trabalho, aí sim as coisas mudariam.

E eu não vou deixar ninguém em paz enquanto não tivermos uma sala pública de cinema, onde tenhamos diversidade de programação, onde tenhamos cinema joinvilense na tela, onde tenhamos cineclubes e encontros e mostras – e tudo acessível. Tenham minha palavra.

Os homens da minha vida – tempos de pandemia

Gosto de pensar que a pandemia não aconteceu por acaso (eu acredito muito nisso) e, para quem não é tolo, as reflexões que ela causou podem ser muito úteis. Ela veio para dar fim à situações que já não se sustentavam antes, mas se arrastavam de mal a pior. Ela serviu para dar um fim no que já não apaixonava mais.

E é curioso pensar que ela também veio para destruir de vez minha (nossa?) esperança nas pessoas em relação ao futuro, às mudanças que eu imaginava ver. Como mulher, percebi que não há esperança em relação aos homens. Como dizem algumas teóricas feministas, as coisas estão mudando, mas pouco e lentamente. Eu, enfim, vi que não há mudança nenhuma.

Os homens estão diante de tudo que eles precisam saber e aprender sobre igualdade, respeito, e mil coisas, mas, mesmo assim, eles agem como os piores homens dos séculos passados. Enquanto mulher não aceito mais a grosseria, o desrespeito, a agressão (a estupidez nas respostas e tratamentos, a violência psicológica, nem mesmo o silêncio). Tenham eles vinte ou quarenta anos, geração essa ou aquela, todos – sem exceção – sabem muito bem como não devem agir. Mas, eles escolhem agir como estúpidos e idiotas e escrotos e, bem, esperam o que de nós?

Não sou eu que determino o fim de um relacionamento, é o relacionamento em si que deixa de existir. Eu apenas sigo. Parece (e é) simples. O amor é aquele bichinho que precisa ser alimentado todo dia, senão morre também. Na pandemia não foi diferente, o mundo nos desafia e quem não dança junto, perde. É preciso se reinventar, ser criativo, adequar-se às mudanças.

A falta de comunicação num relacionamento tem consequências graves que carta nenhuma, tempos depois, conserta, que arrependimento nenhum apaga. E eu, de fato, nos dois últimos anos tive motivos de sobra para ver que os homens não melhoraram. Eles continuam sendo os idiotas com os mesmos problemas de sempre. E, como eu dizia esses dias, nós não merecemos homens com problemas. Ah, mas problemas todos temos. Aham. Mas, nunca permita que os seus problemas machuquem as outras pessoas – porque elas não têm nada com isso.

Eu cansei de acreditar que algum homem, independente da idade, independente de conviver comigo que falo disso diariamente, não é machista. Que não usa o que ele mesmo faz para me diminuir, para me agredir, para me fazer lamentar pelas coisas que aconteceram. Só alguém que não me conhece para esperar isso de mim.

A pandemia levou da minha vida os homens que não me serviam e dos quais eu, por algum tipo de apego e cegueira, ainda não havia me livrado. Levou o passado que vivia a rotina (que eu tanto detesto), a mesmice, uma pessoa que não me ouvia nunca, sobre nenhuma situação. A mesma que me tratava com grosseria e achava que eu sempre estaria ali para responder quando ele quisesse. A pandemia levou da minha vida com quem tive uma parceria especial, mas que sugava, manipulava, sufocava.

A pandemia também me trouxe uma paixão avassaladora! Foi na primeira vez que saí do isolamento, ainda sob inúmeras restrições, que nossos olhares se cruzaram. Eu gosto da minha vida porque ela tem coisas adoravelmente inexplicáveis (como essa paixão e outras) e aquelas semanas foram loucas – segundo os astros, tudo estava previsto e foi um ponto de virada na vida – e eu só abracei tudo que aconteceu. Saí desse turbilhão com a vida do avesso, depois de ser arrastada por ondas gigantes, lançada contra as pedras do costão, engolido a água intragável do mar… quase afogada, me arrastei em direção à praia pensando que deixava a tempestade em alto-mar. Tola que fui: o pior estava por vir. E eu não vi mesmo! Porque estou, como é, Sandra? Dançando com a vida… de rosto colado…

Pelo menos aprendi uma coisa, eu gosto das diferenças nos relacionamentos. Eu tenho pavor do tédio e pensar em duas pessoas “iguais” num relacionamento não pode ser outra coisa. Eu gosto das diferenças sociais, de gosto, de idade, de práticas e atividades, quanto mais diferente, mais atraente. Bem, não me falta experiência para poder afirmar isso. São as diferenças que me atraem, que constroem um relacionamento interessante, pulsante, desafiante. Porque é com as diferenças que a gente aprende – e se tem uma coisa que eu gosto na vida é de aprender. E o que é um relacionamento senão o contínuo aprender o outro?

Tem homens que acham que têm um controle tão grande sobre as pessoas, que eles reagem muito mal quando vêem que fracassaram. E eu já tenho maturidade o suficiente para não ter pena desses homens! Tanto eu tenho maturidade quanto falta coragem para esses mesmos homens encararem uma mulher séria, madura, que sabe o que quer e não tem medo nenhum de seguir o que sente. Eu sei, é 2022 e a covardia ainda domina muitos homens. A covardia os corrói todo dia, enquanto a cabeça deles repassa cada atitude que deixaram de tomar, cada calhordice da qual foram capazes.

Acima de tudo, esses homens que passaram pela minha vida, nos dois últimos anos, me fizeram aprender uma coisa: eu nunca vou deixar que usem o meu trabalho para me atingir. Eu sempre prezei muito a minha profissão, eu sou super responsável com o meu trabalho, a seriedade com a qual eu trato o que eu amo fazer é sagrada. Quando eu percebi que eles estavam usando isso para me diminuir, para “se vingar”, para tentar me prejudicar porque eles eram incapazes e inconsequentes para assumir o que faziam, eu dei um basta. Jamais alguém – principalmente homens – vai usar o meu trabalho para me fazer mal, porque só eu sei tudo o que eu fiz e passei para chegar até aqui – e não pretendo parar. Isso me fez pensar em quantas mulheres ao redor do mundo são diminuídas, humilhadas, usadas, prejudicadas com os seus trabalhos por causa de homens escrotos – dentro e fora de casa. Aliás, fiquei até rememorando casos conhecidos. Cheguei à conclusão que falamos pouco disso e essa é só mais uma das coisas que, se está mudando, é pouco e lentamente.

Com a alma leve e tranquila eu sigo. Mais tranquila do que nunca. E mesmo que a cada dez anos uma cobra coral cruze o meu caminho, eu vou me arrastar pela praia até que a tempestade passe, que a ressaca amaine e o sol volte a brilhar. Às vezes eu penso, “continuo a mesma”, mas, sinceramente, eu só melhoro. Porque a vida não tem graça com nada sempre na mesma, eu morreria de tédio. O que não muda, e não mudou para esses homens dos dois últimos anos, é me pintarem como um monstro, o carrasco da vida deles! Bem, uma morena pode causar muitos estragos, já ensinou o cinema clássico de Hollywood – e aquele cantor. Quem sou eu para desmoralizar a nossa fama! (Ou para pintar o cabelo!) Como diria Jair… deixe!

Enfim, é a vida. Perdi as esperanças. Os homens não melhoram. Eles continuam os mesmos e tenho que me deparar com eles e suas grosserias, no trabalho, na vida pessoal, na reunião do conselho, em casa, onde for. Não importa a idade, pode ser um jovenzinho ou um da velha guarda, pode ser o mais ativo da igualdade nas redes sociais ou o mais brucutu offline (aliás, este tem mais chances de respeitar e admirar as mulheres, segundo minha experiência). Os homens ainda acham que dominam o mundo e as mulheres – porque, não estão erradas as pesquisadoras, eles ainda o fazem de fato. Vamos parar de fingir que as coisas estão mudando, assim eles também não precisam fingir que se interessam e importam.

Eu só sei que fiquei enojada com a covardia, que senti desprezo pela arrogância, que fiquei indiferente aos lamentos. Porque eu nunca faltei com o diálogo com ninguém nessa vida e fui humilhada e ignorada nas inúmeras tentativas de que o olho no olho e a expressão dos sentimentos resolvessem tudo. Quando não há diálogo, tudo se perde. Eu posso ser a melhor pessoa do mundo quando estou com alguém, até que a confiança e o respeito se ausentem. Daí, eu realmente não tenho mais obrigação nenhuma – com quem quer que seja, não só com os homens.

Já diria Robertão, em paz com a vida e com o que ela me traz… eu sigo – de pé e cabeça erguida. Precisa muito mais que um homem para arrancar minha felicidade de mim. E era uma noite de sexta, chuvosa, já esse Outono chato, quando Elis me ofereceu a canção definitiva desses dois anos, no assunto homens. Se alguém precisa de respostas, esse alguém não sou eu. Os homens que tratem seus problemas e, de preferência, só depois se aproximem de alguém porque, olha, ninguém merece vocês.

O Outono é chato, porém, “ah!, porém!”, Paulinho me anima a relembrar o Verão e todas as decisões que tomei nas longas conversas com o mar e o céu estrelado. Tem tanta coisa que é muito melhor (e mais eficaz) que terapia. Só os indecisos têm medo de mulheres decididas (se forem morenas, então!). Aliás, duvido muito que exista terapia para resolver os problemas (inclusive sexuais) de alguns. Ser bem-resolvida/o é mal visto na contemporaneidade, né. Mas, eu super recomendo!

Obs.: a trilha musical desses dois anos é extensa – a maria palheta ficou muito feliz com a paixão fulminante – e foi crucial para todas as reviravoltas brevemente resumidas nessas duas páginas; mas deixo aqui duas delas: a primeira me faz dar gargalhadas toda vez que toca (e não foram poucas nesses meses todos) e um dia ainda vou gravar uma versão acústica e oferecer aos sofredores; a outra foi um acalanto maravilhoso enviado pelo Destino na voz da deusa Elis (não podia encerrar melhor). As outras, bem, elas fazem parte da minha vida e, quem sabe, estejam aí para embalar novas paixões e tantas outras desilusões.

Me and the moon

If it were love

You should be mine

I was a happy woman

With no more than a smile

And an open heart

In the shining moon

I believed

All nights I was there

Thinking of you

My sadness partner

I was your friend

I was the best listener

You said goodbye

My moon and I

Only an ocean between

Our souls merged

The shore is my friend

like you’d never were

The stars guide me

Through the sunny days

I believe in myself

I’m my very best confessor

Above all I trust no one – but me and the moon

A liquidez do hype

A sensação boa que eu tive ao assistir à And Just Like That. Poderia ser só um revival para as saudosas dos anos 1990 de uma televisão que foi sacudida por Sex and The City. Friends ficava no chinelo e sabemos disso. Talvez sejamos saudosas até da televisão diante de inúmeros streamings que querem nos oferecer o mundo e que não nos entregam nada – Adorno sorri com satisfação de onde quer que ele esteja. Mas, hoje não escreverei uma crítica à And Just Like That.

No primeiro capítulo somos informadas que Carrie agora não tem mais sua coluna (texto escrito) e participa de um podcast. A forma irônica como isso é colocado no texto (sim, é uma série, que tem sua origem no texto – e o meu texto de hoje é sobre isso) dá o tom da nova série. Nos anos 2020 é preciso se “adaptar” à fluidez do público, que já não lê mais, que consome o que é hype – aqui também estou sendo irônica, pois é só substituir por moda ou tendência.

O próprio podcast não é nenhuma novidade, pois o rádio e seus programas existem há mais de século. Mas, a contemporaneidade gosta disso, de reciclar algo velho, rebatizá-lo com um nome que vira tendência e voilà, logo estará bombando. Diriam alguns entendidos que são exemplos dos tempos líquidos que vivemos, essa liquidez que não nos prende à nada nem a ninguém e que nos faz robotizados diante de telas que replicam o que devemos assistir, do que devemos gostar, onde devemos ir, o que devemos praticar. É como aquele cara que cita Bauman e seu tempo líquido no perfil do Tinder, negando que queira relacionamentos líquidos… no Tinder, amigo? Ok, talvez devamos discutir coerência antes dos tais tempos líquidos.

Vejam como funciona, eu nunca li Bauman e acabo de escrever um parágrafo inteiro citando-o: eis o poder do hype e do vazio dos tempos atuais. Qualquer um pode falar sobre qualquer coisa e passar isso adiante. Não é difícil compreender o tanto de estupidez que essa “produção de conteúdo” gera. É muita publicação pra pouco conteúdo, é muita replicação de opinião sem base nem conhecimento, é muita gente – mas muita mesmo – querendo fama e sucesso sem ter o que oferecer. 

Quando vi Carrie se “adaptando” e trocando as letras escritas no papel/tela pelo podcast uma onda de reflexão me tomou neste janeiro ensolarado e ainda pandêmico. Tenho este site, originariamente um blog, há muitos anos e sempre publiquei textos escritos. São raros os posts que têm imagens, apesarde eu ser também fotógrafa. Pensei há quanto tempo temos desprezado o texto escrito, lembrando de anos atrás quando entrava num link de uma notícia e não era mais escrita, era um áudio ou um vídeo. Estamos emburrecendo? Óbvio. Ler dá trabalho e a multidão de analfabetos funcionais e digitais é gigante. Mas não é só sobre isso.

A maior tendência é de “adaptar-se” ao simplificar as coisas. Por isso eu não busco algo que dá trabalho e fico inerte diante de uma live qualquer. Tudo muito líquido, superficial e passageiro. Carrie, com seu talento e sua carreira, teve que adaptar-se a falar de bobagens num podcast, que os ouvintes mal prestarão atenção por alguns minutos enquanto fazem sua corrida do dia ou lavam a louça e esquecerão em ainda menos tempo. Porém, é a isso que hoje em dia chamam de “produção de conteúdo”. 

Eu sempre fui rígida com relação à escrita, comigo mesma e enquanto professora. Tudo passa pelo domínio do seu próprio idioma. Se você não domina o seu idioma, você é um fracasso. Além disso, além do desprezo atual que virou hype pelo texto escrito, eu me peguei pensando que o texto escrito é a origem de quase todo conteúdo que produzimos. Esses produtores de conteúdo de internet que não redigem um bom texto antes de dar o rec ou play nas suas publicações já são nada. Um podcast sem texto prévio? Uma live sem roteiro (texto)? Um post de Instagram sem texto/roteiro? Pior ainda é quando o texto é só réplica de outros conteúdos já produzidos – aqueles que somente repetem conteúdo lido de um livro ou de sites, por exemplo! Ou, pior ainda, que repetem o que outros já disseram em outros meios. Isso é até crime, né.

A “produção de conteúdo” que não tem origem no texto é irrelevante. Conseguimos imaginar uma série ou um filme, por exemplo, que não tenham origem no texto escrito? Mesmo filmes como Don’t look up, que é pior que ruim e virou a moda de dezembro passado, com inúmeras publicações em todas as redes – até aqueles que não publicam nada sobre cinema, publicaram sobre este filme – teve origem num texto escrito. 

Neste Verão além de acompanhar a nova série da Carrie, peguei um Hemingway para ler, o famoso Por quem os sinos dobram? (numa tradução de 1942, feita pelo Monteiro Lobato). Hemingway dispensa apresentações como todo clássico e digo que demorei para começar minha relação com ele – sofro do famoso temor respeitoso aos clássicos. E desde a primeira leitura entendi porque ele produziu clássicos e, enquanto pessoa, também é admirável. Foi um homem que viveu de verdade, coisa rara hoje em dia, com a coragem que a vida exige para ser encarada de frente. Li em outro Verão o As Ilhas da Corrente e me apaixonei. Num momento me dei conta que estava, deitada na rede, há dez páginas lendo a cena de uma pescaria. Ele sabe como escrever muito bem e as cenas relacionadas com elementos da natureza são mesmerizantes. Além dos livros há as adaptações para o cinema que são produções incríveis.

Por quem os sinos dobram? tem cerca de quatrocentas páginas. Num mundo no qual Carries são rebaixadas a fazer podcasts descartáveis, quem lê quatrocentas páginas de um homem que escreveu em outro século sobre a guerra na Espanha? Como desprender-se dos hypes e escolher fazer o que se quer? Não, não é arrogância e intelectualidade ou erudição. O problema é outro. O mais relevante e saudável de And Just Like That é a crítica ácida ao seu tempo, em apontar essas incoerências e em como o tempo passa e nós envelhecemos, é certo, mas não precisamos tornarmo-nos ridículas por isso.

Voltava caminhando da praia esses dias e brincava de imaginar o que seria de Hemingway se ele vivesse nos anos 2020. Jamais faria sucesso, coitado. Sendo homem, já de partida sua vida seria complicada, visto que não queremos mais saber de homens dominando o cenário (mentira, eles ainda dominam e têm todo o poder e apoio de homens e mulheres para isso, mesmo quando sabemos que são escrotos e uns merdas – mas é coisa bem de 2020s e da liquidez sermos hipócritas e superficiais nos discursos e práticas). Ninguém nem publicaria seus romances de quatrocentas páginas com alusões ao comunismo e condenações ao fascismo. Porque, é claro, não teria público para lê-los e ele sofreria pressões para não tocar “nessas questões políticas”. Seria mais rentável um romance de até cento e oitenta páginas sobre pessoas com problemas nos seus relacionamentos porque não suportam a pressão de viver numa sociedade… líquida. Pobre coitado do Hemingway se tivesse, como Carrie, que se “adaptar”.

Só segue os hypes quem não tem personalidade e vive o medo da não aceitação dessa sociedade que vive de cliques, seguidores e likes. Não vivem por si, vivem pelos outros e o tempo todo somos cercados pela “adaptação”. Adapte-se ou morra (virtualmente).

Morte digna, eu diria. Hemingway nem teria nascido nesta virtualidade, ou, quem sabe, se fosse das últimas gerações escreveria incríveis histórias em menos de trezentos caracteres – sobre as experiências de vida com suas amizades virtuais, esqueçam as guerras e viagens e boemia. Quem sabe se assim seria o Hemingway do século XXI? 

Morrer virtualmente é glorioso, pois o tanto que há de cadáveres não enterrados nas redes é incalculável. É tanta, mas tanta, gente querendo público, querendo seguidores, likes, cliques e tal que é virtualmente impossível atender à demanda (estou muito irônica hoje).

Eu não ouço podcasts. Não vejo necessidade alguma de ouvi-los e, se o fizesse, seria com total desatenção. Não publico interações da minha vida pessoal porque, enfim, eu sei o significado do termo pessoal (e, poxa, depois da Arendt alguém ainda tem dúvidas sobre esfera pública e privada?). Nunca entendi a tara das pessoas por saber da vida de pessoas famosas, imagine querer saber da vida de gente comum? (é que esses comuns querem ser famosos porque ser famoso significa… dinheiro? auto aceitação?) Hemingway era famoso. Já faz tempo que fomos vaticinados com os quinze minutos de fama, né? Lembrei daquelas crianças que eram meus alunos e que sonhavam em ser youtubers. É preciso adaptar-se, é claro. (ainda bem que ironia é de graça, senão hoje a conta seria alta)

Ou não. Ou você tem personalidade o suficiente para ter a vida que quiser, de acordo com os seus gostos e práticas, com a coragem necessária para que seus atos sejam coerentes com seu discurso. O hype é só hype e daqui duas horas já terá deixado de sê-lo. Até a Moda já entendeu isso e alterou suas práticas e padrões. Hemingway escrevia com papel e caneta e na máquina de escrever, Carrie escrevia no computador, nada de fato mudou, a palavra mantém sua força e a tecnologia também passa, talvez tão rápido quanto qualquer hype. O ser humano é que não se adapta ao que deveria e vive a superficialidade das relações mediadas, da covardia, da falta de personalidade e, desconfio, da falta de talento. Para produzir algo relevante e de qualidade é necessário ter conhecimento, aprofundar estudos, ter talento, espírito criativo – não cai do céu nem nascemos com, precisa dedicação, esforço, trabalho, empenho e muito mais. Nem todo mundo os tem – e querer “produzir conteúdo” sem ter nada ou quase nada disso e sem ter, de fato, algo a dizer é ser mais um cadáver não enterrado na esfera pública digital. Daí o que vemos é o hype camuflando a incompetência, o fracasso travestido de números, a imitação e a cópia (mortais e que merecem uma reflexão só sobre elas). 

Assim que fica viúva, Carrie volta a escrever um livro, já no segundo capítulo. É a resposta que nós, público da televisão dos anos 1990, precisávamos. A liquidez tem em si seu próprio inimigo: ela mesma passa. Nós permanecemos. O tempo sempre teve todas as respostas, Hemingway que o diga.

Mulheres – sempre querem nos fazer carregar a culpa e o pecado

De vez em quando gosto de ouvir o rádio do carro enquanto dirijo. Gosto de me ambientar no mundo. Vou trocando as estações compulsivamente até ouvir algo que me agrada ou simplesmente me chama atenção. O mercado hoje tem uma avalanche de canções de algo entre sertanejo ou o que chamam de sertanejo universitário ou o que veio depois e muito do que acabo ouvindo é disso. 

Ouvindo essas canções eu reparo na letra e em como há uma quantidade absurda de letras que culpabilizam a mulher. É sempre ela, né? A culpa é dela (seja morena ou não). De trair, de ser abandonado, de estar chorando e bebendo, de ter feito isso e aquilo. Além, é claro, de outras tantas que desejam coisas ruins às mulheres: que chorem, que sofram, que peçam pra voltar e tal. Hoje a reflexão é para as mulheres (dos homens eu desisti até que leiam e ouçam e reflitam sobre como são) e sobre algo que carregamos a vida inteira: a culpa.

É bíblico, né? A mulher é a fonte do pecado. É a mulher que faz a humanidade cair em tentação. E como o mundo é porramente machista e os homens que ainda dominam os discursos, narrativas e quase tudo mesmo esta culpa ainda é permanentemente incutida em nós – por eles, e por elas.

Como diz um amigo: quando é que homem assume o que faz? Pois é. Deve ser genético, não sou especialista na área, mas fica a dica para investigarem. Há uma atitude dos homens que se você é mulher certeza que já passou por isso, se não passou é porque não percebeu. Infelizmente a gente demora para perceber, para se dar conta que está passando pela culpabilização dos homens. Temos a tendência, inclusive, de concordar com eles! Por isso resolvi escrever. Porque cada vez mais mulheres precisam falar e se conscientizar disso.

A situação é simples, corriqueira. O homem faz algo (alguma merda, alguma grosseria, as típicas irresponsabilidades, etc.) e não assume, não se confronta com o que fez. Aí a mulher tenta dialogar, a mulher sofre, a mulher engole, a mulher sufoca. Mas, ela tenta lidar com aquilo, ela tenta fazer com que ele assuma e veja o que ele fez. Ele foge, reação mais comum, ignora, se acovarda, etc.. Então, a mulher reage (a maioria reage, à sua maneira). O que acontece? Com a reação, em maior ou menor escala, traduzida em atitudes, decisões, mensagens, gritos ou o que for (que nenhuma mulher é maravilha, não, pra aguentar esses despeitados) a mulher é culpada. Apesar do homem não ter proferido palavra sobre o que ele fez ou disse que desencadeou todo o problema, assim que a mulher reage (algumas vezes em profundo desespero) ele toma atitude e se pronuncia. Mas, para culpá-la! Foi ela que fez isso ou disse aquilo, ela é que deixou-o triste, ela é que acusou-o, ela que é assim, etc.. Nem um pio, novamente, sobre o que ele é responsável. Ele se sai com apontar o dedo para as falhas dela, para o overreacted dela.

Explica-se isso. A origem da psicanálise está aí. Lembram os manicômios cheios de mulheres histéricas? Pois é. Hoje ainda nós temos que passar pela mesma situação, de sermos chamadas de histéricas e doentes por homens que em nenhum momento assumem suas culpas e as merdas que fazem. Porque além de nos culparem pela reação que tivemos em decorrência da ação (ou falta de) deles, eles nos chamam de histéricas e doentes. Deve ser mui saudável não assumir suas responsabilidades.

Os exemplos são inúmeros! Toda vida de toda mulher tem vários deles. No trabalho, em casa, nos relacionamentos. Por que temos dificuldade de identificá-los? Porque crescemos sendo culpadas, crescemos e somos educadas a sermos culpadas e responsabilizadas pelas nossas reações a um mundo de homens estúpidos e grosseiros e merdas e irresponsáveis. A ação vem antes da reação, vale lembrar.

Um exemplo clássico, quantas vezes já ouvimos a mãe ou a sogra dizer, para a esposa traída “mas o que você fez (ou deixou de fazer)?”. O marido trair, é obvio, todo mundo sabe, é culpa da esposa porque ela faltou com alguma coisa. Em qualquer situação o cara faz merda, a mulher chora, é agredida de várias formas (nem sempre com violência física), está machucada, mas quando reage à humilhação de ver seus sentimentos destruídos, de ver-se ignorada, de não compreender o que ele fez, e diz o que a arrebenta por dentro, quando xinga, quando ofende, quando fala a verdade, principalmente (e àquela à qual o macho foge), ela é histérica e doente. Vem o homem paternalista do caramba dizer que foi feio o que ela fez, o que ela disse, como ela fez.

Sabe, todo dia é um peso estafante ser mulher. É um peso absurdo que nos fazem carregar toda hora que nos deparamos com o tratamento de merda que os homens ainda acham que têm o direito de nos dispensar. Eu sonho com o dia que tenhamos novas gerações que não mais terão que aprender a ser mulher desde cedo, a se defender, a reconhecer as armadilhas e o machismo inerente a todos os homens. Só sonho, porque perdi qualquer fé de ver os homens das novas gerações sendo menos piores. Não precisa muito para perder a fé. Eu ainda algum tempo atrás pensava e dizia que precisávamos que os homens estivessem ao nosso lado, criticando e condenando os seus iguais nas atitudes de merda e machistas deles. Mudei de idéia. Não precisamos deles porque nem eles jamais conseguirão fazer isso, assim como muitas mulheres. Vejo esse discurso de rede social sobre as “manas”, sobre empoderamento, sobre sororidade e, queridas, vocês estão falhando feio. O discurso nas redes é só discurso mesmo enquanto vocês apoiam homens que fazem merda, enquanto vocês mesmas fazem questão de prejudicar e fazer mal às outras mulheres. Vocês valem menos qu eles.

Eu já passei várias vezes pela culpabilização vinda de macho. Hoje já identifico bem mais rápido, mas no primeiro momento sempre nos faz mal. É como rever velhas cicatrices, é um momento de desnorteamento até que você olha de novo e “porra, tu acha que eu vou cair nisso?!”. Essa é a prova de que não somos histéricas nem doentes. Nós somos inteligentes. Enquanto eles reproduzem uma atitude tão vil e vulgar do machismo nosso de sempre, muitas de nós já superamos isso. 

Homens, fiquem com seus dedos apontados para as nossas “culpas” até eles apodrecerem junto com as irresponsabilidades e merdas de vocês. Nós passaremos.

Nem digo mais “homens, melhorem” porque é jogar palavras ao vento. Perdi totalmente a fé de que homens podem ser melhores, eles escolhem deliberadamente ser os merdas que são – é uma escolha consciente. Mas, cuidado, tem muitos homens por aí travestidos de “boas intenções” e, na verdade, só estão se aproveitando do discurso da inclusão das mulheres e diminuição das desigualdades e respeito e blábláblá. Abram o olho, o mundo real é a vida e as ações, e não as redes sociais e os discursos. 

Mulheres, melhorem. Superem essa coisa que corrói por dentro de querer competir com mulheres e prejudicar mulheres e achar que são fodonas mentindo e se enganando. Ajudem outras mulheres a ver quando são vítimas da culpabilização machista e quando estão sendo usadas e abusadas por homens – mesmo que elas resistam. O que a gente aprende enquanto mulher é tão doloroso que devemos passar esse conhecimento à frente para que menos mulheres sofram – e mais homens sejam desmascarados.

Não mudaremos o mundo nem essa sociedade machista podre, mas salvaremos algumas mulheres de um sofrimento que eu não desejo pra ninguém.

Bailando

Cuando bailaba

con Sinatra

en el medio de la sala

Iba de nuevo

a un Año Nuevo

sola y tranquila

y trayendo el corazón

vacío

Fuera a Monterey

o a la Luna que me lleva a volar

los pies tenían ganas

sufocadas de bailar

el cuerpo decía

casi sin cuidar

los ojos lucían

quiero volver a soñar

Curarse es el my way

que me quitaran todo

lo que queda debajo de mi piel

No quererte mañana

y bailar hasta el sonreír

de un verano

solo eso me entretiene

los días

Noches

Haga lo que haga

No dejo de pensar

Las noches van despacio

mientras vuelvo al pasado

Cruel fuiste, creo

que no se mata lo que ni había nacido

Son noches inolvidables

y me veo atrapada en decisiones

Hoy o mañana, no hace falta

he perdido la confianza

Son mis errores que me persiguen

No me puedo perdonarme

Ya antes del tiempo

había todo y una mirada

hace falta una palabra

y el remordimiento

Pero, no lo sé

quizá no tardará

O menino e o mar

Estava na praia e não fazia nada além de observar – faço-o por gosto, porque gosto de deixar o olhar e a mente soltos vendo os detalhes do mundo e porque, enfim, é um gesto dos meus pensamentos, diria que nem poderia controlá-los, caso quisesse. Observava o mar, suas ondas sedutoras e misteriosas, observava o sol e seu brilho sobre as ondas, observava lá longe a linha do horizonte. Gosto especialmente de observar as crianças à beira-mar, elas como que existem em outra realidade deste mundo quando veem areia e mar.

Observava distraída e atenta, os olhos viam e a alma registrava, mas eu vivia ali o instante. Foi quando um menino chamou minha atenção: menino nos gestos e na idade, mas aquele olhar era de um homem adulto. O olhar é essa janela, mas não são todas as almas dispostas a ler outras almas, é preciso um olhar atento, um interesse perscrutador para decifrar o que há num olhar. Gostei daquele olhar. Há coisas, talvez, que não caibam nas palavras.

Ele brincava com os meninos e meninas da sua idade, iam lá baldes carregados com dificuldade, cheios de água do mar, buracos cavados, castelos de areia milimetricamente planejados e executados. Quando vinha a onda e desmanchava-os, às vezes mesmo antes de terminados, havia indignação, estupefação, tristeza. E logo eles recomeçavam a batalha, o menino sempre mais determinado e metódico que os outros – eu reparava.

Do mar, o que posso dizer? Ele não desfaz nossos sonhos e castelos por maldade. Nele também não há como confiar. O mar é só mistério e incerteza. Para entendê-lo não precisa saber nadar, nem prender a respiração, nem pular onda ou identificar um redemoinho: só nos cabe vivê-lo. Já ouvi muitos conselhos, avisos e até as experiências alheias sobre o mar. De nada me serviram. Já aprendi a nadar de tudo quanto é jeito, sei usar bóias e pés de pato, sei ver as marés e o vento, até as águas-vivas consigo achá-las antes de entrar na água. Nada disso faz diferença. Cada vez que me vejo diante do mar é como se nunca houvesse estado ali – deve ser isso que mantém nossa relação tão profunda. E ele me atrai tanto pelo mesmo motivo. O mar é o desconhecido, é aprendê-lo todo novamente, a cada vez.

Por isso o olhar curioso daquele menino para o mar me deixou tão feliz. Ele parecia antever que ali havia muito a ser descoberto. Ele era inteligente também, pois tentava decifrar o que precisava para adentrar naquele mar que já era tão interessante, mesmo se sabendo tão pouco dele. Ficamos amigos, entre castelos de areia e ondas estouradas na praia. Ele flertava com o mar, chegava perto, se distanciava, interessava-se por outras coisas. Eu ficava ali, sempre tão fechada em mim, mas apaixonada pelo mar e volta e meia buscava sua companhia. Cada um no seu casulo e na sua teimosia. Mas o mar, o mar é invencível.

Essa amizade durou e o tempo foi passando, como bom amigo que sempre foi. Aquele menino sempre me olhava com seus olhos de adulto, e eu ria dos outros que não percebiam isso. Os outros estranhavam nossa amizade, pois não sabiam de nada daquilo que ninguém precisa saber porque as pessoas somente procuram o óbvio.

O dia na praia foi tombando o sol atrás dos morros e já quase noite o menino encarou o mar com vontade e com tudo o que aquele olhar me dizia. Eu quis ir junto, quis estar ombro a ombro com ele também naquele momento. Mas, como aquele personagem, que diante do mar, das ondinhas batendo nos seus pés, de toda uma nova vida diante de si, chora e desiste, o menino também desistiu. O menino me contou que entendia esse personagem, que se via nele. Eu não pude dizer-lhe que o medo é sempre mau amigo, por isso digo agora. O mar nos inflige medo, muito medo. Toda vez que o reencontro sinto medo e, bem, não sei explicar como o medo não me paralisa – talvez o truque seja não pensar. Porque o medo em si só existe na nossa cabeça, são os nossos pensamentos que se comem e destroçam e causam medo e dor. O medo se alimenta da dor.

O menino, então, não entrou no mar. Eu senti tanto e tanto que nem sei dizer. Às vezes, não sei o que fazer com meus sentimentos, prefiro levá-los para casa. O medo é aquele extremo que nos acovarda diante de qualquer coisa. Queria poder entendê-lo um pouco, pelo menos, para me desculpar de julgar o menino que não quis entrar no mar. Não consigo. Sempre direi que é preciso entrar no mar, sem antes nem depois. Sem experiência e sem saber, sem medo e sem planos, só entrar e vivê-lo. Segui para casa triste e fico aqui revirando momentos de um dia intenso como só a praia proporciona.

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