Tento, num exercício diário (de cobrança), encontrar temas sobre os quais escrever. Tenho me interessado muito sobre os processos de criação, como há tempos me interessa, e em como um suposto (oi, jornalistas) bloqueio da criação afeta os criadores. Há quem pense que quem cria, não trabalha. Criar é igual a qualquer outro trabalho, quanto antes a gente entende isso, melhor é. Enquanto vemos o criador como alguém iluminado pelos céus e possuidor de um dom magnífico, o trabalho em si não existe.
Pra quem trabalha com criação artística, talvez demore um pouco para ser ver como trabalhador/a. Algumas funções são mais “visíveis” aos outros, como quem trabalha diretamente na produção de espetáculos, filmes, eventos, etc.. Enquanto que para aquele show, aquele filme, aquela peça existirem, muito trabalho árduo foi previamente executado pelos seus criadores – a arte pré-existe enquanto trabalho antes de existir aos olhos do público enquanto obra.
Ao mesmo tempo, pobres criadores que por muito tempo se vêem sem a visita da musa inspiradora. Acreditam estar amaldiçoados, inventam qualquer desculpa para a página em branco, encontram mil compromissos e deveres que os afastam das telas, dos pincéis, dos computadores, dos instrumentos. É fácil depositar a responsabilidade dos nossos erros e fracassos nos outros (conheço muita gente que o faz sem a menor cerimônia), como dizem, do que simplesmente assumir que não temos compromisso com o nosso trabalho – da mesma forma que tanta gente não respeita o trabalho dos artistas.
Trabalhar com criação é sempre um processo. Cada obra, cada escrita, cada criação se desvela de maneiras diferentes para o seu criador – ou criadora. Posso escrever aquele roteiro de uma vez só, depois de pensar nele durante dois meses, posso escrever outro uma dúzia de vezes ao longo de dois anos até ficar satisfeita com ele. Criar o processo é parte de trabalhar com criação, por isso também é sempre tão gostoso ouvir os artistas falarem sobre suas obras. Cada processo é um universo do qual faz parte a obra.
Quanto ao trabalho, é trabalho. É compromisso diário, com hora marcada, com cobranças, com execução, correção, revisão, por vezes, aprovação. Às vezes, a musa não flutua pelo ambiente, por vezes um furacão nos toma e tudo sai divinamente. Porém, é preciso estar lá, todos os dias, cumprir os horários, bater o cartão, inspirar-se, olhar para os lados, respirar, revisar o que te fez chegar até ali. E aprender, claro. Não recebemos, como muitos podem lamentar, o tanto que gostaríamos por essas horas trabalhadas, contudo, suspeito que há um retorno muito mais valioso que deve ser levado em conta.
Assumi o compromisso de retornar com frequência ao site, queria, na verdade, escrever sobre as greves dos EUA no Audiovisual, sobre o efeito manada no público das duas “grandes” estreias de Hollywood, em como consumimos mal aquilo que tanto nos afeta e tal. Sei lá, não deu certo. Tem dias que rende, tem dias que não.
Por vezes, pode ser mais frutífero trabalhar aqui dentro, com o que nos consome, do que ir tão longe. Eu trabalho com cinema, com criação (com produção também, aquela parte que é mais “visível”, mas mesmo essa tem uma parte enorme que é invisível), bato meu cartão diariamente e carrego essas dores e delícias.
É o que tem pra hoje, como digo muitas vezes ao servir o almoço em casa. Pode não ser o ideal, nem o melhor, mas foi o que deu pra produzir. Pior aquele que não consegue servir a mesa, não entrega nada, porque ficou se lamentando, porque acordou tarde à espera de uma fada que, com sua varinha mágica, o banhasse nas águas da inspiração. Ou, ainda, aquele que ficou o dia cavando buracos sem fim onde só encontrava motivos para dizer que não “teve tempo” ou “não conseguiu”.
Trabalhar exige demais de nós, desconfio até que nem fomos criados para isso. Porém, criar tem algo de divino, nos aproxima desse desconhecido, do que não se explica. Há muito tempo eu tive essa certeza, eu queria criar. Quem cria tem um compromisso consigo mesmo, de busca de uma necessidade interior, e se você não pode ser seu melhor “chefe”, certeza que não está fazendo a coisa certa.
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