De certa forma, vivi um alívio quando soube que o macho lá se viu constrangido (porque é só isso mesmo) ao comprar pão francês. Há anos eu digo que a situação da mulher na sociedade só vai mudar mesmo, na prática do dia a dia, quando vocês, homens, interpelarem os seus colegas machos sobre as violências que eles praticam.
No Gritos do Sul tem uma cena que foi muito difícil de escrever: a discussão do casal à noite, pouco antes de tudo desandar de vez. Há quem não veja nada ali (nem nos demais diálogos do casal), e isso é um sintoma muito claro de como encaramos as violências contra a mulher.
Na última exibição eu estava sentada no meio das pessoas e uma senhora, ao ver aquela cena, exclamou um sonoro “misericórdia!” quando o personagem Eduardo joga a cadeira no chão. A tensão da cena (sou suspeita para falar, mas muito bem vivida pela Ianca e pelo André) me causou mal estar quando a escrevi e todas as vezes que a revisei – ao filmá-la não foi diferente. Ao assisti-la, cada vez, ela me toca fundo.
Sim, o Gritos do Sul é um filme antifascista e tal. Mas, poucas pessoas falam da construção dos personagens e da questão da violência contra a mulher presentes no filme, questão primordial pra mim. Não só por ser mulher, por ser roteirista e diretora mulher, mas por ser mulher que já passou por violência (como todas nós) e que aborda este tema na atuação profissional. Esta consciência e atuação, porém, não impedem que eu continue sendo vítima.
Ultimamente, algumas reflexões fizeram eu me perguntar: se eu não fosse mulher, o Gritos do Sul teria sido atacado como foi? Por que nós, mulheres no exercício da profissão, incomodamos tanto os machos de plantão? Qual o medo que os homens têm de nós?
Não trago respostas.
Quando pessoas públicas, homens, que deveriam trabalhar pelo bem comum (esta é a base da Política) usam seu tempo e recursos públicos para perseguir e atacar uma mulher trabalhadora da cultura, acredito que temos que enxergar a violência que existe e, sim, é uma forma da violência de gênero. Não houve evidências de preocupação real com o bem comum, nada que não fosse mera vontade individual de usar da sua posição de poder para agredir, moral e profissionalmente, uma mulher.
Curioso foi ver, na sequência, homens do setor Audiovisual local também com essa sanha de me agredir, difamando e caluniando. Nenhuma surpresa que todos eram… homens. Eu me pergunto qual o sentimento que faz com que esses homens gastem tempo (ainda o considero o bem mais precioso que temos, meus leitores assíduos sabem disso) fazendo – literalmente – uma campanha contra mim (pessoal e profissional), inclusive fazendo questão de telefonar para as pessoas me difamando. Querem me atingir, de qualquer forma. O desespero por tentar me atacar é medonho, ultrapassa qualquer limite do bom senso (e ganha na vergonha alheia).
Tentar atacar uma mulher no exercício da sua profissão é violência de gênero, agravada quando os agressores são seus colegas de profissão.
Mas, como relatei aqui, não faz muito tempo, os homens têm usado minha profissão para tentar me agredir nos últimos anos. O efeito tem sido contrário. Tanto homens da esfera pública quanto privada, e não tenho desculpas para nenhum deles.
Meu último relacionamento terminou em boletim de ocorrência. Esta é a primeira vez que falo disso publicamente e não entrarei em detalhes porque a situação não se acalmou aqui dentro. Contudo, quando eu soube do pobre coitado que só queria comprar seu pão francês em paz, eu lembrei do sentimento que eu tive ao passar pelo processo de solicitar, pela primeira vez na vida, a medida protetiva amparada pela Lei Maria da Penha. Eu queria contar pra todo mundo, eu queria dizer “aquele ali, sabe?”. Eu não consegui. Até hoje, pessoas do meu pequeno círculo apenas sabem um pouco do que aconteceu, a maioria não faz ideia.
A Fahya é forte, é foda, segura a barra, e isso e aquilo. Agora também tenho ouvido bastante “a Fahya é corajosa”. 2023 veio só com provas de fogo pra Fahya e posso dizer que a frase que eu mais falei foi: eu tenho meus limites. Sim, ser forte não significa aguentar tudo, não. Ser forte é também ter seus limites, eu tenho os meus e conheci alguns deles esse ano. A viciada em trabalho colocou até limites e se deu férias!
Fazer o boletim de ocorrência por violência doméstica e solicitar a medida protetiva me mostrou um desses limites. Por lei eu já poderia ter solicitado em outros casos, todos eles relacionados ao fim de relacionamento que “ele não quis aceitar” (sério, essa expressão me dá revolta, o macho não tem o que “aceitar” no fim de um relacionamento; muito menos a imprensa achar que isso é MOTIVO para matar). Cada tentativa de comunicação indesejada, cada número de telefone trocado, cada bloqueio nas redes sociais, cada mensagem recebida, cada perseguição é violência doméstica. Além dos assédios, inclusive no exercício da profissão que me fizeram calar. Eu já passei por isso mais de uma vez. E a gente acha que é “sempre assim”, e aí um dia a realidade mostra que pode ser ainda pior.
O penúltimo machão usou até a minha família para manter, na cabeça dele, um vínculo que fazia mais de ano que não existia! Não há tratamento para esses casos. Enquanto a sociedade não repudiar com ações esses criminosos, nada vai mudar, tenho certeza. “Ah, mas você defende um linchamento social?” Não. Só defendo que eu e mais nenhuma outra mulher viva o que eu já vivi.
Eu gosto da solidariedade seletiva das pessoas, sabe. Aprendi bastante sobre isso em 2023. Hoje os pensamentos são só sobre esses três tipos de homens que eu citei acima, homens públicos com poder, colegas de profissão e os homens da esfera privada e como todos agem no mesmo nível de violência contra a mulher. Quando é uma famosa da TV é mais fácil o público se solidarizar, enquanto que quando é uma mulher que você conhece e convive pessoalmente, você evita sequer falar sobre o assunto – quem dirá prestar a sua solidariedade.
Aliás, esse é um ponto importante. É legal, sim, prestar solidariedade (no privado ao enviar uma simples mensagem, convidar pra uma conversa e tal; e também publicamente, sabe? faz toda diferença para as vítimas). Porém, solidariedade não basta. É preciso agir, confrontar esses machos agressores. É preciso combatê-los e envergonhá-los publicamente. Por isso eu gostei tanto da história do coitadinho e seu pão francês.
Eu não faço isso só por mim (faz um tempo que entendi que lutar contra a discriminação e violência de gênero não é só por mim), eu faço por cada uma de nós que já passou, passa ou vai passar por situações de violência. Porque a gente não sabe muito bem o que fazer, sabe? A gente entra em desespero, a gente perde o chão, a gente se machuca.
Quando eu decidi tomar uma atitude contra o que estavam fazendo comigo e com o Gritos do Sul, eu não sabia o que fazer. Busquei outras pessoas, conversei, ouvi bastante. E com tudo o que eu fiz e ainda vou fazer eu quero deixar como exemplo para as próximas de nós que passarem pelo que eu passei. Quanto aos colegas, nem me preocupo porque deve ser um sentimento muito ruim o que os leva a tomar essas atitudes e eu espero que eles consigam superar o que os persegue. Só acho triste a vergonha pública à qual eles mesmos se expõem – essas atitudes falam muito sobre eles, não sobre mim.
Na questão privada eu quis contar para as pessoas, não o que tinha acontecido porque não quero falar disso, mas que há a medida protetiva. Porque esse foi mais um que, sem surpresa nenhuma pra mim, usou o meu trabalho para tentar me atingir – e fingir que nada aconteceu com pessoas do meu círculo pessoal e profissional. É assim baixo que um machão desses pode ser. Abram o olho.
Por tudo isso e mais um pouco que a cena da briga da Maíra e do Eduardo me pega tão fundo. Porque esses machos são muitos maridos, namorados, pais, irmãos e estão por aí, agredindo de inúmeras formas todas nós, todos os dias. E quem não pede misericórdia ao assistir à cena é porque já assimilou isso – ou prefere ignorar. Não podemos ignorar nenhum tipo de violência. Nenhum, muito menos a de gênero.
A Fahya é forte, corajosa, taí sempre de pé, feliz (isso deve incomodar demais, né, não sei o motivo), não se deixa abater, sempre encontra um caminho. Só que ela também descobriu que tem seus limites.
Descubra mais sobre fahya.com
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
Deixe um comentário