Em um dia eu vi nevoeiro e sol de rachar, percorri (numa sequência de dias) vários quilômetros, ouvi coisas abomináveis de pessoas que mal conheço (e fiquei quieta), me senti subvalorizada profissionalmente, quase parei na estrada por falta de gasolina porque nem percebi que tinha acabado, desliguei a música (amo dirigir ouvindo música) porque meus pensamentos estavam gritando, eu chorei ao volante em alguma altura da estrada. Eu comi por compulsão para desabafar emoções (o pior dos meus maus hábitos). Elaborei mentalmente listas e listas do que há por fazer. Me atrasei para compromissos e tive que cancelar outro porque o trânsito estava o caos. Minha cabeça e sentimentos também. Culpei a lua vazia da manhã toda, é claro, e ao consultar meu horóscopo ele dizia que era hora de aceitar a quantidade de conflitos instalados na minha vida e bater de frente com as pessoas sem esperar o Destino resolver tudo (quase chorei de novo). Eu ri de mim mesma por criar expectativas e querer tudo, sempre, pra ontem. Pensei 400 vezes no futuro. Lembrei de me dizer: o que pintar, eu assino, poeta, e dou tudo de mim em todos os desafios que cruzam o meu caminho – eu jamais diria as coisas abomináveis que ouvi mais cedo. Diriam que nem sempre vale a pena, mas se me proponho fazer, faço bem feito, com criatividade e sem comodismo – senão, não seria eu. Me espantei com minha maturidade em prever problemas e tive trocas intensas de áudio para que o pior não aconteça. Conversei com o moço sobre o cafezinho da máquina ser viciante e que gosto também das mensagens nos copos, pois, é claro, sou supersticiosa e Destino sempre me manda recados. Fiquei encucada com a forma como uma pessoa está me tratando. Fiquei triste porque há quem não perceba o mal que faz com poucas palavras. Tive instantes de tensão achando que uma desgraça tinha acontecido (o dia parecia caminhar pra isso), ufa! não (aí chorei de novo). Eu sei o motivo de eu estar vivendo esses dias tensos e intensos, não paro nem pra chorar. Eu sempre pago o preço. Por um segundo eu quis ir para o meu esconderijo e fugir de tudo – eu quis mesmo, mas eu decepcionaria muita gente e não saberia viver com esse peso. Fui gentil com quem foi gentil comigo e percebi que minha pressa não adiantaria de nada, não mudaria o dia, o trânsito, nem os astros, não resolveria, à distância, os problemas. Resolvi caminhar para lembrar do que mais falta colocar nas listas, quem sabe encontrar alguma boa nova história para criar e para lembrar de quem preciso esquecer (para tirar do coração não basta uma caminhada). Fui nadar pra colocar a cabeça no lugar. Impávida, encarei a piscina cheia, a raia da parede e a instrutora chata. Anotei para não esquecer que nunca – nunquinha – sabemos o que passa cada pessoa – num dia, num ano, numa vida. Quem sabe os astros tivessem esgotado suas artimanhas e pude voltar pra casa com fome de jantar pipoca e vinho e assistir aos capítulos finais das primeiras temporadas das duas séries que estou assistindo. Os sentimentos? Resolvo outro dia. Amanhã eu sempre tento de novo.
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