Meu cinema é político

Sentada na varanda com o olhar largo ao quintal, tomo café e ouço samba numa manhã de domingo.

Mudanças profundas são aquelas que deixam ver quem sempre fomos. São os períodos mais felizes de dar voz às verdades inerentes do nosso caráter.  

Vejo o discurso enganoso de quem diz que é contra o sistema e vive dele, se alimenta dele, recebe seu salário dele e, como a vida não é bobagem, o faz crescer e se multiplicar. Não, meu amigo: não existe isso de lutar contra o sistema estando dentro dele. Você assinou o contrato, você recebe o seu quinhão sobre a exploração e a mentira. Nós não somos iguais.

Já desde sempre eu soube que meu cinema é político. Curioso. Muito curioso que só recentemente eu disse isso com todas as letras – e feito criança feliz passei dias e dias a repetir isso em qualquer oportunidade que se apresentasse. Meu cinema é político.

Por isso que nunca fiz nem faço publicidade ou propaganda – eu faço cinema. A propaganda é a língua (vil e assassina) do fascismo e do sistema. Eu faço cinema.

Nessa toada precisamos deixar muito claro de qual lado da trincheira estamos – e quem está ao nosso lado. Do lado de cá da trincheira não rola high society, première, contos de fadas com famosos, salários de cinco (e mais) dígitos, a vida editada das redes sociais, a falsidade dos sorrisos e abraços, a ânsia por posar ao lado você sabe de quem. O lado de cá da trincheira é feito de verdade e ação. O discurso nós deixamos para vocês.

Sou da paz e tenho vivido a mais singela paz que a vida poderia me oferecer. A paz de quem lê poesia todos os dias. De quem dia ou outro escreve versos para afugentar a morte e tecer a memória. 

O conto seria o gênero literário mais contra o sistema possível – porque, como diria um velho professor, ninguém entra numa livraria para comprar contos. Porém, sim, somos alguns poucos, mas o conto é contra o sistema porque ele quer dar o soco no estômago. Em gênero literário a poesia não é contra o sistema porque vende (sim, poesia vende), porém, a poesia enaltece o olhar, a pausa, o respiro. O mundo que destrói e vilipendia nosso futuro se aborrece com quem respira e para tudo para olhar. Ponto para a poesia.

Contudo, o troféu da luta contra o sistema vai para o curta-metragem. Mais desmerecido e desprezado do que ele não há. E é exatamente ali que o soco no estômago do conto se encontra com a ausência de recursos e viver à margem do comércio e do lucro. É o discurso à margem do sistema por excelência. Quem só se utiliza do curta para acessar ao sistema do cinema industrial são as pessoas que estão – e sempre estiveram – do outro lado da trincheira. Nota: não são só eles que estão do outro lado da trincheira.

Deste lado da trincheira a paz ergue muralhas que nos protegem de todo mal. As flechas que nos lançam, os tapetes que puxam, as traições sussurradas pelas costas se voltam contra seus autores. A paz de quem está do lado de cá da trincheira não se abala.

Sei bem que o grego lá disse que tudo o que fazemos é político. Antes mesmo de conhecê-lo eu me guiava por isso. Já ensinei muito que nosso discurso também é ação. Estar no mundo só é possível enquanto ser político. Choices. Suas companhias e suas escolhas me dizem quase tudo que preciso saber sobre você.

Meu cinema é político. Meu quintal é político. Meu cinema é o meu quintal.


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