Está faltando paixão

Dizia Rousseau, um romântico incorrigível até o final dos seus dias, que a palavra nasceu da paixão. Quem nunca pensou, por alguns minutos, como o ser humano desenvolveu a capacidade da comunicação, quem foi, afinal, que por primeira vez criou uma palavra, deu nome às coisas, bom sujeito não é. A curiosidade faz de nós melhores pessoas.

Eu amo a curiosidade. É parte fundamental da minha essência. A curiosidade me leva a rumos inesperados, à aventuras deliciosas, à surpresas inusitadas. A curiosidade garante meus sorrisos dia a dia. Por vezes, me garante dias e dias de reflexões.

O ser humano que não pratica a curiosidade vive numa prisão. Dizem que a curiosidade faz parte da infância, quando estamos descobrindo o mundo. Na primeira série lembro de ter lido um dos meus primeiros livros: A curiosidade premiada. Então, de alguma forma, os curiosos carregam consigo a beleza e leveza da infância. Mas, também, tenho que discordar. Todo dia é dia de descobrir o mundo. Ledo engano daqueles que acreditam já conhecer tudo sobre o mundo. 

Voltando, contudo, ao Rousseau, além de já ter pensado várias vezes sobre este fenômeno (do qual talvez nunca tenhamos certeza) da origem das palavras e comunicação entre os seres humanos, fiquei dias pensando na proposta dele. 

É a paixão que nos faz explodir em palavras.

Vejam bem, em tempos de tantos conselhos virtuais sobre ser blasé, ignorar, mandar um joinha apenas, fingir que não leu, fazer que esqueceu, eu volto os olhos para a paixão. Já diriam alguns punhados de filósofos que é, afinal, a paixão que nos move (têm os defensores de que devemos equilibrá-las, outros dizem que devemos controlá-las, não há consenso: ainda bem). Talvez o mundo ainda precise de mais paixão.

Claro, nem preciso esclarecer que, quando falo de paixão, não me refiro somente à paixão romântica e sexual. A paixão é a força que nos move internamente. Pode ser, sim, a paixão do desejo físico por outra pessoa. Pode ser a paixão da ira, da revolta, da raiva contra outras pessoas, suas atitudes, ou injustiças, por exemplo. É uma força que vem de dentro.

E na corrente contrária a esse mundo virtual que quer restringir nossas vidas e sentimentos em caixas de milhões de vídeos que não nos dizem nada, eu acredito que é preciso seguir as paixões.

Tem nada que fingir que não leu, deixar pra lá, dar joinha, não. Na vida real, no tête-à-tête a relação entre as pessoas é diferente, lembram? É preciso ter coragem, curiosidade, olho no olho. A vida online deixou tudo tão fácil para os covardes. Por isso, se abarrotam as recomendações de que a gente finja que não está nem aí e que as paixões estão mortas.

Eu gosto da vida real, do olho no olho, da palavra na cara, da pele na pele, das intenções sem script de vídeos e posts de rede social.

Consigo imaginar as pessoas criando as primeiras palavras. O grunhido que se transforma no aviso de perigo à pessoa amada que está diante de um risco e não vê. O grito que se torna uma imprecação ao estourar o pé em algum obstáculo (teriam os palavrões sido algumas das nossas primeiras palavras?). As palavras mais carinhosas nascidas dos gemidos na hora do sexo. A mãe sussurrando a canção de ninar para acalmar seu bebê.

A paixão é a origem da comunicação entre os seres humanos.

Assustador ver o mundo silenciado – as pessoas estão perdendo a capacidade de comunicação. Elas não conseguem mais se expressar nem, muito menos, dizer o que sentem. Elas têm consumido tanto “conteúdo” o dia inteiro que sequer percebem quais paixões são as suas, quais paixões atravessam o seu ser – quais sentimentos e sensações as fazem explodir em palavras (boas ou ruins).

Nessas horas até agradeço por ser uma pessoa descontrolada. As paixões me movem, sim. Fico feliz com isso toda vez que encontro mais um ser humano insípido, silenciado, desapaixonado, que tem medo da curiosidade, que se omite às presenças reais. 

Ao praticar a comunicação aprimoramos as relações humanas, aprimoramos nossos sentimentos, construímos o dom de amar e ser amados, descobrimos como cada ser humano é um universo, um quebra-cabeça. A curiosidade sempre me moveu para perto das pessoas, dos lugares, da vida e do mundo em busca de cada peça que vai se encaixando nesses quebra-cabeças. Não tenho medo do que encontro. Há tempos prego a importância da comunicação e, quem diria, em tempos de tantos dispositivos que usam de tecnologia para supostamente melhorar a comunicação no planeta percebo que nunca nos comunicamos tão mal. 

A paixão é melhor do que toda essa tecnologia junta. Tenho como provar.

A paixão é a melhor forma de comunicação, sim. 

É transbordar as emoções em voz, gritos, gemidos, explosões, sussurros e olho no olho. 

Ao vivo. Presencial. A vida, aliás, só existe no presencial. 

(pandemia, um dia te superaremos, talvez) 

Porém, ao encontrar essas pessoas que não sabem mais se comunicar, que a paixão transborde em palavras frias numa tela. Às vezes, o recado será dado. Silenciar jamais.


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