O passado é pedra

Como se a realidade escorresse pelas mãos

sem chance ou oportunidade de impedir o tempo

e as ausências de permanecerem.

Nada é palpável.

Os pés fixos no chão como se cimentados

na realidade apodrecida de dias embolorados

o ar embolorado a alma embolorada.

Somente a umidade persiste.

Primaveras chuvosas e o sol esse resquício

de respiro em um ou dois dias ao longo de semanas

penitenciam as vidas que querem sorrir.

Os rostos sebosos de cinza.

Quiséramos mudar os céus e ver as luas cheias

os quartos fechados os laços desfeitos

os rios cheios e os guarda-chuvas quebrados.

Maltratada a mágoa dos rancorosos.

Mentiras caem de aviões por toda cidade

memórias rasgadas experiências traumatizadas

banham a verdade de poucos corajosos.

É preciso resistir aos assédios e violências.

De queixo erguido enfrentamos quem bate

sem vergonha de dizer que sobrevivemos

aos golpes atrozes ao desprezo ao susto

à perseguição à manipulação ao medo.

A única tristeza intensa que palpita é não vermos o sol todos os dias.

O passado é pedra ao mar tanto bate até virar areia

a fazer sorrir crianças nas brincadeiras.


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