Uma dor no pescoço hoje me pegou de jeito, como fosse a lembrança de sonhos estranhos sobre criaturas não identificadas encontradas na mata em noite escura. Nem pesquisei o significado do sonho, desta vez, pois decidi que não queria saber. Sim, pra quem pensa demais, decidir não saber é um bálsamo.
Um bálsamo: como uma canção gostosa inesperadamente a qualquer momento do dia; como o sorriso a caminhar pelas ruas à lembrança de uma provocação indecente; como olhar perdido no horizonte do rio que deságua no mar; como as palavras que querem dizer ou talvez não digam; como o banho quente e o gole de cerveja gelada. Um bálsamo como mergulhar na água fria em dia quente, um dos meus preferidos.
Readaptar o corpo e a cabeça para diminuir o ritmo, confiar mais em si mesma, dar aos céus o que não está mais ao seu alcance e respirar. Desacelerar, talvez. Dialogar com a cabeça que sempre pensa demais e se cobra mais ainda que nem tudo é tão importante assim.
A dor no pescoço virou motivo para um alongamento cheio de flerte e doçura. Perder a oportunidade por quê? Colocar pra tocar uma dúzia de sambas sensuais foi a solução para girar o pescoço e o corpo até que a dor fosse embora – se foi, nem lembro, porque os pensamentos entraram nos versos e viajaram até onde não deviam (mas queriam).
Os problemas se acumulam em listas e mais listas e prazos apertadíssimos sobre a mesa. Decidi não me preocupar. Nada é mais importante do que a paz de quem fez sua sopa, cortou suas frutas, ficou de chamego com seu cachorro, caminhou pelas ruas fotografando flores e árvores em busca de identificá-las – sim, hoje isso era o mais importante.
Prioridades: cozinhar ouvindo música; caminhar sem rumo ou destino; ouvir as conversas alheias em busca de ideias e histórias; suspirar em busca de inspiração; pensar em “como seria” se eu fosse uma pessoa diferente e sempre concluir que não é uma boa ideia; catar vírgulas e silêncios e espaços para criar teorias mirabolantes; escrever continuamente e se auto-elogiar; ler tudo aquilo que me puxe para a realidade dura, difícil e dolorida; jogar um jogo perigoso com a ilusão.
A cada braçada eu me sentia ainda mais disposta. Parar nunca foi uma opção. A decisão de saber menos e de me importar menos é o caminho mais acertado porque o peso de ser mulher, de ser artista, de viver daquilo que tanto amo que é criar, de criar o que incomoda quem prefere só reafirmar suas certezas, de ser livre, independente e feliz superou o que eu quero pra hoje.
A cada braçada o bálsamo da água fria lavava meus sonhos e me fazia respirar intensamente minhas prioridades: pra hoje só tenho eu. Tanta confiança e garantia tiveram o respaldo do maiô novo, eu desconfio. O sol, o vento, o som dos pássaros e as risadas embalam a volta pra casa e penso que esse pescoço ficará feliz ao voltar para o travesseiro, alta madrugada, e escolher nosso mais novo sonho.
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