Na frente do posto da polícia militar

Uma cidade pacata, litorânea, janeiro. Sol, calor. Ela correu. Tentou alcançar a segurança. Ela viu os olhos dele e correu. Estava a alguns passos, uns dez ou menos, da entrada do posto da polícia militar. Não conseguiu. Não deu tempo. Não teve tempo de vida de dar menos de dez passos para salvar a própria vida. Ela só tinha a si mesma e a sua força para salvar a própria vida. Ninguém veio salvá-la. Ninguém nunca viria salvá-la. Ela levou um tiro e caiu a menos de dez passos do posto da polícia militar de Santa Catarina, em Piçarras. 

Ela morreu com um tiro. Ele era condenado, todo mundo conhece a história, medidas protetivas, prisão, denúncias, boletins de ocorrência, medo, tensão, desespero, prisão, liberdade para o criminoso. Não, não, nada de diabo ou possuído ou doente. Um homem. Somente um homem. Sempre um homem. Quase sempre um homem muito próximo, em quem ela confiou, em quem ela acreditou, com quem ela dividiu a vida e a intimidade. Um homem. Um homem, sim, como todos os outros.

Ela não foi a primeira, nem será a última. Ela não foi nem mesmo a primeira do novo ano – mal estamos na metade do primeiro mês do ano. 

Ela, o corpo sem vida, caído diante da porta do posto da polícia militar de Santa Catarina. Um tiro matou-a em segundos – nem chance de ser socorrida. Morta. A vida que já foi – profissional, ser humano, mulher, mãe, irmã, filha, tia – e a que nunca mais será ali no chão. Matá-la era o objetivo, finalizado isso, estava resolvido. Matá-la. 

Matar, estuprar, agredir, assediar, tirar vantagem econômica, violentar, impor força e medo, submeter à agressões psicológicas, humilhar, manter sob vigilância, controlar, vigiar, punir, se vingar… os objetivos dos homens, somente homens comuns normais, em relação às mulheres.

Você já viu, certeza. Você, se mulher, já foi vítima, certeza. Você, se homem, já praticou, certeza absoluta. Você nunca fez nada, se fez, foi pouco. Sempre fizemos pouco.

Novembro, feriadão na Ilha da Magia, solzão e vento delicioso. A Lagoa do Peri convidativa no meio do caminho. A água do mar chamando para umas braçadas. Nós, mulheres que amamos a água, tínhamos um destino certo naquela manhã. Na Lagoa do Peri, levo um susto, carros da polícia militar passam a toda velocidade em direção ao sul da Ilha – era meu destino naquele dia, mas, por obra do acaso a paz da Lagoa do Peri me chamou, ali no caminho. Eu e meus pensamentos: algo grave no sul, ainda bem que parei aqui.

Nem todas nós, mulheres que amamos a água, chegariam ao seu destino naquela manhã. Ela não chegou. Ela saiu de casa para fazer o caminho que sempre fazia para nadar no mar, na praia que não se vai de carro. Nós, mulheres que amamos a água, gostamos de ir à praia pelo caminho do costão, por caminhos que nos deixam mais próximas do mar. Ela não chegou até a praia.

O corpo sem vida, jogado, escondido no meio do mato. Aquele corpo não sentiu o mar naquela manhã, não sentiu-se feliz e vigoroso com as braçadas naquela manhã de vento sul que em nada atrapalhava o mar daquela praia protegida pelo morro.

Ao lado era a praia para onde eu ia, se tivesse seguido o planejado no desjejum daquele dia. Nem todas, todos os dias, chegam ao seu destino. Nós, mulheres, não somos donas do nosso destino – caso nosso destino cruze com um homem, somente um homem.

Basta um homem para acabar com as nossas vidas.

Horas depois eu vi a história dela que não chegou ao destino. Dias depois ela não me saía da cabeça. Horas depois eu saí sozinha à noite para me divertir. Eu ia para o carnaval fora de época e naquela noite um pedaço de mim não conseguiu ser feliz e se divertir. E não é assim todo dia para nós, mulheres? Sempre há um pedaço de nós que não consegue desligar, distrair, ser feliz, relaxar. Sempre há um peso: ser mulher. 

Basta um homem, somente um homem comum, para colocar nossas vidas em risco.

Na frente do posto da polícia militar ela estava morta. A cena não me sai da cabeça. Simboliza tanto tudo o que Santa Catarina significa na luta contra a violência e morte de mulheres. Santa Catarina mata mulheres e estamos morrendo em frente ao posto da polícia militar.

Numa reportagem sobre ações contra essa matança que tem acontecido no Brasil, o Distrito Federal mostrava uma sala onde eles mantém monitorados todas as medidas protetivas, com um GPS com a vítima e uma tornozeleira no agressor. Parece tão simples, não é? 

Na mesma reportagem elencavam dados de quando há mais “probabilidade” dos casos de agressões e mortes acontecerem: finais de semana, dias de festa/feriado, final do expediente. Ora, porque é quando o homem, somente um homem comum, tem seu tempo livre, de descanso, por vezes bebe. Também no final do ano surgiram alertas nas redes sociais sobre ser um período de aumento dos casos de agressão e mortes. Ora, porque o pai, o marido, um homem, somente um homem comum, está com mais tempo para a família, para a namorada, para aproveitar a vida. E matar, agredir, humilhar.

Ora, então eles só não fazem isso quando estão “ocupados”, digamos, trabalhando, por exemplo. Ou seja, os períodos de “maior probabilidade” de agressão e morte é sempre, para as mulheres. Sempre que os homens estiverem por perto.

O terror, até de campanhas que tentam ajudar, orientar, esclarecer. O terror: é fim de ano, fiquem atentas, eles agridem e matam mais nesse período. O terror: à noite, sábados e domingos, fiquem atentar, eles agridem e matam mais nesse período. Mas eles agridem e matam no nosso horário de trabalho. Mas eles agridem e matam numa terça-feira qualquer. Eles agridem e matam, fiquemos atentas – o tempo todo.

O boletim de ocorrência. A medida protetiva. Comunicar as pessoas ao redor. Receber ameaças. Ser desacreditada. Sentir vergonha. Lembrar cada detalhe, cada sinal. Reviver cenas e se justificar para si mesma. Andar com o papel da medida protetiva no bolso até quando vai só até a esquina comprar pão. O “botão do pânico” no aplicativo da polícia militar. Meses e meses, anos. Quando ele some, passa o prazo da medida protetiva, não dá motivo para renová-la. Mas, não duvide, ele não vai nos deixar em paz. Um homem, somente um homem comum. Nem pensem que após a denúncia, o processo, eles reconhecem, ficam com medo, de fato se afastam. Talvez seja até pior. Um homem, vocês sabem, não tem medo. Um homem ressentido no seu poder falho de macho e afrontado por uma mulher que expõe sua violência, seus erros e sua frustração como homem deve responder à altura. Eles foram educados pra isso, não? 

Eu denunciei uma única vez – tive motivos para denunciar outras quatro vezes, pelo menos. Vivi seis meses com medida protetiva. Em setembro de 2023 eu vivi esse pesadelo que havia começado meses antes. Fiz o boletim de ocorrência e a única atenção do Estado de Santa Catarina que eu recebi foi da Polícia Militar que foi até a minha casa, me instruiu, me mostrou como usar o botão do pânico e uma mulher policial militar me disse: não sinta vergonha, você não tem culpa. 

Em Joinville eu nunca recebi nenhum atendimento, no CRAS eu fui e me disseram que não tinham horário e profissionais, não davam conta da demanda. Era setembro de 2023. Em novembro de 2025 entraram em contato porque estavam vendo a agenda para ver se me atenderiam. Novembro de 2025. Não pensem você que ele, um homem, somente um homem comum, me deixou em paz nesse período. Nenhum atendimento à vítima de violência contra mulher foi prestado pelo município de Joinville. Nenhum. O único atendimento do Estado de Santa Catarina foi o da Polícia Militar e a medida protetiva da juíza.

A juíza, uma mulher. A policial militar, uma mulher. As vítimas, nós mulheres. 

Em Santa Catarina as nossas vidas não são uma questão de Estado.

Em Joinville as vidas das mulheres não importam.

As vítimas que se virem, que superem, que tentem se salvar. Nada.

Não adianta fazer campanha pra gastar dinheiro em panfleto, cartaz e propaganda na TV. Isso é só pra se auto-propagandear. A prefeitura pôs sua logo lá, tá tudo bem. A prefeitura de Joinville não faz nada pelas vítimas.

2020, pouco antes da pandemia. Bolsonaro eleito. Volta das aulas. Na sala do sétimo ano eu sofro um assédio que nunca imaginei na vida. Sétimo ano, estudantes de 12 ou 13 anos. Um aluno se masturba durante a aula, com os olhos fixos em mim. Eu tento contornar a situação e só consigo pensar em não deixar que nenhuma menina vejo aquela cena nojenta e revoltante. Eu tento contato com a coordenação do colégio particular, conservador, rigoroso, que persegue seus professores nas redes sociais e nos corredores. A coordenação já tinha ido embora. Ele vê que eu vi, ele continua. O rosto transfigurado. 

Um homem se masturbar é estupro. Qualquer mulher sabe disso, mas as leis são feitas por homens. Um homem, somente um homem de 12 ou 13 anos, comum. O mesmo que havia despertado comentários de desconforto de uma colega, em reuniões de professores. Um homem, desde cedo um homem.

A aula termina. Os alunos saem. Ele volta. Ele tenta me beijar. Eu recuo, eu me posiciono, me defendo. Saio da aula enojada, revoltada, estupefata. Ninguém na coordenação. Entro no carro em choque. Mal consigo contar para o meu namorado que, naquele dia, foi me buscar. Ele faz pouco caso. Ué, é a vida. Toca em frente. Chego em casa e mando um e-mail pra coordenação.
Dia seguinte, sou desacreditada, querem provas, confissão. Eu digo que não estou em condições de entrar em sala – o pânico me domina. Ora, deixe disso, pode entrar. Eu mesma já passei por isso, mas era em pré-vestibular. A coordenação, agora presente, diminui meu trauma. Eu digo que preciso avisar as colegas. Ora, não, não queremos te expor. A coordenação pensa no meu bem. Claro. 

Um homem sempre será protegido. Confrontam o aluno, ele nega. Chamam o professor de educação física, de homem pra homem ele confessa. Homens, claro. Todo homem sabe o que é precisar bater uma punheta quando vê uma mulher. Eles se entendem.

Vamos proteger o agressor. Deixar a vítima sem atendimento, sem apoio, sem nem tempo de processar o trauma. Vá trabalhar, entre em sala, trabalhe como se nada tivesse acontecido. Ele teve três dias para ficar em casa – jogando videogame e se masturbando.

Santa Catarina, Joinville, as instituições, a Justiça, muitas mulheres, mães, os homens (sempre eles, não é?) protegem os agressores. Sempre. 

As mulheres, gostem da água ou não, morrem. São estupradas, violentadas, humilhadas…

2026, ainda me recuperando de tantas violências. Vou a uma entrevista. O entrevistador me chama atenção. Conversamos online. Saímos. Ele é um abusador e agressor de mulheres e eu sou mais uma vítima. Eu demoro para entender. A situação toda ainda nebulosa na minha mente. Eu conto para algumas pessoas, sinto que preciso alertá-las sobre ele, sinto que é um pedido de ajuda – mais uma vez. Sim, um homem, somente um homem comum concursado da câmara municipal de Joinville e que atua como artista visual, até expõe em projetos financiados por editais públicos, um brother. Mais um homem agressor de mulheres. 

Comum, não? Chato até. Vira a página. Fala sobre outra coisa.

Sempre um pedaço de nós que não está em paz.

O posto da polícia militar. O corpo sem vida. Nossas vidas todas ali na poça de sangue.

Ninguém evitou, ninguém fez o que deveria ter sido feito.

Um homem. Somente um homem comum. Sempre um homem.

Esta noite tive um pesadelo. O pesadelo tem sido recorrente. É sempre com um namorado que eu tive aos 20 anos. O primeiro caso que eu deveria ter feito boletim de ocorrência pela perseguição, pelo assédio, pelo inferno que eu vivi – a Lei Maria da Penha nem existia. O pesadelo é que ele está próximo, ele quer voltar, ou nós voltamos, e eu estou sempre em desespero de fugir daquela situação. Para eu nunca mais esquecer. Porque um pedaço de nós nunca está em paz.

Os homens são homens desde muito antes da Lei Maria da Penha. Eles sempre nos mataram. É a verdade mais difícil de entrar nas estatísticas.

Banheiro da escola. Primeira série. Sete anos. Saí correndo da aula de educação física e entrei no banheiro. Eu fugia. Eu fugia de um menino. Gustavo com sobrenome alemão. Ele queria namorar comigo. Ele queria me obrigar a namorar com ele. Ora, ele comprou um anel com um coração pra me dar – eu tinha que aceitá-lo como namorado. Sete anos. Eu fiquei escondida no banheiro. A minha amiga conversou com ele na porta do banheiro. Ele foi embora, deixou o recado e o anel. Era pra eu namorar com ele – ele me perseguia em qualquer espaço fora da sala de aula, por isso eu corria pro banheiro, não saía da sala no intervalo (hábito que levei pro resto dos meus tempos de escola), saía correndo quando batia o sinal. 

Ela me perguntou o que fazia com o anel. Quer pra você? Fique. Eu nem olhei. Ele viu o anel no dedo dela. Ele fez da minha vida um inferno naquele ano. Agressões verbais, mexericos, indiretas. Um homem ressentido e rejeitado é um homem, somente um homem. 

Nas escolas, em casa, nas ruas, na frente do posto da polícia militar. 

Todos os dias, a qualquer hora. Sempre um homem. Somente um homem comum.

Há dias que nenhum pedaço de nós, mulheres, está em paz.


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