Je prenne mon temps
Entre les voyages
et l’espoir
J’ai besoin d’un sort:
savoir oublier certaines choses
comme une machine
Mais
Je ne suis pas une machine
Je suis sang et désire et
une appréciable volonté
je ne pense jamais
Et je suis ici
Au bord de la rivière
Avec mon temps
et mes yeux contemple
l’eau, les animaux
je sente les bruits de l’humanité
et le doux vent
raccorde mon feu
je suis vivre !
À la bord de la rivière
Je ne pense plus a toi
O mundo precisa de amor
O segredo sempre foi fazer tudo com amor. Quem me vê andar pela rua com um sorriso no rosto, saiba que ele vem de dentro. Aos que me retribuem com um cumprimento ou com outro sorriso, que bom que sabemos que o mundo precisa de mais sorrisos e amor.
Com amor eu respondo aos que me traem, àqueles que se lambuzam na maldade e no veneno, a quem manipula e usa as pessoas e a mim. Não serão vocês, com seus ressentimentos e tantos corações mal resolvidos, que vão tirar isso de mim. O mundo precisa de amor. O resto eu deixo pra vocês.
Apesar de eu sempre falar que o segredo é o amor, fica a questão: então não é mais segredo. É segredo, sim. Porque eu conto que esse é o segredo, mas não conto como se faz.
A importância de fazer tudo com amor é saber respeitar as pessoas, saber que nós nem desconfiamos quais são as cruzes que os demais carregam – porque cada um de nós tem suas cicatrizes, suas dores, suas experiências, seus medos, suas inseguranças. Fazer com amor é fazer com responsabilidade. Enquanto pessoas que vivem em sociedade, nós somos responsáveis com as emoções e os sentimentos dos outros a partir das nossas ações. Esse mundo ególatra em cada um confinado no seu umbigo (e nos seus celulares) parece ter feito as pessoas esquecerem disso e, obviamente, perderem a noção de como lidar com seres humanos de verdade.
O mundo, o patriarcado, o machismo e misoginia estruturais não exigem que vocês, homens, sejam pelotudos e prezem pelo distanciamento e pela covardia. Para muitos, a frustração e o ressentimento incitam esse desprezo pelo cuidado com as pessoas e o que elas sentem.
Por isso, é um segredo como viver o amor em tudo que se faz – apesar de tudo isso. Podem copiar as atitudes, podem copiar as ideias, podem fingir, podem se afastar: jamais saberão como fazer tudo com amor.
Tenho pensado muito nisso: o amor assusta. Quem vive o amor dá medo em quem não sabe o que é ser amado. Lamentavelmente, gerações e gerações têm crescido sem amor. A pessoa entra em choque ao ver que não faz quase nada com amor na própria vida. Bate o desespero.
Pensei em como, ao longo da História, vimos o poder e a força do amor, nas grandes histórias, nos monumentos construídos por pessoas apaixonadas. Hoje, no máximo, acham que amar é publicar foto junto no perfil da rede social. Em dois segundos é possível apagar a foto, não canso de lembrá-los.
Sempre acho curioso ao ouvir, dos homens, que “não tenho nada a oferecer” quando se interessam por mim. Eu não sou um produto que precisa ter “algo em troca” (escambo) nem vivemos nos séculos passados quando precisavam pagar um dote. Os homens, imersos nas suas inseguranças, acham que precisam “comprar” o que uma mulher sente por eles, ou o tempo que ela lhes dedica, ou mesmo a minha atenção ou interesse. Eu sei que relacionamentos (e muitas mulheres) vivem objetivamente e focam em questões práticas da vida (não é o meu caso). O amor está nos detalhes, está em entregas sinceras, está na vida livre. Quem não é livre, não ama.
Assim que temos hordas de homens com tanta facilidade em passar o endereço de casa, mas que não conseguem falar sobre o que sentem. Ainda mais nos dias de hoje, que precisamos estar alertas sobre golpes e tudo mais, dar o próprio endereço é algo arriscado. Também não se aconselha fazer isso por inúmeros motivos. Quem é livre e sincera não quer o seu endereço nem saber o seu salário ou o que você tem a oferecer. Quem é livre e sincera se aproxima, ouve, se importa. E isso assusta.
Foi fácil aprender que quem guarda o segredo de fazer tudo com amor está exposta a muitos ataques. Porque isso não dá pra copiar. Porque isso não dá pra fingir. Levou um tempo para aprender que pessoas que fazem tudo com amor têm o super poder: suas vulnerabilidades.
Nos atacam e tentam machucar justo naquilo que temos de melhor: a sinceridade do que vivemos. Jamais me juntarei ao ressentidos e frustrados a fingir na vida. Minha vulnerabilidade é meu super poder e quem abusa disso é que terá que acertar as contas com a própria consciência. Eu continuo livre para amar – para me doar, me entregar, para viver.
Novo espetáculo
A data não foi anunciada
O público aguarda ansioso
O palco estava pronto
E então apagaram-se as luzes
É nova temporada do show!
Frisson e burburinhos
(Muito se fala, muito sempre se falou)
Ninguém conhecia o novo repertório
De novo, ela só
No palco todo seu
Foram meses de ensaios
Exaustiva preparação física
Ela se dedicou muito para voltar ao palco
da sua vida
Cuidado aos desavisados:
Não devolvemos o valor do ingresso
Para quem se iludir
há sempre quem compre o ingresso com base nas suas expectativas
Ela não sobe ao palco para cumpri-las:
seu show é exclusivo e único,
como sempre soube fazer
Ela apresenta novas técnicas de interpretação e sedução
Tirou velhos números do repertório –
e nunca mais os apresentará
trocou figurinos
descalçou os saltos
bem, não queremos antecipar
O novo espetáculo é único
de quem já pisou nesses palcos
por longo tempo
e, por isso mesmo,
sabe tão bem entreter e entregar(-se)
As críticas enaltecem
como ela mantém o brilho
(dizem que assombra a plateia)
O segredo permanece:
quem paga (caro) pelo ingresso
não conta a ninguém
e jamais esquece
É ela toda revivida nos seus melhores papéis
um espetáculo de tirar o chapéu (não somente)
um show que marca o início de uma nova temporada
um festival de deleites e prazeres
para um público exclusivo
Danem-se as pedras
Ali, então, entrou uma mulher. Todos sabiam o que ia acontecer: seria apedrejada. Este costume ancestral, uma tradição passada de geração em geração, era imediatamente colocado em ação.
Onde quer que uma mulher ouse entrar, ela será apedrejada sem um milésimo de segundo de dúvida antes da ação.
É o peso da realidade que carregamos no lombo. Um corpo por vezes cansado, exausto das tentativas e ciente das oportunidades que nos escaparam porque somos quem não querem que sejamos.
Somente uma mulher para mudar tudo. O medo lança as pedras.
Mesmo quando somos procuradas e convidadas para adentrar naquele espaço – seja público ou privado – somos condenadas por não seguir o modelo que esperam de nós. Uma mulher só pode ser uma mulher.
As pedras são lançadas sem dó, sem piedade, sem justiça.
As pedras nos atingem – muitas aprendem cedo onde podem e onde não podem entrar e assim seguem suas vidas o resto dos seus dias.
Outras, bem poucas, ignoram os roxos na pele e as cicatrizes e em algum momento partem para chutes e empurrões de portas e janelas. Vai doer mais para as pedras.
Danem-se as pedras, pois elas continuarão a ser lançadas. Por todos, em cada lugar onde uma mulher ouse entrar.
Imenso
Imenso
o viver
Sob o céu azul
meus desejos
Sob a pele
pequenas e grandes cicatrizes
Pairam às margens
o caos e a cacofonia
Nem tão firme
Nem tão forte
passos sem cessar
Imensa
destreza
Abraçar cada dia
a si mesma
Sorrir inúmeras vezes
ao desconhecido
em vertigem
Colocar os dois pés
no chão ao lado da cama
com confiança
Dar adeus
sem palavras e
sem remorsos
Imenso
o prazer
Escalda a alma
um suspiro com gemido
Cortam feroz as regras
e o juízo
Arrancar erva daninha
onde jaz o corpo
do amante enterrado
Cultivar raízes fortes
de experiência e paz
Imensa
a sabedoria
É alto o preço
da humildade
Querem cobrar multa
da sinceridade
Para a vítima
a vingança se faz tentadora
Em resposta à mentira
recomendo a espada afiada
Juntou o que nada tinha, pensou recuperar-se à beira-mar, ainda idealizou (essa doença incurável dos bons corações) por alguns dias, caminhou até deixar os calçados estropiados pelas esquinas de rosas que nunca soube o nome.
Vivia de compor e criar e ver o mundo (sempre se surpreendia). Sua força seduzia quem queria dobrá-la – nenhum conseguia.
Há sempre que tomar cuidado com dentes e unhas.
Consumir arte e cultura define caráter
Um capítulo inteiro da série The Studio gira em torno da discussão entre o produtor de cinema e médicos sobre quem é mais essencial para a sociedade. Salvar vidas é importante, claro, mas, de certa forma, cada um faz da sua maneira. Quantos filmes já salvaram vidas? O produtor chega a dizer: quando entrar no quarto de hospital e estiver lá sem nenhuma esperança e com dor, você terá uma TV com filmes ao seu alcance.
Lembrei deste capítulo enquanto pensava sobre como consumir cultura e arte deveria ser ato cotidiano. Além de ser quem produz arte, também produzo e frequento eventos de arte e cultura e tenho refletido bastante sobre esse consumo. O verbo consumir não me atrai, mas, como vivemos numa sociedade consumista, é bom adotá-lo. O consumismo é a base do capitalismo e arte e cultura não são entretenimento nem lazer para serem consumidos do ponto de vista da produção capitalista – é bom deixar essa definição explícita de largada. Você consome entretenimento todo dia, seja no streaming, nas redes sociais, etc. Você consome lazer em parques de diversões, shoppings, viagens.
E como anda o seu consumo de arte e cultura?
Vejo muitos eventos de arte e cultura que sempre precisam discutir as ações de “formação de público” e como chegar ao público. Bem, vejam que produzimos arte e cultura com foco em formar público para os eventos de arte e cultura. Ou seja, eu preciso ensinar as pessoas a consumirem aquilo que é produzido e ofertado (muitas vezes gratuitamente) à sociedade. Além disso, muitos desses eventos não conseguem atrair o público local, as pessoas simplesmente não vão aos eventos – ou, quando muito, vemos os mesmos de sempre, normalmente outros produtores de arte e cultura.
Por que as pessoas não vão aos eventos de arte e cultura da sua cidade? Por que elas facilmente trocam aquele evento – que muitas vezes é sobre temas com os quais elas se importam, ou produzido por pessoas que elas conhecem – por qualquer outra atividade cotidiana?
Com a experiência de produzir arte e cultura percebo que a atividade de consumi-las é sempre relegada a segundo plano, algo de menos importância na sua formação e agenda. Se você for ao shopping numa quarta-feira à tarde, verá que muitas pessoas estão lá. Se for num supermercado num dia de semana de manhã ou pela noite, também. A academia ao final do dia vive cheia. As pessoas reclamam quando as atividades de arte e cultura não são exclusivamente aos finais de semana, em horários fora do “horário comercial” e até mesmo quando é dia de semana no período da noite (tem quem estuda e tem quem diz que é o horário de descanso pós trabalho).
Mas, afinal, quando, na sua agenda, está planejado consumir arte e cultura?
Por que não temos o hábito de consumir arte e cultura da nossa cidade – como vamos ao shopping, ao supermercado, à academia, ao bar, à igreja? Por que os eventos de arte e cultura precisam se descabelar com ações para educar o público a frequentá-los? Por que os eventos culturais precisam ser em dias e horários destinados ao lazer? Por que não nos educamos a consumir aquilo que nos cerca, que é produzido pelas pessoas ao nosso redor?
A dominação cultural estrangeira e dos grandes meios é um ponto muito forte para pensarmos a falta de hábito do consumo de arte e cultura. Como já dizia um ilustre crítico brasileiro, “até o pior filme brasileiro nos diz mais do que o melhor filme estrangeiro”. Por isso a produção de arte e cultura da sua região, e de eventos que tragam obras e autores do país e de outras regiões, mas que são para o público daquela cidade, dizem muito mais do que o filme mais visto no mundo no streaming (para o qual você paga a mensalidade, mas que não contribui com a produção de cinema do seu país: pense nisso).
Essas ondas da indústria cultural, do K-pop e superstars do pop estadunidense atuais, que são substituídas em questão de anos, demonstram como o público consome produtos e não arte e cultura. Ver hordas de jovens brasileiros num estádio ouvindo bandas sul-coreanas representa apenas o poder do dinheiro – jamais nos fala sobre arte e cultura. A arte e cultura que, muitas vezes, alguns desses jovens produz e nem eles mesmos consomem nas suas cidades.
O que se passa na cabeça das pessoas para não irem até um museu, uma exposição, uma exibição ou uma apresentação na sua cidade eu juro que não descobri. Há uma preguiça e uma má vontade gritantes no público para sair de casa (e vamos superar a justificativa dos traumas da pandemia, ok?) e ir a esses eventos, participar, conhecer, ser afetado por obras que dialogam com a sua realidade. Ou até mesmo por obras que nos iludem e dão fuga da realidade – porque, sim, não é só a indústria cultural que nos propicia ilusões e fugas, felizmente.
Antes mesmo de produzir arte e cultura e eventos na área eu fui criada como consumidora de arte e cultura (e também da indústria cultural). Minha personalidade, meus gostos, meu caráter, minhas ideias foram forjadas por esse consumo. Ler literatura local e regional, frequentar os museus da cidade, ir aos eventos de dança e teatro. Isso é formação que começa cedo, em casa e nas escolas. Não podemos querer a vida inteira tentar formar público. Com vinte anos essa formação já deveria estar consumada e incluída nas atividades diárias. Você que vai todo dia à academia: quantas vezes vai ao cinema, teatro e museus na semana?
Arte e cultura não é lazer nem entretenimento e não pode sempre se menosprezar e buscar dias e horários que supostamente vão se encaixar melhor na agenda de todos (sejam trabalhadores, estudantes ou o que for). É do interesse de todos que consumam arte e cultura produzidas ao seu redor (e nem precisa largar os produtos da indústria cultural, viu? te garanto). Adorno está vendo você ter tempo para ficar duas horas rodando o menu do streaming e não ter ido à peça de teatro de uma hora que foi encenada no bairro a dez minutos da tua casa. É sobre choices, sim. Porém, é além disso. É também uma questão de postura, de posicionamento diante da vida. É sobre quais são os valores e verdades que você professa e nos quais acredita.
A pior exposição de arte contemporânea da sua cidade é melhor do que a obra mais famosa do museu de qualquer capital europeia. Te garanto.
Está faltando paixão
Dizia Rousseau, um romântico incorrigível até o final dos seus dias, que a palavra nasceu da paixão. Quem nunca pensou, por alguns minutos, como o ser humano desenvolveu a capacidade da comunicação, quem foi, afinal, que por primeira vez criou uma palavra, deu nome às coisas, bom sujeito não é. A curiosidade faz de nós melhores pessoas.
Eu amo a curiosidade. É parte fundamental da minha essência. A curiosidade me leva a rumos inesperados, à aventuras deliciosas, à surpresas inusitadas. A curiosidade garante meus sorrisos dia a dia. Por vezes, me garante dias e dias de reflexões.
O ser humano que não pratica a curiosidade vive numa prisão. Dizem que a curiosidade faz parte da infância, quando estamos descobrindo o mundo. Na primeira série lembro de ter lido um dos meus primeiros livros: A curiosidade premiada. Então, de alguma forma, os curiosos carregam consigo a beleza e leveza da infância. Mas, também, tenho que discordar. Todo dia é dia de descobrir o mundo. Ledo engano daqueles que acreditam já conhecer tudo sobre o mundo.
Voltando, contudo, ao Rousseau, além de já ter pensado várias vezes sobre este fenômeno (do qual talvez nunca tenhamos certeza) da origem das palavras e comunicação entre os seres humanos, fiquei dias pensando na proposta dele.
É a paixão que nos faz explodir em palavras.
Vejam bem, em tempos de tantos conselhos virtuais sobre ser blasé, ignorar, mandar um joinha apenas, fingir que não leu, fazer que esqueceu, eu volto os olhos para a paixão. Já diriam alguns punhados de filósofos que é, afinal, a paixão que nos move (têm os defensores de que devemos equilibrá-las, outros dizem que devemos controlá-las, não há consenso: ainda bem). Talvez o mundo ainda precise de mais paixão.
Claro, nem preciso esclarecer que, quando falo de paixão, não me refiro somente à paixão romântica e sexual. A paixão é a força que nos move internamente. Pode ser, sim, a paixão do desejo físico por outra pessoa. Pode ser a paixão da ira, da revolta, da raiva contra outras pessoas, suas atitudes, ou injustiças, por exemplo. É uma força que vem de dentro.
E na corrente contrária a esse mundo virtual que quer restringir nossas vidas e sentimentos em caixas de milhões de vídeos que não nos dizem nada, eu acredito que é preciso seguir as paixões.
Tem nada que fingir que não leu, deixar pra lá, dar joinha, não. Na vida real, no tête-à-tête a relação entre as pessoas é diferente, lembram? É preciso ter coragem, curiosidade, olho no olho. A vida online deixou tudo tão fácil para os covardes. Por isso, se abarrotam as recomendações de que a gente finja que não está nem aí e que as paixões estão mortas.
Eu gosto da vida real, do olho no olho, da palavra na cara, da pele na pele, das intenções sem script de vídeos e posts de rede social.
Consigo imaginar as pessoas criando as primeiras palavras. O grunhido que se transforma no aviso de perigo à pessoa amada que está diante de um risco e não vê. O grito que se torna uma imprecação ao estourar o pé em algum obstáculo (teriam os palavrões sido algumas das nossas primeiras palavras?). As palavras mais carinhosas nascidas dos gemidos na hora do sexo. A mãe sussurrando a canção de ninar para acalmar seu bebê.
A paixão é a origem da comunicação entre os seres humanos.
Assustador ver o mundo silenciado – as pessoas estão perdendo a capacidade de comunicação. Elas não conseguem mais se expressar nem, muito menos, dizer o que sentem. Elas têm consumido tanto “conteúdo” o dia inteiro que sequer percebem quais paixões são as suas, quais paixões atravessam o seu ser – quais sentimentos e sensações as fazem explodir em palavras (boas ou ruins).
Nessas horas até agradeço por ser uma pessoa descontrolada. As paixões me movem, sim. Fico feliz com isso toda vez que encontro mais um ser humano insípido, silenciado, desapaixonado, que tem medo da curiosidade, que se omite às presenças reais.
Ao praticar a comunicação aprimoramos as relações humanas, aprimoramos nossos sentimentos, construímos o dom de amar e ser amados, descobrimos como cada ser humano é um universo, um quebra-cabeça. A curiosidade sempre me moveu para perto das pessoas, dos lugares, da vida e do mundo em busca de cada peça que vai se encaixando nesses quebra-cabeças. Não tenho medo do que encontro. Há tempos prego a importância da comunicação e, quem diria, em tempos de tantos dispositivos que usam de tecnologia para supostamente melhorar a comunicação no planeta percebo que nunca nos comunicamos tão mal.
A paixão é melhor do que toda essa tecnologia junta. Tenho como provar.
A paixão é a melhor forma de comunicação, sim.
É transbordar as emoções em voz, gritos, gemidos, explosões, sussurros e olho no olho.
Ao vivo. Presencial. A vida, aliás, só existe no presencial.
(pandemia, um dia te superaremos, talvez)
Porém, ao encontrar essas pessoas que não sabem mais se comunicar, que a paixão transborde em palavras frias numa tela. Às vezes, o recado será dado. Silenciar jamais.
Agenda aberta
É a hora de colocar ordem na casa, depois de dois meses intensos e esparsas e tensas anotações sobre pensamentos, ideias e sentimentos. Colocar ordem na casa para seguir em frente. Seguir em frente: a vida chama e não é sábio fingir que não ouviu.
(segue lista de canções para ouvir enquanto lê, mais uma lição que aprendi esses dias e também é sobre filmes, canções e experiências)
Meu lugar
Será que todo mundo tem um lugar no mundo onde é seu ponto de equílibrio? Há vinte anos eu encontrei o meu lugar. Nem sempre que preciso consigo ir até lá – de uns anos pra cá ficou ainda mais difícil. Algo ser difícil nunca foi um problema pra mim.
O meu lugar é lá, é o equilíbrio na balança, é onde me reencontro com todos os meus eus que por lá já passaram – com os desejos, os sonhos, as lutas e a consciência. É onde vou para juntar os pedaços e para comemorar. Motivo sempre há para ir ao meu lugar e olhar as certezas que já desenhei naquele céu.
Que triste deve ser a vida de quem não tem o seu lugar no mundo. Já pensou vagar por aí sem ter a segurança de onde pode ver a si mesmo?
Precipícios
Correr riscos, andar à beira do precipício. Ter os pés firmes em lugares incertos e perigosos. É um modo de vida, uma escolha. A ação precisa da ilusão, devo ter ouvido em algum filme. Iludir-se é um dom. Lutar contra si mesma é luta vã. Meu lugar é lá no precipício, de onde vejo o mar aos pés, o contorno das ilhas, a imensidão da vida.
“Não me iludo mais”, eu me disse inúmeras vezes enquanto sonhava acordada, mais uma vez. No outro dia, caí da cama. E queimei a mão em óleo quente. Também lancei longe, sem querer, uma taça de cristal cheia de bom vinho. Talvez seja bom eu me iludir, afinal. Os danos físicos e materiais são menores. Sonhar é meu superpoder.
Vim, esta última vez, do meu lugar com o coração mais disposto a me perdoar. Já me culpei demais pelo que os outros fazem comigo. Chega.
Em respeito àquela mulher que ontem cruzava aquelas praias, que subia e descia aqueles morros, que se preocupava tanto em dar conta de todos os compromissos, que se submetia à falta de conforto e segurança, que nunca desistiu, aquela mulher eu de ontem que sabia bem o que queria e se esforçou e lutou tanto – eu devo respeito a ela e preciso me perdoar mais por ser vítima do mal que me fazem. Vou lembrar disso na próxima vez que eu voltar ao meu lugar.
Só Deus é quem sabe
Nem se constituíram em capítulos. Tirei algumas páginas para escrever e sobraram páginas em branco – e foram rasgadas. Não tenho porque manter páginas em branco, minha vida não merece isso. Lá do alto, lancei essas páginas ao rio Belém. Pessoas que não gostam de desafios não são bons personagens, nem na ficção nem na vida real, e eu trato bem meus personagens. Como sempre, eu esperava mais de você, meu bem. A liberdade é uma porta que precisa coragem para ser aberta, porque ela nunca mais se fecha. Sim, devo ter ouvido essa em algum filme também. Sem coragem de viver desafios, restam páginas em branco. Nem mesmo criei versos sobre cultivar um pé de manjericão para eternizar tua lembrança. Sobre você não escrevi nem um verso – muito menos em francês. Páginas em branco na longa estrada, parece que meus cadernos com versos se tornarão relíquias. Juro que tenho dois versos em espanhol e um em portugês e nenhum deles guardou sequer ressentimento. Aprendi apenas a quebrar padrões. As lições ficam.
Como deve ser horrível viver sem poesia.
Amor & Política l Política & Amor
Terminei colchas de retalhos muito bem costuradas nos últimos meses, alcancei uma harmonia que fala por si só nos atos e palavras. E quem diria que o mundo representaria nada mais que fagulhas, fogo morto, brasas afogadas. Eu gosto de atiçar o fogo.
Os babacas são muitos nesse mundo. Jamais voltarei a me culpar por não identificá-los a tempo. Eu faço tudo com amor, esse é o meu segredo. Descobri, porém, que apesar da larga experiência com os babacas, ainda me engano profundamente. Tem alguns que são mestres em camuflar como são. Prefiro um babaca honesto. Não é? Life is too short to keep bad memories. (filme? não faço mais ideia)
Nunca me faltou sinceridade em nenhum ato, em nenhuma palavra. Talvez as pessoas não estejam mais acostumadas com isso. Mas, se tem uma coisa que aprendi na última leva de lições da vida foi a de não buscar mais desculpas e justificativas para os erros dos outros (principalmente se eles forem homens). Nunca mais. Como a gente demora pra aprender essa lição!
Ainda dói, de alguma forma. Porém, seguir em frente antes que dores piores aconteçam é a única coisa inteligente a se fazer.
Fiquei indecisa, então era melhor eu me arrastar mais para a política? – meu cinema é político, meu viver é político. Sei lá, deixar o amor fora dessa. Sorte no jogo, azar no amor. Como eu gosto de uma aposta! Sei lá. Ainda bem que não tomei essa decisão. Não vou desistir do amor. Não tenho porquê escolher entre o amor ou a política. Na real, na prática já faço tudo com amor e tudo que eu faço é político.
O amor é revolucionário. O amor é político.
Me permito caminar y sentir. É tão gostoso sentir. Entregar-me ao que sinto. Caminhei muito hoje e percebi que entregar-me ao que sinto é minha pérola.
Mais uma página arrancada em branco. Restaram memórias indeléveis no corpo.
A paz
Nada nem ninguém vai abalar a minha paz. Só eu sei a guerra que eu vivi para hoje tê-la sagrando meu corpo e minha alma – e meu coração. Busquei a paz como missão de vida contra toda a maldade alheia e contra os babacas que cruzaram meu caminho.
Minha paz vale mais que tudo.
Àqueles que arranham minha paz, dedico meu silêncio e meu sumiço. Sigo em frente. Eu guerreei para alcançar a paz, agora que a tenho não entro em nenhuma batalha boba. Uma mulher em paz com seu passado, com suas experiências e com suas cicatrizes não se machuca por mais ninguém.
Privilégio macabro
O conceito que ouvi (não foi em um filme, foi num debate sobre filmes) e roubei pra mim: privilégio macabro de viver nesses tempos que vivemos. As guerras, as mortes, a fome como arma de extermínio, a destruição, as injustiças, as violências. A quadra terrível da História. Por isso mesmo tenho desfiado o conceito de que precisamos buscar o bem. Amor e política andam assim juntinhos. Não serei eu mais uma a machucar os outros, a fazer o mal, a destruir. É preciso praticar o bem. Só tenho amor a oferecer. O mal não tem a última palavra.
Fé. Quem diria que ainda me resta fé. São os pés firmes à beira do precipício. É ter amor pra dar mesmo após mais um babaca. É rir das páginas em branco. No caderno ainda há páginas para muitos versos. Fé nos gestos. Fé que o bem não saiu de moda. Fé na fé contra as ações que nos tornam testemunhas desse privilégio macabro. Faço tudo com amor, desde lavar as roupas até escrever um roteiro. Não tenho forças pra perder a fé.
Fera ferida
Não vou mudar. Esse caso não tem solução. Quando passamos por algum trauma ou experiências ruins, dizem que precisamos mudar. Eu não vou mudar. Sou espontânea, apaixonada, exagerada, introspectiva, romântica. Se não for assim, não serei mais eu – a paz me mostrou que não são os problemas dos outros que devem ditar regras sobre como eu levo minha vida. Quem abusou da minha personalidade é que tem que perder o sono. Eu sigo em frente.
Viver
Viver. Viver nunca é para amanhã. Colocar a casa em ordem para seguir adiante, comprar as passagens, reservar os hotéis, fazer as malas. Convivi a vida inteira com a morte, muito antes de encontrar a paz eu já sabia que viver é nobre. Nunca é para semana que vem. Viver é hoje. É viver o que aparece. Às vezes, iludida. Às vezes, enganada. As páginas podem ficar em branco ou serem arrancadas. Viver é imprescindível. Em algumas páginas surgirão versos, em outras conceitos.
Agenda aberta
A partir de amanhã, às 8h, a agenda reabre. Quero novas experiências, quero repetir tudo aquilo que mais amo. Vou correr atrás do trio elétrico, vou retomar sonhos que estavam me aguardando, vou me abraçar à coragem e encarar novas empreitadas. No trabalho e na vida. Porque a vida não é só trabalho, mas como política e amor, tudo anda muito junto.
Se eu voltaria àquela vinícola no Uruguai? Claro, mas a viagem e a experiência jamais seriam as mesmas. Ou talvez eu escolha ir em outra. As possibilidades de felicidade não são egoístas.
Em seis meses eu consegui arrumar a casa, organizar os pensamentos, rever feridas cicatrizadas e preparar a vida para amanhã. E isso inclui a escrita (aqui e as demais).
Ninguém combate o fascismo sozinho
Não se trata nem de vertente política ou conduta moral: o tal conservadorismo é somente um véu. De hoje em diante, não fale essa palavra na minha frente. “Santa Catarina é um estado conservador” na sua ação de usar da censura, da repressão, da perseguição aos que estão vivendo e produzindo o que não se encaixa no discurso falido de meia dúzia.
Sim, porque a repressão não é praticada pela maioria, ela é praticada por uma meia dúzia – barulhenta, é verdade, mas somente porque a maioria se cala.
O conservador é somente porque você não quer que seja exibido um filme do qual você tem medo. O conservador é porque você não entendeu o espetáculo de dança – você que mal sabe um plié – e convoca deuses contra a Arte. O conservador é somente porque a história oficial vendeu essas terras como de gente de pele branca vinda do velho continente – onde nem lá sobrevivia o conservadorismo. Lá onde a Humanidade aprendeu e se horrorizou com holocaustos.
Que terra conservadora é essa onde mulheres morrem por serem mulheres, todos os dias? Onde os assédios sexuais e estupros têm índices alarmantes? Onde a quantidade de pedófilos e crimes de pornografia infantil abundam? Nem os coitados dos animais escapam da sanha violenta dos abusadores. Que terra é essa da cidade que já se destacou várias vezes em sites e aplicativos onde mais os homens traem suas parceiras?
Ah, a doce hipocrisia. Foi essa terra que me ensinou tão cedo o significado da palavra hipocrisia.
É a cidade onde operário elege empresário. A vítima e o algoz.
Essa terra onde mulher acha que feminilidade é uma tiara de flores na cabeça e tem festas regadas a chope e músicas velhas de um país que só existe na concepção fantasiosa de gente que força um sotaque esquisito.
Mas, repare: é só a censura vir à tona que a frase está engatilhada “não é censura”.
Não censuram a morte de crianças aos milhares. Não censuram a fome pelas ruas.
Quem são os censores senão aqueles de quem conhecemos os pecados? Atire a primeira pedra.
Quem tem medo de fascista é colaboracionista. E tenho dito. Tua gente morre nas mãos deles, pessoas LGBTQIAPN+ morrem pelo discurso deles e tu prefere o medo. Não terá jamais o meu respeito. CLT nenhum vale sujar as mãos de sangue.
Exagero? Cada ação, cada pequena ação, que pensa contornar problemas e se esconde atrás de “mas é um estado conservador” está de mãos dadas com toda a violência que praticam contra mulheres, contra artistas, contra LGBTs, contra negros, contra pobres, contra pessoas em situação de rua. Você é colaboracionista. Você apoia fascista. A História não perdoa.
Essa terra não é conservadora – insensato eufemismo. Eles não são maioria – tenho dito faz tempo. O que assusta é a apatia dos demais.
É, amor, ninguém combate o fascismo em silêncio. Ninguém combate o fascismo sozinho.
A vida sempre foi sobre estar do lado certo da trincheira. Quem está indeciso também será atingido.
A censura
Um dos fantasmas da ascensão dos extremismos é a censura.
Lula foi eleito, Bolsonaro perdeu. Não estamos livres da extrema-direita, tenho repetido inúmeras vezes. A extrema-direita tem feito sua tarefa de casa, tem se fortalecido, inclusive no meio político. Os especialistas têm gritado com frequência que precisamos pensar e agir para frear a volta da extrema-direita à presidência e que eles estão de olho no congresso, no senado, nas prefeituras e câmaras de vereadores.
Porém, tenho pensado e acompanhado os danos que a ascensão da extrema-direita já causaram, tenho me deparado com o legado do crescimento do conservadorismo (em todas as suas vertentes). Durante o período do governo Bolsonaro eu dizia que, a cada novo desmando, levaríamos mais de dez anos para nos recuperar – na educação, no meio ambiente, nos direitos individuais, os danos causados iam de irreversíveis a muito graves. O Meio Ambiente, por exemplo, a destruição, a contaminação e a exploração não são instantaneamente reversíveis com outro presidente no poder. E, segundo a realidade que apontam muitos especialistas, o mundo já atravessou o ponto de não retorno.
Nos últimos dias pensei bastante na censura. A censura na arte, especificamente, mas a censura de modo mais geral, até mesmo a auto-censura (tema que já abordei aqui). Para todos nós que criamos, a autocensura é um dos piores momentos que experimentamos internamente. Por vezes, nem nos damos conta que estamos praticando a censura no ato da criação, antes mesmo de tê-la (a nossa obra) elaborado. Para o senso comum, a censura só existe no ato de censurar uma obra já realizada, por conta, normalmente, do seu conteúdo.
Tento demarcar um início e o que me veio à mente foi aquela performance no Santander do Rio Grande do Sul, quando denunciaram que uma criança tocava o corpo nu de um homem. Depois disso, não foram poucas as “denúncias” de obras artísticas que deveriam ser censuradas – o que desencadeava, toda vez, uma série de perseguições, violências, sufocamentos e silenciamentos.
Censura é coisa do século passado, quando a Ditadura precisava “liberar” as letras das canções, as cenas das novelas e tudo mais. Porém, o que vemos no Brasil na última década é a dominação da censura. E, desta vez, não há nenhuma Ditadura para culparmos. Isso demonstra como o conservadorismo tem dominado o discurso de quem aprecia e quem apoia e financia a produção artística.
Filmes já deixaram de ser feitos por conta da censura. Produtores culturais já tiveram seus eventos vetados por conta da censura. Ela está, definitivamente, entre nós. Às vezes, a censura é denunciada, contudo, na maioria das vezes ela é silenciada – por medo, medo que temos de denunciar que este ou aquele, que esta ou aquela instituição, praticou o ato de censura, visto que vivemos num mundo de interdependência (principalmente econômica).
Tenho consumido, como sempre, muita arte. Sentia que algo me incomodava: a esterilidade, a falta de discurso veemente, a ausência da arte que desloca, que faz pensar, que luta, que incomoda (ao causar desconforto no público e que cutuca as estruturas estabelecidas). Há uma enxurrada de produção cultural em cima do muro, e onde deveria existir arte tenho encontrado mero entretenimento.
Então está tudo bem e a arte agora é só pra nos distrair?
Não está tudo bem. Os corpos incomodam, as críticas incomodam, a realidade social do país incomoda. E por que não os vemos? Seria a auto-censura trabalhando paulatinamente nas cabeças (e corações) dos criadores? Ou porque a censura de quem detém o poder tem conseguido tirar essas obras do nosso alcance?
Há censura no Brasil. Querem censurar até mesmo o que nós dizemos. Como sempre, uso esse espaço como trincheira para a liberdade. Esses dias ouvi um especialista que salientava como os blogs eram locais mais “antigos” de debate da esfera pública e que nem mesmo as redes sociais conseguiram superá-los – concordei muito.
Quando me deparo com a censura, algo se move dentro de mim. Eu sou filha da democracia, sou dessa geração que nasceu com a democracia, com o voto, com um Brasil que deveria ser diferente e enterrar seus fantasmas, para sempre. Tenho refletido muito sobre isso ao acompanhar a série publicada pela revista piauí, que me faz refletir sobre quem somos e porque nossa atuação no país não resistiu às investidas das gerações anteriores (que buscam reviver o passado) e ainda não acredita nas gerações que vieram depois (perdidas em nomenclaturas e rótulos para suas lutas de sofá e redes sociais).
Os fantasmas seguem entre nós. A censura é o apagamento da arte que vibra e pulsa nas nossas mentes e corações criativos. Censurar um filme é impedir que o discurso daquele grupo seja acessível ao público. E nós, enquanto público, não teremos acesso ao que aquele realizador disse – e assim quem detém o poder molda os discursos que estão no mundo.
Quem detém o poder, detém também a enorme responsabilidade sobre o que está sob o seu domínio. Responsabilidade. Sim, instituições públicas e privadas podem ter seus próprios critérios sobre o que vão veicular ou não. Por isso mesmo faço essa reflexão: o que temos feito com a arte no Brasil? Por medo do avanço de concepções conservadoras, do discurso virulento da extrema-direita e da ascensão do fascismo nós devemos nos calar e produzir obras amenas, palatáveis e que não gerem perseguição? E se produzidas, quem pode distribuí-las e levá-las ao público, vai censurá-las com medo das consequências. Como sempre digo, o medo é péssimo conselheiro.
O que vivemos no Brasil nos últimos anos nos levou à busca de critérios conciliatórios, de discursos policiados, de criações que não levem ao desconforto e ao risco. O mundo não é lugar de conforto, pra quem ainda não percebeu. Quando vivemos num mundo de lutas diárias pela sobrevivência, sendo mulheres que nunca sabem se chegarão vivas em casa, com a fome cultivada pela enorme desigualdade social, com corpos trans assassinados diariamente, não há como viver confortavelmente. Não existe essa possibilidade. Lamento por quem produz arte e quer se furtar a isso. Mas, me indigno com quem se exime de levar ao público que essa realidade existe – o mundo fofo do entretenimento é o que a indústria faz para ganhar dinheiro. Bem, muitos estão “produzindo arte” só para ganhar dinheiro mesmo, aqui na cidade há vários exemplos.
Essa onda conservadora, além de engatilhar a auto-censura, também abriu caminhos para uma produção artística auto-centrada nos seus traumas, vivências privadas e psicologismos. Até quando peças de teatro auto-referentes com a encenação da relação com o pai, filmes sobre a perda da mãe, livros sobre experiências reais, performances de mães e suas dores ‘reais’? O artista que não consegue transformar suas experiências e referências em ficção será um artista? Ficamos presos nesse egoísmo e auto celebração da intimidade sem abordarmos a graça de vivermos na coletividade. Ninguém censura o eu, porque quando falamos do nós o desconforto nos faz sair desse eu e nos obriga a lembrar que existe um mundo para além do nosso umbigo. Toda arte é válida? Deve ser. Talvez seja apenas uma preferência estética minha? Talvez. Mas a análise vai além do mero gosto estético, pode ter certeza.
Essas reflexões são de quem produz e consome arte no Brasil. É uma visão de dentro e de fora. A História nos conta que na época da censura institucionalizada os artistas lutaram contra ela, buscaram metáforas, escreveram versos e a enfrentaram. Nesses tempos de censura por baixo do pano, os artistas a assumem como status quo do fazer artístico. Enquanto quem a pratica vive tranquilamente, não se envolve em problemas e mina o próprio país. O Lula ganhou a eleição presidencial. A extrema-direita, o conservadorismo e o fascismo já ganharam inúmeras lutas do cotidiano da sociedade. Ao assustarem, com seus gritos, instituições e artistas sobre o que eles podem ou não produzir e exibir, eles já ganharam. Sem precisar de um AI -5 ou do DOPS.
A culpa não é deles. Só cai no medo de não enfrentá-los quem quer. Eu luto pela liberdade de cada um de nós criar seus discursos, inclusive eu mesma. Jamais serei colaboracionista com quem censura. Quem colabora e quem silencia é cúmplice.
Depois, como nos têm alertado os especialistas, quando a extrema-direita voltar ao poder, quem colaborou não poderá reclamar. Só tenham certeza que nem vocês escaparão da perseguição.
Vai faltar peça de teatro shakespeariana (aliás, viram a citação do filho que pratica atos contra a soberania do país?), performance do eu & meus traumas, filmes entretenimento e livros de romance auto-ajuda para o público anestesiado.