Eu quis

Quis ver através dos olhos

o bem que trazem no coração

e a alma aflita caminhar

no mundo 

quis ver as dores ali presas

as inseguranças a gritar

pelas madrugadas

as angústias apertadas

entre horas de vida social

Eu quis curar uma a uma

Quis sentir a tua pele

e por dentro dela

quis sentir tuas sensações

de medo e desejo

quis desejar teus desejos

desejar teus prazeres

entender-te era meu plano

Eu quis ver com teus olhos

o teu universo

Quis viver e ler teus pensamentos

dos mais tacanhos e mesquinhos

até os mais doidos e simplórios

eu quis tanto

querer-te com os defeitos e danos

com paz em saber-nos humanos

eu quis não julgar

e abraçar tua lógica

Eu quis além do teu coração

e do teu corpo

quis decifrar teus cantos

Tuas feridas

tuas explosões 

tuas repressões

teus ideais

teus sonhos

eu quis tudo

lavei minh’alma

de todo querer

me curei

me enxerguei

me abracei

Nota de repúdio (como um samba)

Indigna-se o coração

tanto ama!

sonhou longe

e foi

foi voltar de arrasto 

trazendo suas dores

Como um samba

Só sabe quem ama

Até anda por aí

a confessar-se

“nunca amei!”

Amou, sim, fio

já prometia a voz mais linda

a arremessar o desafio

“o amor será eterno novamente”

Como um samba

Só sabe quem ama

No bar numa quinta

em cada caneco de chope

repassa a sua vida

e se indigna

Tanto coração fraco solto no mundo

logo eu topei com todo eles

e a esse amor profundo

trouxe de volta pra mim

Vai lá se culpar

Lamentar

Chorar

Não me comove pranto de quem

enganou

e não soube dar amor

Como um samba

Só sabe quem ama

Vai buscar a felicidade

no teu coração

deixa a vida renascer

é na humildade

de se entregar com paixão

que se sabe viver

ninguém tira da sinceridade

do amor

a honestidade e o frisson

da pele, do olhar, do gingado

e do amanhã

Como um samba

Só sabe quem ama

O sol vem raiar

a noite te ensinou

duras penas 

e se doer, doeu

amanhã tem mais

paixão

Como um samba

Só sabe quem ama

Nós sempre fomos uma ameaça

A presença da mulher na sociedade sempre foi distorcida – e ainda é. Quando vemos a História da Humanidade, percebemos que ela precisa ser toda reescrita. Com a História do Cinema não é diferente.

Tenho um apreço pelo cinema estadunidense das décadas de 1940 e 1950 por vários motivos e também pelas mulheres estrelas de cinema que foram construídas à época. Marilyn Monroe foi a grande estrela e nunca será igualada (nem mesmo as estrelas do pop estadunidense chegarão a superá-la). Mas, para além dela, existiram tantas outras. E mesmo a história dela, seus personagens, suas escolhas, sua vida pessoal, dizem muito mais do que os rótulos e os homens tentaram aprisioná-la.

Me refiro à filmes que foram realizados num período de grande censura moral, quando existiam códigos de conduta para o conteúdo que chegaria às telas. Um mero beijo de lábios gerava muita especulação. Por um lado, quando o cinema precisa dizer mais sem mostrar tudo, porém, quando também o moralismo, a perseguição, as ideologias eram ferozes (talvez não muito diferente do que o país de lá tem vivido hoje fora das telas). No cinema, as mulheres foram paulatinamente sendo excluídas, diminuídas, seus nomes não constavam nos créditos porque os homens viam como elas ameaçavam o seu domínio. 

Contudo, em meio a isso, as belas mulheres e seus corpos atraíam público. Então, era menos interessante fazer filmes sem personagens mulheres (além da teoria do voyeur). Mesmo com a grande produção de filmes de Faroeste na época, gênero que poderia privilegiar personagens homens (como vimos em releituras do gênero produzidas em épocas posteriores e até hoje), as personagens mulheres existiam com boa presença no roteiro e nas cenas. Ao contrário do que aconteceu depois, com a onda dos blockbusters, principalmente, e seus buddy movies. Dos anos 1970 em diante, as mulheres foram engolidas em cena também, nem mesmo o cinema independente americano (ao qual somos muito devedores ao redor do mundo e ao maravilhoso Robert Redford que nos deixou dias atrás) conseguiu evitar isso.

É evidente: conforme as mulheres ganham liberdade e podem chegar aos espaços, alcançar posições, conseguir financiamentos, ter formação, os homens imediatamente encontram formas de sabotá-las e fazerem-nas perderem suas oportunidades. Desde que o mundo é mundo.

Contudo, essas belas mulheres estavam lá e faziam muito por nós – fazem até hoje. Quando vejo uma grande atriz da época a escolher personagens de mulher independente, “mal falada” que consegue driblar os preconceitos, entendo que, naquele momento, mesmo que o filme termine com um happy end de casal hetero, era algo extraordinário o que ela estava fazendo.

Quando acompanho a carreira de uma atriz que fez personagens de mulheres sempre lutando contra as violências do mundo, e, ao chegar aos 40 anos, assume a sua idade e faz filmes nos quais essa é uma das grandes violências: ela não é mais uma mulher porque tem 40 anos – mas ela se apaixona, vive, faz sexo (com homem jovem, inclusive) – eu percebo que sempre houve mulheres fazendo muito por nós. Com as ferramentas e com as armas que elas podiam naquele momento (mesmo que com seus corpos).

Esses dias ouvi “eu sinto que os jovens acham que precisam reinventar a roda”, e é verdade, muitos acham. Todos que já fomos jovens lembramos como é descobrir o mundo, não é mesmo? Quem somos nós para julgá-los. Descobrir o mundo é algo muito interessante – e, na verdade, nunca termina. Como mulher ainda redescubro como as mulheres lutaram (tanto e tanto) pelo seu lugar no mundo e nas sociedades. Nunca foi fácil, ainda não é fácil.

No último filme que assisti, com um argumento interessantíssimo e que flertava com o gênero do faroeste (um dos meus favoritos), e escrito também por uma mulher, o embate entre a situação de violência que as mulheres sofriam (sofreram e sofrem, visto que é a ameaça à vida e sua integridade quando diante de homens) era o ponto central. Fiquei surpresa, confesso, por como um filme despretensioso alcançou este tema de forma muito bem elaborada, mesmo tendo sido produzido naqueles tempos. 

Não faz muito tempo assisti a um curta brasileiro que está rodando festivais que falava sobre mulheres e essas violências, de uma forma muito mais direta e objetiva inclusive sobre as circunstâncias que permeiam a vida das mulheres e achei, infelizmente, ruim. Pelo menos temos mulheres falando sobre mulheres, mas é questão de gosto como abordamos as questões e sobre o que queremos falar.

Um dia, em sala de aula, citei um filme que era dirigido e protagonizado por mulheres maduras e um aluno comentou “ah, conheço, é filme de mãe, né?” o que imediatamente me chocou, porque percebi que para aquele homem jovem, um filme protagonizado por uma mulher madura e sobre questões que tocam uma mulher madura era um filme “de nicho”, mesmo as mulheres sendo maioria da população do mundo. Vejam só, termos tantos filmes sobre homens que se aliam e combatem homens não é algo de nicho, é claro, porque a maioria do mundo é feita de homens em grandes embates. Sei.

Posso, assim, afirmar duas coisas: no mundo de hoje não vemos mulheres o suficiente no cinema. As personagens mulheres (adultas e maduras, então, menos ainda) são desprezadas, não protagonizam histórias importantes e interessantes e seus dramas não parecem atrair tanto os realizadores. Podem reparar. Além disso, as mulheres não têm liberdade no cinema (falo por mim com inúmeras provas). As mulheres continuam sendo sabotadas, minorizadas, perseguidas. Pois, ao que parece, sempre há quem pense que somos uma ameaça. 

Tenho até formulado uma teoria, a partir de estudos e de conversas, sobre o ressentimento masculino dos homens a partir da minha geração que chegaram hoje e não sabem bem para que servem no mundo – e se sentem o tempo todo ameaçados por este vazio e como isso gera as inúmeras violências que sofremos todos os dias, desde o feminicídio até o ghosting. 

Nós sempre fomos uma ameaça. Por isso sempre fomos sabotadas, queimadas na fogueira, perseguidas e mortas. Nós sempre encontramos inúmeras formas de seguir vivas e defender nosso lugar nesse mundo. E sempre encontraremos, assim como as personagens no cinema.

Au bord de la rivière

Je prenne mon temps
Entre les voyages
et l’espoir
J’ai besoin d’un sort:
savoir oublier certaines choses
comme une machine
Mais
Je ne suis pas une machine
Je suis sang et désire et
une appréciable volonté
je ne pense jamais
Et je suis ici
Au bord de la rivière
Avec mon temps
et mes yeux contemple
l’eau, les animaux
je sente les bruits de l’humanité
et le doux vent
raccorde mon feu
je suis vivre !
À la bord de la rivière
Je ne pense plus a toi

O mundo precisa de amor

O segredo sempre foi fazer tudo com amor. Quem me vê andar pela rua com um sorriso no rosto, saiba que ele vem de dentro. Aos que me retribuem com um cumprimento ou com outro sorriso, que bom que sabemos que o mundo precisa de mais sorrisos e amor.

Com amor eu respondo aos que me traem, àqueles que se lambuzam na maldade e no veneno, a quem manipula e usa as pessoas e a mim. Não serão vocês, com seus ressentimentos e tantos corações mal resolvidos, que vão tirar isso de mim. O mundo precisa de amor. O resto eu deixo pra vocês.

Apesar de eu sempre falar que o segredo é o amor, fica a questão: então não é mais segredo. É segredo, sim. Porque eu conto que esse é o segredo, mas não conto como se faz.

A importância de fazer tudo com amor é saber respeitar as pessoas, saber que nós nem desconfiamos quais são as cruzes que os demais carregam – porque cada um de nós tem suas cicatrizes, suas dores, suas experiências, seus medos, suas inseguranças. Fazer com amor é fazer com responsabilidade. Enquanto pessoas que vivem em sociedade, nós somos responsáveis com as emoções e os sentimentos dos outros a partir das nossas ações. Esse mundo ególatra em cada um confinado no seu umbigo (e nos seus celulares) parece ter feito as pessoas esquecerem disso e, obviamente, perderem a noção de como lidar com seres humanos de verdade.

O mundo, o patriarcado, o machismo e misoginia estruturais não exigem que vocês, homens, sejam pelotudos e prezem pelo distanciamento e pela covardia. Para muitos, a frustração e o ressentimento incitam esse desprezo pelo cuidado com as pessoas e o que elas sentem. 

Por isso, é um segredo como viver o amor em tudo que se faz – apesar de tudo isso. Podem copiar as atitudes, podem copiar as ideias, podem fingir, podem se afastar: jamais saberão como fazer tudo com amor.

Tenho pensado muito nisso: o amor assusta. Quem vive o amor dá medo em quem não sabe o que é ser amado. Lamentavelmente, gerações e gerações têm crescido sem amor. A pessoa entra em choque ao ver que não faz quase nada com amor na própria vida. Bate o desespero.

Pensei em como, ao longo da História, vimos o poder e a força do amor, nas grandes histórias, nos monumentos construídos por pessoas apaixonadas. Hoje, no máximo, acham que amar é publicar foto junto no perfil da rede social. Em dois segundos é possível apagar a foto, não canso de lembrá-los.

Sempre acho curioso ao ouvir, dos homens, que “não tenho nada a oferecer” quando se interessam por mim. Eu não sou um produto que precisa ter “algo em troca” (escambo) nem vivemos nos séculos passados quando precisavam pagar um dote. Os homens, imersos nas suas inseguranças, acham que precisam “comprar” o que uma mulher sente por eles, ou o tempo que ela lhes dedica, ou mesmo a minha atenção ou interesse. Eu sei que relacionamentos (e muitas mulheres) vivem objetivamente e focam em questões práticas da vida (não é o meu caso). O amor está nos detalhes, está em entregas sinceras, está na vida livre. Quem não é livre, não ama.

Assim que temos hordas de homens com tanta facilidade em passar o endereço de casa, mas que não conseguem falar sobre o que sentem. Ainda mais nos dias de hoje, que precisamos estar alertas sobre golpes e tudo mais, dar o próprio endereço é algo arriscado. Também não se aconselha fazer isso por inúmeros motivos. Quem é livre e sincera não quer o seu endereço nem saber o seu salário ou o que você tem a oferecer. Quem é livre e sincera se aproxima, ouve, se importa. E isso assusta. 

Foi fácil aprender que quem guarda o segredo de fazer tudo com amor está exposta a muitos ataques. Porque isso não dá pra copiar. Porque isso não dá pra fingir. Levou um tempo para aprender que pessoas que fazem tudo com amor têm o super poder: suas vulnerabilidades.

Nos atacam e tentam machucar justo naquilo que temos de melhor: a sinceridade do que vivemos. Jamais me juntarei ao ressentidos e frustrados a fingir na vida. Minha vulnerabilidade é meu super poder e quem abusa disso é que terá que acertar as contas com a própria consciência. Eu continuo livre para amar – para me doar, me entregar, para viver.

Novo espetáculo

A data não foi anunciada

O público aguarda ansioso

O palco estava pronto

E então apagaram-se as luzes

É nova temporada do show!

Frisson e burburinhos

(Muito se fala, muito sempre se falou)

Ninguém conhecia o novo repertório

De novo, ela só

No palco todo seu 

Foram meses de ensaios 

Exaustiva preparação física

Ela se dedicou muito para voltar ao palco

da sua vida

Cuidado aos desavisados:

Não devolvemos o valor do ingresso

Para quem se iludir

há sempre quem compre o ingresso com base nas suas expectativas

Ela não sobe ao palco para cumpri-las:

seu show é exclusivo e único, 

como sempre soube fazer

Ela apresenta novas técnicas de interpretação e sedução

Tirou velhos números do repertório –

e nunca mais os apresentará

trocou figurinos

descalçou os saltos

bem, não queremos antecipar

O novo espetáculo é único

de quem já pisou nesses palcos

por longo tempo

e, por isso mesmo,

sabe tão bem entreter e entregar(-se)

As críticas enaltecem

como ela mantém o brilho

(dizem que assombra a plateia)

O segredo permanece:

quem paga (caro) pelo ingresso

não conta a ninguém

e jamais esquece

É ela toda revivida nos seus melhores papéis

um espetáculo de tirar o chapéu (não somente)

um show que marca o início de uma nova temporada

um festival de deleites e prazeres

para um público exclusivo

Danem-se as pedras

Ali, então, entrou uma mulher. Todos sabiam o que ia acontecer: seria apedrejada. Este costume ancestral, uma tradição passada de geração em geração, era imediatamente colocado em ação.

Onde quer que uma mulher ouse entrar, ela será apedrejada sem um milésimo de segundo de dúvida antes da ação.

É o peso da realidade que carregamos no lombo. Um corpo por vezes cansado, exausto das tentativas e ciente das oportunidades que nos escaparam porque somos quem não querem que sejamos. 

Somente uma mulher para mudar tudo. O medo lança as pedras.

Mesmo quando somos procuradas e convidadas para adentrar naquele espaço – seja público ou privado – somos condenadas por não seguir o modelo que esperam de nós. Uma mulher só pode ser uma mulher.

As pedras são lançadas sem dó, sem piedade, sem justiça. 

As pedras nos atingem – muitas aprendem cedo onde podem e onde não podem entrar e assim seguem suas vidas o resto dos seus dias. 

Outras, bem poucas, ignoram os roxos na pele e as cicatrizes e em algum momento partem para chutes e empurrões de portas e janelas. Vai doer mais para as pedras.

Danem-se as pedras, pois elas continuarão a ser lançadas. Por todos, em cada lugar onde uma mulher ouse entrar.

Imenso

Imenso

o viver

Sob o céu azul 

meus desejos

Sob a pele

pequenas e grandes cicatrizes

Pairam às margens

o caos e a cacofonia

Nem tão firme

Nem tão forte

passos sem cessar

Imensa

destreza

Abraçar cada dia

a si mesma

Sorrir inúmeras vezes

ao desconhecido

em vertigem

Colocar os dois pés

no chão ao lado da cama

com confiança

Dar adeus 

sem palavras e

sem remorsos

Imenso

o prazer

Escalda a alma

um suspiro com gemido

Cortam feroz as regras

e o juízo

Arrancar erva daninha

onde jaz o corpo

do amante enterrado

Cultivar raízes fortes

de experiência e paz

Imensa 

a sabedoria

É alto o preço

da humildade 

Querem cobrar multa

da sinceridade

Para a vítima

a vingança se faz tentadora

Em resposta à mentira

recomendo a espada afiada

Juntou o que nada tinha, pensou recuperar-se à beira-mar, ainda idealizou (essa doença incurável dos bons corações) por alguns dias, caminhou até deixar os calçados estropiados pelas esquinas de rosas que nunca soube o nome.

Vivia de compor e criar e ver o mundo (sempre se surpreendia). Sua força seduzia quem queria dobrá-la – nenhum conseguia. 

Há sempre que tomar cuidado com dentes e unhas.

Consumir arte e cultura define caráter

Um capítulo inteiro da série The Studio gira em torno da discussão entre o produtor de cinema e médicos sobre quem é mais essencial para a sociedade. Salvar vidas é importante, claro, mas, de certa forma, cada um faz da sua maneira. Quantos filmes já salvaram vidas? O produtor chega a dizer: quando entrar no quarto de hospital e estiver lá sem nenhuma esperança e com dor, você terá uma TV com filmes ao seu alcance. 

Lembrei deste capítulo enquanto pensava sobre como consumir cultura e arte deveria ser ato cotidiano. Além de ser quem produz arte, também produzo e frequento eventos de arte e cultura e tenho refletido bastante sobre esse consumo. O verbo consumir não me atrai, mas, como vivemos numa sociedade consumista, é bom adotá-lo. O consumismo é a base do capitalismo e arte e cultura não são entretenimento nem lazer para serem consumidos do ponto de vista da produção capitalista – é bom deixar essa definição explícita de largada. Você consome entretenimento todo dia, seja no streaming, nas redes sociais, etc. Você consome lazer em parques de diversões, shoppings, viagens. 

E como anda o seu consumo de arte e cultura?

Vejo muitos eventos de arte e cultura que sempre precisam discutir as ações de “formação de público” e como chegar ao público. Bem, vejam que produzimos arte e cultura com foco em formar público para os eventos de arte e cultura. Ou seja, eu preciso ensinar as pessoas a consumirem aquilo que é produzido e ofertado (muitas vezes gratuitamente) à sociedade. Além disso, muitos desses eventos não conseguem atrair o público local, as pessoas simplesmente não vão aos eventos – ou, quando muito, vemos os mesmos de sempre, normalmente outros produtores de arte e cultura. 

Por que as pessoas não vão aos eventos de arte e cultura da sua cidade? Por que elas facilmente trocam aquele evento – que muitas vezes é sobre temas com os quais elas se importam, ou produzido por pessoas que elas conhecem – por qualquer outra atividade cotidiana? 

Com a experiência de produzir arte e cultura percebo que a atividade de consumi-las é sempre relegada a segundo plano, algo de menos importância na sua formação e agenda. Se você for ao shopping numa quarta-feira à tarde, verá que muitas pessoas estão lá. Se for num supermercado num dia de semana de manhã ou pela noite, também. A academia ao final do dia vive cheia. As pessoas reclamam quando as atividades de arte e cultura não são exclusivamente aos finais de semana, em horários fora do “horário comercial” e até mesmo quando é dia de semana no período da noite (tem quem estuda e tem quem diz que é o horário de descanso pós trabalho). 

Mas, afinal, quando, na sua agenda, está planejado consumir arte e cultura?

Por que não temos o hábito de consumir arte e cultura da nossa cidade – como vamos ao shopping, ao supermercado, à academia, ao bar, à igreja? Por que os eventos de arte e cultura precisam se descabelar com ações para educar o público a frequentá-los? Por que os eventos culturais precisam ser em dias e horários destinados ao lazer? Por que não nos educamos a consumir aquilo que nos cerca, que é produzido pelas pessoas ao nosso redor? 

A dominação cultural estrangeira e dos grandes meios é um ponto muito forte para pensarmos a falta de hábito do consumo de arte e cultura. Como já dizia um ilustre crítico brasileiro, “até o pior filme brasileiro nos diz mais do que o melhor filme estrangeiro”. Por isso a produção de arte e cultura da sua região, e de eventos que tragam obras e autores do país e de outras regiões, mas que são para o público daquela cidade, dizem muito mais do que o filme mais visto no mundo no streaming (para o qual você paga a mensalidade, mas que não contribui com a produção de cinema do seu país: pense nisso).

Essas ondas da indústria cultural, do K-pop e superstars do pop estadunidense atuais, que são substituídas em questão de anos, demonstram como o público consome produtos e não arte e cultura. Ver hordas de jovens brasileiros num estádio ouvindo bandas sul-coreanas representa apenas o poder do dinheiro – jamais nos fala sobre arte e cultura. A arte e cultura que, muitas vezes, alguns desses jovens produz e nem eles mesmos consomem nas suas cidades. 

O que se passa na cabeça das pessoas para não irem até um museu, uma exposição, uma exibição ou uma apresentação na sua cidade eu juro que não descobri. Há uma preguiça e uma má vontade gritantes no público para sair de casa (e vamos superar a justificativa dos traumas da pandemia, ok?) e ir a esses eventos, participar, conhecer, ser afetado por obras que dialogam com a sua realidade. Ou até mesmo por obras que nos iludem e dão fuga da realidade – porque, sim, não é só a indústria cultural que nos propicia ilusões e fugas, felizmente. 

Antes mesmo de produzir arte e cultura e eventos na área eu fui criada como consumidora de arte e cultura (e também da indústria cultural). Minha personalidade, meus gostos, meu caráter, minhas ideias foram forjadas por esse consumo. Ler literatura local e regional, frequentar os museus da cidade, ir aos eventos de dança e teatro. Isso é formação que começa cedo, em casa e nas escolas. Não podemos querer a vida inteira tentar formar público. Com vinte anos essa formação já deveria estar consumada e incluída nas atividades diárias. Você que vai todo dia à academia: quantas vezes vai ao cinema, teatro e museus na semana?

Arte e cultura não é lazer nem entretenimento e não pode sempre se menosprezar e buscar dias e horários que supostamente vão se encaixar melhor na agenda de todos (sejam trabalhadores, estudantes ou o que for). É do interesse de todos que consumam arte e cultura produzidas ao seu redor (e nem precisa largar os produtos da indústria cultural, viu? te garanto). Adorno está vendo você ter tempo para ficar duas horas rodando o menu do streaming e não ter ido à peça de teatro de uma hora que foi encenada no bairro a dez minutos da tua casa. É sobre choices, sim. Porém, é além disso. É também uma questão de postura, de posicionamento diante da vida. É sobre quais são os valores e verdades que você professa e nos quais acredita.

A pior exposição de arte contemporânea da sua cidade é melhor do que a obra mais famosa do museu de qualquer capital europeia. Te garanto.

Está faltando paixão

Dizia Rousseau, um romântico incorrigível até o final dos seus dias, que a palavra nasceu da paixão. Quem nunca pensou, por alguns minutos, como o ser humano desenvolveu a capacidade da comunicação, quem foi, afinal, que por primeira vez criou uma palavra, deu nome às coisas, bom sujeito não é. A curiosidade faz de nós melhores pessoas.

Eu amo a curiosidade. É parte fundamental da minha essência. A curiosidade me leva a rumos inesperados, à aventuras deliciosas, à surpresas inusitadas. A curiosidade garante meus sorrisos dia a dia. Por vezes, me garante dias e dias de reflexões.

O ser humano que não pratica a curiosidade vive numa prisão. Dizem que a curiosidade faz parte da infância, quando estamos descobrindo o mundo. Na primeira série lembro de ter lido um dos meus primeiros livros: A curiosidade premiada. Então, de alguma forma, os curiosos carregam consigo a beleza e leveza da infância. Mas, também, tenho que discordar. Todo dia é dia de descobrir o mundo. Ledo engano daqueles que acreditam já conhecer tudo sobre o mundo. 

Voltando, contudo, ao Rousseau, além de já ter pensado várias vezes sobre este fenômeno (do qual talvez nunca tenhamos certeza) da origem das palavras e comunicação entre os seres humanos, fiquei dias pensando na proposta dele. 

É a paixão que nos faz explodir em palavras.

Vejam bem, em tempos de tantos conselhos virtuais sobre ser blasé, ignorar, mandar um joinha apenas, fingir que não leu, fazer que esqueceu, eu volto os olhos para a paixão. Já diriam alguns punhados de filósofos que é, afinal, a paixão que nos move (têm os defensores de que devemos equilibrá-las, outros dizem que devemos controlá-las, não há consenso: ainda bem). Talvez o mundo ainda precise de mais paixão.

Claro, nem preciso esclarecer que, quando falo de paixão, não me refiro somente à paixão romântica e sexual. A paixão é a força que nos move internamente. Pode ser, sim, a paixão do desejo físico por outra pessoa. Pode ser a paixão da ira, da revolta, da raiva contra outras pessoas, suas atitudes, ou injustiças, por exemplo. É uma força que vem de dentro.

E na corrente contrária a esse mundo virtual que quer restringir nossas vidas e sentimentos em caixas de milhões de vídeos que não nos dizem nada, eu acredito que é preciso seguir as paixões.

Tem nada que fingir que não leu, deixar pra lá, dar joinha, não. Na vida real, no tête-à-tête a relação entre as pessoas é diferente, lembram? É preciso ter coragem, curiosidade, olho no olho. A vida online deixou tudo tão fácil para os covardes. Por isso, se abarrotam as recomendações de que a gente finja que não está nem aí e que as paixões estão mortas.

Eu gosto da vida real, do olho no olho, da palavra na cara, da pele na pele, das intenções sem script de vídeos e posts de rede social.

Consigo imaginar as pessoas criando as primeiras palavras. O grunhido que se transforma no aviso de perigo à pessoa amada que está diante de um risco e não vê. O grito que se torna uma imprecação ao estourar o pé em algum obstáculo (teriam os palavrões sido algumas das nossas primeiras palavras?). As palavras mais carinhosas nascidas dos gemidos na hora do sexo. A mãe sussurrando a canção de ninar para acalmar seu bebê.

A paixão é a origem da comunicação entre os seres humanos.

Assustador ver o mundo silenciado – as pessoas estão perdendo a capacidade de comunicação. Elas não conseguem mais se expressar nem, muito menos, dizer o que sentem. Elas têm consumido tanto “conteúdo” o dia inteiro que sequer percebem quais paixões são as suas, quais paixões atravessam o seu ser – quais sentimentos e sensações as fazem explodir em palavras (boas ou ruins).

Nessas horas até agradeço por ser uma pessoa descontrolada. As paixões me movem, sim. Fico feliz com isso toda vez que encontro mais um ser humano insípido, silenciado, desapaixonado, que tem medo da curiosidade, que se omite às presenças reais. 

Ao praticar a comunicação aprimoramos as relações humanas, aprimoramos nossos sentimentos, construímos o dom de amar e ser amados, descobrimos como cada ser humano é um universo, um quebra-cabeça. A curiosidade sempre me moveu para perto das pessoas, dos lugares, da vida e do mundo em busca de cada peça que vai se encaixando nesses quebra-cabeças. Não tenho medo do que encontro. Há tempos prego a importância da comunicação e, quem diria, em tempos de tantos dispositivos que usam de tecnologia para supostamente melhorar a comunicação no planeta percebo que nunca nos comunicamos tão mal. 

A paixão é melhor do que toda essa tecnologia junta. Tenho como provar.

A paixão é a melhor forma de comunicação, sim. 

É transbordar as emoções em voz, gritos, gemidos, explosões, sussurros e olho no olho. 

Ao vivo. Presencial. A vida, aliás, só existe no presencial. 

(pandemia, um dia te superaremos, talvez) 

Porém, ao encontrar essas pessoas que não sabem mais se comunicar, que a paixão transborde em palavras frias numa tela. Às vezes, o recado será dado. Silenciar jamais.

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