Isso é só um texto, a vida é muito pior

Demorei um pouco para me apaixonar por documentários, porque as referências que eu tinha quando criança eram do canal Discovery. Mas, quando tive os primeiros contatos transformou-se em um amor longo, duradouro, surpreendente, daquele de tirar os pés do chão – como todo amor deve ser. Sou adepta de pensar o documentário como o cinema mais eficiente diante da realidade, o cinema mais cinema (o filme documentário, não reportagens, “grandes reportagens” e coisas do gênero). O cinema ficcional é um grau a menos, apesar de ter possibilidades que nos toquem de diferentes formas. Enfim, longa, gostosa e necessária discussão. Porém, não para o momento.

Dentre os documentários, me descobri uma admiradora dos documentários sobre o mundo da música, seja sobre compositores e cantores, sobre álbuns e canções. Essa admiração veio com a prática de montar filmes, ao observar o quanto o ritmo é importante e como a trilha sonora do filme é essencial. Esse ano assisti a vários desses e recentemente me deparei com o Boas Novas, que esteve em alguns festivais. Cazuza foi a trilha musical da minha adolescência até o início da vida adulta. Quando terminei de assistir à Boas Novas, apareceu o Mamonas pra Sempre, banda da qual fui fã loucamente quando criança – eles morreram dois dias antes do meu aniversário e minha irmã (só podia ser ela) havia comprado o CD deles para me presentear. Coisas da vida.

Sobre Boas Novas, há detalhes da estrutura e das escolhas estéticas que me incomodaram – não acho que seja um documentário para ser assistido como filme. A Montagem me incomodou ao colocar em foco o Diretor em momentos que era mais importante, para a narrativa, as emoções do entrevistado ou mais imagens de arquivo. Na sinopse, inclusive, é afirmado que o diretor, produtor musical de Cazuza por um período, teria imagens pouco conhecidas e resolveu fazer o documentário. Contudo, senti falta de material mais robusto para afirmar isso.

Alguns entrevistados, como o fotógrafo, trouxeram falas um tanto preocupantes, sendo que a história toda quer reafirmar Cazuza como um guerreiro, como de fato foi, e não como um doente, um fraco, uma vítima. Em certos momentos, perdeu-se o tempo da emoção – o que eu considero fundamental para este tipo de documentário. Os entrevistados (e poderiam ter sido mais) tinham relações muito próximas com Cazuza, e disso teria que ter sido tirado proveito. Contudo, entendo que muitos deles já falaram dezenas de vezes sobre Cazuza e suas histórias. Eu mesma sei algumas de cor.

Para além do documentário, assisti como público, como quem foi atingida pela vida e pelo trabalho de Cazuza. Meu primeiro contato com ele foi com os versos “tua piscina tá cheia de ratos tuas idéias não correspondem aos fatos” que rodava numa propaganda da TV (eu não lembro do que era a propaganda). Eu era criança, lembro algo de terem comentado sobre a morte dele, mas não vi nada porque ele não frequentava os discos lá de casa e eu era inquieta demais para parar na frente da TV. Não havia ninguém da família que fosse fã de Cazuza – talvez as referências fossem pelas músicas que emplacaram nas novelas. Somente quando adolescente fui me atentar mais ao trabalho dele e, a partir de então, houve imediata identificação. 

Ao assistir ao documentário, percebi que o espírito de contestação, a revolta com a hipocrisia, os versos e declarações ácidos e críticos, a coragem e o desprezo pela covardia, como também, é claro, os amores inventados, fizeram, todos juntos, Fahya adolescente se encantar. Há algo dito algumas vezes no documentário sobre o Cazuza ser contra e combater a caretice. Eu havia lido a biografia escrita pela mãe, mais tantos outros materiais. A relação dele com a família, sua condição social, tudo fazia parte daquele show. Porém, no final da vida – sabendo que o final está ali, ao contrário de muitos de nós que não sabemos quando ela chegará – ele deixa um legado com Burguesia: eu sou burguês, mas eu sou artista.  A presença dele, apesar da sua origem, sexualidade, hábitos, enquanto artista que olha o mundo e faz sua poesia que não é correta, branca, suave, muito limpa, muito leve (perdão, mas não tinha como deixar de citar o compositor que tem sido a trilha da minha vida adulta) é o ponto central da existência. Todo amor que houver nessa vida, um hino para quem exercita diariamente a criação como vida, já abordava o ato de quem cria. Burguesia vai além. Não à toa, tenho dois versos dele tatuados (um justamente de Todo amor que houver nessa vida), e foi a segunda vez que me tatuei, já no auge da vida adulta.

Ser artista no nosso convívio, a Fahya adolescente já sabia o que queria ser quando crescesse. As canções contam histórias, minha vida sempre foi sobre ler, assistir, ouvir, viver e criar histórias. Esses dias comentava com uma colega sobre saber separar a vida e a obra de intelectuais e artistas. Confesso que hoje é impossível. Cazuza não só narrava amores exagerados, mas tinha um olhar feroz para o mundo, para o Brasil, para a sociedade. Numa cena, ele, interrogado (não é possível usar outro termo) por Marília Gabriela, afirma que a AIDS caiu como uma luva para a Direita e para a Igreja. E não é? Lembro até recentemente algum post na internet esculhambando Cazuza e sua obra porque ele representava valores que não eram “adequados” para a turma do Deus, pátria e família. Ainda bem, né?

Pensei várias vezes em como as relações políticas são intrínsecas à arte, algo sobre o que amo falar, e reparei em como o Diretor quis trazer o contexto da existência do Cazuza para os dias de hoje. Aquela geração viveu na Ditadura e viu a reabertura, eu sou da geração que vem depois, que nasceu no fim de Ditadura. Eu sou da geração dos filhos e filhas de Democracia. Por um tempo, vivemos enganados como se não tivéssemos responsabilidades sobre isso. Mentira. 

Barão Vermelho, por exemplo (e isso não está no documentário), teve uma canção vetada porque usava o verbo “dar” com conotação sexual. Esse era o nível. E o desbunde necessário depois dos anos de violência, repressão e censura – moral, religioso, social, sexual, artístico – era inevitável. O surgimento da AIDS foi uma bomba. Por muito tempo eu acompanhei de perto todas as notícias sobre a AIDS, o preconceito sempre foi algo inexplicável pra mim, lembro de quando surgiram pesquisas que comprovavam que a maioria de contaminadas, num determinado ano, eram de mulheres heterossexuais casadas – sim, contaminadas pelos seus santos maridos, no ato sexual dentro dos seus lares. Eu combatia essas visões preconceituosas ao meu redor, até conviver de perto com pessoas soropositivas ainda numa época sem tratamentos efetivos e, até recentemente, quando tive alunos contaminados. A forma como Cazuza foi exposto e escrachado pela mídia ao se assumir portador do vírus HIV é daquelas coisas mais nojentas que a sociedade brasileira já produziu.

Mas, quero voltar a duas coisas: à caretice e ao trabalho. E assim engato para o documentário sobre o Mamonas Assassinas. 

Ser fã, pra mim, é ser daquelas que conhece bem até as canções que não fizeram tanto sucesso. É gostar tanto de Minha Flor, meu Bebê e de Desastre Mental (que fecha o documentário) e chorar emocionada com a versão ao vivo (inédita pra mim) de Ritual. É ter Ideologia como um mantra. Ambos, Cazuza e Mamonas Assassinas só foram possíveis num mundo antes da Direita brasileira ter reassumido o poder, com Bolsonaro, após a Ditadura. Hoje nenhum deles poderia existir. O que me faz pensar quantos deles estão por aí e nunca serão ouvidos por nós. Ao longo dos documentários me dei conta que ambos eram homens, e que, sim, nesse mundo misógino, machista e tal e tal, minhas maiores referências eram fruto da estrutura dessa sociedade. 

Eu era uma daquelas crianças que adoravam Mamonas Assassinas e cantávamos o Vira e Mina sem pudor nenhum. Toda a composição, das letras aos figurinos, era genial. Era crítico, era poético, era revolucionário. Eu gosto de gente com bom humor. Eu sou piadista em tempo integral. O humor faz da vida algo mais interessante. Usar o humor para debochar, ironizar, satirizar as coisas mais sérias, então, deixa tudo mais gostoso. Mamonas Assassinas era tudo aquilo que o universo onde eu vivia não permitia existir. Por aí também foi Cazuza. Mesmo tendo sido criada com a nata da música brasileira, desde muito cedo, esses compositores não eram aceitos dentro do padrão já estabelecido. Se isso também foi motivo pra eu gostar mais, nunca saberemos.

Mamonas pra sempre me incomodou, esteticamente, no início, mas depois entendi a proposta por seguir a textura e luz do VHS – aliás, saudade VHS! Isso faz muito parte do meu mundo. O VHS de vídeos pré-redes sociais de celulares na mão o tempo todo. Ri muito de várias gravações caseiras realizadas pelos integrantes da banda, pois as referências de falar para a câmera, registrar certas coisas (e não publicá-las imediatamente!) me soaram muito familiares. Eu cresci com câmeras VHS, isso é coisa da minha geração. Também foi um divisor de águas na construção de o que pensar da vida e do trabalho.

Mamonas também eram o oposto da caretice – e como o mundo está careta, meu Deus! Os jovens caretas, as famílias caretas, os machos caretas, os discursos caretas, os artistas caretíssimos! A Direita, após a Ditadura, nunca desapareceu, e esteve rasteira e insidiosa nas cabeças de jovens pelo país todo, com Bolsonaro como representante a discursar violências sem tamanho, até se eleger nos braços desses caretas. Eu disse que a volta da moda de calça jeans de cintura alta era um sintoma maligno. 

As pessoas estão mais preocupadas com a sexualidade umas das outras do que combater a caretice. E é essa gente careta que acha que certas atitudes são, justamente, contra a caretice. Cazuza e Mamonas Assassinas viviam o trabalho deles. A gente não bate cartão. A gente vive o que produz e precisa viver pra produzir. Os caretas de hoje só querem bater cartão, nem mesmo trabalhar querem, é só bater cartão mesmo. Não há ânimo na vida, não há interesse em intervir no mundo através do seu trabalho e da sua atuação no dia a dia.

Nós queremos viver o inferno e céu de todo dia. Só assim faz sentido. Transformar o tédio e a poesia em ritmo, cena, personagem e melodia. Quem quer seguidores e dinheiro jamais entenderia isso.

Tão bom ser artista e ainda colocar o dedo na ferida. Sem nem precisar usar suas escolhas pessoais e sexuais para isso. O quanto a Ditadura alimentou gerações (não vamos esquecer os oitentões que estão aí e viveram mais a Ditadura do que a geração dos filhos dela) para explodir os limites e romper barreiras e impor novas leituras de mundo. Vejo a última ascensão ao poder da Direita, com um governo de milicos, como um detonador perigoso do oposto: é como se hoje vivêssemos sob o escrutínio de uma sociedade mais vil, cruel, violenta, persecutória do que os anos de chumbo. Não parece, é assim mesmo.

Ambos fazem questão de demarcar, mesmo que de leve, seu posicionamento político. Boas Novas fala sobre a caretice abertamente, apesar de não fazer citação direta aos dias e governantes atuais, enquanto Mamonas pra Sempre exibe algumas vezes a faixa de Lula presidente nos comícios onde a banda fazia apresentações.

De certa forma, mesmo nos meus momentos mais inocentes, é bom saber que sempre estive do lado certo. Ambos também acertam em não querer “limpar” a imagem dos artistas. (mas o que foi aquilo da fala da Lucinha sobre o Frejat?! por outro lado, ainda bem que ela processou tudo que houve na sua relação com Cazuza) Hoje mesmo, com esses artistas caretíssimos que o Brasil tem produzido (não, gente, o “senta, senta, senta” não é nenhum hino contra a caretice), e toda a preocupação que se vê de publicações, redes sociais e o escambau. Cansativo, viu. 

Difícil sequer acompanhar novos artistas nesse país. Ainda mais esses artistas que alcançam grandes públicos e só são burgueses mesmos, ao ignorarem todo o tipo de absurdos que o mundo ao redor alimenta. 

Como li num texto hoje, não é nostalgia, é diagnóstico (li num post desses de Instagram que tem dezenas de cards que ficariam melhor numa página de texto). O post falava justamente que os poetas seguem sendo de esquerda, mas a esquerda não é mais poética. Fica a necessária e urgente reflexão.

Sim, Belchior é o compositor da trilha sonora da minha vida adulta. Quem será depois dele? Talvez saberemos em breve. Ou talvez eu tenha que continuar com ele e nossa realidade de não ter dinheiro no banco, nem parentes importantes. Enfim, não se preocupem com isso, é só um texto. A vida é muito pior.

Nós sempre fomos uma ameaça

A presença da mulher na sociedade sempre foi distorcida – e ainda é. Quando vemos a História da Humanidade, percebemos que ela precisa ser toda reescrita. Com a História do Cinema não é diferente.

Tenho um apreço pelo cinema estadunidense das décadas de 1940 e 1950 por vários motivos e também pelas mulheres estrelas de cinema que foram construídas à época. Marilyn Monroe foi a grande estrela e nunca será igualada (nem mesmo as estrelas do pop estadunidense chegarão a superá-la). Mas, para além dela, existiram tantas outras. E mesmo a história dela, seus personagens, suas escolhas, sua vida pessoal, dizem muito mais do que os rótulos e os homens tentaram aprisioná-la.

Me refiro à filmes que foram realizados num período de grande censura moral, quando existiam códigos de conduta para o conteúdo que chegaria às telas. Um mero beijo de lábios gerava muita especulação. Por um lado, quando o cinema precisa dizer mais sem mostrar tudo, porém, quando também o moralismo, a perseguição, as ideologias eram ferozes (talvez não muito diferente do que o país de lá tem vivido hoje fora das telas). No cinema, as mulheres foram paulatinamente sendo excluídas, diminuídas, seus nomes não constavam nos créditos porque os homens viam como elas ameaçavam o seu domínio. 

Contudo, em meio a isso, as belas mulheres e seus corpos atraíam público. Então, era menos interessante fazer filmes sem personagens mulheres (além da teoria do voyeur). Mesmo com a grande produção de filmes de Faroeste na época, gênero que poderia privilegiar personagens homens (como vimos em releituras do gênero produzidas em épocas posteriores e até hoje), as personagens mulheres existiam com boa presença no roteiro e nas cenas. Ao contrário do que aconteceu depois, com a onda dos blockbusters, principalmente, e seus buddy movies. Dos anos 1970 em diante, as mulheres foram engolidas em cena também, nem mesmo o cinema independente americano (ao qual somos muito devedores ao redor do mundo e ao maravilhoso Robert Redford que nos deixou dias atrás) conseguiu evitar isso.

É evidente: conforme as mulheres ganham liberdade e podem chegar aos espaços, alcançar posições, conseguir financiamentos, ter formação, os homens imediatamente encontram formas de sabotá-las e fazerem-nas perderem suas oportunidades. Desde que o mundo é mundo.

Contudo, essas belas mulheres estavam lá e faziam muito por nós – fazem até hoje. Quando vejo uma grande atriz da época a escolher personagens de mulher independente, “mal falada” que consegue driblar os preconceitos, entendo que, naquele momento, mesmo que o filme termine com um happy end de casal hetero, era algo extraordinário o que ela estava fazendo.

Quando acompanho a carreira de uma atriz que fez personagens de mulheres sempre lutando contra as violências do mundo, e, ao chegar aos 40 anos, assume a sua idade e faz filmes nos quais essa é uma das grandes violências: ela não é mais uma mulher porque tem 40 anos – mas ela se apaixona, vive, faz sexo (com homem jovem, inclusive) – eu percebo que sempre houve mulheres fazendo muito por nós. Com as ferramentas e com as armas que elas podiam naquele momento (mesmo que com seus corpos).

Esses dias ouvi “eu sinto que os jovens acham que precisam reinventar a roda”, e é verdade, muitos acham. Todos que já fomos jovens lembramos como é descobrir o mundo, não é mesmo? Quem somos nós para julgá-los. Descobrir o mundo é algo muito interessante – e, na verdade, nunca termina. Como mulher ainda redescubro como as mulheres lutaram (tanto e tanto) pelo seu lugar no mundo e nas sociedades. Nunca foi fácil, ainda não é fácil.

No último filme que assisti, com um argumento interessantíssimo e que flertava com o gênero do faroeste (um dos meus favoritos), e escrito também por uma mulher, o embate entre a situação de violência que as mulheres sofriam (sofreram e sofrem, visto que é a ameaça à vida e sua integridade quando diante de homens) era o ponto central. Fiquei surpresa, confesso, por como um filme despretensioso alcançou este tema de forma muito bem elaborada, mesmo tendo sido produzido naqueles tempos. 

Não faz muito tempo assisti a um curta brasileiro que está rodando festivais que falava sobre mulheres e essas violências, de uma forma muito mais direta e objetiva inclusive sobre as circunstâncias que permeiam a vida das mulheres e achei, infelizmente, ruim. Pelo menos temos mulheres falando sobre mulheres, mas é questão de gosto como abordamos as questões e sobre o que queremos falar.

Um dia, em sala de aula, citei um filme que era dirigido e protagonizado por mulheres maduras e um aluno comentou “ah, conheço, é filme de mãe, né?” o que imediatamente me chocou, porque percebi que para aquele homem jovem, um filme protagonizado por uma mulher madura e sobre questões que tocam uma mulher madura era um filme “de nicho”, mesmo as mulheres sendo maioria da população do mundo. Vejam só, termos tantos filmes sobre homens que se aliam e combatem homens não é algo de nicho, é claro, porque a maioria do mundo é feita de homens em grandes embates. Sei.

Posso, assim, afirmar duas coisas: no mundo de hoje não vemos mulheres o suficiente no cinema. As personagens mulheres (adultas e maduras, então, menos ainda) são desprezadas, não protagonizam histórias importantes e interessantes e seus dramas não parecem atrair tanto os realizadores. Podem reparar. Além disso, as mulheres não têm liberdade no cinema (falo por mim com inúmeras provas). As mulheres continuam sendo sabotadas, minorizadas, perseguidas. Pois, ao que parece, sempre há quem pense que somos uma ameaça. 

Tenho até formulado uma teoria, a partir de estudos e de conversas, sobre o ressentimento masculino dos homens a partir da minha geração que chegaram hoje e não sabem bem para que servem no mundo – e se sentem o tempo todo ameaçados por este vazio e como isso gera as inúmeras violências que sofremos todos os dias, desde o feminicídio até o ghosting. 

Nós sempre fomos uma ameaça. Por isso sempre fomos sabotadas, queimadas na fogueira, perseguidas e mortas. Nós sempre encontramos inúmeras formas de seguir vivas e defender nosso lugar nesse mundo. E sempre encontraremos, assim como as personagens no cinema.

Está faltando paixão

Dizia Rousseau, um romântico incorrigível até o final dos seus dias, que a palavra nasceu da paixão. Quem nunca pensou, por alguns minutos, como o ser humano desenvolveu a capacidade da comunicação, quem foi, afinal, que por primeira vez criou uma palavra, deu nome às coisas, bom sujeito não é. A curiosidade faz de nós melhores pessoas.

Eu amo a curiosidade. É parte fundamental da minha essência. A curiosidade me leva a rumos inesperados, à aventuras deliciosas, à surpresas inusitadas. A curiosidade garante meus sorrisos dia a dia. Por vezes, me garante dias e dias de reflexões.

O ser humano que não pratica a curiosidade vive numa prisão. Dizem que a curiosidade faz parte da infância, quando estamos descobrindo o mundo. Na primeira série lembro de ter lido um dos meus primeiros livros: A curiosidade premiada. Então, de alguma forma, os curiosos carregam consigo a beleza e leveza da infância. Mas, também, tenho que discordar. Todo dia é dia de descobrir o mundo. Ledo engano daqueles que acreditam já conhecer tudo sobre o mundo. 

Voltando, contudo, ao Rousseau, além de já ter pensado várias vezes sobre este fenômeno (do qual talvez nunca tenhamos certeza) da origem das palavras e comunicação entre os seres humanos, fiquei dias pensando na proposta dele. 

É a paixão que nos faz explodir em palavras.

Vejam bem, em tempos de tantos conselhos virtuais sobre ser blasé, ignorar, mandar um joinha apenas, fingir que não leu, fazer que esqueceu, eu volto os olhos para a paixão. Já diriam alguns punhados de filósofos que é, afinal, a paixão que nos move (têm os defensores de que devemos equilibrá-las, outros dizem que devemos controlá-las, não há consenso: ainda bem). Talvez o mundo ainda precise de mais paixão.

Claro, nem preciso esclarecer que, quando falo de paixão, não me refiro somente à paixão romântica e sexual. A paixão é a força que nos move internamente. Pode ser, sim, a paixão do desejo físico por outra pessoa. Pode ser a paixão da ira, da revolta, da raiva contra outras pessoas, suas atitudes, ou injustiças, por exemplo. É uma força que vem de dentro.

E na corrente contrária a esse mundo virtual que quer restringir nossas vidas e sentimentos em caixas de milhões de vídeos que não nos dizem nada, eu acredito que é preciso seguir as paixões.

Tem nada que fingir que não leu, deixar pra lá, dar joinha, não. Na vida real, no tête-à-tête a relação entre as pessoas é diferente, lembram? É preciso ter coragem, curiosidade, olho no olho. A vida online deixou tudo tão fácil para os covardes. Por isso, se abarrotam as recomendações de que a gente finja que não está nem aí e que as paixões estão mortas.

Eu gosto da vida real, do olho no olho, da palavra na cara, da pele na pele, das intenções sem script de vídeos e posts de rede social.

Consigo imaginar as pessoas criando as primeiras palavras. O grunhido que se transforma no aviso de perigo à pessoa amada que está diante de um risco e não vê. O grito que se torna uma imprecação ao estourar o pé em algum obstáculo (teriam os palavrões sido algumas das nossas primeiras palavras?). As palavras mais carinhosas nascidas dos gemidos na hora do sexo. A mãe sussurrando a canção de ninar para acalmar seu bebê.

A paixão é a origem da comunicação entre os seres humanos.

Assustador ver o mundo silenciado – as pessoas estão perdendo a capacidade de comunicação. Elas não conseguem mais se expressar nem, muito menos, dizer o que sentem. Elas têm consumido tanto “conteúdo” o dia inteiro que sequer percebem quais paixões são as suas, quais paixões atravessam o seu ser – quais sentimentos e sensações as fazem explodir em palavras (boas ou ruins).

Nessas horas até agradeço por ser uma pessoa descontrolada. As paixões me movem, sim. Fico feliz com isso toda vez que encontro mais um ser humano insípido, silenciado, desapaixonado, que tem medo da curiosidade, que se omite às presenças reais. 

Ao praticar a comunicação aprimoramos as relações humanas, aprimoramos nossos sentimentos, construímos o dom de amar e ser amados, descobrimos como cada ser humano é um universo, um quebra-cabeça. A curiosidade sempre me moveu para perto das pessoas, dos lugares, da vida e do mundo em busca de cada peça que vai se encaixando nesses quebra-cabeças. Não tenho medo do que encontro. Há tempos prego a importância da comunicação e, quem diria, em tempos de tantos dispositivos que usam de tecnologia para supostamente melhorar a comunicação no planeta percebo que nunca nos comunicamos tão mal. 

A paixão é melhor do que toda essa tecnologia junta. Tenho como provar.

A paixão é a melhor forma de comunicação, sim. 

É transbordar as emoções em voz, gritos, gemidos, explosões, sussurros e olho no olho. 

Ao vivo. Presencial. A vida, aliás, só existe no presencial. 

(pandemia, um dia te superaremos, talvez) 

Porém, ao encontrar essas pessoas que não sabem mais se comunicar, que a paixão transborde em palavras frias numa tela. Às vezes, o recado será dado. Silenciar jamais.

Agenda aberta

É a hora de colocar ordem na casa, depois de dois meses intensos e esparsas e tensas anotações sobre pensamentos, ideias e sentimentos. Colocar ordem na casa para seguir em frente. Seguir em frente: a vida chama e não é sábio fingir que não ouviu.

(segue lista de canções para ouvir enquanto lê, mais uma lição que aprendi esses dias e também é sobre filmes, canções e experiências)

Meu lugar

Será que todo mundo tem um lugar no mundo onde é seu ponto de equílibrio? Há vinte anos eu encontrei o meu lugar. Nem sempre que preciso consigo ir até lá – de uns anos pra cá ficou ainda mais difícil. Algo ser difícil nunca foi um problema pra mim. 

O meu lugar é lá, é o equilíbrio na balança, é onde me reencontro com todos os meus eus que por lá já passaram – com os desejos, os sonhos, as lutas e a consciência. É onde vou para juntar os pedaços e para comemorar. Motivo sempre há para ir ao meu lugar e olhar as certezas que já desenhei naquele céu.

Que triste deve ser a vida de quem não tem o seu lugar no mundo. Já pensou vagar por aí sem ter a segurança de onde pode ver a si mesmo? 

Precipícios

Correr riscos, andar à beira do precipício. Ter os pés firmes em lugares incertos e perigosos. É um modo de vida, uma escolha. A ação precisa da ilusão, devo ter ouvido em algum filme. Iludir-se é um dom. Lutar contra si mesma é luta vã. Meu lugar é lá no precipício, de onde vejo o mar aos pés, o contorno das ilhas, a imensidão da vida.

“Não me iludo mais”, eu me disse inúmeras vezes enquanto sonhava acordada, mais uma vez. No outro dia, caí da cama. E queimei a mão em óleo quente. Também lancei longe, sem querer, uma taça de cristal cheia de bom vinho. Talvez seja bom eu me iludir, afinal. Os danos físicos e materiais são menores. Sonhar é meu superpoder.

Vim, esta última vez, do meu lugar com o coração mais disposto a me perdoar. Já me culpei demais pelo que os outros fazem comigo. Chega.

Em respeito àquela mulher que ontem cruzava aquelas praias, que subia e descia aqueles morros, que se preocupava tanto em dar conta de todos os compromissos, que se submetia à falta de conforto e segurança, que nunca desistiu, aquela mulher eu de ontem que sabia bem o que queria e se esforçou e lutou tanto – eu devo respeito a ela e preciso me perdoar mais por ser vítima do mal que me fazem. Vou lembrar disso na próxima vez que eu voltar ao meu lugar.

Só Deus é quem sabe

Nem se constituíram em capítulos. Tirei algumas páginas para escrever e sobraram páginas em branco – e foram rasgadas. Não tenho porque manter páginas em branco, minha vida não merece isso. Lá do alto, lancei essas páginas ao rio Belém. Pessoas que não gostam de desafios não são bons personagens, nem na ficção nem na vida real, e eu trato bem meus personagens. Como sempre, eu esperava mais de você, meu bem. A liberdade é uma porta que precisa coragem para ser aberta, porque ela nunca mais se fecha. Sim, devo ter ouvido essa em algum filme também. Sem coragem de viver desafios, restam páginas em branco. Nem mesmo criei versos sobre cultivar um pé de manjericão para eternizar tua lembrança. Sobre você não escrevi nem um verso – muito menos em francês. Páginas em branco na longa estrada, parece que meus cadernos com versos se tornarão relíquias. Juro que tenho dois versos em espanhol e um em portugês e nenhum deles guardou sequer ressentimento. Aprendi apenas a quebrar padrões. As lições ficam.

Como deve ser horrível viver sem poesia. 

Amor & Política  l  Política & Amor

Terminei colchas de retalhos muito bem costuradas nos últimos meses, alcancei uma harmonia que fala por si só nos atos e palavras. E quem diria que o mundo representaria nada mais que fagulhas, fogo morto, brasas afogadas. Eu gosto de atiçar o fogo.

Os babacas são muitos nesse mundo. Jamais voltarei a me culpar por não identificá-los a tempo. Eu faço tudo com amor, esse é o meu segredo. Descobri, porém, que apesar da larga experiência com os babacas, ainda me engano profundamente. Tem alguns que são mestres em camuflar como são. Prefiro um babaca honesto. Não é? Life is too short to keep bad memories. (filme? não faço mais ideia)

Nunca me faltou sinceridade em nenhum ato, em nenhuma palavra. Talvez as pessoas não estejam mais acostumadas com isso. Mas, se tem uma coisa que aprendi na última leva de lições da vida foi a de não buscar mais desculpas e justificativas para os erros dos outros (principalmente se eles forem homens). Nunca mais. Como a gente demora pra aprender essa lição!

Ainda dói, de alguma forma. Porém, seguir em frente antes que dores piores aconteçam é a única coisa inteligente a se fazer. 

Fiquei indecisa, então era melhor eu me arrastar mais para a política? – meu cinema é político, meu viver é político. Sei lá, deixar o amor fora dessa. Sorte no jogo, azar no amor. Como eu gosto de uma aposta! Sei lá. Ainda bem que não tomei essa decisão. Não vou desistir do amor. Não tenho porquê escolher entre o amor ou a política. Na real, na prática já faço tudo com amor e tudo que eu faço é político.

O amor é revolucionário. O amor é político

Me permito caminar y sentir. É tão gostoso sentir. Entregar-me ao que sinto. Caminhei muito hoje e percebi que entregar-me ao que sinto é minha pérola. 

Mais uma página arrancada em branco. Restaram memórias indeléveis no corpo. 

A paz

Nada nem ninguém vai abalar a minha paz. Só eu sei a guerra que eu vivi para hoje tê-la sagrando meu corpo e minha alma – e meu coração. Busquei a paz como missão de vida contra toda a maldade alheia e contra os babacas que cruzaram meu caminho. 

Minha paz vale mais que tudo.

Àqueles que arranham minha paz, dedico meu silêncio e meu sumiço. Sigo em frente. Eu guerreei para alcançar a paz, agora que a tenho não entro em nenhuma batalha boba. Uma mulher em paz com seu passado, com suas experiências e com suas cicatrizes não se machuca por mais ninguém. 

Privilégio macabro

O conceito que ouvi (não foi em um filme, foi num debate sobre filmes) e roubei pra mim:  privilégio macabro de viver nesses tempos que vivemos. As guerras, as mortes, a fome como arma de extermínio, a destruição, as injustiças, as violências. A quadra terrível da História. Por isso mesmo tenho desfiado o conceito de que precisamos buscar o bem. Amor e política andam assim juntinhos. Não serei eu mais uma a machucar os outros, a fazer o mal, a destruir. É preciso praticar o bem. Só tenho amor a oferecer. O mal não tem a última palavra. 

. Quem diria que ainda me resta fé. São os pés firmes à beira do precipício. É ter amor pra dar mesmo após mais um babaca. É rir das páginas em branco. No caderno ainda há páginas para muitos versos. Fé nos gestos. Fé que o bem não saiu de moda. Fé na fé contra as ações que nos tornam testemunhas desse privilégio macabro. Faço tudo com amor, desde lavar as roupas até escrever um roteiro. Não tenho forças pra perder a fé.

Fera ferida

Não vou mudar. Esse caso não tem solução. Quando passamos por algum trauma ou experiências ruins, dizem que precisamos mudar. Eu não vou mudar. Sou espontânea, apaixonada, exagerada, introspectiva, romântica. Se não for assim, não serei mais eu – a paz me mostrou que não são os problemas dos outros que devem ditar regras sobre como eu levo minha vida. Quem abusou da minha personalidade é que tem que perder o sono. Eu sigo em frente. 

Viver

Viver. Viver nunca é para amanhã. Colocar a casa em ordem para seguir adiante, comprar as passagens, reservar os hotéis, fazer as malas. Convivi a vida inteira com a morte, muito antes de encontrar a paz eu já sabia que viver é nobre. Nunca é para semana que vem. Viver é hoje. É viver o que aparece. Às vezes, iludida. Às vezes, enganada. As páginas podem ficar em branco ou serem arrancadas. Viver é imprescindível. Em algumas páginas surgirão versos, em outras conceitos.

Agenda aberta

A partir de amanhã, às 8h, a agenda reabre. Quero novas experiências, quero repetir tudo aquilo que mais amo. Vou correr atrás do trio elétrico, vou retomar sonhos que estavam me aguardando, vou me abraçar à coragem e encarar novas empreitadas. No trabalho e na vida. Porque a vida não é só trabalho, mas como política e amor, tudo anda muito junto. 

Se eu voltaria àquela vinícola no Uruguai? Claro, mas a viagem e a experiência jamais seriam as mesmas. Ou talvez eu escolha ir em outra. As possibilidades de felicidade não são egoístas.

Em seis meses eu consegui arrumar a casa, organizar os pensamentos, rever feridas cicatrizadas e preparar a vida para amanhã. E isso inclui a escrita (aqui e as demais).


https://youtu.be/e3es0CjkQIA?si=PQlsVvcUtX0RVkY0

Ninguém combate o fascismo sozinho

Não se trata nem de vertente política ou conduta moral: o tal conservadorismo é somente um véu. De hoje em diante, não fale essa palavra na minha frente. “Santa Catarina é um estado conservador” na sua ação de usar da censura, da repressão, da perseguição aos que estão vivendo e produzindo o que não se encaixa no discurso falido de meia dúzia.

Sim, porque a repressão não é praticada pela maioria, ela é praticada por uma meia dúzia – barulhenta, é verdade, mas somente porque a maioria se cala. 

O conservador é somente porque você não quer que seja exibido um filme do qual você tem medo. O conservador é porque você não entendeu o espetáculo de dança – você que mal sabe um plié – e convoca deuses contra a Arte. O conservador é somente porque a história oficial vendeu essas terras como de gente de pele branca vinda do velho continente – onde nem lá sobrevivia o conservadorismo. Lá onde a Humanidade aprendeu e se horrorizou com holocaustos.

Que terra conservadora é essa onde mulheres morrem por serem mulheres, todos os dias? Onde os assédios sexuais e estupros têm índices alarmantes? Onde a quantidade de pedófilos e crimes de pornografia infantil abundam? Nem os coitados dos animais escapam da sanha violenta dos abusadores. Que terra é essa da cidade que já se destacou várias vezes em sites e aplicativos onde mais os homens traem suas parceiras? 

Ah, a doce hipocrisia. Foi essa terra que me ensinou tão cedo o significado da palavra hipocrisia

É a cidade onde operário elege empresário. A vítima e o algoz. 

Essa terra onde mulher acha que feminilidade é uma tiara de flores na cabeça e tem festas regadas a chope e músicas velhas de um país que só existe na concepção fantasiosa de gente que força um sotaque esquisito. 

Mas, repare: é só a censura vir à tona que a frase está engatilhada “não é censura”. 

Não censuram a morte de crianças aos milhares. Não censuram a fome pelas ruas. 

Quem são os censores senão aqueles de quem conhecemos os pecados? Atire a primeira pedra.

Quem tem medo de fascista é colaboracionista. E tenho dito. Tua gente morre nas mãos deles, pessoas LGBTQIAPN+ morrem pelo discurso deles e tu prefere o medo. Não terá jamais o meu respeito. CLT nenhum vale sujar as mãos de sangue.

Exagero? Cada ação, cada pequena ação, que pensa contornar problemas e se esconde atrás de “mas é um estado conservador” está de mãos dadas com toda a violência que praticam contra mulheres, contra artistas, contra LGBTs, contra negros, contra pobres, contra pessoas em situação de rua. Você é colaboracionista. Você apoia fascista. A História não perdoa.

Essa terra não é conservadora – insensato eufemismo. Eles não são maioria – tenho dito faz tempo. O que assusta é a apatia dos demais.

É, amor, ninguém combate o fascismo em silêncio. Ninguém combate o fascismo sozinho.

A vida sempre foi sobre estar do lado certo da trincheira. Quem está indeciso também será atingido.

A censura

Um dos fantasmas da ascensão dos extremismos é a censura.

Lula foi eleito, Bolsonaro perdeu. Não estamos livres da extrema-direita, tenho repetido inúmeras vezes. A extrema-direita tem feito sua tarefa de casa, tem se fortalecido, inclusive no meio político. Os especialistas têm gritado com frequência que precisamos pensar e agir para frear a volta da extrema-direita à presidência e que eles estão de olho no congresso, no senado, nas prefeituras e câmaras de vereadores. 

Porém, tenho pensado e acompanhado os danos que a ascensão da extrema-direita já causaram, tenho me deparado com o legado do crescimento do conservadorismo (em todas as suas vertentes). Durante o período do governo Bolsonaro eu dizia que, a cada novo desmando, levaríamos mais de dez anos para nos recuperar – na educação, no meio ambiente, nos direitos individuais, os danos causados iam de irreversíveis a muito graves. O Meio Ambiente, por exemplo, a destruição, a contaminação e a exploração não são instantaneamente reversíveis com outro presidente no poder. E, segundo a realidade que apontam muitos especialistas, o mundo já atravessou o ponto de não retorno. 

Nos últimos dias pensei bastante na censura. A censura na arte, especificamente, mas a censura de modo mais geral, até mesmo a auto-censura (tema que já abordei aqui). Para todos nós que criamos, a autocensura é um dos piores momentos que experimentamos internamente. Por vezes, nem nos damos conta que estamos praticando a censura no ato da criação, antes mesmo de tê-la (a nossa obra) elaborado. Para o senso comum, a censura só existe no ato de censurar uma obra já realizada, por conta, normalmente, do seu conteúdo.

Tento demarcar um início e o que me veio à mente foi aquela performance no Santander do Rio Grande do Sul, quando denunciaram que uma criança tocava o corpo nu de um homem. Depois disso, não foram poucas as “denúncias” de obras artísticas que deveriam ser censuradas – o que desencadeava, toda vez, uma série de perseguições, violências, sufocamentos e silenciamentos.

Censura é coisa do século passado, quando a Ditadura precisava “liberar” as letras das canções, as cenas das novelas e tudo mais. Porém, o que vemos no Brasil na última década é a dominação da censura. E, desta vez, não há nenhuma Ditadura para culparmos. Isso demonstra como o conservadorismo tem dominado o discurso de quem aprecia e quem apoia e financia a produção artística.

Filmes já deixaram de ser feitos por conta da censura. Produtores culturais já tiveram seus eventos vetados por conta da censura. Ela está, definitivamente, entre nós. Às vezes, a censura é denunciada, contudo, na maioria das vezes ela é silenciada – por medo, medo que temos de denunciar que este ou aquele, que esta ou aquela instituição, praticou o ato de censura, visto que vivemos num mundo de interdependência (principalmente econômica). 

Tenho consumido, como sempre, muita arte. Sentia que algo me incomodava: a esterilidade, a falta de discurso veemente, a ausência da arte que desloca, que faz pensar, que luta, que incomoda (ao causar desconforto no público e que cutuca as estruturas estabelecidas). Há uma enxurrada de produção cultural em cima do muro, e onde deveria existir arte tenho encontrado mero entretenimento. 

Então está tudo bem e a arte agora é só pra nos distrair? 

Não está tudo bem. Os corpos incomodam, as críticas incomodam, a realidade social do país incomoda. E por que não os vemos? Seria a auto-censura trabalhando paulatinamente nas cabeças (e corações) dos criadores? Ou porque a censura de quem detém o poder tem conseguido tirar essas obras do nosso alcance?

Há censura no Brasil. Querem censurar até mesmo o que nós dizemos. Como sempre, uso esse espaço como trincheira para a liberdade. Esses dias ouvi um especialista que salientava como os blogs eram locais mais “antigos” de debate da esfera pública e que nem mesmo as redes sociais conseguiram superá-los – concordei muito. 

Quando me deparo com a censura, algo se move dentro de mim. Eu sou filha da democracia, sou dessa geração que nasceu com a democracia, com o voto, com um Brasil que deveria ser diferente e enterrar seus fantasmas, para sempre. Tenho refletido muito sobre isso ao acompanhar a série publicada pela revista piauí, que me faz refletir sobre quem somos e porque nossa atuação no país não resistiu às investidas das gerações anteriores (que buscam reviver o passado) e ainda não acredita nas gerações que vieram depois (perdidas em nomenclaturas e rótulos para suas lutas de sofá e redes sociais). 

Os fantasmas seguem entre nós. A censura é o apagamento da arte que vibra e pulsa nas nossas mentes e corações criativos. Censurar um filme é impedir que o discurso daquele grupo seja acessível ao público. E nós, enquanto público, não teremos acesso ao que aquele realizador disse – e assim quem detém o poder molda os discursos que estão no mundo.

Quem detém o poder, detém também a enorme responsabilidade sobre o que está sob o seu domínio. Responsabilidade. Sim, instituições públicas e privadas podem ter seus próprios critérios sobre o que vão veicular ou não. Por isso mesmo faço essa reflexão: o que temos feito com a arte no Brasil? Por medo do avanço de concepções conservadoras, do discurso virulento da extrema-direita e da ascensão do fascismo nós devemos nos calar e produzir obras amenas, palatáveis e que não gerem perseguição? E se produzidas, quem pode distribuí-las e levá-las ao público, vai censurá-las com medo das consequências. Como sempre digo, o medo é péssimo conselheiro. 

O que vivemos no Brasil nos últimos anos nos levou à busca de critérios conciliatórios, de discursos policiados, de criações que não levem ao desconforto e ao risco. O mundo não é lugar de conforto, pra quem ainda não percebeu. Quando vivemos num mundo de lutas diárias pela sobrevivência, sendo mulheres que nunca sabem se chegarão vivas em casa, com a fome cultivada pela enorme desigualdade social, com corpos trans assassinados diariamente, não há como viver confortavelmente. Não existe essa possibilidade. Lamento por quem produz arte e quer se furtar a isso. Mas, me indigno com quem se exime de levar ao público que essa realidade existe – o mundo fofo do entretenimento é o que a indústria faz para ganhar dinheiro. Bem, muitos estão “produzindo arte” só para ganhar dinheiro mesmo, aqui na cidade há vários exemplos.

Essa onda conservadora, além de engatilhar a auto-censura, também abriu caminhos para uma produção artística auto-centrada nos seus traumas, vivências privadas e psicologismos. Até quando peças de teatro auto-referentes com a encenação da relação com o pai, filmes sobre a perda da mãe, livros sobre experiências reais, performances de mães e suas dores ‘reais’? O artista que não consegue transformar suas experiências e referências em ficção será um artista? Ficamos presos nesse egoísmo e auto celebração da intimidade sem abordarmos a graça de vivermos na coletividade. Ninguém censura o eu, porque quando falamos do nós o desconforto nos faz sair desse eu e nos obriga a lembrar que existe um mundo para além do nosso umbigo. Toda arte é válida? Deve ser. Talvez seja apenas uma preferência estética minha? Talvez. Mas a análise vai além do mero gosto estético, pode ter certeza.

Essas reflexões são de quem produz e consome arte no Brasil. É uma visão de dentro e de fora. A História nos conta que na época da censura institucionalizada os artistas lutaram contra ela, buscaram metáforas, escreveram versos e a enfrentaram. Nesses tempos de censura por baixo do pano, os artistas a assumem como status quo do fazer artístico. Enquanto quem a pratica vive tranquilamente, não se envolve em problemas e mina o próprio país. O Lula ganhou a eleição presidencial. A extrema-direita, o conservadorismo e o fascismo já ganharam inúmeras lutas do cotidiano da sociedade. Ao assustarem, com seus gritos, instituições e artistas sobre o que eles podem ou não produzir e exibir, eles já ganharam. Sem precisar de um AI -5 ou do DOPS.

A culpa não é deles. Só cai no medo de não enfrentá-los quem quer. Eu luto pela liberdade de cada um de nós criar seus discursos, inclusive eu mesma. Jamais serei colaboracionista com quem censura. Quem colabora e quem silencia é cúmplice. 

Depois, como nos têm alertado os especialistas, quando a extrema-direita voltar ao poder, quem colaborou não poderá reclamar. Só tenham certeza que nem vocês escaparão da perseguição.

Vai faltar peça de teatro shakespeariana (aliás, viram a citação do filho que pratica atos contra a soberania do país?), performance do eu & meus traumas, filmes entretenimento e livros de romance auto-ajuda para o público anestesiado. 

Às vezes é sobre Tom Hardy

Desculpa, sou hétera

Eu sei, é quase um pecado hoje ainda alguém declarar-se hétera. Mas, sou. E muito. Como tantos de nós, também me descobri hétera (e muito hétera) ainda cedo. Não, posso assegurar que não é nenhuma heteronormatividade imposta ou construção sócio-cultural, é da minha natureza mesmo. Também, lamento decepcioná-los, mesmo com as péssimas e nem tão ruins assim, experiências decidi jogar em outro time. Sou hétera, mas quero garantir que não é uma falha no caráter ou sequer algum desvio. Sou hétera e não sou melhor nem pior que ninguém. Só, por favor, não insistam: como eu respeito todas as sexualidades, respeitem a minha. Não tenham pena, porém. Pode não parecer, mas sei onde estou metida.

Decidi me assumir hétera, profunda e assumidamente hétera, por causa do Tom Hardy. Nessa angústia da espera da segunda temporada de Taboo – caso você não saiba o que é a primeira temporada de Taboo, por favor, finja – eu resolvi dar uma chance a Mobland. Fiquei surpresa, ao sair da minha bolha, que essas séries transpirando testosterona com sequências pavorosas de mau gosto misóginas ainda têm espaço E financiamento. Parece que têm, não é mesmo? Guy Ritchie envelheceu muito mal, Pierce (meu amadinho e melhor 007 ever) e Helen assustadores sem se sustentarem no texto teatral e beirando o ridículo, MAS Tom Hardy: másculo, homem comum, o não-herdeiro, o incompreendido (só as héteras entendem o poder de sedução que um homem incompreendido exerce sobre nós), o herói solitário. O QUE É TOM HARDY?

Um fenômeno.

Ele, casado (óbvio), com uma esposa que o pressiona pelo comum e comezinho (insuportável), ele que deve lidar até com o asilo da mãe da ex-empregada, enquanto, narrativa paralela, ele salva tudo e todos, ela só reclama e ainda quer TERAPIA DE CASAL. Pobre hetero incompreendido. E era um desses que nós, héteras raiz, quereríamos salvar. Um defeito de fábrica, com certeza, toda hétera raiz querer salvar um hetero incompreendido e sacrificado por relações espúrias e infelizes. MAS, nós, em algum momento, nos curamos.

TOM HARDY me fez rever minha TEORIA DO AVERAGE JOE

Por um ano eu coloquei em prática a Teoria do Average Joe. O homem comum, sabe? Você poder sair com alguém sem precisar citar Almodóvar ou Fernando Pessoa. Conversar numa mesa de bar duvidosa sem contar sua vida profissional (UFA) e onde você fez mestrado. O auge: ir num bailão, rodar e rodar, sem registros (dos quais até teus amigos mais próximos duvidarão), rir de coisas que você não vai nem lembrar, beijar e se divertir e nunca mais saber de nada. A Teoria do Average Joe era baseada somente num teste sócio-romântico com pouca base científica, no qual a fuga para um mundo paralelo onde ouvir sertanejo dor-de-corno não taxava as pessoas de bolsonaristas, mas representava umas músicas que eram boas pra cantar junto. Durante o teste, a conclusão foi que dou match fácil com motoristas (de caminhão, de ambulância, de máquinas, etc) e pessoas em cargos de segurança. Sei lá, deve ser minha vida nômade que me aproximava desses perfis. 

O homem comum. Como é bom experimentá-lo. Eu vivi sufocada pela pretensão. Você já reparou o quanto a vida é imersa em pretensão? Eu quis fugir. E eu fugi. Eu precisava fugir dessa pretensão toda. Eu só queria ser eu. Eu só queria ser a Fahya, a mulher, a fêmea (amém, Wando), a debochada e brincalhona, a carinhosa e sonhadora, a Fahya que olha pro mar por duas horas sem ver o tempo passar, a Fahya que não é procurada pelas pessoas que só querem um cachê no próximo filme ou porque querem aprender a produzir. Foi intenso e reparador buscar o homem comum. 

Ser hétera pesou muito ao ver homens héteros que não suportam que a sua companheira cresça naquilo que ela acredita, que se destaque na sua profissão, que não a apoiam, homens que até se relacionam com ela porque têm interesses profissionais. Eu tenho certeza que você, hétero, está numa relação assim – ou já esteve em uma – seja hétera ou hétero. Aliás, mesmo os não-héteros. Vamos deixar de romantizar até a parte ruim dos relacionamentos: merda há em todo lugar. Violência doméstica não é exclusividade dos héteros, tá? O quanto antes falarmos disso, melhor.

E eu falo mesmo. Cansei de homens que não me davam espaço e valor pelas minhas qualidades profissionais. Desisti de homens que só se aproximaram “romanticamente” de mim por interesses profissionais. Desisti do amor? Jamais. (aí entra a Carrie, mas fica pra um próximo texto)

TOM HARDY e a ilusão

Eu sei, a conclusão do estudo sobre os average joe é que fica mais difícil estabelecer uma conexão profunda e contínua quando não há interesses mais fortes. Bem, eu também não estava em busca de nada forte e profundo. Contudo, é muito bom entender que não vou basear um encontro em analisar os filmes do Pasolini. Também não me importa saber quais autores você leu. A Nova Teoria é sobre CARÁTER. Pouca importa com quem você faz sexo, inclusive (jovens, aprendam). Tenho definido as pessoas pela característica mais simples: caráter, tem, ou não tem?

Além do caráter, vou reparar no que você bebe. E talvez isso desperte em mim muito mais interesse do que qual faculdade você fez.

Por certo, se tiver caráter e bom coração já vai despertar minha atenção. Harry, em Mobland, é de um coração enorme. E que megera maravilhosa é a esposa dele que não percebe isso, não é mesmo? Pois é, e eu aqui querendo encontrar uma megera dessas. É alguma síndrome de heroína, só pode, que me domina e faz querer salvar um hétero de algum relacionamento apodrecido por dentro e com uma megera que o sacrifica e anula. Sim, busco caráter, mas já não considero que cobiçar o homem alheio seja falta de caráter da minha parte. Sei lá, nunca acreditei na perenidade e imobilidade das relações.

E era esse o ponto. 

As pessoas têm medo de sentir, de amar, de arriscar-se. Ok, você está em um relacionamento, passou anos construindo isso e DAÍ?! As coisas mudam. Você pode conhecer alguém. Eu posso te conhecer. Já pensou nisso? Teus planos explodindo no ar igual a casa de um mafioso. Acontece. Que horror, tenho eu, lua em sagitário, de pensar na vida como algo definido e estático e imóvel. Até na Bíblia está que temos que viver pela cruz de cada dia. No fim a gente vê.

Passei dias pensando sobre as relações próximas entre sonho e ilusão. Não estou, ainda, preparada para confabular teorias. Mas, jamais deixarei de apoiar as ilusões, nem com os quarenta se aproximando. Então porque a idade se aproxima eu tenho que ter medo do que sinto e me deixar amordaçar pelo que a sociedade prega?

Não fiz isso nem quando tinha dezesseis anos. Tá doido.

Ainda não casei (graças a Deus e a mim). Ainda não tive filhos (desespero nunca foi meu forte). Não sou divorciada. Sou só uma mulher, hétera, branca, solteira, sem filhos. Espécie pouco estudada, mas tremendamente à margem da sociedade esdrúxula que rege nossos dias. Behind every successful woman is herself. Não, não contamos com homens nem ninguém para rachar o aluguel, pagar as contas, nos levar para cá ou para lá, para dar conta das coisas da casa, etc. Também, longe de nós!, pegar homem pra terminar de criar – e lavar suas cuecas. Nós fizemos escolhas. Porém, nem todas essas escolhas foram por nossa decisão (e isso terá um post especial, quem sabe).

Mas essas héteras são público-alvo de uma série fraquíssima (sorry, os turcos é que sabem fazer séries sobre máfia com muito mais propriedade – até do que os italianos, prego) que tem TOM HARDY. Porque, por vezes, a gente tem ao lado um average joe mesmo (ao contrário dos homo, os hétero raiz são LARGADOS e a gente sabe) e gostamos de satisfazer nossas fantasias com o TOM HARDY na tela. Ele enfrenta os marroquinos e mexicanos na Antuérpia completamente sozinho numa moto excitante e é tudo o que precisamos. Jamais que uma série dessas é produzida para um público que não nós, héteras exigentes e sonhadoras. 

Talvez deixar de romantizar ou manter ilusão é não acreditar no mito do homem que demonstra “cuidar” de nós. Nunca precisei da sensibilidade dos homens. Sabe a cena clássica? Quando ele empresta o casado para ela não passar frio? Meu querido, precisamos muito mais do que isso. Eu sou independente, adulta, dona da minha vida: nunca precisei que alguém se preocupasse se estou com frio ou não. Eu não preciso da sua sensibilidade. As héteras legítimas, solteiras, independentes, maduras querem alguém pra estar ombro a ombro. E, infelizmente, na Nova Teoria isso já salta aos olhos: vocês não estão preparados. 

Eu não preciso de um homem hétero que cuide de mim. Aliás, nunca precisei. Nem tenho cuidados para oferecer, não mais. Porém, aos héteros, o medo de não poder ter ao lado uma mulher que precise dele ainda é dominante, independente da idade, do estado civil…

A vida da gente muda drasticamente quando buscamos ter o que queremos e não somente o que precisamos. Eu super recomendo, mas sei que não é pra qualquer um.

AVERAGE JOE é história

A Teoria nasceu com o programa de TV The Bachelor’s do qual teve uma ou outra edição que eles colocaram no elenco os average joes, o programa foi sensacional, mas claro que as mocinhas héteras preferiram os musculosos nada average. Acontece.

TOM HARDY é ilusão

Eu sei. Estou me preparando para reassistir Taboo, primeira temporada. Que homem, que fenômeno que me faz construir teorias (mentira, eu faço teorias sobre quase tudo na vida, é um dos meus passatempos favoritos no mundo). Bem, eu sonho para realizar aquilo que me satisfaz na vida. Mas, na dureza dos dias, eu me iludo. As ilusões não são de todo dispensáveis, elas sustentam os piores dias, nos embalam ao dormir, entretém a mente nas filas de espera. 

A Fahya não é uma máquina. A Fahya não é uma tola que as pessoas acham que enganam e de quem tiram lucro em cachês e aprendizado. A Fahya é uma mulher com uma vida apreciável demais para estar na boca das pessoas. E ela é essa hétera feliz (contra todas as previsões e desejos) que até experimentos faz. Sobre nunca conseguirem superá-la, é verdade, dizem que perdê-la é até razão para cortarem os pulsos!; fica como promessa de novo texto (que nunca escreverei).

Desculpa, sou hétera e ainda me divirto muito com isso. Não seria o tempo, meu grande e bom amigo, a me desiludir sobre o amor. Já faz tempo que aprendi que amor é algo muito maior do que as convenções, as exigências sociais, o aluguel do mês, os contratos, os prazos da idade, as aparências, as escolhas. 

Lamento pelos que faltaram às aulas da vida e não sabem que quando ele aparece, é preciso largar tudo e segui-lo, sem medo. É como se Tom Hardy aparecesse na minha frente. 

(sim, é só uma frase de efeito para encerrar o texto, mas podemos dormir com essa ilusão hétera fantástica)

Meu cinema é político

Sentada na varanda com o olhar largo ao quintal, tomo café e ouço samba numa manhã de domingo.

Mudanças profundas são aquelas que deixam ver quem sempre fomos. São os períodos mais felizes de dar voz às verdades inerentes do nosso caráter.  

Vejo o discurso enganoso de quem diz que é contra o sistema e vive dele, se alimenta dele, recebe seu salário dele e, como a vida não é bobagem, o faz crescer e se multiplicar. Não, meu amigo: não existe isso de lutar contra o sistema estando dentro dele. Você assinou o contrato, você recebe o seu quinhão sobre a exploração e a mentira. Nós não somos iguais.

Já desde sempre eu soube que meu cinema é político. Curioso. Muito curioso que só recentemente eu disse isso com todas as letras – e feito criança feliz passei dias e dias a repetir isso em qualquer oportunidade que se apresentasse. Meu cinema é político.

Por isso que nunca fiz nem faço publicidade ou propaganda – eu faço cinema. A propaganda é a língua (vil e assassina) do fascismo e do sistema. Eu faço cinema.

Nessa toada precisamos deixar muito claro de qual lado da trincheira estamos – e quem está ao nosso lado. Do lado de cá da trincheira não rola high society, première, contos de fadas com famosos, salários de cinco (e mais) dígitos, a vida editada das redes sociais, a falsidade dos sorrisos e abraços, a ânsia por posar ao lado você sabe de quem. O lado de cá da trincheira é feito de verdade e ação. O discurso nós deixamos para vocês.

Sou da paz e tenho vivido a mais singela paz que a vida poderia me oferecer. A paz de quem lê poesia todos os dias. De quem dia ou outro escreve versos para afugentar a morte e tecer a memória. 

O conto seria o gênero literário mais contra o sistema possível – porque, como diria um velho professor, ninguém entra numa livraria para comprar contos. Porém, sim, somos alguns poucos, mas o conto é contra o sistema porque ele quer dar o soco no estômago. Em gênero literário a poesia não é contra o sistema porque vende (sim, poesia vende), porém, a poesia enaltece o olhar, a pausa, o respiro. O mundo que destrói e vilipendia nosso futuro se aborrece com quem respira e para tudo para olhar. Ponto para a poesia.

Contudo, o troféu da luta contra o sistema vai para o curta-metragem. Mais desmerecido e desprezado do que ele não há. E é exatamente ali que o soco no estômago do conto se encontra com a ausência de recursos e viver à margem do comércio e do lucro. É o discurso à margem do sistema por excelência. Quem só se utiliza do curta para acessar ao sistema do cinema industrial são as pessoas que estão – e sempre estiveram – do outro lado da trincheira. Nota: não são só eles que estão do outro lado da trincheira.

Deste lado da trincheira a paz ergue muralhas que nos protegem de todo mal. As flechas que nos lançam, os tapetes que puxam, as traições sussurradas pelas costas se voltam contra seus autores. A paz de quem está do lado de cá da trincheira não se abala.

Sei bem que o grego lá disse que tudo o que fazemos é político. Antes mesmo de conhecê-lo eu me guiava por isso. Já ensinei muito que nosso discurso também é ação. Estar no mundo só é possível enquanto ser político. Choices. Suas companhias e suas escolhas me dizem quase tudo que preciso saber sobre você.

Meu cinema é político. Meu quintal é político. Meu cinema é o meu quintal.

Dando ordem ao mundo

I

Como eu, ele vai de Banda Beijo a Tim Maia num piscar, e ainda vai dançando de um jeitinho bobo e meio trôpego. Vale sempre a pena ver e me arranca um sorriso.  Se não fosse a música a organizar meu humor, nem chá de camomila ou café serviriam. 

Faço olhar de peixe morto com a prática de anos de vida enquanto observo tudinho nos mínimos detalhes. Observar é um hábito (nem sempre agradável). O óbvio entedia e o tédio mata. 

II

Curiosa a vida de quem não tem caráter. Observo, à distância. Ter ao lado quem você tanto despreza. E ambos sabem dos seus desafetos mútuos. Eu, daqui, também sei. 

III

Drama: amo (na ficção). Um bom drama é sempre bem-vindo. Gosto de molhar os dias em dramas, desde os mais clássicos, até os mais fuleiros. Na vida, bate de frente, quer drama procure outra pessoa. Por quem me tomas que encenação alguma vai sequer tirar meu (sagrado) sono?

IV

As notícias chegam quando devem chegar. Nem antes, nem depois. O Destino mandou avisar. Se esqueço, ele sorri ali do cantinho dele, balança a perninha e me olha “tá boba?”. É, às vezes fico boba. Ou não. Ou estava tão concentrada em outras coisas que esqueci. Ok, lembrei, lição sempre reaprendida. Destino, não cedo, não abro. Sigamos.

V

Enviar coisas boas, receber coisas boas. Funciona.

VI 

Não precisa subir tanto, não. Precisa tirar as pedras do caminho, com carinho a si mesma. Precisa ter o coração batendo forte. Precisa ter os olhos em direção ao amor. Cada passo é uma conquista.

VII

O Medo. Assim, com letra maiúscula para muita gente que ainda não aprendeu: o verbo viver não se conjuga com o Medo. Você vai acordar todo dia com ele enrodilhado no seu estômago, ao colocar os pés no chão ao lado da cama ele vai agarrar seus tornozelos e ao longo do dia vai controlar suas ações, seus pensamentos e afogar seus sonhos. Caríssimos, isso não é viver.

VIII

Há pessoas que vão longe demais para conseguir o que querem. E quando eu digo longe demais, é longe demais: moralmente, inclusive. Tem coisas com as quais não se brinca, já disse várias vezes. O quão longe (ou baixo) você foi para conseguir o que queria: é proporcionalmente ao preço que vai pagar. Vai sair caro, muito caro. Quando a conta chegar eu sei que você vai se desesperar: suas lágrimas não me comoverão. Não aceitarei desculpas. Teu nome será riscado pra todo sempre. Limites: um bom tema para um longo livro (e algo a se aprender desde os primeiros dias de vida). Bonne chance !

IX

Os pássaros nas árvores. As ondas batendo nas pedras. Os peixes saltando, as tartarugas nadando. As minhocas se reproduzindo. Os cães que dormem. A alamanda em flor. As acerolas caídas na terra após o temporal. O limoeiro carregado. As nuvens avolumadas deixando o sol chegar. A areia sacudida pelo vento Sul. O jasmin-manga perdendo suas folhas. As crianças brincando na praia. 

X

O mundo em erupção com guerra cambial e uma sopa de lentilhas no fogão. É preciso saber cair de pé, eu sabia. Ao longo do caminho, às vezes, é permitido sentar-se na beira da estrada, ouvir Erasmo e refletir sobre os desgostos. Somente às vezes e com o tempo você percebe que isso é cada vez mais inútil. No terminal de ônibus da Trindade aprendi o quanto tenho ojeriza de quem reclama (demais, de tudo, sempre). Levanta-te e vai, toma uma atitude que tua língua apodreceria com tanta coisa ruim e chata que tu professas.

Aventura humana

Estava lendo e uma afirmação me chamou muita atenção: dizia que fazer cinema é uma aventura humana. 

De fato, boa definição – engato essa na sequência da definição que ouvi de um professor no início da graduação, é a “arte de resolver problemas”.

Seriam, então, humanos e problemas assim tão próximos? Quem sabe, para fazer cinema você deva amar problemas e humanos? Ou amar problemas e desgostar dos humanos?

Um dia defini que a matéria prima do cinema é o ser humano: fazemos histórias sobre pessoas, trabalhamos com pessoas para fazermos os filmes que serão exibidos… para pessoas! É inviável existir cinema sem pessoas. Também não há nada mais difícil com o que lidar do que seres humanos.

Já diria toda a criação artística humana o quão inexplicável é o mundo das paixões humanas. Talvez seja fascinante, talvez seja apenas desmotivador. Um dia você acha que conhece uma pessoa, no outro ela te apunhala pelas costas. Num trabalho ela se mostra muito competente, no outro se desmancha em vacilos. Não há bola de cristal, nem sobre o futuro nem sobre as pessoas.

Eu gosto de aventuras, desde as mais convencionais até as mais delirantes. Talvez não goste muito de me envolver com a humanidade. Talvez, por isso mesmo, já sou mais atinada com suas manhas e personalidades. Tem muita coisa que eu não gosto nos seres humanos.

Não gosto da desonestidade, da falta de caráter e personalidade. Não suporto manipulação (do mais leve ao mais alto grau). Mas, como sempre digo, em toda profissão tem gente desonesta e sem caráter, assim como tem bons e competentes profissionais. No cinema não é exceção. 

Quem sabe tenha mais aproveitadores ao redor, visto como é escasso o campo de trabalho. É uma possibilidade. Mas também o setor ainda patina em se profissionalizar e está cheio de gente que considera terra de ninguém.

Aventurar-se é bom. Te chama à vida. No texto buscava-se a compreensão das condições de produção para “ver” os filmes, até mesmo do ponto de vista da crítica. Desde que entrei na produção, apoio esta vertente. Um filme nunca é só um filme – aquele que vemos na tela. Um filme é um contexto muito amplo. 

Esses tempos andava desconfiada de que faço filmes para que eles sejam o refúgio de outras pessoas, assim como eu me refugio nos filmes (nos meus e nos dos outros). É uma forma de encarar o mundo, refugiar-se da aventura humana que é a vida (por vezes uma aventura muito desastrada, no meu caso) vivendo a aventura humana que existe em cada filme – no enredo, é claro; a aventura humana que é fazer um filme já é outra história.

Então foi essa a nossa grande atração. Há anos digo que fui para o cinema porque eu gostava de contar histórias. Contar histórias não basta. É preciso dar sabor e emoção ao que eu faço e nada como uma boa aventura.

Lá se vão algumas aventuras humanas, alguns filmes rodados, outros já por rodar – o futuro só o tempo dirá. Como toda aventura, há muitas outras histórias para contar, tanto boas quanto ruins. Se pensam que vou me trancar em casa a cada aventura que teve um tropeço numa pedra ou um arranhão em algum espinho, enganados estão. Não tem como idealizar nada nessa vida. A pedra a gente joga longe, bem longe, e o espinho a gente poda. 

O coração já planeja as próximas aventuras…

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