As autovitimizações on line

A cena: uma mulher com o braço roxo no atendimento de plantão de uma clínica de ortopedia. Chega a filha esbaforida perguntando o que aconteceu, surpresa ao ver a mãe em pé aguardando um raio-X. Em seguida a mãe relata o ocorrido e outra filha aparece, também assustada. Depois surge o marido. Telefones apitam sem parar. O fato: a mulher estava andando numa rua em obras, passou um cara que tentou pegar o celular dela do bolso, ela reagiu e caiu na calçada esburacada. O relato: a primeira coisa que a mulher fez foi avisar a todos do Facebook e Whatsapp, falando em assalto, emergência, hospital.

Os celulares apitavam, ao que as filhas atendiam e contavam a história toda novamente, tentando acalmá-los, enfim, a mãe não tinha ido parar no hospital e estava bem (saiu com uma tipoia).

E bem nesses dias eu me perguntava sobre algo que foi ao encontro do que o escritor Miguel Sanches Neto materializou numa frase (nas redes sociais): Vivemos a era da autovitimização midiática? Uma espécie de performance on line dos constrangimentos sofridos?

Foi, também, por esses dias o fato do estupro de uma escritora por um motorista de Uber. Mas poderia ter sido qualquer caso. Não li, aliás, sobre o caso. Não sei porque, mas evito. Ou, também, não tenho tempo para me manter a par de todos os últimos mais novos escândalos do mundo virtual.

É simples: se eu fosse estuprada, qual seria meu primeiro movimento? Ligar a câmera do celular, relatar tudo e correr publicar nas redes sociais? Será? Por que tudo o que nos ocorre precisa ir imediatamente para o mundo on line? Para que tenham pena de mim? Para que me “solidarizem” (visto a falsidade absurda inerente a um “fica bem”)? Foi aquilo que nunca entendi sobre as selfies cotidianamente postadas: é para ler “que linda!” todo dia?

Talvez, é claro, eu que ainda não entendi alguma coisa. Ou quem sabe nos faltem pensadores para refletir sobre este novíssimo mundo. Eu realmente sinto falta de pensadores sobre o nosso tempo. Diante deste problema da autovitimização midiática e da performance on line eu lembrei do Benjamin, o Walter. Porque na mesma semana assisti a um filme no qual o protagonista era um ex-combatente da Primeira Guerra Mundial vítima daquilo que foi identificado à época como uma dificuldade narrativa. Para resumir, os horrores da guerra eram tais que quem voltava não conseguia narrá-los, verbalizá-los, e tornaram-se pessoas de fato traumatizadas.

Quando eu vejo as pessoas correrem publicar seus eventos traumáticos e suas perdas eu concluo que não existem mais nem o trauma nem o luto. Porque são os dois momentos humanos mais íntimos que existem. Quando você passa por uma situação de violência, você tem toda uma experiência traumática nova, sua consciência e pensamentos precisam aprender a lidar com aquilo, o sistema nervoso desenvolve escapes e descontroles. Existe um tempo ali, e este tempo não é mais respeitado. Quando alguém próximo falece a primeira coisa que a pessoa faz é escrever uma publicação enorme e colocar dúzias de fotos. E a dor real da perda? Por que querer a comiseração alheia? E o silêncio inerente ao luto? Vejo muita foto de perfil em preto e branco escrito “luto” de pessoas que não fazem a menor idéia do que isso significa. Por que relatar as dores em tempo real?

É óbvio que cada um trata dos seus traumas e dores como bem entender. Mas, relatá-las em tempo real on line não é uma forma de lidar com elas. Isso é evidente. Acima de tentar narrá-las, que era o que faltava aos soldados da Primeira Guerra, vivemos nessa necessidade de exposição. Vivemos achando, agora, que precisamos contar a todos sobre o que nos acontece. Antes, ao menos, eram só as alegrias e a vida maravilhosa que (nem todos) tínhamos. Aos poucos isso se estendeu a tudo – até as maiores desgraças. Se esta constatação não te incomoda, sugiro parar a leitura.

Tudo começou com não vivenciarmos mais as nossas experiências. Lembram da piada antiga sobre os japoneses? Que eles viajavam e tiravam fotos, que só “viam” os lugares quando as revelavam ao voltar pra casa? Então, nós não casamos mais, não parimos mais, não cantamos mais parabéns, nem pegamos o canudo ou viajamos de férias. Nós só gravamos stories, ou publicamos posts e fotos. “Compartilhar” é a palavra maldita da década. Já paramos pra pensar por que compartilhamos todos os nossos momentos on line? Sim, porque há o outro lado, compartilhar a vida com as pessoas reais a nossa volta, aqueles a quem amamos e tal.

Por que todas as nossas ações precisam (tornou-se um caso de necessidade) ser publicadas? Daí foi um pulo para também publicarmos nossos desesperos, eventos traumáticos, acidentes, problemas e dores. Eu cairia no clichê dizer que não vivemos mais. O ponto não é este. A questão é não termos o nosso tempo para experenciar tudo o que acontece conosco. E assim, talvez, perder o que os fatos podem nos dizer no mais íntimo.

Gosta de praia? Foi à praia no feriadão? Senta lá com o pé na areia e aproveita o solzão, o mar lindo. Não fará diferença para ninguém saber onde você está (só para ladrões, por exemplo). Teu filho nasceu? Aproveita, dizem que é uma experiência única na vida. Preserva a imagem dele de fotos que caem no mundo obscuro da internet (nem todos teus “amigos” são amigos) e, sério, o que interessa aos outros saber com quantos quilos ele veio ao mundo?

Teu pai morreu? É duro. Fica ao lado da tua mãe, irmãos, aproveita os últimos minutos do velório (que são cada vez mais breves) para pensar nele. Esquece de rede social, pede pra alguém pegar a agenda do telefone e avisar aos mais próximos. Era assim que a gente fazia no século passado, sabia? Teu companheiro fiel morreu depois de mais de dez anos ao teu lado? Ô, dói. Chora em silêncio no quarto. Tudo isso leva tempo e silêncio pra gente aprender a conviver. Textão nenhum vai resolver – nem ajudar. Ah, e, claro, ainda não temos certeza que falecidos leem redes sociais. Pode ser inútil escrever para eles por este meio.

Casou? Aproveita a festa. Aproveita a lua de mel (que é a dois, por favor). Ninguém mesmo tem nada com isso. Agora, a gente desconfia das pessoas que não suportam viver a própria vida sem estar o tempo todo a publicar o que faz, sofre, ganha ou perde. E a desconfiança parece-me legítima.

E eu não poderia deixar de acrescentar uma crítica: as pessoas que usam essa autovitimização alheia para se promover. É uma crítica que eu tenho entalada aqui faz um tempo. Sabemos que a internet tornou-se a escada para muitas pessoas alcançarem o “sucesso”, dizem que um espaço mais democrático que dá visibilidade para artistas e afins que, numa outra época, ficariam sempre restritos aos produtores e interesses. Porém, utilizar a dor e o sofrimento do outro para ganhar cliques e compartilhamentos é demonstração de falta de caráter.

É complicado falar em exemplos porque alguns casos foram próximos. É como usar a preocupação dos pais com um jogo de adolescentes para promover o seu trabalho com campanha contra o bullying nas escolas. Ou usar casos de estupro, seja de funcionária da Globo, de anônimas no ônibus ou da tal escritora para promover a sua música que fala sobre a condição de ser mulher. Mas é geral, muitos perfis engraçadinhos e tal se utilizam dos “casos do momento” para autopromoção, nem aí para a situação trágica ou para a dor alheia.

A internet não veio com manual de instrução, eu sei. Por isso que na última década surgiram novos crimes e novas leis para tentar pôr ordem nesse território vasto e ainda nebuloso. O nosso comportamento deveria ser analisado minuciosamente – senão pelos pensadores contemporâneos que nos faltam, por nós mesmos. Porque parece-me que nem todos os casos são de pessoas carentes de atenção. O problema, como eu sempre digo, não é a coisa/objeto/meio, mas o uso que fazemos deles.

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Em nome da preguiça

O dia vai escurecendo e o vento sublinha as tentações da preguiça. Já vivemos tanto, já trabalhamos tanto. A vida, por vezes, assemelha-se à árvore desfolhada pelo inverno que vejo todos os dias pela janela. Sem sintomas de nenhuma patologia grave, queremos apenas o aconchego. Ou um chamego no aconchego. Mas dentre horários e agendas não há previsão para imprevistos do tipo: agora me cairia bem jogar-me no sofá, comer biscoitos, rir e conversar. Certeza que todo resto renderia brilhantemente depois dessas interrupções, mas ninguém confiaria.

É que nos preveem máquinas a trabalhar feito formiguinhas impulsionando a roda gigante da economia. Não nos enxergam nas nossas fraquezas e pele e osso que envelhecem e sustentam uma cabeça pesada e um coração incansável. Nos preveem rendimentos e sustentos, obrigações e responsabilidades. Nos preveem números e horários. Dizem, já faz tempo, que assim é melhor para todos e a melhor forma encontrada para manter o mundo de pé. Enquanto nós já não aguentamos as dores nas costas.

A legitimidade da preguiça até pelas religiões foi contestada. Por deuses e pelos homens a preguiça é condenada. Pobre preguiça. A única coisa que ela quer é não fazer nada. É tão de boa que nem a revoltar-se ela se digna. Não é o abuso, o excesso, a vagabundice. É só a preguiça, a rebeldia passageira da rotina, a noite mal dormida, o cansaço fora de dia. É querer o abraço quente na noite fria, o almoço demorado, a caminhada em tardes de sol. Não é sempre que essas vontades se dão aos finais de semana, no dia de folga ou quando já batemos o cartão de saída.

Tem dias que é só assim, mesmo. A preguiça, esse sentimento que nos dá liberdade de ser quem somos quando queremos. A preguiça é poder. A preguiça é genuinamente humana (e felina, e canina…) porque nos percebe não-máquinas, não-instrumentos. A preguiça legitima nossas personalidades e nos dá o tempo que precisamos – como o olhar que dei pela janela antes das primeiras destas linhas. Aos nossos corpos não existe a necessidade de exauri-lo em busca de riquezas para os outros.

De todos os sentimentos, a preguiça é a que mais precisa ser restituída ao seu devido lugar. O do sofá, é claro.

O assunto nosso de cada dia

Tem quem dirá que só falamos disso, sem perceber que a questão é que ainda precisamos falar disso. Eu não tenho mais conseguido assistir a um programa qualquer de TV sem me sentir mal com algumas observações. Não tenho conseguido olhar uma rede social qualquer sem me deter em determinadas notícias.

Ontem foi um ex-companheiro que agrediu uma moça de 19 anos e uma senhora de 59 porque não aceitou o fim do relacionamento. E foi a moça do reality show, que na final o marido ficou criticando-a (ajuda muito) e desmerecendo a forma como ela conduzia as coisas – com calma, equilibrada e muito bem planejada (foi a campeã, inclusive, sem a “ajuda” dele). Um marido que vai na TV mostrar que não conhece a própria esposa e ainda querendo mandar nela – como se ela não tivesse chegado lá (à final) sozinha, por mérito próprio.

Todo o dia é assim. Semana passada teve uma cena da novela da noite, o rapaz, mocinho da história, estava preso injustamente e ao receber a visita da mocinha, ex dele, deu murros contra a parede, gritava e chegava ameaçador bem perto dela – o famoso “se você não fosse mulher…”. Uma cena qualquer de novela, dessas que entram todos os dias nas nossas casas. Não era uma cena engajada que denunciava a violência psicológica que há na agressão verbal e ameaça física. Era uma cena normal, a mocinha chorava, ele fazia o papel de machão a socar a parede (como queria socá-la, não é implícito, sabemos) e ainda permeava a situação o comentário de que a mocinha, na verdade, é má, não presta, não é boa coisa. Porque sabemos que se a mulher não presta, ela merece violência. Aliás, tornou-se argumento até num último caso aí de agressão aluno-professor. Violência, se esquecemos, jamais se justifica. Jamais.

Eu acredito que tomei consciência, há algum tempo, de como é amplo o espectro de violência que nós mulheres sofremos. Mas o exercício cotidiano de identificá-los o tempo todo a nossa volta é mais recente. Porque a gente tenta não ver. A gente não quer ver, porque sofre junto. Eu vivo numa cidade onde, em oito meses, 90 mulheres foram estupradas. 90. Se esse número não é significativo ou assustador, então você só pode ser homem – e dos piores.

Eu via manchetes sobre violência dita doméstica. Eu comecei a acompanhar como isso crescia nos meios de comunicação, como casos com famosas ajudavam a dar visibilidade. Hoje eu leio cada nota que sai, para avaliar o tom do texto e da interpretação dada (porque há sérios problemas com isso, infelizmente), para saber o que está acontecendo ao meu lado, para dar um apoio velado a quem tem sofrido e tem tido a coragem de denunciar.

E, assim, tornou-me repetitiva. Sim, repetitiva. Porque é um processo, um processo pelo qual todos deveríamos passar. Devemos entender o que acontece ao redor. Devemos desenvolver essa capacidade de prestar solidariedade e aprender a nos posicionar. Sobretudo, aprender. Esse “excesso” de notícias não deve, porém, banalizar a mancha da violência contra a mulher. Mas, pelos últimos exemplos como os que eu citei, é fácil perceber que está entranhado nas nossas relações, está tão imersa a submissão da mulher, a violência que não se resume a socos e facadas, que é preciso muitos dedos apontados para as falhas que nossas atitudes denunciam todos os dias.

E, por isso, serei repetitiva. Por isso, voltarei ao assunto inúmeras vezes. Até, quem sabe, uma divertida e descompromissada sentada no sofá não seja mais um incômodo contato com o que há de pior naquilo que reproduzimos na vida real e na ficção, todos os dias. Porque ainda precisamos falar disso. Porque nossas meninas e moças nasceram nesse mundo de merda que oferecemos a elas, e depende de nós tentar mudá-lo e, também, fazê-las perceber que as coisas não devem ser “como são”.

Negação

O ano confirmava: íamos em frente, no tempo apenas. Não queremos acreditar no que vemos, nessas ruas tomadas por idéias do passado. Negamos – o pior dos pecados de uma humanidade – que exista o nojo encalacrado pela cor da pele e pela religião do outro. E diziam que evoluímos, escreveram tratados, provaram-nos por a + b que descendíamos desse e chegamos a esta perfeição, a esta máquina que funciona tão bem. E criamos um mundo todo novo e que avança sem nos darmos conta, e este mundo cura doenças, desvenda DNA, constrói arranha-céus e trens-bala. Nossa máquina, quem sabe, não falha. Mas a mente, há um “mas”, ela jamais poderá ser explicada.

É 2017, eu garanto. Nos outros calendários, nem sei, é muito mais. E nem todo esse tempo nos livrou de querer a morte dos nossos iguais. Aliás, eis a questão: não queremos ser iguais. Não admitimos que somos iguais. Somos estúpidos, é certo. Nossa estupidez humana nos une. Vamos às ruas unidos pela ignorância. Apoiamos a estupidez de negar – a negação, a negação… – que fizemos (e fazemos) mal ao mundo onde vivemos. Talvez ainda mais difícil de acreditar, negar que este mundo está padecendo da nossa vida abusiva e do mal que nossas criações geraram. Negam, negam com a cara mais inútil da vida. Negam que o gelo se parte, que as Estações estão doidas, que o calor esquenta cada vez mais e o frio nos aterroriza. Negam, negam e negam que o lixo produzido entope as artérias do mundo. Negam que usinas e desastres ambientais estão ameaçando o ar que respiramos.

A negação é o último estágio da morte. Logo depois, morreremos. E vivemos esta negação hoje. Negamos, principalmente, que temos um passado árduo e cruel. Negamos que somos responsáveis pelos nossos rastros – negamos nossa humanidade, esta que nos une e que nos culpabiliza sem chance de defesa. Nossos atos são indefensáveis. Nossa culpa coletiva é homérica. Nossos pecados são inegáveis. Temos consciência disso, mas – sempre o “mas” – queremos negar como crianças mimadas que choram porque contrariadas.

Diziam que chegaríamos tão longe, imaginavam carros voadores e tudo. Eu sei. E acabaremos nas mãos da mais ínfima reação animal: matar-nos uns aos outros. Garanto que não será por comida, nem por território, nem pela reprodução da espécie. Será pela estupidez que nos caracteriza tão bem e que, de fato, é o que nos diferencia dos outros animais. Um pato não é estúpido. Nem uma jararaca. Não chegaremos lá, não nos demos esta chance. Preferimos ir às ruas reproduzir nossas estupidezes do passado, preferimos repetir os erros pois somos humanos. E errar é a reação mais humana possível.

Negamos. Negamos que tudo é tão precário. Negamos que esta vida é tão fugidia. Negamos que para ser humano é preciso sensibilidade. Negar as consequências de toda uma humanidade a viver desabridamente por tanto tempo, num espaço finito, é nosso segundo maior erro. O primeiro é negarmos que nossos atos desfazem nossa essência: somos humanos.

Os ensinamentos de quando acaba

Poderia ser simples como ouvir o canto dos pássaros, ou quem sabe morder uma maçã. Deixar sentimentos pelo caminho não deveria ser tão difícil – pelo menos no começo. Cada separação, cada amor desvanecido no convívio ou no vazio, deveria encerrar-se com um sorriso e um aperto de mãos. O choro vertendo, o coração descompassado, os gritos: a gente sempre sabe quando é o primeiro fim. No segundo dói um tantinho menos. No terceiro até a resignação aparece. Depois, dizem, vira coleção. Tem uns que a gente até esquece, de tão apático que nos sentimentos ao dar adeus. Eu diria, ainda, que chega uma hora nem adeus mais a gente dá. Acaba por acabar e está tudo bem.

Às vezes restam lembranças aqui e acolá. Para justificar que, quem sabe, foi verdadeiro. Ah, vai, foi mesmo. Porque lá nos primeiros a gente ainda pode ter a teoria “se é verdadeiro nunca acaba, se acabou é porque não era verdadeiro”. Ah, se a vida fosse como nós a imaginamos até os vinte anos! Às vezes, acaba. Mas o fim não nega o que houve. Só deixa de existir – por tantos tropeços e recomeços da vida que é impossível traçá-los em preto e branco. O fim nunca apaga tudo. O porvir nunca será imune ao passado (infelizmente, em muitos casos).

Foi verdadeiro, mas acabou. Aí a gente pensa que “nunca mais”, até o próximo, é claro. Porque a gente não quer passar por tudo aquilo novamente – e, por uma questão de proximidade do tempo, pensamos só na parte ruim, no fim, no adeus (que não houve), na separação dolorosa (ou não). Às vezes faz tanto tempo ou foi tão complicado que já sentimos distante o começo, a parte boa, os melhores momentos. Não sei vocês, mas o que é bom a gente pede bis, sim. Dá trabalho. Ah, dá! Ninguém diga que não. Conhecer o outro, desvendar-lhe os jeitos, olhares e manias, encantar-se com os pensamentos, coordenar rotinas e ajustar o tempo juntos. Dá uma porrada de trabalho. Mas compensa – aliás, dos poucos trabalhos que compensa na vida.

Quem sabe seja a última vez, nunca se sabe. Talvez desta vez os momentos bons predominem e a gente queira sempre ficar junto. Quem sabe a rotina e já saber ao outro de cor e de olhos fechados seja, ainda, um delicioso despertar dos sentidos. Talvez, desta vez, a gente não tenha uma lista de motivos para não querer nem dar adeus. Às vezes, acontece. E depois de ter sido tão longo o caminho a aprender a dizer adeus (sorry), este ensinamento da vida não nos seja mais útil nem se faça necessário. Porque é como na escola, a gente aprende a duras penas tanta coisa que depois de algumas provas nunca mais verá na vida. Em última instância, quem sabe, vale o aprendizado. Porém, difícil é aprender sem chorar, sem sofrer. Mas depois das lágrimas secarem, vocês sabem, os sorrisos sempre voltam. Às vezes, pra ficar.

A culpa não é do funk

“Meu filho gosta de funk!” parece ser a queixa dos pais brasileiros contemporâneos. Eu não me preocuparia com o funk. Sobre sexualidade acerbada não vejo novidade na canção popular. Preocupa-me, sim, a ausência de questões sociais e de grande importância atuais na canção popular de um modo geral. Parece, então, que só sofremos por amor – não sofremos mais com a desigualdade social, com o avanço da criminalidade, com a destruição da urbanização, com a educação precária. Nossos temas populares fixam-se na sexualidade, na dor de cotovelo (parece que esta sempre sentimos) e na ostentação. Ah, sim, lembrando que substituímos o “liga pra mim, não, não liga pra ele” pelo “troco likes”. Mera atualização.

Pergunto-me, os pais queriam que seus filhos gostassem de Schubert (exceto os virtuoses, claro)? Quais as oportunidades que eles mesmos dão aos seus filhos para que gostem dele? Ou, sei lá, os pais conhecem Schubert? Precisamos dar oportunidades de conhecimento cultural a eles, e certeza que isso não se resume a pagar o boleto da internet todos os meses. Esses pais dançaram macarena e o tchan? Esses pais não ouvem funk? (nem nas festinhas com os amigos?)

Um bom exemplo está nas telenovelas. Não há nada que acompanhe tão de perto nossa realidade do que elas na última década. Foi, aliás, como elas se reinventaram – e ficaram tão, mas tão, tediosamente chatas (mera opinião). As novelas tiveram que ir às favelas, empregadas domésticas foram alçadas ao protagonismo (e ao sucesso, claro, que a fórmula continua a mesma), a suburbana virou mocinha. É a telenovela que nos faz ver todos os dias uma moça policial que busca justiça e sofre nas mãos dos bandidos (que também têm família e coração, claro). De tanta realidade e politicamente correto, eu diria, elas perderam o seu encanto (aquele da fantasia, da metáfora, da crítica).

Assim, a canção perdeu seu encanto. A literalidade do funk parece-me desanimadora. Quem dera nossas crianças de hoje entendessem o que é uma metáfora, aí sim talvez tivéssemos funks metafóricos. Se os pais sequer ensinam poesia e figuras de linguagem aos filhos, se não os iniciam no mundo da fantasia, como querem reclamar do gosto pelo funk? O funk não é o problema. A canção popular também perdeu o seu encanto com duplas e solitários em busca do mero sucesso, dos carrões, mansões, jatinhos e investimentos – tudo alicerçado na venda da própria imagem (assunto para a próxima, prometo). Eles também não estão preocupados com profundidade alguma nos seus versos mais curtos que os tuítes. Ganha o mercado, ganha o artista. Perde a canção, perdemos nós.

Deveria chocar qualquer um de nós o fato de uma criança de onze anos nos prevenir, sobre um funk, “mas é pesadão”. O funk pesadão, em si, deveria nos chocar. Talvez tenhamos perdido o dom de nos chocar. Ou, talvez, choque uma criança alguém parar para ouvir Schubert. Diriam que é um comentário de quem parou no tempo. Mas eu duvido muito que a cultura pare no tempo. Ela, aliás, é o melhor retrato do seu tempo. Um dia tiraremos estes retratos envelhecidos da gaveta, para provocar a memória. Estaremos diante do quê?

Jaulas

Nos prenderam numa jaula e nem disseram porquê. Pediram que nos comportássemos. Pediram, claro, mas como quem manda. Porque sempre há quem manda. Preferimos não ver, não discutir, não nada. Só de vez em quando, por algum desencargo de consciência, nos rebelávamos. Como crianças a deixar pingar o picolé na blusa. Era só isso mesmo que nós conseguíamos fazer, não íamos muito além. Éramos fracos, somos fracos. E a jaula ali estava para nos enfraquecer. Como e porque, jamais saberemos. Por que nos queriam mais fracos do que já somos? Também não sabemos dizer. É que toda essa fraqueza limita nossos pensamentos, dentro da jaula não podemos pensar, nem questionar. Sentamos bonitinhos (porque somos bonitinhos no começo) a repetir a ladainha de todos os dias como eles nos (dizem que) ensinam. Eles ensinam. Deve haver algo nobre nisso. (Eu não saberia dizer.) Mas eu estava falando de como somos fracos. Repare. Somos, quase todos. Os fortes revidaram e não levaram a melhor. Porque a jaula era a mesma para todos – e somos cada um. Ninguém percebia que não tinha como dar certo? (Eu que pensava assim. Só eu?) Mas dava, vejam vocês, porque o poder e a força não estavam conosco. Eles, porém, sejamos justos, também haviam estado naquela jaula – agora só viviam em outra. Talvez eles tivessem entendido tão bem como funcionava aquilo tudo, por isso agora eram os que controlavam a jaula – de dentro da sua outra. Existem, então, ainda outras jaulas. Existem, não duvide. Conforme o nosso comportamento nesta, saberemos para qual iremos depois. Viver sem jaulas está fora de cogitação. Eu sei, meu amigo, é desolador – mas só para alguns, sabia? Sim, porque somos tão fracos e enfraquecidos que a maioria de nós jamais conseguiria viver sem o suporte e a força das jaulas. (Eu gosto de pensar que não sou dessas.) É tudo fantasia. Eu sei, eu sei, desmonta a idéia da coisa toda, desmonta esse texto, a divagação, a metáfora, tudo. Mas é fantasia crer que pode-se viver fora das jaulas. É uma condição, e é humana. Ou Humana. Sei lá, viu, porque os macacos devem ter suas jaulas também. Não? Quem sabe os elefantes ou as girafas. Talvez, então, uma condição do Ser. Para Ser é preciso estar na sua jaula. Não existe vida fora das jaulas (daria uma boa campanha publicitária, caso eles precisassem disso, obviamente). A força não precisa nos convencer de nada, ao contrário da publicidade. A publicidade, aliás, você sabem, faz parte de uma boa parte de jaulas. Onde fomos parar? Era pra ser só sobre a jaula, aquela primeira. A que nos mortifica os anos iniciais da vida. A que nos rodeia dizendo que é o melhor para nós, para o nosso futuro e, pá, acaba com nossos melhores dias. Ela encarcera sem que nós percebamos, sem que tenhamos desenvolvido capacidade de escolha ou sequer sentidos e noções para compreender o que ocorre conosco. É assim, entramos na primeira jaula sem nem saber como as coisas funcionam, assim nos tornaremos mais fracos (eu disse) e aceitaremos como as coisas são. Mas elas podem não ser. (Eu me agarro, às vezes, a isso – tão incerto.) Não sei direito o que aconteceu com as pessoas que fugiram da jaula (eu mesma já tentei e acabei voltando). Desconfio, porém. Ou apenas imagino. Se é condição, só a morte pode ser libertadora. Mas aí também não tem vida, nem escolha, nem opção. (Eu descarto, há quem não.) O que me incomoda de coração é que eles nem limpam a jaula, sequer lustram suas grades ou passam um perfume. Não as tornam minimamente atraentes. Poxa, acho um desrespeito. É assim que terminam nossas indignações. Rasas a reclamar de uma pintura nova para o mesmo velho de sempre. É assim. Somos fracos (eu disse).

Os fracos e covardes

O som – os romancistas diriam metálico – dos tipos a baterem contra o papel ecoou pela primeira vez depois de tantos – e muitos – anos aqui pelas paredes do Oficina, de onde vos escrevo. Tirei a capa protetora da minha Olympia e testei com dedos desacostumados. Ela, como uma amiga encantada pela lembrança, se não fosse tão pesada saltitaria na mesa. Respondeu-me como de costume, a ranhurar o sensível papel-jornal. Queria agradar-me, por certo. Tive que acertar-me com ela, pois o prelúdio fora de fato muito extenso. Lembrei-me dela, que jaz aqui ao meu lado todos os dias, como algo útil e belo – não apenas como um monumento. O monumento que refaz um trajeto da minha vida, que insinua a origem de todas as coisas. É sempre bom lembrar disso.

Era o Typewriter Day, 23 de junho. É curioso que sejamos instados a tirá-las do ostracismo para rememorar o que o seu som provoca interiormente. Não é curioso que exista um dia dedicado a elas. Alguns sites relembram que muitos dos grandes clássicos da literatura foram escritos nelas. Poucos dias antes eu comentava como é impossível o surgimento de um novo Machado de Assis. Vejam, ninguém mais tem tempo para dedicar-se à pena (literalmente). Nos formamos esses escritores mimados e incertos, artistas capengas da letra que mal pensada corre nessas telas digitais e em segundos são apagadas e reescritas. Vivemos do erro. Escrever, hoje, é um erro. Mais erramos do que acertamos. Há escritores que catam milho – expressão digníssima da Era das máquinas de escrever. “Máquinas de escrever”, que nome gordo de responsabilidade: uma máquina que comete o ato de escrever. Não é o ser humano que escreve, é a máquina diante dele que o faz. Hoje, aqui sentada diante do computador, com as idéias a correrem mais rápidas do que minha capacidade de digitar (que veio depois do aprendizado com a datilografia), a máquina apaga, corrige, colore, insere parágrafos, aumenta ou diminui letra. Faz-tudo.

O escritor, hoje, é uma farsa. Há uma máquina que faz tudo por ele. Há escritores que mal sabem escrever. A máquina, por sinal, inclui buscadores na internet, ao qual, não digam que eu contei para vocês, muitos escritores recorrem para escreverem seus livros (Deus há de perdoá-los). O escritor não imprime seus erros, escondidos num rápido ou lento ou reescritos em arquivos salvos sucessivas vezes ou deletados. Nós somos uma farsa. Jamais teremos um outro Machadão. A arte da escrita exige a entrega corajosa do esforço (quem já datilografou ou escreveu bastante a caneta sabe a que me refiro) contíguo ao corpo do escritor. Somos frívolos massageadores de leves teclados suaves e ergonômicos. Escrever não vem só da alma, as criaturas de hoje não entendem isso.

Ficamos mansos e amaciados. Somos vermes a mendigar temas cruciais à nossa época para escrever a próxima nulidade literária. Vejam que li esses dias sobre um romance qualquer que “retratava o vazio do nosso tempo” (imaginei um livro de páginas em branco, mas pelo tamanho da resenha duvido que seja). Outro se passava nas manifestações populares de 2013 (e nem era História do Tempo Presente). Outro, ainda, obviamente, falava de escritores nos dias de hoje e, obviamente, fazia uma crítica às críticas e ao consumo literário e aos escritores performáticos atrás de sucesso e incluía, antes que me esqueça, hashtags e a popularidade das redes sociais. Talvez não tenhamos nenhum Bruxo, em uma nova edição, pois esses assuntos da pauta da contemporaneidade são fugazes e reles diante de um olhar – aquele, famosíssimo (aliás, sempre que escrevo um superlativo também me recordo dele), que nos deixará com a eterna dúvida.

A culpa, talvez, não seja nossa. Talvez. A culpa talvez seja, justamente, da contemporaneidade. Deste mundo atroz que não nos sensibiliza nem nos torna seus amantes. O mundo nos repulsa, nos expele, nos atira de precipícios. Talvez, deste ponto de vista, não sejamos assim tão fracos e covardes, nós, os escritores. Talvez sejamos múmias a soltarmos a poeira da eternidade num caminhos pavimentado de word e pdf. E é o caminho que nos impede a fruição e um lugar aos pés dos grandes.

Faz um tempo eu dizia, quando as coisas do mundo pareciam tão fora de propósito, que chegaria o dia no qual eu abandonaria tudo e iria plantar batatas no alto do Maciço da Costeira. O lugar é desabitado (mas, obviamente surgiu alguém com a brilhante idéia de lá construir casas populares) e tem uma das vistas mais belas que já vi. Lembro de quando lá estive, os sons da humanidade no eco da distância, era como estar a parte dela. E foi esse o motivo que me fez recorrer à fuga imaginária de, um dia, fincar minhas idéias por lá, plantando batatas. Poderia, é claro, plantar tantas outras coisas, pois muito me agrada.

O mundo parece algo muito fora de propósito. Ele exige de nós consequências de escolhas que não fizemos. Nos cobra tanta coisa inútil. E mal temos tempo de remodelar nossa existência. Não existe, pois, depois da máquina de escrever, como existir um verdadeiro escritor. Ele está sujeito às condições da sua existência, do seu tempo, das distâncias e da falta de assunto que nos una – e não dure apenas um dia num trending topics.

Matéria-prima da criação

Eu li um artigo no qual o autor procurava as origens do desejo de criar que tem o ser humano. Seria algo estritamente humano e uma extensão do nosso corpo, como a roda, o pincel, etc.. Criamos coisas úteis, que potencializam nosso corpo e nosso intelecto. Mas, por outro lado, não criamos somente coisas úteis como um martelo, criamos, também um poema, que, a princípio, não tem utilidade alguma. Um filme, por exemplo, ou uma sinfonia, como ele cita, não têm utilidade.

Ele, então, chegou à conclusão de que criamos para dar sentido à vida, citando Gullar. Porém, o que me incomodou foi a afirmação de que somos pequenos, muito pequenos (houve uma insistência dele neste ponto) e que a vida precisa desta dimensão – que, se não a arte, somente a religião pode dar. Somos pequenos? A vida não faz sentido sem a arte?

Eu queria começar dizendo que não somos pequenos. Nem a vida precisa de nada, nem arte nem religião, para ter sentido. Criamos para preencher vazios. Consumimos arte e religião para preencher vazios. Talvez tenhamos tantos vazios que não temos coragem de assumir que isso se dá assim. Não passamos noites em claro assistindo a um capítulo atrás do outro de uma série do momento porque aquilo dá sentido à vida, mas sim porque temos uma vida vazia que, naquele momento, em vez de ser preenchida com uma boa noite de sono (ou, vá lá, tantas outras coisas) está sendo jogada fora com histórias e personagens que não fazem parte da nossa vida. Adolescentes que passam dias trancados no quarto lendo freneticamente estão na mesma situação, é um momento de entretenimento que se exaure na fuga da própria vida.

Faço, então, uma apologia à inutilidade das artes? Óbvio que não. Mas me parece que o autor do artigo tem essa verve tão clichê academicista niilista (o niilismo em si é tão blasé e clichê) de desfazer o valor intrínseco da vida, de não vê-la na sua maravilha e beleza, de superestimar os livros, filmes e músicas. O que criamos existe – ou deveria existir – como extensão desse encanto que há na própria vida. Consumir arte deveria ser a possibilidade de explorar mais o que sentimos na vida e um momento de entretenimento (de qualidade, por que não? qualquer um pode ler Shakespeare por mero lazer). Jamais criar ou consumir criações deveria ser considerado superior a viver.

Justifica-se, assim, também minhas ausências. Há muita prosa e poesia na vida. Há versos em conversas à beira-mar e fotografias de faróis. A crônica, em si, é a mais direta expressão da vida. Muito mais que os romances ou filmes de super-heróis. O problema é que, por vezes, temos muitos vazios. E não é preenchendo com a arte que deixamos de tê-los. Só a vida é capaz de dar sentido à própria vida. Não há filósofos nem prêmios Nobel que nos façam viver e sentir o que só a vida nos proporciona. Não há arte alguma que seja superior à vida, em nenhum sentido – e, vejam bem, não é a vida a matéria-prima da arte?

Eu gosto da idéia de discutir as razões ou motivações que nos levam a criar (também aí a questão de preencher vazios…). Como discutir quais os mecanismos que nos levam a consumir, talvez de mais fácil compreensão. Mas nessas discussões esquecemos de discutir a vida em si, de valorizá-la adequadamente e fugir ao supérfluo vazio corriqueiro de um mundinho pós-pós-moderno que aniquila vidas em cubículos sufocantes e pessoas cada vez mais afastadas umas das outras – e, no máximo, próximas dos seus psicólogos e personagens favoritos.

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