Quando um povo ataca sua própria Cultura…

É doloroso ver os ataques constantes que a Cultura do país tem sofrido. Avisei que teríamos um retrocesso sem precendentes num provável governo deste que vocês elegeram. Agora o povo acha que não precisa de cultura e arte. Claro que não, eles têm Netflix. Nossa pobreza intelectual chegou a patamares desconhecidos, por isso muito do que virá será desconcertante.

Acompanho a página do MinC no Facebook e percebo a luta dos seus funcionários, técnicos na maioria, em mostrar como o Ministério é importante, o quanto ele investe em todo tipo de cultura e arte pelo país todo. Mas essa “era da internet”, de ler manchetes nas timelines e já achar que sabe tudo, está destruindo com nossas chances de país melhor. O MinC é essencial. Ele não pode ser vilipendiado. Ele investe e dissemina arte e cultura, ele preserva nosso patrimônio e incentiva produções de todas as áreas. Mas, tem uma leva de analfabetos culturais (é como um desenvolvimento dos funcionais) que prefere só xingar e bradar que Ministério da Cultura só “dá” dinheiro para grandes artistas e “dá” dinheiro para filmes ruins. É o que dá falar sem conhecer. É o que dá o colonialismo.

Quando falávamos de um “american way of life” que nos foi tentado vender goela abaixo (apesar de nunca termos tido cacife para tal) parecia coisa do passado. Não é. Quando percebemos a importância de um segundo idioma, pelo menos, como o inglês do mundo globalizado (como o foi o Francês, etc.) era para alçar nossas gerações ao contato com o mundo. Porém, saber inglês tornou-se o dominar-se pela cultura de tudo que em inglês se produz. Um jovem brasileiro hoje aprenderia muito mais do mundo, da sociedade e da vida se fosse fazer um intercâmbio para o interior da Argentina ou para a Índia. Certeza que ele não aprenderá nada com uns meses de subemprego na Disney. Esse mundo fácil, de dinheiro “em dólares”, num país onde “tudo é barato”, que se não é “o melhor” é “melhor que aqui”. Quando e onde que Estados Unidos é melhor para um brasileiro do que o Brasil? Pra Bündchen, talvez (tenho minhas dúvidas). Esse USA que se vende nas séries, filmes, clipes, músicas é ilusório para um povo pobre, aculturado.

A proporção da calamidade ainda é pouco percebida. Temos crianças e adolescentes que reproduzem o modo de ser dos personagens de séries americanas. Suas vidas tornaram-se iguais às deles. Hoje novas gerações assistem Friends e sonham em ser garçonete em New York, é claro. A pizza que o brasileiro pede fim de semana é uma extensão desse american way of life. Crescemos vendo os personagens gostando e agindo de uma determinada forma, comemorando isso ou aquilo, e queremos igual. A cultura estadunidense é cultuada (e eles nem percebem).

Se vão assistir a um filme indiano, ou francês que seja, estranham, não gostam. Aliás, sentem-se assim com os brasileiros também, é claro. Porque conhecimento e cultura são coisas que a gente nunca “acaba” de apreender. É o modo de vida, mas é também a narrativa, os dramas, o ritmo, tudo – assimilado de uma vida que não nos pertence. Nós não somos americanos – sul-americanos, meus queridos. São séculos de História, de miscigenação, de Cultura, de tradições que nos afastam. Eis porque a importância do nosso Ministério da Cultura, também para fazer o brasileiro conhecer a sua própria Cultura e a sua Arte.

Quando falam de “qualidade”, então… o que dizer? Existe algo que se chama “formação de público”, todos os produtos americanos têm uma extensa formação de público, que o “educa” (formação neste sentido) a entender e gostar do que é feito por eles. Se o público não conhece o que se produz aqui, não conseguirá um contato com isso. E por mais que a gente pense em influências e apropriações, é curioso ver brasileiro que renega a qualidade de tudo que é feito aqui (desde funk até Cinema Novo) e só gosta de arte e cultura estrangeira. Aí só um psicanalista, né – ou Nelson Rodrigues. As linguagens artísticas causam estranheza nas pessoas, através dos nossos sentidos. É preciso que nos eduquemos em arte e cultura. Mas, educação é o fraco deste país (dos EUA também). Só vai gostar de arte e cultura brasileiras quem for educado a gostar? Não. Mas para o povo iletrado, que mal escreve o próprio idioma, exposto desde cedo aos produtos culturais mais duvidosos, sim. E, também, para um povo que prefere desconhecer a própria cultura – porque prefere os clássicos, o que a crítica especializada diz, tudo aquilo que for “bem falado”.

É doloroso saber de pessoas que desconhecem cinema brasileiro. Que não ouvem música brasileira. Que nunca vão às exposições de artes visuais. Que nunca leram um autor brasileiro. É doloroso vê-los lendo crônicas de-sei-lá-o-quê sobre culturas riquíssimas que não nos pertencem. É doloroso vê-los xingando o dinheiro que o governo “dá” para os “vagabundos” enquanto adoram Harry Potter e a baixa literatura comercial que se produz aqui. É doloros ver um país com tantos problemas sociais e educacionais como os EUA servindo de modelo e exemplo para nós, pobres brasileiros. É doloroso ver a expansão de escolas bilíngues onde formaremos mais e mais alienados adoradores de culturas que nos são alheias.

Minha esperança reside no fato de que temos funcionários de carreira, técnicos com boa formação dentro de alguns ministérios e eles já mostraram que estão dispostos a resistir. Quem dera tivessem o apoio de boa parte da população. Que eles resistam em nome do nosso futuro. Alguns, felizmente já abriram os olhos diante do engodo que elegeram – outros levarão mais tempo. Porém, diante disso não podemos entregar o país de joelhos. Será uma longa batalha. Salve a Arte e a Cultura Brasileiras, hoje e sempre.

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A espoliação dos relacionamentos

Talvez o ano tenha sido morno, cinematograficamente falando. E o que eu gosto da temporada de premiações é que voltamos a falar (e ter acesso, coisa ainda difícil nestes cantões do mundo) de bons filmes, ou filmes que chegaram a algum lugar. Em especial eu gosto muito da produção latino americana, esta que é tão descreditada e, lembremos sempre, da qual fazemos parte. O primeiro latino da temporada que assisti foi um paraguaio.

Las herederas (Marcelo Martinessi, 2018) te deixa em dúvida desde o começo – mas tudo desaparece (ou não) com o final. Te deixa em dúvida e confuso, afinal, quem são as herdeiras, o que elas têm, quais são as intermináveis dívidas, o que uma é para a outra. Nessa onda de mudanças no Cinema mundial, o filme praticamente não tem homens no elenco (e eles não fazem falta!). É um filme sobre mulheres? Não. Sobre o que é? Bem, eu diria que só no último terço do filme que emerge com força o que o filme quer dizer – até lá ele vai lentamente descortinando uma história que vive às escuras, numa casa decrépita, diante de patrimônio e sentimentos que são dilapidados cena a cena.

Ponto extra pra Direção – e aí sentimos a influência forte de uma Martel no Continente, aliás, foi dela um dos melhores filmes que vi no ano. A câmera não encara ninguém, nem nenhuma situação, de frente. Ela “espia”, ela observa, ela parece estar ali por acaso. É uma história tão “feia”, tão distante dos olhos da sociedade, que a câmera também vai contando-a pelas beiradas. São poucos os momentos que a câmera é direta sobre um personagem, e nunca sobre as protagonistas. Para isso são usados muitos espelhos, muitas portas entreabertas, muitas distâncias e bancos traseiros do carro. Sinto que isso é que faz toda a diferença no filme, pois se não fosse pela Direção a história seria outra – e o que é Direção senão exatamente isso, transformar histórias?

O tempo todo de transformação se passa lentamente e só vê quem tem bons olhos (os outros desistirão no meio do caminho). Poderia ser um filme sobre o amor – o amor esse, de todos. Mas, é um filme sobre relacionamentos abusivos. Aviso: você demora muito para perceber isso. (se for assistir depois de ler, não) Filme sobre relacionamentos abusivos no qual só há mulheres: a surpresa eu não vou estragar. Porém, tem que prestar atenção nos detalhes, no carro (um personagem), nos figurinos, na maquiagem, nos cigarros…

Se é um grande filme? Talvez. É um filme que fala universalmente, algo que o cinema latino americano sabe fazer tão bem, e nossas mazelas não são só nossas. É um filme corajoso, ou vil, quem sabe. Fiquei na dúvida, realmente, ao final. Porque ele fala de algo tão pessoal, tão íntimo, dando liberdade às mulheres ou condenando-as? Talvez um filme mais necessário do que o badalado Una mujer fantástica. E talvez o cinema paraguaio (assim como o argentino, o peruano, o chileno,…) sirva como lição para o brasileiro: não precisa de circo, palhaço, heróis para uma grande história de qualquer sentimento universal. Um dia, talvez, a gente aprenda.

Fica um gostinho: http://remezcla.com/lists/film/latin-american-movies-best-foreign-language-film-oscar-2019/

Tudo o que a indústria mandar, sir.

E não param de surgir comentários retardatários de quem assistiu a Spotlight. Voltarei ao Oscar? Sim. Fiquei ensimesmada como um filme tão sem graça, tão “fraco”, com um roteiro beirando à chatice, confusão, repetição e óbvio, além de pecar pela falta total de um bom drama (culpa das atuações, mas também das personagens) pode ainda levar as pessoas a se regozijarem com ele. Ah, mas ele levou os principais prêmios. Então eu é que estou errada. Não. Porque eu critico a indústria, e é só prestar atenção como ela funciona para entender algumas coisas. Spotlight eu continuo com a certeza que será um filme esquecido na História do Cinema, nas críticas, nos clássicos. Mas por que hoje ainda falamos dele?

Já expliquei aqui o que levou e leva as pessoas a assistirem e gostarem do filme. A História muitas vezes perdoa, mas o tempo não. Primeiro erro do filme foi o atraso em relação aos fatos narrados, coisa de uma década, não houve nenhuma proximidade com o escândalo, ele não traz, de fato, nenhum dado novo. Ou seja, não surpreende. Um filme sobre um fato real da História contemporânea precisa ter algum fator de surpresa ou elucidação, uma interpretação por algum viés interessante sobre aquilo que provavelmente todo mundo já conhece (pelo menos alguma coisa). Exemplo igual se vê no documentário da Amy Winehouse. Este serve só para os fãs enlouquecidos; aquele só serve para os fanáticos anti igreja católica. Mas a indústria sabia o que estava fazendo.

Sabe a máxima que diz “aquilo que você mais nega é o que mais diz sobre você” (ou algo assim)? É verdadeira. Além de acompanhar os indicados ao Oscar, também tento dar uma olhada nos renegados, naqueles que ficaram de fora e dizem que mereciam concorrer (Jennifer Aniston em Cake ano passado, por exemplo). Lembra da discussão sobre a branquitude do Oscar? Então, a cerimônia inteira foi um deboche pela luta dos negros (nos EUA) na Academia e na indústria – ano passado a Patricia Arquette fez um discurso sobre a disparidade entre homens e mulheres na indústria, até foi aplaudida, mas de lá pra cá sofreu represálias no trabalho por aquelas palavras tão verdadeiras. É assim que funciona, você aponta os erros e falhas dos outros e eles se esmeram em te responder com deboche (daqueles que fazem a pessoa parecer genial). Nunca gostei da cerimônia do Oscar em si, acho que só assisti umas duas do começo ao fim até hoje. Este ano foi uma delas. Assisti. E enquanto lia comentários de como a Academia soube se posicionar, eu via o ridículo.

Aliás, no dia seguinte me dei ao trabalho de levantar uma estatística. Os americanos estão perdendo seu espaço – e não é para os negros. Dos 38 premiados (em algumas categorias há trabalho conjunto) foram 23 não-americanos e 15 americanos (mexicanos, chilenos, australianos, britânicos, paquistaneses, etc.). Das principais, apenas ator e atriz protagonistas, roteiro e longa de animação foram para americanos. Os prêmios mais valorizados, a saber, Direção, Fotografia e Trilha, além de atores coadjuvantes, documentários, curtas e os prêmios técnicos foram para profissionais não-americanos. Surpresa? Não. Por isso a gente vê o que vê no sucesso que faz um Trump da vida. Parece, apenas parece, que os americanos já não são tudo aquilo no império que eles construíram. O Oscar foi internacionalizado. A indústria cinematográfica americana sobrevive – às custas de profissionais de alto calibre do mundo todo. Eles podem ter conseguido conter a presença dos negros (se foi algo intencional). Mas eles não conseguem mais conter o talento de pessoas de todas as cores do mundo.

Sobre a cerimônia, os principais momentos foram a apresentação emocionante da Lady Gaga num trabalho socialmente importante (que perdeu para o fiasco de apresentação e canção igualmente lamentável do Sam Smith) e o merecidíssimo prêmio banhado em lágrimas do Morricone (adorei o agradecimento anotado em italiano). De mais a mais, Di Caprio com um discurso balela levou o prêmio por um trabalho mediano de um ator também mediano.

É como Spotlight. Porque muita dessa gente que assistiu-o não assistiu Concussion. Sim, este me fez voltar a falar do Oscar. Com Concussion você entende como a indústria funciona. Como eles calam quem bem entendem. Filme com elenco negro Straight Outta Compton também tinha. Mas aí é aquela história do negro da periferia que se dá bem na vida (auto-ajuda americana “yes we can” das melhores com uma leve crítica à polícia). O filme do Will Smith (ele merecia a indicação, e foi este comentário que me levou a assisti-lo) é sobre a nova leva de negros que chegam aos EUA vindos principalmente da África. Não são escravos, não são ignorantes, não baixam a cabeça – mas, curiosamente, os problemas que eles enfrentam são os mesmos de séculos atrás. Além deste drama protagonista, este negro estudado bate de frente com uma das maiores indústrias dos EUA (tanto quanto a do cinema, talvez): o futebol americano. No filme eles conseguem calá-lo, mas o filme foi feito e aí a Academia também conseguiu calá-lo.

É mais fácil incitar a horda contra um inimigo odiado em comum, do que apontar que o seu maior prazer e entretenimento tem sérios problemas. É mais fácil você lançar às alturas o sucesso de um filme patético contra a Igreja Católica (que tem vítimas de pedofilia no mundo todo) do que olhar para o teu quintal e dizer para os teus filhos um sonoro “não” quando eles pedirem para entrar no time de futebol americano da escola – ou perder ibope e os patrocínios multimilionários das grandes finais. A indústria funciona assim. E aí seguem os iluminados e esclarecidos ao cinema para publicarem depois, nas redes sociais e blogs, sua indignação contra os casos de abuso dos quais tiveram conhecimento – o que em nada se aproxima da frieza “jornalística” do filme. Mas eles não sabem separar uma coisa da outra.

Defendo os crimes da Igreja Católica? Não. Diminuo a dor e o trauma das vítimas? Não. Estou me referindo ao filme. O filme é ruim, é fora de época, é medíocre, não se interessa em nada pelos dramas das vítimas, foi feito com intenção de lucro e só – tanto que não coloca o posicionamento atual da Igreja sobre o assunto. O filme é de uma falta de honestidade que me revolta. Amparado na utópica noção de isenção e outras baboseiras do jornalismo capenga, acha que faz denúncia e que tem uma boa história. Não faz nada pelas vítimas. Não faz nada pelo combate à pedofilia. É um embuste.

Enquanto Concussion mete o dedo na ferida. Diz, literalmente, o quão racista e criminosa é a sociedade americana e avisa que o futebol americano mata. Mas disso ninguém precisa saber. Até brasileiros são viciados nos grandes eventos do futebol americano, vejam vocês. A indústria só não pode perder seu lucro. E ela faz de tudo (e tão bem) para que isso não aconteça. O que não deveria me surpreender é ver até as pessoas que se dizem contra tudo isso que está aí (e sonham com aquele mundo igualitário e tal) aplaudindo os piores meios que a indústria utiliza para se proteger. A indústria cinematográfica americana não fez um baita filme sobre as vítimas dos abusos de alguns padres da Igreja Católica, com proteção e conivência dela, e jamais fará. Ela não tem interesse nisso. Ela critica a proteção que a Igreja deu aos seus, enquanto ela faz exatamente a mesma coisa com os seus interesses e lucros – assim como a indústria do futebol americano. A lógica é simples e mais velha que todos nós.

Enfim, Concussion é um filme surpreendente, Will Smith arrasa do começo ao fim, honra a cor da pele e todos os negros que têm adentrado as fronteiras dos EUA com o sonho da promessa de uma vida melhor. Chegam com diplomas, com a cabeça erguida e querendo fazer o melhor. Pena que a sociedade seja tão baseada nos interesses dessas indústrias que fizeram dos EUA a tal potência, porque a julgar pelas tais prévias das eleições os bons americanos querem, também, proteger-se. Como dizíamos anos atrás, ter um presidente negro não mudará (e não mudou) em nada a mentalidade e atitude das pessoas – a polícia não deixou de matar negros inocentes nas ruas. Sai um negro, entra um que quer exterminar mexicanos – que, aliás, ganharam dois dos maiores prêmios da indústria cinematográfica: Fotografia e Direção (Iñarritú, aliás, com o discurso exato sobre a situação, muito além de qualquer blábláblá ecológico do abraçador de Papa, Di Caprio, tentaram calar). O que será de Hollywood sem os mexicanos?

Enquanto isso, até a brasileirada estará por aí aplaudindo futebol americano, uivando contra a Igreja Católica, consumindo Di Caprios e suas balelas. Tudo o que a indústria mandar. Mas, claro, não assistem a novelas ou a Globo, porque, enfim, não são bobos. Aí já é assunto pra outra hora.

Same time, next year e as delícias do bom cinema

Num domingo, nada como acordar e ir assistir um filme. Tenho andado tão romântica para a ficção, acho que para compensar as agruras da vida e as obrigações sérias. O mundo fantasioso de uma pisciana precisa, de certa forma, ser alimentado. Como esqueci de pegar um livro para colocar na mala e nenhum daqui me interessou, fico com os filmes.

 

E há aqueles filmes que mexem com a vida da gente. Esses dias ainda, conversando com um amiga de muito tempo (se vão aí pra mais de dez anos), ela me dizia que naquela época me via, no futuro (ou seja, hoje), autora de vários livros, que nunca havia pensado que eu iria parar no cinema. Mas são as voltas que a vida dá e minha ficção foi encontrar satisfação nas imagens. Talvez aquela união da fotografia e da escrita, velhas paixões e companheiras.

 

Eu já plantei inúmeras árvores nesses tantos anos de vida, eis que só me faltam os livros e os filhos. Eles já não parecem assim tão distantes…

Escrever é como um prolongamento do meu braço, tão natural quanto necessário. E escrever sobre filmes é tão delicioso quanto difícil.

 

E naquele domingo acordei com a casa em silêncio e liguei a TV. Começava um filme no meu canal favorito. A intro me conquistou no mesmo instante com um trilha pegajosa e tão direta. Dei uma olhada na sinopse (essas infelizes) e não tive dúvidas que assistiria. Eis que chegam do supermercado com os ingredientes para o almoço que eu havia prometido e tive que interromper a sessão. Passaria novamente dali a dois dias.

 

Recomendei a uma amiga que assistisse também indicando que era verborrágico tipo um Woody Allen e baseado em uma peça da Broadway.

 

Eu teria reservas sobre ser baseado em uma peça, afinal dispositivos diferentes podem não contemplar suas aspirações ao mudarem de “casa”. Mas…

 

E para quase tudo na vida há um “mas”.

 

A intro é perfeita, um homem e uma mulher que se conhecem sem mais num hotel de beira de estrada americano. Risos, sorrisos, não ouvimos o diálogo (e o que importa este tipo de diálogo? como diria a personagem Doris depois, ele nem a estava ouvindo) pois toca o tal tema meloso e lindo e nesses momentos o que vale é a sintonia.

 

A sintonia! Ah, esta me é muito cara!

 

E, um elipse depois – aliás, a elipse neste filme encontra sua forma genial -, lá estão os dois discutindo. Não vou aqui me deter a escrever uma sinopse do filme, nem a contar a historinha. O texto é afiado, lapidado, perfeito. Os atores não deixam escapar nada. É preciso um elogio maior à direção de arte que soube conduzir uma história que se passa durante 26 anos com cortes bruscos, e conta os anos turbulentos de 1951 a 1976 com detalhes de deixar qualquer bom apreciador da sétima arte babando!

 

O poder de síntese da fotografia e do roteiro é que mais encanta, definitivamente. É uma história de amor contada no seu tempo, com as elipses de tempo transformadas em pura imagem, sem mais. Talvez algumas mentes mais recentes e pouco informadas não consigam acompanhar as referências, mas isso não deixa o filme datado: datado é o espectador mediano (ou abaixo da média) que não reconhece aquelas imagens, aqueles personagens, e, assim, não há de entender nada do filme.

 

Ele, ao contrário do que poderia parecer – e foi um dos meus receios – não é repetitivo. Pensei que o roteiro escorregaria na sua perfeição quando George pede Doris em casamento: mas, não, até ali ele soube ser tão genial.

 

Confesso que não entendi como, até hoje, eu não havia me deparado com esta pérola. É um daqueles momentos que você sabe porque ama o cinema, porque ele te atrai tanto, porque ele é tão múltiplo.

 

“Same time, next year” é uma versão da vida que não se encontra em qualquer lugar, a qualquer dia. É um filme que infelizmente não fez escola, talvez porque reparar nos pequenos pontos da vida não rendam boas bilheterias.

 

Alan Alda esta incrível.

 

E só para deixar na vontade e resumir muito bem toda esta obra-prima, cito uma metáfora (para o espectador atento, são várias!): Doris pergunta a George que horas são. Ele diz para ela ver no relógio dele. São 11h50 e ela fica surpresa, não achava que era tão tarde. Ele diz que, na verdade, ele está mais de três horas adiantado, então é preciso diminuir para saber o horário certo. Doris: se está quebrado, por que você não arruma? George: ah, sabe como é, a gente se acostuma.

 

É, nós nos acostumamos com o que está quebrado… e leva uma vida inteira assim. Não é um poema que diz isso?

 

 

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