Tudo o que a indústria mandar, sir.

E não param de surgir comentários retardatários de quem assistiu a Spotlight. Voltarei ao Oscar? Sim. Fiquei ensimesmada como um filme tão sem graça, tão “fraco”, com um roteiro beirando à chatice, confusão, repetição e óbvio, além de pecar pela falta total de um bom drama (culpa das atuações, mas também das personagens) pode ainda levar as pessoas a se regozijarem com ele. Ah, mas ele levou os principais prêmios. Então eu é que estou errada. Não. Porque eu critico a indústria, e é só prestar atenção como ela funciona para entender algumas coisas. Spotlight eu continuo com a certeza que será um filme esquecido na História do Cinema, nas críticas, nos clássicos. Mas por que hoje ainda falamos dele?

Já expliquei aqui o que levou e leva as pessoas a assistirem e gostarem do filme. A História muitas vezes perdoa, mas o tempo não. Primeiro erro do filme foi o atraso em relação aos fatos narrados, coisa de uma década, não houve nenhuma proximidade com o escândalo, ele não traz, de fato, nenhum dado novo. Ou seja, não surpreende. Um filme sobre um fato real da História contemporânea precisa ter algum fator de surpresa ou elucidação, uma interpretação por algum viés interessante sobre aquilo que provavelmente todo mundo já conhece (pelo menos alguma coisa). Exemplo igual se vê no documentário da Amy Winehouse. Este serve só para os fãs enlouquecidos; aquele só serve para os fanáticos anti igreja católica. Mas a indústria sabia o que estava fazendo.

Sabe a máxima que diz “aquilo que você mais nega é o que mais diz sobre você” (ou algo assim)? É verdadeira. Além de acompanhar os indicados ao Oscar, também tento dar uma olhada nos renegados, naqueles que ficaram de fora e dizem que mereciam concorrer (Jennifer Aniston em Cake ano passado, por exemplo). Lembra da discussão sobre a branquitude do Oscar? Então, a cerimônia inteira foi um deboche pela luta dos negros (nos EUA) na Academia e na indústria – ano passado a Patricia Arquette fez um discurso sobre a disparidade entre homens e mulheres na indústria, até foi aplaudida, mas de lá pra cá sofreu represálias no trabalho por aquelas palavras tão verdadeiras. É assim que funciona, você aponta os erros e falhas dos outros e eles se esmeram em te responder com deboche (daqueles que fazem a pessoa parecer genial). Nunca gostei da cerimônia do Oscar em si, acho que só assisti umas duas do começo ao fim até hoje. Este ano foi uma delas. Assisti. E enquanto lia comentários de como a Academia soube se posicionar, eu via o ridículo.

Aliás, no dia seguinte me dei ao trabalho de levantar uma estatística. Os americanos estão perdendo seu espaço – e não é para os negros. Dos 38 premiados (em algumas categorias há trabalho conjunto) foram 23 não-americanos e 15 americanos (mexicanos, chilenos, australianos, britânicos, paquistaneses, etc.). Das principais, apenas ator e atriz protagonistas, roteiro e longa de animação foram para americanos. Os prêmios mais valorizados, a saber, Direção, Fotografia e Trilha, além de atores coadjuvantes, documentários, curtas e os prêmios técnicos foram para profissionais não-americanos. Surpresa? Não. Por isso a gente vê o que vê no sucesso que faz um Trump da vida. Parece, apenas parece, que os americanos já não são tudo aquilo no império que eles construíram. O Oscar foi internacionalizado. A indústria cinematográfica americana sobrevive – às custas de profissionais de alto calibre do mundo todo. Eles podem ter conseguido conter a presença dos negros (se foi algo intencional). Mas eles não conseguem mais conter o talento de pessoas de todas as cores do mundo.

Sobre a cerimônia, os principais momentos foram a apresentação emocionante da Lady Gaga num trabalho socialmente importante (que perdeu para o fiasco de apresentação e canção igualmente lamentável do Sam Smith) e o merecidíssimo prêmio banhado em lágrimas do Morricone (adorei o agradecimento anotado em italiano). De mais a mais, Di Caprio com um discurso balela levou o prêmio por um trabalho mediano de um ator também mediano.

É como Spotlight. Porque muita dessa gente que assistiu-o não assistiu Concussion. Sim, este me fez voltar a falar do Oscar. Com Concussion você entende como a indústria funciona. Como eles calam quem bem entendem. Filme com elenco negro Straight Outta Compton também tinha. Mas aí é aquela história do negro da periferia que se dá bem na vida (auto-ajuda americana “yes we can” das melhores com uma leve crítica à polícia). O filme do Will Smith (ele merecia a indicação, e foi este comentário que me levou a assisti-lo) é sobre a nova leva de negros que chegam aos EUA vindos principalmente da África. Não são escravos, não são ignorantes, não baixam a cabeça – mas, curiosamente, os problemas que eles enfrentam são os mesmos de séculos atrás. Além deste drama protagonista, este negro estudado bate de frente com uma das maiores indústrias dos EUA (tanto quanto a do cinema, talvez): o futebol americano. No filme eles conseguem calá-lo, mas o filme foi feito e aí a Academia também conseguiu calá-lo.

É mais fácil incitar a horda contra um inimigo odiado em comum, do que apontar que o seu maior prazer e entretenimento tem sérios problemas. É mais fácil você lançar às alturas o sucesso de um filme patético contra a Igreja Católica (que tem vítimas de pedofilia no mundo todo) do que olhar para o teu quintal e dizer para os teus filhos um sonoro “não” quando eles pedirem para entrar no time de futebol americano da escola – ou perder ibope e os patrocínios multimilionários das grandes finais. A indústria funciona assim. E aí seguem os iluminados e esclarecidos ao cinema para publicarem depois, nas redes sociais e blogs, sua indignação contra os casos de abuso dos quais tiveram conhecimento – o que em nada se aproxima da frieza “jornalística” do filme. Mas eles não sabem separar uma coisa da outra.

Defendo os crimes da Igreja Católica? Não. Diminuo a dor e o trauma das vítimas? Não. Estou me referindo ao filme. O filme é ruim, é fora de época, é medíocre, não se interessa em nada pelos dramas das vítimas, foi feito com intenção de lucro e só – tanto que não coloca o posicionamento atual da Igreja sobre o assunto. O filme é de uma falta de honestidade que me revolta. Amparado na utópica noção de isenção e outras baboseiras do jornalismo capenga, acha que faz denúncia e que tem uma boa história. Não faz nada pelas vítimas. Não faz nada pelo combate à pedofilia. É um embuste.

Enquanto Concussion mete o dedo na ferida. Diz, literalmente, o quão racista e criminosa é a sociedade americana e avisa que o futebol americano mata. Mas disso ninguém precisa saber. Até brasileiros são viciados nos grandes eventos do futebol americano, vejam vocês. A indústria só não pode perder seu lucro. E ela faz de tudo (e tão bem) para que isso não aconteça. O que não deveria me surpreender é ver até as pessoas que se dizem contra tudo isso que está aí (e sonham com aquele mundo igualitário e tal) aplaudindo os piores meios que a indústria utiliza para se proteger. A indústria cinematográfica americana não fez um baita filme sobre as vítimas dos abusos de alguns padres da Igreja Católica, com proteção e conivência dela, e jamais fará. Ela não tem interesse nisso. Ela critica a proteção que a Igreja deu aos seus, enquanto ela faz exatamente a mesma coisa com os seus interesses e lucros – assim como a indústria do futebol americano. A lógica é simples e mais velha que todos nós.

Enfim, Concussion é um filme surpreendente, Will Smith arrasa do começo ao fim, honra a cor da pele e todos os negros que têm adentrado as fronteiras dos EUA com o sonho da promessa de uma vida melhor. Chegam com diplomas, com a cabeça erguida e querendo fazer o melhor. Pena que a sociedade seja tão baseada nos interesses dessas indústrias que fizeram dos EUA a tal potência, porque a julgar pelas tais prévias das eleições os bons americanos querem, também, proteger-se. Como dizíamos anos atrás, ter um presidente negro não mudará (e não mudou) em nada a mentalidade e atitude das pessoas – a polícia não deixou de matar negros inocentes nas ruas. Sai um negro, entra um que quer exterminar mexicanos – que, aliás, ganharam dois dos maiores prêmios da indústria cinematográfica: Fotografia e Direção (Iñarritú, aliás, com o discurso exato sobre a situação, muito além de qualquer blábláblá ecológico do abraçador de Papa, Di Caprio, tentaram calar). O que será de Hollywood sem os mexicanos?

Enquanto isso, até a brasileirada estará por aí aplaudindo futebol americano, uivando contra a Igreja Católica, consumindo Di Caprios e suas balelas. Tudo o que a indústria mandar. Mas, claro, não assistem a novelas ou a Globo, porque, enfim, não são bobos. Aí já é assunto pra outra hora.

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