Ah, o Verão! – Parte I

No Brasil, é característico ir para o litoral nas férias de verão, de dezembro a início de março. Muitos emendam com o Carnaval, que fica entre fevereiro e março, e por isso se diz que as coisas só começam depois do Carnaval. Muitas cidades praianas vivem majoritariamente dos turistas e veranistas. Há os que têm casas para temporada, ou os que alugam ou vão para hotéis. Há um deslocamento em massa gigante, que sempre foi grande, mas com o advento do financiamento fácil de carros cresceu demais. Muitas e muitas pessoas vão para o litoral aproveitar o calor. Algumas fazem isso todos os anos, algumas só alguns anos e há os que vivem já no litoral.

As menores cidades de veraneio ficam vazias durante o ano, algumas mais badaladas já vivem independentes do turismo e da temporada, mas dobram, triplicam, a população nesse período.

Não vou escrever tecnicamente o que acontece e tal. Vou colocar algumas impressões, sugestões e observações. Sou viajante de alma, veranista desde antes do meu primeiro ano de vida, moro atualmente numa Ilha, mas vivo pra lá e pra cá entre o litoral e o pé da serra.

Ter casa de veraneio é algo extremamente divertido. Ser turista também. O primeiro implica em eternos retornos, o segundo encerra mais situações inusitadas. Mas o verão, a praia, tem peculiaridades fantásticas.

A Temporada

O início do verão é lá pelo dia 22 de dezembro. Aqui as férias escolares começam um pouco antes disso, mas até o Natal as coisas ficam ainda um pouco calmas, muitos passam esta data com a família e tal. Mas, só reparar nas estradas (sim, infelizmente os carros, ônibus e caminhões são maioria neste país), que a partir do dia 23 a situação muda completamente. Muitos vão e vem. O que antes era fácil dizer, em qual sentido e quando as estradas estariam mais cheias, hoje não faz mais sentido. O pessoal do interior e da serra vai e volta do litoral em variados momentos, mas encare o último dia do feriado de ano novo no sentido interior ou serra e aproveite para ficar parado horas na estrada achatando a bunda e aperfeiçoando seu mau humor.

Aqui em Santa Catarina, como em vários estados brasileiros, muitas casas ficam fechadas o ano inteiro, no litoral. É na temporada que elas reabrem.

Lembro bem que há alguns anos o período de férias era maior, todos passavam dois meses direto na praia. Bons tempos! Hoje a maioria mal consegue duas semanas.

A Viagem!

Ah, a viagem! Carro lotado! Todos com calor! E tem de tudo: cachorro, gato, periquito, cadeira de praia, bicicleta, malas, bola, travesseiros… Divertido passar por outros carros e ver que tem quem está em situação pior que você, sentado no colo da tia gorda, por exemplo, amassado pelo cotovelo do primo. Sempre terá alguém pior que você, lembre-se disso para a temporada toda.

A estrada? Ah, claro, todos tiveram a brilhante idéia de sair mais cedo, sábado à tarde, logo depois do Natal, pra não pegar movimento! E? Todo mundo fica ali na estrada, a uns quinhentos metros do conforto de casa, com o cheiro do peru de Natal embalado no colo da mãe.

A Casa

Bem, como tem gosto pra tudo nesse mundo, você vê de tudo em construções na praia. Tem aquelas que mais parecem um palácio, tantas portas, janelas, andares, que deixam a dúvida se o cara vai pra lá só pra passar um mês ou dois ou se é um mausoléu. Tem a típica casa de praia, nem grande demais (como dizia minha avó e diz minha mãe: não vou pra praia pra ficar me matando de limpar casa!) nem muito pequena (como já dizia o dono do Barracão do Curi: ter casa na praia é só para os outros irem!), antigamente eram de madeira, mas hoje já tem de material mesmo, normalmente com janelas de madeira e térreas. Item obrigatório (se for pra construir uma que não tenha, nem faça!): varanda! Varandas grandes, arejadas, com muitas redes por todos os lados! De preferência, no mínimo, dois banheiros (nessa época, até os menos chegados na boa higiene tomam banho!), porque casa cheia e um banheiro só pode dar confusão e esperas desastrosas! Vão por mim!

As cidades mais badaladas têm apartamentos (o povo mora o ano inteiro em gaiolas e quando vai pra praia prefere continuar nelas). Mas, apartamento não tem graça nenhuma, nem de veraneio. Pularei essa.

Numa casa de praia onde todo mundo resolveu aparecer (parentes e afins sempre fazem isso, muitas vezes ao mesmo tempo) não dá pra mudar a caixa d’água do dia pra noite, por isso, prepare-se para a falta de água tão comum.

Quando você chega na casa de veraneio (que ficou meses e meses fechada) dá vontade de voltar. É muita poeira, lagartixas, baratas, e outros seres habitando-a. O cheiro de mofo e umidade é enjoativo e persistente. Mas aí você lembra da estrada parada e decide ficar por ali, vai tirando umas teias de aranha e senta em alguma cadeira que não foi comida pelo cupim. Outra obrigatoriedade da casa de praia é a mesa de jogos! Baralho, sinuca, futebol de botão, dados, jogos de tabuleiro, tem que ter tudo (lembre-se, é verão e chove bastante!). Além disso, TV em lugares mais distantes raramente pega algum canal (eu sei que houve uma invasão de antenas parabólicas – horríveis – e que hoje em dia ninguém vive sem TV, mas no meu tempo pegar a Globo era um parto – ok, ainda é!). Internet? Então, nos últimos anos até internet chegou nesses lugares, mas em lan houses ou a sua móvel. O sinal do celular também não é uma maravilha e de vez em quando você vai ver seu vizinho pendurado na varanda gritando, não é com você, é com a esposa dele que está na capital.

Casa de praia mesmo tem muita cama em pouco quarto, mais colchões que camas e sofás-cama são obrigatórios.

Amor e Sexo

Bem, já dizia minha avó: amor de verão não sobe a serra! Olha, nunca vi nenhum subir mesmo! Mas, pense bem, se não sobe a serra, pode reacender no próximo verão! Só, por favor, não discutam o que cada um fez durante o ano! Daí não reacende amor nenhum! O verão é muito propício para o amor e para o sexo (bem, qual estação não é?!?!). Uns dizem que não… conversa fiada! O amor, principalmente adolescente, está sempre no ar com aquele contato próximo e quase desnudo do clima de praia, de tantos rostos novos ali na casa do vizinho, do clima festeiro de jogos na rua e na praia, de noites quentes e longas.

O sexo segue quase o mesmo caminho. Mas, cuidado ao praticá-lo nas areias, costões e matinhos. Cuidado em dois sentidos, com um possível flagra ou com pequenos acidentes. A areia e o mar podem causar sensações inesquecíveis nessas horas! As pedras e o mato, então! Será definitivamente algo que você vai lembrar pro resto da vida, nem que seja com uma boa cicatriz no joelho! Eu mesma vivo testemunhando amores solitários ou de casais aí pelas areias. Não me incomodo, mas cuidem das crianças porque alguns desses podem ser mal intencionados. Aliás, durante toda a temporada: cuidem das crianças! Seja no banho de mar, nas ruas pacatas, elas andando descalças, no banho em casa, na brincadeira com outras crianças.

Junte aí dois pecados capitais se seja feliz: luxúria e preguiça. O verão pede isso, não negue. Aproveite até os dias de chuva!

A Comida

Ah! Viram como o verão pede, clama, implora pelos pecados capitais? A gula é uma amiga muito próxima do verão! Eu poderia escrever aqui apenas duas coisas: caldo de cana e milho cozido! Se você passar um verão sem tocar num milho cozido nem tomar caldo de cana, vá para uma estação de esqui porque não é digno destas terras!

Troque, de vez em quando, o milho cozido pelo pastel de camarão! Porque ir pra praia, tomar banho de sol, banho de mar, caminhar, jogar, fazer sexo e tudo mais dá fome, muita fome!

Por favor, não coma frituras pesadas na beira da praia. Ah, nem bebidas alcoólicas. É o cúmulo da farofagem e da breguice! Farofar é permitido, mas sem caixas de isopor, por favor! Leve umas bolachas, água. Mas não precisa levar o frango! Nem cerveja!

Eu sei que criança é difícil, mas não leve os salgadinhos da vida pra elas ficarem derrubando por tudo. Em casa, coma de tudo, tudo mesmo, sem culpa. Tenha sempre frutas e sucos, verduras, arroz, feijão, carnes.

Sabe a vó ou a tia que já estão numa idade ou num peso que não vão mais para a beira da praia? Então, explique para elas que além de fofocar sobre quem a vizinha recebeu a noite passada elas também podem preparar a comida! Porque não tem coisa mais chata e esfomeante do que chegar da praia e ainda ter que cozinhar!

O meio de transporte

Ande a pé! Esqueça carro e ônibus. Caminhe! Faça tudo que der à pé, ou tire finais de tarde para pedalar. No máximo, se quiser visitar alguém ou ir para alguma praia distante, vá de buggy! Sim, o buggy é o meio de transporte oficial do verão. Pra mim é o veículo oficial. Mas, muitos acham que não. Aproveite o vento na cara, a falta de frescura de sujar de areia ou molhar os bancos: o buggy foi feito para isso. Só ele te recebe de braços abertos (quase literalmente). Mas lembre-se de um boné ou da capota de verão, pois insolação é algo incômodo que pode te fazer passar a noite tomando água e indo ao banheiro.

As Doenças

Coisa triste, mas é fato que sempre tem doente numa temporada. As famosas: diarréia, garganta e ouvidos inflamados, gripe, insolação, desidratação, bicho de pé, picadas de abelhas e outros insetinhos, queimaduras do sol, de águas-vivas, etc.. A lista é grande. A maioria pode ser evitada, mas se chega, incomoda muito. Todo mundo tem que se sacrificar um pouco por causa daquele que está lá jogado sem poder aproveitar.

Os Animais

Você tem animalzinho de estimação? Leve junto! Ele vai te incomodar muito, vai incomodar os vizinhos, os outros habitantes da casa, mas leve! Ele vai ficar desesperado com os foguetes, vai ganir madrugadas inteiras, vai fugir, vai tudo. Mas leve!

Com um porém gigantesco: NUNCA leve-o para a areia da praia. Além de ser proibido porque simplesmente transmite doenças (ouça bem você aí que acha que porque o seu animalzinho dorme com você, na sua cama, e toma banho dia sim, dia não, ele é limpinho) e faz sujeira na areia, que conseqüentemente vai pro mar e entra em contato direto com as pessoas. Você não deixa que ele faça coco na sua mesa, não é mesmo?

Acho incrível, mas ainda hoje isso precisa ser dito e repetido. Ontem mesmo fui à praia, sentei na areia e veio um casal com um bebê e um cachorro correndo solto pela areia. Ele fez coco a alguns metros de mim e o casal não fez nada! Os donos acham NATURAL levar um animal desses para a beira do mar. Reclamei com um salva-vidas que passou por ali (o cachorro avançou nele), e ele disse que não podia fazer nada! Se é proibido, como ninguém faz nada? Reclamei, saí reclamando, levantei e fui embora. O casal não tomou nenhuma atitude, é claro. E isso não é aqui ou lá, durante o ano presenciei várias vezes nas praias mais badaladas (inclusive Jurerê) donos passeando com seus cães na areia, indiferentes às reclamações.

Animais já há o suficiente na praia. Aproveite para ter seu pé espetado por um siri, fique admirando os peixinhos lutando contra a corrente, tire fotos de seres estranhos que aparecem por todos os lados, cate vieiras e caramujos. Não precisa levar o seu de casa! Creia-me!

(este era pra ser um post, mas devido ao tamanho dele, e porque hoje voltei da praia inspiradíssima e choveu – o que fez minha internet móvel oscilar – vou fazê-lo em partes. Aliás, podem esperar por fotos!)

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