Ficcionando para explicar a realidade

Em janeiro.

– Oi, amiga!

– Ooooiiii!!! Guria, que coisa te encontrar aqui!

– Ai, nem tanto, né! Com esse calorão lá fora, só um arzinho condicionado de shops pra gente se salvar, né?

– Ah, isso é!

– Mas, me conta, o que tu tem feito? Como tu tá?

(com toda aquela ânsia de amigas de longa data que se encontram por acaso, sem premeditações que normalmente não funcionam)

– Ah, nada de mais! Meu desocupada, sabe. Fiquei meio pra baixo desde o final do ano passado. Tu soube, né? O Carlos terminou comigo, guria…

– Tá, calma aí. Eu soube, vi no teu Orkut, mas nem quis perguntar, sabe. Sem querer dizer nada, amiga, mas não foi a primeira vez que ele terminou contigo, né?

– Não, né… Ele é daquele tipo, sabe, que pisa, joga fora, se arrepende. Ui, um idiota. Mas, sei lá, depois de tanto tempo. Eu fiquei pra baixo. Não tinha vontade de nada… fiquei em casa, larguei tudo. A mãe que ficou comigo, ainda mais nessa época de natal, essas coisas.

– E ele apareceu com outra, ainda, né? Eu sempre…

– Outra? Como assim?

– Ahn? Desculpa… não sei.

– Onde você viu isso? (com lágrimas)

– A Marisa que contou. Lá em Garopaba… e eu acho que tu conhece. Quer saber? Ele termina só pra aproveitar. E, depois, tu, burra, volta.

– É, eu sei… Mas tô superando isso. Não volto mais, não!

– É? Ah, a Carla me contou que tu ia no analista.

– Então! (alegria brilhando) Eu vou sim. Já faz um tempinho, sabe. Tô conseguindo superar várias coisas. No dia que o Carlos foi embora eu liguei pra ela e a gente conversou, por telefone mesmo, porque ela estava sem horário na agenda. Ai, consegui diminuir a ansiedade, a tristeza, tudo!

– Ai, que bom, amiga!

– Pois é, mas daí no começo de janeiro, sabe, semana passada. Não, retrasada, acho. Ele me telefonou. Eu não ouvi a ligação porque estava no banho. Minha mãe disse pra eu trocar o número. Ela não agüenta mais ele, nunca gostou dele e não quer mais que eu sofra. Daí no dia seguinte liguei pra analista, ai, guria, ela está de férias. Marquei com a colega dela, que atende no mesmo consultório.

– E aí? Ela é boa também?

– Ah, sei lá, é, sabe. Não tive recaída, conversei numa boa, me ajudou bastante. Mas…

– Não é a mesma coisa, né?

– Não, né… De jeito nenhum. Sei lá, fica faltando alguma coisa. Porque lá a gente se abre, conta tudo. A minha é como uma amiga mesmo, já me conhece, sabe como eu sou, como eu faço as coisas. Com essa é meio que, sei lá, tem uma coisa que fica meio no ar, sabe?

– Sei, sei… ah, mas pensa positivo, daqui a pouco ela volta!

(toca o telefone da abandonada pelo Carlos)

– Só um minutinho, é a mãe. Ela tá muito preocupada comigo!

 

Não é a mesma coisa, sabe?

Pois é, tudo isso porque estou com saudade da minha máquina de lavar roupa.

 

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