Seu Danga, obrigada.

Por mais cicatrizes e experiência que uma pessoa tenha, há momentos na vida que a emoção pode, ainda, tomar conta. Pode parecer bobo? Sim, e deve ser.

Há eventos distantes da realidade de uma pessoa que “emocionam” muito mais pelo mídia bombástica do que pelo sentimento em si. Há pessoas que tem razão o suficiente para não se deixar “emocionar” facilmente, e talvez se sintam atingidas só dentro da sua realidade próxima, sem, contudo, perder a legitimidade da solidariedade.

Para quem viaja, conhecer o “outro” é particularmente especial. Há personagens interessantíssimos (sempre lembro do agregado de “Dom Casmurro” quando uso superlativos) em todos os lugares. De nada vale conhecer lugares, cidades, campo, rotas e afins sem conhecer as pessoas do lugar. Elas valem muito mais do que um restaurante “típico”, em muitos casos.

Eu, no interior (interiôrrrrr, como diriam os “nativos”), encontrei novamente o seu Danga (João, oficialmente). Ex-motorista de caminhão por esse Brasil afora, ex-morador da Lagoa da Conceição há uns 45 anos, nascido na serra catarinense, com uma idade imprecisa entre os setenta e oitenta anos, naquela belíssima idade que nada mais muda e na qual eles já sabem de tudo, como diria Cazuza. Já praticamente surdo do ouvido esquerdo, pelo que minhas aulas sherlockianas puderam compreender.

Conversa vai, conversa vem… sobre o tempo, assunto quando se quer falar com o outro e não se sabe sobre o quê. Muita chuva por aqui, seu Danga? Não, não. Pois é, por lá está feia a coisa, interditaram a 376, virou um caos. E na Dona Francisca o povo não sabe respeitar. É, eu vi, já tem mais de oito mortes. Eu ia muito pra lá, pra São Bento do Sul. Ah, sim, mas é pista simples na Serra, o pessoal está acostumado com 101 duplicada, se matam mesmo, seu Danga.

E a surpresa da continuação do diálogo, após breve suspiro vem: é, mas feio mesmo está lá no Japão, né. Tem duzentos e cinqüenta mil brasileiros que querem vir pra cá e o presidente já falou que não tem como trazer, deu no jornal ontem.

Eu, viajando e viajando, já sem muita paciência pra jornais, amparada pelo twitter no celular onde conseguia sinal, do alto da minha indiferença sobre o que acontecia lá do outro lado do mundo; pois aqui pelo meu mundo já havia consternação o suficiente com o que lidar, inclusive com a 376 interrompida – completamente – pela primeira vez em mais de cinqüenta anos. É mesmo, seu Danga? Mas que coisa, deveriam dar um jeito, pois lá está faltando comida, água, luz, o país vai demorar pra se reconstruir, melhor eles viram pra cá e gerar menos problema para o governo de lá.

Comentário assim, politicamente correto, comentário simples, banal.

Mas seu Danga me surpreendeu: Eu tenho um neto que está lá. (é, eu achei que não tinha entendido direito) Ontem ele telefonou pra minha filha, disse que não sabe como vai ficar.

Um neto?

É, ele é casado com a minha neta, mas adotei como um neto. Moço muito bom. Ela faleceu, sabe (aquele breve intervalo que damos ao falar de alguém muito próximo que não está mais neste mundo e que diz tudo), naquele acidente, faz uns dois anos e pouco. Daí ele foi pra lá faz dois anos. Ele está bem onde foi atingido pela onda e pelo terremoto.

Não há politicamente correto a se dizer numa hora dessas.

Ele falava todo dia com o filho dele aqui, pela internet. Mas agora não consegue, ele conseguiu um celular pra falar com ele ontem, mas não sabia se ia conseguir por muito tempo porque estão no apagão, sabe, não tem energia por muito tempo.

O que fazer? Alguma pergunta para demonstrar interesse? Quantos anos tem o filho dele?

Seis anos. (sorriso – sim, sorriso de orgulho) Minha filha que foi lá em casa ontem e contou pra minha mulher. Lá ele só anda com máscara, estão com muito medo por causa lá do negócio, sabe? O negócio que vazou e está contaminando. Mas disseram que nem adianta porque não pega só pelo ar, pega pela pele também.

Aí, nesse ponto, nem pergunta adiantava. Sim, sim, muito perigoso mesmo. (a conversa seria interrompida)

Mas eu nem sei se ele conseguiu falar com a embaixada, alguma coisa. Era só colocarem dois aviões fazendo o trajeto e já conseguia trazer bastante gente, né?

Eu era intimada. Sim, claro, se não conseguirem trazer todo mundo, é uma coisa. Mas pelo menos estariam fazendo alguma coisa, do que só dizer que não dá. (era para falar mal deste governo, eu tinha algo a dizer)

Claro, claro.

Despedidas.

Seu Danga, ainda trabalhando. Agora não mais como caminhoneiro.

E não havia nada mais tenebroso do que o meu último comentário, se não der pra salvar todo mundo, mas pelo menos alguns. O dilema de toda uma humanidade, não dá para salvar todos. Quase nunca dá.

Seu Danga, a emoção em pessoa. Nada me liga a ele. Aquele mundo, lá do outro lado do mundo, agora fazia parte do meu mundo. Nada mais constrangedor e sem palavras. Aliás, ando sem palavras ultimamente.

Algumas horas depois, já na estrada, me peguei pensando na história do seu Danga. Admiro pessoas idosas como ele. Tive avós muito, muito, especiais. Sempre os trago na lembrança. O que mais me perseguiu foi o pensamento de trabalhar aos oitenta anos. Vi meus avós trabalharem até depois de aposentados. Vi ficarem um tanto sem rumo sem o trabalho de todo dia. Vejo a idade avançar sobre as pessoas e deixarem a carcaça com marcas irreversíveis do tempo – mas a cabeça, esta funcionando melhor do que a cinqüenta anos atrás. A cabeça alia a experiência à sabedoria do tempo e em raros casos deixa-se debilitar por patologias. O corpo padece, mas a mente continua sã.

Tudo isso irrompeu dentro de mim com o grito de que não quero parar nunca. Quando eu tiver oitenta anos quero estar trabalhando, vivendo, fazendo. Seja na condição que for, não vou parar. Não temo, hoje, ficar sozinha e enterrar todos a minha volta, acabar lá um dia bem velhinha. Aprendi com destreza a suportar as dores deste mundo, muitas delas, principalmente a perda.

Não vejo mais o “envelhecer” com aquele negativismo e pavor que eu via há quinze anos e solucionava com um suicídio prematuro planejado. O terror, naquela época, era me ver com quarenta anos, começando a decair, a sentir o peso do tempo. Antes disso era preciso tomar uma atitude.

Hoje eu quero encarar o tempo, traga ele o que trouxer.

E, sim, aos curiosos, o fim de tarde é meu momento especial. Principalmente o fim de tarde de um domingo de um fim de semana especial.

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