Fernando Pessoa e o meu Desassossego

Ontem, ao ir até a minha biblioteca para escolher algo para ler, fiquei pensando que talvez nunca tivesse escrito no blog o motivo de ele ter como título uma frase do Fernando Pessoa, do Livro do Desassossego.

Pensei, então, em escrever um post sobre isso. Poderia ser hoje mesmo, caso houvesse tempo – o dia já prometia ser escandaloso.

Eis então que, depois de ser acordada pela batucada da infindável reforma do vizinho, por sonhos ruins e um telefonema (falei que o dia seria escandaloso), faço a prévia do Twitter e vejo a hashtag #fernandopessoa nos TTs porque, ao que parece, hoje seria o aniversário dele! Vejam bem, eu sempre digo que não planejo nada pois aprendi com a minha vida que isso é impossível. Eu não planejo, mas prevejo!

Ao que parece, meus pensamentos vieram no momento certo. E voltamos às alusões que fazem o blog parecer o obituário. Pois que a morte convive comigo há muitos e muitos anos. Eu não saberia mais viver sem ela.

Por que Fernando Pessoa? Por que “O coração, se pudesse pensar, pararia.”?

Fernando eu já conhecia de poesias. Poesias que os professores de ensino médio levavam para nos causar estranheza. Eis que não me causavam estranheza, às vezes um certo reconforto, mas, enfim, eu não era fã de poesia. Eis que um apaixonado declama insistentemente aquela sobre as cartas de amor serem ridículas – talvez na esperança de receber uma carta ridícula, pois na época eu me perdia escrevendo e ele sabia. Mas me perdia escrevendo para ninguém. Ou para mim, talvez.

Dessas eu guardava aquela do jogo de xadrez. Eis que as românticas (e por isso mais populares?) faziam sucesso, não comigo. Faziam sucesso, comigo, as desassossegadas, talvez. Isso foi quando mesmo?

Ensino Médio? Então eu tinha uns dezesseis, dezessete anos. A maioria dos meus leitores não conhece os detalhes da minha vida. Mas posso dizer para vocês que poucos anos foram tão bons quanto esses dois. Aos dezesseis anos eu me recuperei, definitivamente, de muitos danos do passado. Eu soube, digamos, levantar a cabeça e abrir a janela novamente. Período de muita satisfação para mim. Isso só se deu depois de anos e anos de terapia auto-aplicada. É, isso mesmo. Nunca fui a psicólogos (nos quais não acredito) e coisas do gênero. Li alguns livros do meu pai da época do curso de Psicologia dele, o que adiantou muita coisa e me economizou dinheiro.

É, nessa época eu lia muito. Lia tudo, de tudo, muito.

Sei que aqueles heterônimos do Fernando Pessoa me confundiam e me desgostavam. Acho que me dou tão bem com meu nome que não aceito pessoas que não usam seus nomes. Só respeito o codinome do Nelson Rodrigues, Susana Flag, para romances pitorescos! Ah, esse me divertiu muito!

Um dia, caminhando pelas prateleiras da biblioteca pública municipal de Joinville que ficava na mesma rua do meu colégio (e onde eu ia quase todos os dias), encontro um livro volumoso da autoria do Fernando Pessoa. Então, pensei eu, ele não escreve apenas poesias! (não, eu não era fã de poesias)

Claro que aquele foi o escolhido. Não era poesia. E o título ganhou meu coração “O Livro do Desassossego”. Nele descobri a palavra que descrevia meus pensamentos e minha alma: desassossego. Como o estalo de uma lâmpada!

Enfim, leitora voraz de ficção e sem paixão por poesia, adentrei o livro do desassossego. Mas aquilo não era ficção. Não tinha “historinha”. Não tinha nada. Ou tinha tudo? E o ajudante de guarda-livros para mim não escrevia nenhum romance como diziam os críticos, escrevia o que… bem, escrevia o que lhe dizia a alma. A alma desassossegada. Seria isso? Nunca fui fã, também, de críticas literárias (elas nunca me dizem nada, e quando dizem demais, erram), nem de nada semelhante. Nunca me desatinei a teorizar sobre isso. Um dos motivos, aliás, de não ter escolhido o curso de Letras (muitos achavam que porque eu lia muito eu seguiria esta “carreira” – mas fazer Letras é dois pés para a licenciatura, e eu nunca pensei em dar ou vender aulas – porém, não poderia profissionalizar algo que era apenas prazer).

O que era aquilo, então? Era tudo, ou nada. Ó, vã Filosofia! Será que muita coisa começou a ganhar nome ali? Eis que já existiam, mas sem nome.

Era como toda boa e bela paixão, sem nome, sem forma.

Ele não tinha uma “historinha”, não tinha começo meio e fim. Era um amigo. Um companheiro. Como nenhuma pessoa poderia ser.

Mas a minha carteirinha da biblioteca não sabia disso!

O ano chegando ao fim, o futuro tão incerto quanto o meu passado. E eu não estava mais com o meu amigo para consultar nas horas fechadas.

Minhas paixões que agora não eram mais tão belas e boas porque estavam criando formas e recebendo nomes me desassossegavam ainda mais. Descobertas não podem ser interrompidas, senão viram traumas!

Sempre foi difícil comprar livros. Naquela época de vacas magras, muito raramente algum bem barato nos sebos. Livro, nesse nosso país, é ainda muito caro. Muito mesmo. Mas uma biblioteca sempre me fez mais feliz que qualquer sebo ou livraria. Porque despossuo essa doença de possuir (vejam bem, estamos falando em livros). Naquela época isso tomava conta de mim. A posse material nunca me interessou. Graças à minha alma, muito disso ainda encontra-se presente. E encontrei muitas pessoas que só vêem valor em algo quando a possui, ou, enfim, quando depois de possuir consegue perdê-la. Eu sou despossuída.

Livros são caros no Brasil. É preciso saber viver com isso.

Mas, como viver sem meu desassossego?

Eis que no meio daquelas vacas magrinhas eu ousei pedir um presente de formatura do ensino médio para o meu pai. Sim, o tal “Livro”. Não foi o único presente que pedi para o meu pai, mas é, de longe, o mais importante. Lembro da maioria deles, pois o segredo é pedir presentes para o meu pai e não esperar que ele dê algo.

Lembro até hoje que o valor era quarenta e sete reais. Quase nada, não é? Mas eu sempre achei muito. Sou totalmente sem noção de números e valores. Eu quebrava a cabeça, na época, de como conseguir valor tão alto.

Acho que quando o “livro” chegou no meu quarto eu fiz uma festinha particular, quase um culto, ele em cima da escrivaninha, eu em pé, olhando feliz. E foi assim que a vida ficou mais vã e filosófica, com mais nomes e formas, contudo sempre com mais desassossego. Agora? Ele está aqui ao meu lado, cheio de papéis pequenos e velhos (pelo manuseio) marcando várias páginas que são lidas e relidas ao longo dos tempos.

E foi ele o padrinho do blog, “O coração, se pudesse pensar, pararia.”. Porque há coisas que não tomaram forma nem encontraram seus nomes, por isso continuam a existir e a bater, como o coração.

Mesmo o blog que já passou por turbulências, vidas e mortes, recebe com maior ou menor intensidade (pois que depende das paixões) o desassossego meu de todo sempre.

E quer dizer, então, que o Fernando é geminiano?! Ah, os geminianos da minha vida! Amo todos vocês. Ou quase todos? Dos geminianos que eu lembro, amo todos.

Me arrisco citando-o:

65.

“Ah, mas como eu desejaria lançar ao menos numa alma alguma coisa de veneno, de desassossego e de inquietação. Isso consolar-me-ia um pouco da nulidade de acção em que vivo. Perverter seria o fim da minha vida. Mas vibra alguma alma com as minhas palavras? Ouve-as alguém que não só eu?”

Lê alguém que não só eu?

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4 comentários em “Fernando Pessoa e o meu Desassossego

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  1. “Mas vibra alguma alma com as minhas palavras? Ouve-as alguém que não só eu?”
    Eu! Eu escutei e senti estas palavras realmente muito bem elaboradas e vividas…
    Nota: Os heterônimos, representam um desdobrar do Eu, em Pessoa, as fantasias da Alma ou simplesmente uma representação literária (de vulto) desdobrada em várias personagens?

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  2. Com certeza. teu blog me desassossega! 🙂 Gosto de viajar em teus pensamentos, que por vezes se encontram ou até betem de frente com os meus… Fora isso, e fora ser também uma fã de Pessoa, de quem aprendi a gostar com minha madrinha, adorei os pequenos e misteriosos olhos “amarelos” espiando ao fundo! 😉
    Beijo beijo

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    1. Estamos aqui pra isso! O teu blog me deixa sempre balançada, puros sentimentos! Nada como saber o que e como os outros pensam, né?
      Ah, lembrei de ti quando escolhi os olhos amarelos! 😀

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