O corpo dela tem seios miúdos, tão pequenos. Os olhos não olham nada nem ninguém. O cabelo exala o cheiro da dor cada vez que a dúvida repete o gesto de passar a mão, dedos separados, do topo da cabeça até às pontas do lado esquerdo, fazendo uma curva enquanto desce. Mãos muito grandes e feias. Ombros muito largos para a idade. Será uma mulher dura, cavada pelo tempo. Fica ali exposta, na vitrine a céu aberto. Cinco por vinte minutos? A mão segue o gesto. Os olhos para a direita. A cabeça treme. “Sim”, “Depois”. A bicicleta se distancia. As pernas são finas mas já moldadas, bem moldadas. Os seios pedem uma mordida, até eu sinto isso. Roupa? Trapos. Nada? Ninguém repara. A pele toda parece suja, empoeirada. Não sei nem se tem dentes. Vem vindo. Ela deliberadamente afasta as pernas – ela sabe que Deus soube acertar a mão quando fez suas pernas. Ali, em pé. Dessa vez sem mão nos cabelos. Com um salto brusco ela entra de frente, pernas afastadas, e bate a porta. O brilho do sedan preto encerado me cega, a seriedade do motorista me perturba. A poeira levanta e eu penso que talvez a cor da pele dela esteja escondida debaixo de tanta poeira.
Queria que fosse assim.
Queria que minha filha fosse bailarina. Meu filho um justo, independente de qualquer profissão, que lutasse pelas causas justas. Um traria beleza, o outro justiça. O mundo viveria bem, assim. Queria que o amiguinho dele salvasse vidas e seus irmãos construíssem casas para quem não tem. Queria também que minha filha ajudasse os pobres, doasse cobertores todos os julhos e fizesse trabalho voluntário na creche todos os janeiros. Queria que os colegas de classe do meu filho estudassem todas as máquinas do mundo e soubessem o valor de um ser humano. Queria que as filhas da vizinha, amigas de minha filha, cuidassem dos cães abandonados no canil da prefeitura. Queria que como netos fossem obedientes e trouxessem toda a alegria do mundo em sorrisos e gestos. Queria que a filha da minha amiga, já maior que eles, nunca quisesse ganhar mais do que precisasse para viver. E que o menino filho da cabeleireira jogasse o lixo na lixeira e nunca deixasse o chuveiro aberto por mais de quinze minutos. Queria que aquela menina que acabou de passar no colo da mãe fosse a melhor professora do mundo, com direito a prêmio e tudo. Queria que o meu sobrinho não soubesse o que é preconceito – de cor, sexo, idade, peso. Queria que a filha da minha amiga ficasse mais tempo no sol do que dentro do próprio quarto. Queria que aquelas crianças do orfanato saissem de lá todas no mesmo dia, fazendo e sendo felizes com seus novos pais. Queria que todos eles abolissem os cargos políticos. Queria que meu afilhado fosse um filósofo. Queria que a filha da minha prima levantasse uma bandeira branca e andasse à pé por todos os continentes. Queria que todos eles acreditassem em Deus – não esse ou aquele Deus, somente em Deus. Queria que eles aprendessem o que é certo e assim nunca fizessem o errado. Queria que eles saíssem de casa e não soubessem o que é trancar as portas e janelas e não precisassem olhar para os dois lados da rua antes de atravessar. Queria que meu filho pudesse morrer sem ter se desiludido com sua justiça e que minha filha morresse sem saber o que é chorar. Queria que seus filhos tivessem nascido simplesmente por eles e não porque você é egoísta. Queria que meu filho sentasse ao meu lado com um jornal antigo e me perguntasse o que são “drogas”. Queria que um deles conhecesse bem o passado para nunca permitir que eles cometessem os mesmos erros que nós cometemos. Queria que o calor se fizesse quente e presente no verão, o frio no inverno, e que mortes em desastres ambientais fosse uma estatística que eles aprenderiam na escola. Queria que meus livros ainda estivessem intactos, porém amarelados, quando a curiosidade os levasse até minha velha prateleira e ali descobrissem a leitura. Queria que eles crescessem sem ter seus mundos através de telas – LCD, LED, tablet, smartphone, computador. Queria poder ouvir o vento quando os levasse para passear nas ruas e que eles tivessem seus pulmões e corações sempre limpos. Queria, quem sabe, poder querer que o mundo não fosse esse e que, assim, essas crianças teriam chance de existir.
Livrar-se de um homem ou prendê-lo. Dá quase no mesmo.
Às vezes, é difícil livrar-se de um homem. Às vezes, as mulheres, querendo prendê-los de vez, dizem coisas que os afugentam. Bem, se prestarmos atenção, estas duas situações podem ser definidas nas mesmas frases.
“Acho que estou grávida” (sabe-se lá porque a mente feminina cogita que isso prende homem, mas o efeito é sabidamente o contrário – sim, às vezes eles ficam, mas, minha querida, você será infeliz)
“Não estou falando/pensando em casamento. Pelo menos não agora.” (uh, viu, ele já sumiu! rápido e desesperado – com toda razão!)
“Você precisa aprender a combinar as roupas, se vestir melhor. Deixa que eu te ensino! Vamos ao shopping!” (putz! dessa até eu sairia correndo, me jogava pela janela, o que fosse!)
Tem algumas que nem precisam ser ditas, simplesmente pare na vitrine de uma loja de jóias, bem em frente às alianças, olhe um pouco e entre para ver uma que você achou linda.
“Eu gosto tanto da tua mãe! Você não acha, querido, que eu e ela nos damos bem?” (assustador, né? eu acho! mesmo que você esteja dizendo isso só pra forçar a simpatia e nem goste muito da velha, não vai cair bem. Eles querem uma “mãe”: que lave as cuecas, limpe a casa e cozinhe. Mas a mãe deles não é pra estar cheirosa na cama depois de deixar tudo limpo e arrumado! Essa é certeira combinada com a próxima – se ele aguentou voce gostar da tua mãe…)
“Você é tão parecido com o teu pai!” (Pense comigo: você tem semelhança com a mãe dele, ele é parecido com o pai… e? Ele vê você e ele como o casal que ele acompanhou a vida inteira: os pais dele. Cuidado que ele pode até cometer uma loucura!)
“Lindinho, comprei um multiprocessador!” (aí, morreu – rapazes, vocês não têm idéia de quanta coisa está implicita na compra de um multiprocessador por uma mulher que está namorando!)
Mas, é sempre bom saber negociar bem quando surge um “meus pais querem te conhecer” ou “acho que é hora de você conhecer meus pais”, se ela valer a pena – se não, bye bye. Mulheres, no geral, têm fixação doentia por isso. E, sabe, como é, você vai ser sempre o cara que está pegando a filhinha deles.
Estações
Outono é confusão
Inverno é silêncio
Primavera é cor
Verão é sangue
O audiovisual catarinense agoniza…
Eis que me encontro em dificuldade em começar este post. Será que ele não está “pronto” para as letras? Quem sabe. Pensei nele a partir de algo que já não lembro o que foi, mas foi durante o banho de ontem – banhos sempre me rendem muitos pensamentos – que, aliás, foi um dia excepcional, e eu estava espiritualmente em algum lugar distinto.
Tem o local e o universal, não é? Mas podemos dizer que há algum “local” que também é universal, não? E todo universal é local, então?
O audiovisual e o cinema em Santa Catarina são peças de estudo e crítica frequentes aqui pelo blog. Sei que nem todos os leitores têm interesse nisso. Mas, enfim, se escrevo sobre o meu mundo, escreverei sobre as produções daqui. E, na verdade, não pensei em nenhuma em específico.
Lembro que enquanto eu estava na graduação teve um artigo polêmico de algum colunista que virou duelo com alguns (ou algum) professor sobre o provincianismo da produção no Estado. Alguns devem lembrar quem foi, o que disse, outros podem fazer uma pesquisa aí no Google da vida e vai descobrir do que se trata.
Seria provinciana a produção audiovisual/cinematográfica catarinense? Vejamos…
Algo que me incomoda profundamente é o uso dos editais regionais como meros financiadores de “novas” produtoras “independentes”. Pois é, tem toda a história de prestação de contas, notas fiscais, serviços prestados e etc. que podem ser mais bem “controladas” e viabilizadas com a simples “criação” de uma “produtora”. Eu tenho uma produtora, no papel. Nunca ganhei um centavo de edital nenhum. Bem, primeira constatação: há “produtoras” demais no Estado (vide Fpolis, aliás, vide a Lagoa da Conceição). Se há tantas produtoras “independentes”, onde estão as produções independentes? Deveriam ser em grande quantidade.
Mas, vejam bem, falamos aqui em quantidade, apenas. O que, aliás, não me interessa de forma alguma em nenhuma hipótese. Desprezo essa “numeração” das coisas.
Não é novidade alguma, nem causa espanto mais, nem é segredo que essas produtoras são criadas com intuitos pouco desinteressados. Há tantos casos nos quais ela apenas serve de fachada para que o dinheiro recebido pelo edital (que não é pouco dinheiro, como todos sabem) seja usado na compra de câmeras, lentes, equipamentos em geral e o dinheiro que “sobra” para a produção é bem aquém daquele proposto pelo edital. Reparem nas produções feitas em uma locação apenas, produções que não usam sequer um travelling, que não requerem, de forma geral, gastos extraordinários em produção. Ah, sim, mas temos os atores, os diretores, os assistentes… Procurem fazer pesquisas e perguntas por aí e verão vários exemplos de equipes mínimas, onde o acúmulo de funções é regra.
Bem, chegamos ao ponto onde os recursos não são usados devidamente para a produção (apesar de que nada pode ser provado porque as “produtoras” encobrem todos os pontos suspeitos) e o proponente consegue erguer-se com as verbas que deveriam ser destinadas à qualidade das produções, não apenas à quantidade (não são tantos assim os “vencedores”).
E quando um professor universitário federal ganha um edital desses? E quando a velha guarda do audiovisual catarinense ganha? Sabemos que eles não precisam “erguer-se”, nem abrir a sua “produtora” (posto que eles já têm uma produtora que foi iniciada dessa forma descrita anteriormente)? Sim, a velha guarda fez isso (e muito) e, penso eu, ensinou a nova geração (da qual faço parte) a fazer o mesmo.
Bem, chegamos aqui ao ponto de que é assim que se “faz” audiovisual e cinema em Santa Catarina. A forma é a mesma a muitos e muitos anos, antes mesmo de eu sequer pensar em entrar nessa área.
Alguns dessa velha guarda foram (são?) professores nos cursos de graduação em Cinema/Cinema e Vídeo/Cinema e Produção Audiovisual. Digamos que tiveram “bons” alunos, não é?
E eis que vejo muitos problemas nisso. Mas a situação piora quando somamos a isso o “local e o universal”.
Por que o dinheiro público deve ser usado nessas produções? Bem, eu sei, o problema é histórico no Brasil, não vou dicutir.
Porém, quero discutir o universal e o local em poucas coisas que vi e vejo. Vejam comigo.
Um vídeo sobre inscrições rupestres (tão mais místico do que didático)? Um vídeo de ficção que trate do preconceito?
Todos são válidos? Sim, claro.
Participei, nos últimos anos, de dois trabalhos de amigos muito próximos. Acredito que eu trabalharia nas produções independente do tema ou da abordagem, pois são meus amigos. Independente disso, quero apresentar as qualidades dos dois (pretendo escrever uma crítica para cada um aqui no blog).
Semeadura, de Cleuza Soares, é um documentário sobre cotas para negros, índigenas, estudantes de escolas públicas. Ele é universal, as cotas no Brasil são uma extensão de projetos e discussões dos EUA e outros países. Porém, ele é local, ele aborda personagens aqui da Universidade Federal de Santa Catarina. A discussão, enfim, se embrenha no local e no universal. Como diria Vinícius ou Tom Jobim, na nossa fala sempre esta o nosso quintal. Cleuza conseguiu captar falas emocionantes dos personagens. As falas de dois professores da UFSC, um da Odontologia e uma da Filosofia, e do índigena me deixaram até hoje marcas impressionantes. Tive o prazer de assistir a uma exibição do Semeadura no FAM do ano passado e ficar lá atrás registrando a reação das pessoas. A professora Sônia Felipe deixa todos os espectadores desconfortáveis com a dureza e realidade das suas palavras – o que, aliás, ela conseguia fazer com os alunos em sala de aula. Cleuza viu o universal aqui no nosso quintal e produziu um material de riqueza excepcional com as falas de pessoas com as quais provavelmente muitos de nós cruzam todos os dias.
O outro trabalho foi o Pé na Tábua, do Adenor Gouvêa, que aliás nos deve colocar o material no Youtube da vida. Adenor delira. Delira muito. Acompanhei cada um desses delírios tão de perto que delirei junto. Enfim, delírios à parte, quando li o roteiro e a inteção da direção de arte fiquei muito incomodada. Aquilo ali era universal, mas não era local. As influências, a fotografia, tudo caminhava para a apropiação de um outro “local”, de um “estrangeirismo”, digamos. Eu devo ter falado algo assim pra ele na época. Como a produção não contava com verba nenhuma (como o da Cleuza), Adenor soube aceitar as realidades do “local”. Ali ele soube trazer o estranho para o quintal dele. Mudou locação, mudou quase tudo na arte, mudaram atores, surgiram personagens. O surgimento de um personagem (que na edição final ficou de fora, o que é a grande birra minha com o trabalho) foi inspirado nos políticos brasileiros, no “crime do colarinho branco”, na realidade tão brasileira e que tornou o “universal” tão local. Este personagem foi criado a partir da criatividade do ator escolhido e na época estavamos em eleições. Tudo isso foi criando um roteiro que não mais era um Tarantino numa estrada interminável americana no meio do deserto. E eu digo: faz diferença.
Nenhum deles, como eu disse, ganhou edital nem nada. Não foram, também, “patrocinados” pelas produtoras que “empregam” estagiários e prometem equipamentos maravilhosos para os seus súditos fazerem seus trabalhos na universidade em troca de promessas que seus sonhos e projetos pós-graduação serão realizados. Vejam bem, promessas. Promesas, apenas. Promessas pequenas.
Agora temos o exemplo de um bem-sucedido trabalho de conclusão de graduação do Alex Siqueira. Talvez o mais “rodado” dos trabalhos saídos da UNISUL, já foi exibido em vários países em festivais e ganhou os prêmios de júri e público do FAM deste ano. Não posso comentar aqui porque ainda não assisti nem trabalhei nele, mas pelo “tema” acredito que é mais um exemplo do universal e local.
É disso que precisamos.
Não precisamos de “historinhas simples”.
Diríamos eu e meu amigo Éder, na época da graduação: nem de historinhas de casal! Muito menos de comercial de margarina!
O dinheiro público não pode sustentar isso nem a “criação” (vejam bem, você abre uma produtora, não “cria”) de algo que chamam de produtora que de independente não tem nada! Também sou contra dinheiro público para o local apenas. “sei lá o que da tainha” e “mais contos bruxólicos da Ilha” serão sempre e sempre candidatos desleais nessas disputas. O local com o universal é um casamento difícil, por vezes doloroso, tortuoso e essencial – além de exigir uma criatividade fora do ordinário.
O ordinário, por sinal, é a zona de conforto da velha guarda. O “local” sempre vai garantir isso. Pena é a nova geração ter tido tão “bons” professores.
Felizmente nem todos fomos “bons” alunos.
E o audiovisual/cinema catarinense agoniza em noites frias de um ínsipido FAM e em dias de calor sufocante de uma antropóloga perdida entre bruxas da Costa da Lagoa.