Poeira

O corpo dela tem seios miúdos, tão pequenos. Os olhos não olham nada nem ninguém. O cabelo exala o cheiro da dor cada vez que a dúvida repete o gesto de passar a mão, dedos separados, do topo da cabeça até às pontas do lado esquerdo, fazendo uma curva enquanto desce. Mãos muito grandes e feias. Ombros muito largos para a idade. Será uma mulher dura, cavada pelo tempo. Fica ali exposta, na vitrine a céu aberto. Cinco por vinte minutos? A mão segue o gesto. Os olhos para a direita. A cabeça treme. “Sim”, “Depois”. A bicicleta se distancia. As pernas são finas mas já moldadas, bem moldadas. Os seios pedem uma mordida, até eu sinto isso. Roupa? Trapos. Nada? Ninguém repara. A pele toda parece suja, empoeirada. Não sei nem se tem dentes. Vem vindo. Ela deliberadamente afasta as pernas – ela sabe que Deus soube acertar a mão quando fez suas pernas. Ali, em pé. Dessa vez sem mão nos cabelos. Com um salto brusco ela entra de frente, pernas afastadas, e bate a porta. O brilho do sedan preto encerado me cega, a seriedade do motorista me perturba. A poeira levanta e eu penso que talvez a cor da pele dela esteja escondida debaixo de tanta poeira.

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