Festival de Dança de Joinville, algumas considerações – e emoções, e críticas…

Cheguei faz pouco tempo da última noite competitiva do 31º Festival de Dança de Joinville. Neste ano pude ir a quase todas as noites, só não fui na noite de gala e nas duas noites de dança Urbana. Já frequentei muito o festival, os palcos abertos e a competição oficial, desde os tempos do Ivan Rodrigues. Acompanhei a construção do Centreventos, o tempo das arquibancadas sem cadeiras. Não fui todos os anos, é verdade. Lá se vão dez anos que nem moro exclusivamente em Joinville. Mas sempre que o tempo, a agenda e o dinheiro permitiram, estive presente.

Sim, eu gosto de dança. Não, espetáculos de dança não são (ou foram) corriqueiros na nossa região. Fiz ballet por um bom tempo e aprendi a amar. Não sou crítica, me faltam qualificativos para tal. No Festival, eu sou público.

Passei a semana inteira tecendo comentários sobre o Festival lá no Twitter e refletindo sobre algumas coisas que pude observar. Acompanhei um pouco a imprensa durante a semana e assisti agora a pouco ao Globo Repórter.

A primeira impressão: os ingressos. Fui comprar pela internet no segundo dia de vendas normais. Achei a taxa do site cara e resolvemos ir comprar na bilheteria do Centreventos. Sem filas, tranquilo. Porém, a noite dos campeões estava esgotada. Para os dias comuns de competição várias áreas estavam “bloqueadas”, disse a moça que não eram liberadas para a venda, ou seriam cortesia, ou liberadas depois. Isso já me desgostou. Segundo dia de vendas e tive que pegar lugares ruins porque quase não havia ingressos. Chegando em casa tentei pelo site e consegui os dois “últimos” lugares para a noite dos campeões, a mesma que a atendente havia dito que estava esgotada. Em alguns anos foi exigido o RG do comprador do ingresso, para evitar, sabiamente, cambistas e afins. Senti falta disso. Primeiro, os “bloqueios” para patrocinadores, autoridades ou seja lá o que for, depois a chance de qualquer um poder comprar sem identificação: duas formas de ter uma disponibilidade bem ruim para o público em geral.

Na noite de abertura o Ely, presidente do Instituto Festival de Dança fez seu discurso. Quando ele agradeceu aos patrocinadores e ao investimento público eu mentalmente acrescentei: e ao público. O senhor Ely esqueceu de agradecer, no seu discurso, a quem realmente faz o Festival. Se as cadeiras do Centreventos estiverem vazias, sabemos que nem grandes patrocinadores como Itaú e Boticário nem a Lei de Incentivo à Cultura ou sequer a Prefeitura vão apoiar e investir no Festival. Achei que foi uma falha muito grande do presidente do Instituto. Porém, era o segundo momento no qual eu, como público, sentia que talvez eu não esteja sendo levada muito em conta.

O Balé do Uruguai fez apresentações lindas, perfeitas. A platéia respondeu com aplausos mornos. Fui das poucas, inclusive, a aplaudir de pé. Parecia que aquelas pessoas estavam ali por obrigação.

Tenho essa implicância com platéia. Sabe cidade que tem o evento social da semana? Pois é. As pessoas vão porque é o evento social, não porque se interessam pelo espetáculo/show. Eu detesto quando um desinteressado desses senta ao meu lado. Já fui em shows nos quais tinha gente por perto que tinha “ido por ir”. Nada mais irritante. A pessoa não aplaude, faz comentários cretinos, não respeita.

Enfim, acho que a platéia não esteve à altura do espetáculo do Balé Nacional do Uruguai.

No sábado começou uma verdadeira provação em relação à platéia. Os problemas se repetiram a semana inteira, um pouco menos ontem e hoje. Me explico.

Primeiro: não dá pra ficar de entra e sai durante o espetáculo. Cadê a organização para impedir isso? Num espetáculo é falta de respeito com quem está lá assistindo ficar gente entrando e saindo o tempo todo. Tem horário e intervalo para isso.

Segundo: torcida. Sim, o festival é uma competição. Mas – MAS – é uma competição de espetáculos de dança, não é o joguinho de handball do colégio. No sábado teve apresentações de dança Folclórica de escolas de Joinville. Ao meu lado sentou um grupo de adolescentes que conversaram – isso mesmo, con-ver-sa-ram – a noite toda. Eram torcedores do grupo do Positivo (ou Posiville como chamam). Durante as apresentações de Contemporâneo eles não calaram a boca nenhum instante, mesmo quando eu e pessoas em volta reclamaram. Quando foi anunciado o grupo do Posiville eles começaram um berreiro absurdo com gritos de “Vai, Carol! Vai, fulano! Lindaaa!” enquanto o tablet gravava tudo e no meio ainda conversavam. Gente, educação nessas horas faz falta. Não dá. Faltou educação para saber como se comportar num espetáculo de dança E respeito pelos outros, pelas pessoas que estão ali para assistir a um espetáculo de dança. Detalhe: não ganha o grupo que tiver mais gritos da platéia. Além disso, logo depois das apresentações dos grupos para os quais eles torciam, levantaram e ficaram em pé, pra lá e pra cá durante as apresentações que seguiam. Aí perdi a paciência e pelo menos nessa hora se tocaram que estavam atrapalhando. No domingo o caso se repetiu, torcida imensa. Teve gente que só entrou na hora do grupo que interessava. Infelizmente a torcida do joguinho de handball se repetiu em outras apresentações (felizmente não ao meu lado) de grupos de outros lugares. Gritos de “linda! fulana!” ainda foram ouvidos.

Terceiro: erros da produção do festival. Inúmeros erros de iluminação, de som, etc.. Tanto que um grupo de sábado, danças folclóricas de Cuiaba (se não estou enganada), teve o direito de se apresentar novamente no domingo porque foi prejudicado pelos erros da produçao durante a apresentação. No sábado o número de erros foi enorme, mas eles persistiram durante a semana. Pequenos para o tamanho do festival? Talvez. Mas justamente pelo tamanho e pela idade não podemos esperar deslizes desse tipo. Outro detalhe: as câmeras que passam ao vivo no telão não contam nem com ajuste de temperatura de cor.

Quarto: a ausência do nível Avançado fez muita, muita falta. Tanto no Clássico, mas mais ainda no Jazz, Sapateado e Contemporâneo. O Avançado era aquele momento que surpreendia, que tirava o fôlego, que inebriava. Não li a respeito dos motivos de terem tirado o Avançado este ano, mas já li pessoas que concordaram comigo que fez falta.

Não vi o Centreventos cheio todos os dias. Em alguns dias o barulho da chuva atrapalhou e denunciou que não temos o lugar perfeito para apresentações deste tipo. O principal problema do Ivan Rodrigues, na época, era o tamanho. Ele já não suportava mais o público do Festival que crescia a cada ano. Eu passei sufocos – literalmente, afinal era criança e sempre fui baixinha – no Ivan. Já vi o Centreventos lotado para noites do Festival, como ano passado – aliás, a edição dos trinta anos foi memorável. Até ano passado a arquibancada não tinha cadeiras, o que era muito bom porque tinha aquilo de chegar cedo para garantir lugar e eu desconfio que cabia mais gente. No primeiro ano do Festival no Centreventos, fui com minha avó (assídua frequentadora e entusiasta do Festival, com quem aprendemos a ir) e ganhamos almofadinhas para sentar na laje fria da arquibancada. Depois disso fui até no show do Mister M lá. As cadeiras da arquibancada são muito desconfortáveis e várias já estão quebradas – na quarta-feira sentei em uma que machucou minha perna. Nos dias de chuva havia goteiras pela platéia – no dia de chuva mais forte uma parte da arquibancada do lado esquerdo estava isolada com fita.

No domingo fui acompanhada de mais pessoas, uma com dificuldades de locomoção. Chegamos com o carro ali pela entrada da Beira-rio (as vagas para deficientes devidamente identificados, como era o caso, ficam ali bem na entrada, afinal é próximo da rampa para acesso, como deve ser) e fomos informados de que não havia acesso por ali, que deveríamos dar a volta pela Orestes Guimarães. Deixamos a pessoa com dificuldades ali, acompanhada, e formos dar a volta. Na entrada mostramos a placa de identificação de deficiente e, para nossa surpresa, mandaram estacionar lá no meio, bem distante das vagas especiais. Fiquei indignada. Para que servem as vagas especiais do estacionamento? Que, aliás, estavam vazias! E, sim, havia acesso do estacionamento lá de trás até as vagas. Os elevadores do Centreventos são pequenos e estão em estado deplorável. Na abertura não fomos de carro, mas acompanhei uma pessoa com dificuldade de locomoção pelo elevador e já tinha achado bem ruim, pois os botões nem funcionavam direito e havia fila. A situação foi constrangedora quando, no domingo, pessoas que iam para o camarote acharam que o elevador era exclusividade deles. Pois eu acho que os elevadores deveriam ser exclusividade de pessoas com necessidades especiais, idosos, mães com crianças no colo, pessoas com dificuldades de locomoção. Elevador não é luxo. Acessibilidade, pelo jeito, é. Sim, há rampas de acesso, não só escadas, mas são longas rampas que para quem tem problemas não são mais fáceis que escadas. As arquibancadas, por exemplo, não são feitas para idosos e pessoas com qualquer dificuldade de locomoção. Felizmente eu tive a idéia de deixar na porta e ir estacionar o carro, porque ela não teria como percorrer a distância do carro até a platéia.

Aí delineava-se algo que me preocupou e me fez lembrar a fala da abertura. Que valor tem a platéia? Que respeito se dá a quem vai prestigiar o “maior” festival de dança do mundo? (já disse que joinvilense tem esse complexo com o adjetivo “maior” – é tudo “maior” por aqui, mas…) Eu como platéia me senti inúmeras vezes desrespeitada. Dificuldade para conseguir ingresso (os valores até que têm se mantido, mas já paguei só cinco reais para sentar na arquibancada bem feliz da vida!), dificuldade de acesso, entra e sai durante espetáculo, falta de educação do público, erros da produção… Lembro novamente: se não houver platéia, não haverá espetáculo.

A melhor “redondeza” de platéia são os bailarinos educados. Tive o prazer de ter alguns desses vizinhos. Prestam atenção, respeitam as apresentações e as pessoas em volta, comentam só nos intervalos, se emocionam junto com quem se apresenta – isso sim é lindo! não a torcida de handball – vibram, fazem suas apostas, sabem fazer silêncio, sofrem junto com os escorregões e com os bailarinos que transcendem seus próprios limites. Aliás, tive o prazer de ouvir conversas entre eles e de conversar com alguns. Muitos mostravam um descontentamento com vários aspectos do Festival. Parece que a concorrência entre os nomes de companhias de dança já “estabelecidas” no festival não tem agradado muito. O que me lembra a insistência do jornal local A Notícia em colocar em questão o aspecto “competitivo” do festival. Esses dias foi uma matéria que cogitava como seria o festival se não houvesse competição, se os grupos continuariam se inscrevendo, se haveria público. Hoje foi a entrevista com uma professora de dança (ou algo do tipo, nem lembro o nome dela) que critica o aspecto anti-pedagógico da competição, diz que não é “festival”, mas concurso de dança e que não são bailarinos, mas alunos. Tentei ponderar muitas coisas que ela disse, mas tive que discordar veementemente com o “não são bailarinos”. Mesmo sendo alunos, coisa que acredito que não só na dança, mas em todas as áreas, somos sempre alunos, eles são bailarinos sim. Se é anti-pedagógico, não sei. Contudo, desconfio que o público joinvilense já não é frequentador do festival. Até para ser público é preciso aprender. Quase não conheço joinvilense que vai ao festival. Aliás, joinvilense adora se orgulhar, inclusive de que aqui tem o “maior” festival do mundo, mas a maioria nunca pisou numa noite competitiva. Eu, quando criança, nem entendia que era competição, eu ia assistir porque gostava.

Preciso abrir um parênteses neste texto que já se alonga demais. Mas é necessário. Me dói muito ver, como já comentei aqui e em outros espaços, a Casa da Cultura fechada. Desde que Joinville virou o único lugar fora da Rússia a ter uma escola do Bolshoi que a Escola Municipal de Ballet, que ficava na Casa da Cultura, tem sido ignorada. Foi ali que fiz meus anos de ballet. Era ali que as artes efervesciam na cidade. Pagava vinte reais a mensalidade e tinha espaços excelentes, professores de altíssimo nível e muitos bailarinos empenhados. Não me conformo em ver tudo isso desprezado. E não me conformarei. Vem pessoas do país todo para concorrer no Bolshoi, número candidato/vaga é absurdo. Nem todos podem frequentar o Bolshoi, e aí?

Tenho a forte impressão de que o joinvilense não é o assíduo frequentador do festival. Desconfio que a maior parte da platéia é composta por bailarinos e pela “torcida” dos grupos que se apresentam. Pena. O Festival não deveria ser somente para os bailarinos. Deveria ser para a cidade, para a região, para o Estado. Mas, uma platéia, seja ela do que for – dança, teatro, música, cinema – precisa ser formada. Não, não estou falando que só os “entendidos” sabem apreciar. Digo que cultura é aquilo que aprendemos a valorizar, que temos o contato para conhecer, gostar, amar. Nem eu nem a maioria das minhas colegas de ballet da Casa da Cultura daquela época éramos bailarinas profissionais em potencial. Mas ali se formava um público. Minha avó nunca fez dança mas tinha orgulho do evento da cidade e sabia apreciar por apoiar incondicionalmente o festival desde a sua criação. Público se forma. Se forma sendo valorizado, dando acesso. Quando surgiram os palcos pela cidade sentíamos essa diferença. As pessoas tiveram mais contato, paravam para olhar. Lembro que era a única na escola a ir ao festival, até o ano que foram incluídas as danças de rua (hoje chamadas “danças urbanas”). Na época até meu irmão foi ao festival. Amigas que nunca tinham ido também foram – e hoje não vão mais. A dança de rua atraiu um público que tem aquele preconceito burro com ballet clássico que é “parado”, “chato”. Dificilmente havia noite só de ballet, então eu optava por ballet e danças folclóricas que também sempre gostei. Este ano achei danças folclóricas decepcionantes – e não foi só porque já cansei de ver as coreografias de danças do norte e nordeste das escolas daqui de Joinville, algumas até repetidas entre duos e conjunto de um ano para outro. Mas um dia ou outro e nas noites de encerramento assisti a jazz, contemporâneo, sapateado e hoje sou apreciadora de todos. Só danças urbanas que ainda não caiu nas minhas graças – na noite dos campeõs ano passado gostei bastante de algumas apresentações. Público assim se forma, se contagia, se conquista.

Entre a dor de corno e a lascívia das apresentações de jazz, à criatividade e técnica em extremos do sapateado, aos conceitos do contemporâneo, à emoção e beleza exótica das folclóricas e à exatidão, luxo, beleza, encanto e graciosidade do clássico, eu fui me fazendo apreciadora e amante. E assim pode ser com qualquer um.

Torço pelo Festival. Torço pelos bailarinos que têm nele um grande espaço. Acredito que as discussões estão colocadas, principalmente sobre o futuro que se quer para ele. Seja competitivo ou não, com grandes patrocinadores ou não, mas com público. Com a valorização de quem vai lá assistir a um espetáculo. Como componente de formação de público de cultura e arte, dos quais nosso Estado é tão carente.

Sobre as apresentações, devo dizer que me arrepiei com as dores de corno do jazz, aplaudi entusiasmada a lascívia, sorri para a beleza que alguns grupos apresentaram. Guardarei com muito carinho a apresentação do grupo de Itapema, que disputou danças folclóricas. Queria ver mais apresentações assim daqui do Estado e menos “maracatus”, “marias bonitas” e “caboclinhos”. Vi bailarinos de clássico tão pequeninos e frágeis que me deixaram de queixo caído – falho por não dar nomes – pela graça, alegria e beleza ao executarem coreografias com engenhosidade e destreza. Fiquei com um gostinho de quero mais sem o Avançado. Fui ao delírio junto com a platéia com algumas “Esmeraldas”, com o Passantes Anônimos do grupo de sapateado de hoje, com a criatividade.

Ano passado abusaram do uso de cenários. Este ano pouquíssimos usaram cenários, mas tivemos um crescimento no uso de projeções. Tudo enriquece. Tudo nos deslumbra. Uma noite só de sapateado teve altos e baixos. Os grupos tiveram maior destaque, assim como jazz. Os Grand Pas-de-Deux me fizeram chorar e senti pena dos jurados. Na primeira noite eu daria o primeiro lugar para todos. Os solos masculinos ainda são os mais admirados porque demonstram força e coordenação fora do comum.

Faço questão de poder continuar sendo público do Festival. Na medida do possível dou um jeito na agenda, no tempo e no bolso para não perder momentos de emoção, admiração, arrepios e sorrisos permeados com muitos aplausos. Sim, porque eu nem sei bater palmas, mas bato. E faço cara feia pra quem vai até lá e não se dá o trabalho de bater palmas, mesmo que sem coordenação como eu. No Globo Repórter, uma bailarina mostrou seu pé machucado pela sapatilha de ponta e, com lágrimas, disse que os aplausos compensam qualquer coisa, que é tudo para eles. Fiquei com lágrimas nos olhos enquanto assistia. Minhas implicâncias não são à toa. Eles merecem.

Ps: publiquei o texto de madrugada e depois lembrei de comentários que faltaram. Não posso deixar de fazer um: os banheiros. Sujos, sujos, sujos o tempo todo. É o tipo de evento que precisa de uma pessoa o tempo todo fazendo a limpeza. Esse problema é decorrência de outro, gravíssimo: tem só DOIS banheiros no Centreventos no andar das platéias. DOIS. As filas no intervalo são enormes, impraticáveis. Há um no térreo para os bailarinos. Fila também. Banheiros pequenos e insuficientes para toda a platéia.

Ps2: As câmeras. Acabei de voltar da noite dos campeões e lembrei que ficou faltando isso. A organização diz que não é permitido tirar fotos e filmar, mas muita gente faz (eu inclusive). Só um aviso: não dá pra tirar foto de espetáculo com flash. Não dá. Ou seja, não tire. Não. E não.

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