Vênus

Toda vez que olho o céu, e o faço todas as noites, procuro a estrela mais brilhante e penso que lá estão os que eu amo e que não estão mais ao alcance de um abraço. Pois quando eu era criança… nem tão criança porque já havia passado por aquelas coisas que nem adultos dão conta de viver, eu assisti àquele desenho, no qual o pai leão rei à beira da morte dizia ao filho que quando ele ficasse triste era para encontrar a estrela mais brilhante no céu e que lá estaria ele olhando pelo filho. Nem sei se foi nessa cena, sei que foi neste desenho. Enfim, desde então eu olho para o céu… e fico um tantinho mais triste quando as nuvens não me deixam encontrar a estrela mais brilhante.

Eis que encontrei uma bem bem bem brilhante, na porta de casa. Da varanda ou da rua, é só escurecer um pouco o céu e lá está ela, muito brilhante, sempre no mesmo lugar, por vezes solitária. A curiosidade me tomava: então agora eu tinha a minha estrela brilhante anti-tristeza com todos aqueles que eu amo do mundo de lá assim pertinho de mim?

Não, um dia descobri que não era uma estrela (bem achei que era estranha). Se eu fiquei triste? Não. Fiquei ainda mais feliz. Dizem que é Vênus. Sim, Vênus, aquele, o do amor.

E eu que já sou sempre fui (não se enganem, não é erro de digitação, é pra ser assim e contemplar um belo tempo verbal) apaixonada pelo amor, agora estou namorando-o. Me faz companhia, sempre olha por mim quando chego muito tarde em casa, passamos horas namorando na varanda, ao som de alguma canção, embalados em dúvidas e contemplações, admirando as companheiras de céu. Eu que ficava aqui a observar os aviões que chegam e partem, ouvindo e vendo um ir e vir charmoso, agora tenho companhia para tal. Às vezes brincamos de adivinhar qual o destino, ou a origem, do avião. Às vezes criamos histórias para seus passageiros. Às vezes prevemos tragédias. Vênus, aquele, do amor, não tira os olhos (ou o brilho) de mim. Às vezes… bem de vez em quando… ele não aparece, como hoje que umas nuvens de sujeira tomaram conta do lugar dele. Não sei se ele foi atender algum outro apaixonado, ou se foi intervir em alguma desavença, ou se anda enamorado de outra varanda. Eu não tenho ciúme. Senti falta dele quando vinha caminhando pela rua… senti falta dele quando fui fechar a varanda e senti falta da nossa longa e sorridente despedida – aquela de todo dia. Sei que amanhã, ou depois, ou depois, ele estará de volta. Por isso não me preocupo. O amor é assim. E é difícil chover por mais de três dias seguidos na Ilha.

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