Velar a saudade

Hábitos e costumes são coisas que não sobrevivem bem ao tempo. No meu apreço pelos seriados ingleses cometo overdoses de vez em quando. Foi o que ocorreu esses dias e fiquei a pensar em como educaria meus filhos – pensamento que volta e meia ocupa meu tempo, sem nenhuma exigência. Admiro a educação à moda antiga, o pedir licença ao sentar-se ao lado de alguém – fiz isso, esses dias, como de costume e me senti um ET -, o cavalheiro levantar-se quando a dama se retira, um respeito aos mais velhos não pela idade, mas pelo reconhecimento. O revoltar-se só com bons e verdadeiros motivos. Não falar muito alto, não fazer cenas em público. Coisas que não sobreviveram, enfim. Há toda uma classe no agir dos personagens dos seriados ingleses que me encanta, independente da classe social. O simples fato de não ter intimidade e chamar por miss ou mister já demarca as relações pessoais. Sobre relações pessoais num assunto que me toca bastante eu escreverei em breve.

Comecei pelo final, de fato. Pois continuarei de trás para frente, então. Não na narrativa, mas na ordem que meus pensamentos surgiram. Falava sobre como educaria meus filhos e cada vez tenho mais certo de que os privaria das maravilhas dos nossos tempos. Não teriam acesso à internet, nem a smartphones ou tablets. Redes sociais: nem pensar. A simples idéia me apavora. Não comeriam, jamais, no McDonald´s, Bob´s, Burguer King ou qualquer primo-irmão. Ah, sim, não beberiam refrigerante. Talvez até pudessem usar o computador para ler, escrever ou até jogar. Seriam, sim, analfabetos tecnológicos. Prefiro-os analfabetos tecnológicos a analfabetos funcionais ou emocionais. Não me imaginem tão tola ao ponto de não perceber a dificuldade que seria criá-los em tempos pós-selfies de Instagram.

Contudo, eu fui criada num mundo um tanto a parte e sei que não é de todo ruim nem impossível. Lá se vão alguns anos, eu criança acreditava que o mundo para além do portão de casa era igualzinho o meu mundo ali dentro. Pai, mãe, irmãos, avós, casa, comida, bichos, choradeiras e alegrias. E foi essa mesma criança que aos olhos muito atentos e preocupados de todos sumia de casa e ia passear pelas redondezas – queria, talvez, descobrir o mundo, sem ao menos duvidar que ele não era igual ao seu.

Conto isso porque foi quando criança que comecei a compreender que os hábitos e costumes não são os mesmos em tempos e lugares e pessoas diferentes. Com os colegas filhos de mães solteiras ou separadas descobri que as famílias não eram todas como a minha. Nas casas de colegas descobri que as regras e os ambientes também não eram os mesmos. Era, sempre, tudo muito estranho. Deve ter sido aí que meu estranhamento, em relação aos lugares e pessoas, começou – e, ó vida, nunca me abandonou. Era difícil entender a vida. As pessoas. Mas eu fui tentando – eu acho.

Já frequentei casas sem portas ou sem maçanetas, casas onde não se usam toalhas sobre as mesas, já conheci pessoas que não jogam o próprio lixo na lixeira, pessoas que não tomam banho todo dia, casas onde a TV fica ligada o dia inteiro, pessoas que passam a ferro até cuecas e lençóis, casas onde dormem todos no mesmo quarto, pessoas que só bebem coca-cola, casas onde os banheiros são imundos, pessoas que proíbem você de entrar de sapato na casa delas, casas onde não há TV, pessoas que nunca estudaram nenhum outro idioma. De um choque inicial bem marcante, cheguei a um modo zen de não julgar e me interessar deveras por tudo que observo.

Hábitos e costumes não mudam de uma região para outra, de um Estado para outro ou de um país a outro. O que pode causar transtornos nos relacionamentos e alegrias para espíritos curiosos. Tinha pra mim, por um tempo, que eu devia, então, ter os melhores hábitos e costumes – que fossem racionais e corretos. Tentei. De vez em quando implanto algo novo sempre prezando alguma racionalidade. Vivo tentando. Se não é algo exato, deve ser sempre perseguido.

Mas eis que um hábito meu nunca encontrei em ninguém. As visitas ao cemitério. Não conheço ninguém que frequente cemitérios – bem, frequento um em especial e mais dois ocasionalmente, porém, tenho um gosto especial em conhecer os cemitérios das cidades para onde viajo. Frequento cemitérios desde bem pequenina. Sempre gostei deles, nunca os temi por nada. Uma vez lá ouvi que medo de cemitério era bobagem, pois os mortos não podem nos fazer mal – os vivos sim (e farão, esteja certo).

Enfim, no começo de tudo estava minha constatação de que hoje, quando as pessoas morrem, os vivos livram-se dela muito rapidamente. Sim, foi observando notícias de mortes seguidas de enterros em poucas horas que percebi isso. Os vivos não velam mais seus mortos. Há pressa em jogar aquele corpo, que começa a apodrecer, ao fogo ou à terra. Antes os velórios eram dignos das saudades latentes no porvir. Hoje eles se aproximam desta ausência das pessoas nos cemitérios, das pessoas que fogem dos seus mortos – tenham eles, em vida, feito-lhes bem ou mal.

Continuo observando as notícias de fulano que morreu ontem à noite e hoje cedo já foi enterrado. Não, manter o falecido por horas aqui não diminuirá a dor. Mas, me parece, no mínimo, mais digno. Também não considero que o mausoléu seja a presença eterna aqui na Terra. São os nossos monumentos ao amor e à saudade. E, bem, não tenho problema algum com nenhum dos dois.

Foi esses dias que me surpreendi, imersa nessas considerações, com uma família que desceu do carro perto de onde eu estava, num cemitério fazendo minha visita habitual. Pai, mãe e três filhos – dois adolescentes e uma criança. Confesso que achei a cena muito estranha. Fiquei observando e eles foram até um túmulo que nem é muito novo na vizinhança. O pai falou, falou, a mãe ficou mexendo no celular o tempo todo. O menino pequeno olhava, olhava para os lados, cruzava as mãozinhas. O rapaz mais velho ficou o tempo todo parado. A moça parecia emocionada. Conversaram um pouco, o pai acendeu uma vela, ficou uns instantes em silêncio e saiu seguido pela mãe que não largava o celular. O pequeno acompanhou-os. O rapaz ficou uns minutos com os olhos fechados e a moça sentou-se na beirada e começou a chorar com vontade. Ficaram ali algum tempo até que ela levantou-se e viu que estava sozinha, o irmão tinha saído em silêncio. Ela enxugou os olhos na manga do moletom e foi embora.

Meu respeito duelou com minha mania de curiosidade e observação, por isso não sei ao certo qual foi a conversa, qual era o elo entre o falecido/a e os presentes (mas, tenham certeza que formulei minhas teorias). Eu poderia ver mais cenas assim. Já fui protagonista e testemunha delas algumas inúmeras vezes. Mas, pelo que aprendi ao longo dos anos, as pessoas têm hábitos diferentes – até para chorar pelos seus mortos, pelas suas dores e saudades.

Enfim, sem saber como terminar, posto que vim parar no começo, me assusta que estejam livrando-se dos mortos assim com tanta pressa. Se um dia eu vier a morrer, daqui muito muito tempo, por favor, encerrem meus belos dias aqui na Terra com um longo velório oferecendo as coisas que eu mais aprecio em vida – e, claro, não esqueçam do sol. Jamais me enterrem num dia de chuva.

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