No fio do bigode

Falamos disso esses dias. Ou talvez tenhamos falado sempre. Seria uma espécie de contrato, ou, quem sabe, um valor metafísico. Valores, aqueles que devemos ter desde sempre, desde o berço para os que nasceram num, desde o ventre, então, de onde todos viemos. O que não se entende sobre certas coisas é que não devemos fazer pelos outros: mas por um compromisso conosco.

Meu avó dizia que era “no fio do bigode”. Ele era do tempo que os homens (e as mulheres…) se fiavam no fio do bigode. Vê, não precisava nem assinatura em cartório. Ah, sim, claro, sempre houve quem faltasse com a palavra. Mas era vergonhoso, era exceção, os dedos da imensa maioria apontavam: naquele não se podia confiar. Com os outros o fio do bigode funcionava. Meu avô, que tinha bigode, por sinal, era assim. E por algum tempo ouvi minha mãe falar no fio do bigode, que ela nunca teve, é claro, mas é dessas em quem se pode confiar de olhos fechados.

Vejam vocês, era hereditário, naquela época. A ter palavra, meus queridos, a gente aprendia em casa. Como tantas outras coisas. E nem me venham com isso de que “naquela época” as mães (muito mais) e os pais tinham tempo para ensinar aos filhos, que a vida contemporânea exige isso e aquilo. Não, não. O pai aí sentado com o celular grudado nos olhos (nem que seja para ficar fotografando o filho para as redes sociais) tem muito mais tempo do que tinha meu avô – que nunca teve celular.

Talvez a exposição. Quem errava era exposto. Não essa fogueira inquisitória da internet. Os valores, enfim, valiam alguma coisa. Na empresa, no teu meio social, em casa: a falta da palavra era reprovada pelos seus. O mau caráter não se criava – nem se reproduzia. Talvez esse silêncio de hoje que acoberta os casos omissos e de falta de palavra e compromisso: o famoso rabo preso. Se eu não cumpro com a minha palavra, como vou apontar o outro? (tem gente aí muito cara de pau, é certo)

Não dá pra esquecer. Nem deixar passar. Não se pode mais confiar no fio do bigode (logo hoje que ele parece ter voltado à moda). Mas, como eu disse, é hereditário, então está aqui comigo. É uma questão de valores – sou antiquada, me apego a eles. É uma questão de respeito consigo. Não ter palavra é um dos maiores males do caráter – Deus me proteja de quem foge ao fio do bigode. Que humanidade é essa que só (e olhe lá) cumpre seus compromissos baixo assinaturas, multas e processos? Quando foi que ficamos tão incivilizados?

Não há de ser tão fora de propósito falar do fio do bigode. Eu quero crer. Porque quem falta com a palavra segue sua vida com a consciência tranquila (aposto que sim), enquanto quem se fiou neles acumula desgostos – e sequer os expõe. Não devia ser assim. Não mesmo.

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