Naufrágio

Os ratos começaram a pular para fora. Preferiram a água incerta do oceano a ficar ali num barco à deriva, flutuando graças às graças de um bom Deus. Alguns insanos de sol e sal tiravam loucamente água do casco avariado; não percebiam mais seus atos, apenas continuavam incessantemente com olhos vermelhos e ardidos que nada mais viam. Nessas horas há aqueles que a ação invade os pensamentos e mesmo que seus atos em nada resultem, eles não pensam mais. Apenas agem. Mas, pelo menos, diante da situação, fazem alguma coisa.

Sempre teremos os que ficarão encostados na amurada, de braços cruzados, empilhando críticas e defeitos nos que tiram água do barco, nos que pulam fora, no capitão que dá ordens sem ser obedecido, nos que querem se reunir para pensar em soluções – e morrem afogados nas suas eternas discussões. Esses talvez (só talvez) são maioria. Não encontram em si meios de resolver nada, talvez de fato nem queiram procurar ou encontrar. Apenas jogam palavras ao chão, que parecem aumentar o peso do barco e fazê-lo afundar ainda mais rápido.

Com menos palavras que eles, só os que se reúnem procurando soluções. Querem construir um barco novo, encontrar meios que os conectem com quem possa salvá-los, querem inverter a ordem do mundo e fazer barcos terem rodas. No entanto, ali estão, palavras ao oceano e quando for tarde demais sentirão suas roupas encharcadas, a água entrando pela boca, ouvidos, nariz e em meio ao desespero de que nada mais poderá ser feito, ainda estarão abraçados às suas idéias brilhantes – alguns, garanto, terão as melhores e salvadoras idéias justo naquele momento: como não pensei nisso antes?! E morrerão. Afogados, por certo. Nas suas próprias idéias e ideais.

O capitão, pouco se sabe dele. É fácil (e rápido, porém nem sempre indolor) mudarem o capitão, nessas horas. A tentação de ser o líder num momento de catástrofe salta aos olhos dos mais ambiciosos. Assim, o capitão pode ser destituído a qualquer momento. Se conseguir alguma proeza para salvar a vida de todos (ou ao menos tomar alguma atitude que minimize os danos) será lembrado heroicamente para todo o sempre – e aumentarão seus feitos, é claro. Porém, se seu lugar for tomado por outro (e outro e outro…) ou se ele juntar-se à desgraça de todos, será docemente esquecido (e, digamos, será até melhor pra ele). Nas perdas não há hierarquia, todos perdem igualmente.

Interessante perceber que nessas horas ninguém mais sequer sabe porque está no barco, ou de onde ele veio, porque foi construído. Cada um pensa na sua casa, na sua família, na sua próxima refeição. Por isso os ratos saltam fora – mesmo diante do tão incerto escuro oceano. Os ratos pouco se importam com este barco, suas razões e origens, querem apenas salvar-lhes a própria pele. O couro cinza e feio de um rato, é a isso que eles querem salvar. Não hesitam nem mesmo em largar filhos, pais, mães aflitas, lares, o chinelo velho ou o travesseiro de estimação. Saltam com algo de arrogância, como se o obscuro oceano (sabemos que lhe será ingrato e cruel, lá serão apenas ratos, encontrarão outros barcos e rastejarão nos seus porões) fosse um paraíso. Saltam e fazem questão de a todos mostrar como são grandiosos e espertos (como os que ficam de braços cruzados, muito criticam) e melhores que nós. Nós, que ficamos ali, pregando uma tábua, amparando um órfão, tirando água do convés, buscando idéias e também trabalhando para que o barco onde escolhemos ficar não vá por água abaixo.

Salvar-se jamais será nobre. Salvar-se deixando todos para trás é a legítima covardia. São estes que apontam os culpados por todo o caos que se instalou no barco, sem perceber que eles o afundam mais que qualquer buraco no casco. São eles que aqui deveriam ficar e trabalhar suas boas idéias para que o barco chegue são e salvo ao porto – com todos dentro. Mas eles não se importam. Querem ser sempre ratos.

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