Rainha do tempo

Eu sou a rainha do tempo. Faço chover nos verões escaldantes para ter arco-íris na porta de casa. Renuncio às noites para pensar no futuro. Farei Verão onde meu olhar pousar, quando já for a Estação prévia do frio, com ondas a rebentar no molhe e a fazer tremer os faróis. Do cansaço mergulharei em águas cristalinas de maré baixa na companhia de peixes de rabo alaranjado. Meus olhos transformarão o tempo em cadeia das minhas paixões – e nem a realidade me subjugará.

O ponteiro cadencia no ritmo do balanço da rede – quando parada, o tempo suspende. E vemos as nuvens arrepiarem-se ao vento sul que veio rasgando a pressa e morreu lentamente entre as pedras do costão. Faço príncipes aos meus dias favoritos, às crianças que brincam ao sol, selvagens tão naturais como pequeninos ursos a caçar seus salmões, quando forem gente o verniz terá escondido grosseiramente os anseios de fazer guerra de algas putrefatas.

Meus castelos são de areia. Erigidos pelas mãos minúsculas de quem descobre que a água amolece e o ar endurece à beira da mais bela praia onde enterrei meu coração. Diante deles, possuo o mundo. Intransponível mundo. Inclemente mundo. Eis, apenas, o mundo. Meus castelos não sobrevivem às marés cheias. Mas reerguem-se todos os dias de inocência e sorrisos – e olhinhos concentrados. Neles encerro sonhos que não ousaria sussurrar a ninguém, vontades que assustariam qualquer razão, idéias que cultivo regadas à água com açúcar.

Sigo atalhos para encontrá-lo, ao mar, mais rápido. Temos encontro marcado. Nos vemos todos os dias, nem que seja em pensamentos. Desejo-o como à vida – que, lembrando, sempre precisa ser bem vivida. Encarcero-me neste corpo sob roupas e falas que são tão pouco de mim, para ele, dispo-me. Nossos encontros são à flor da pele. Sou o tal peixe fora d’água. O ar nos sufoca. Mas meu olhar vê mar entre paredes sem janelas.

Sou a rainha do tempo. Fomos amigos a vida toda. Agora reino soberana sobre seus destemperos e agonias. Limito-o a relógios sem pilha. Meus olhos farão Verão quando os suspiros tornarem-se frequentes. De olhos fechados, o tempo que voe livre e volte a mim com um sorriso.

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