O nosso lugar

Li uma declaração do Haneke, diretor de cinema, endossada por Antonio Banderas e outros, sobre o risco de transformar o movimento de libertação das mulheres que sempre sofreram abuso no meio cinematográfico numa “caça às bruxas”. E, sabe, achei correto. Queremos mesmo caçar as bruxas.

Chegou a hora, não? Aí vejo mulheres dizendo que os homens estão com medo porque acham que nós vamos agir como eles. Não, claro que não iremos. Mas quero que vocês tenham medo. Acredito que o medo pode ser bastante pedagógico no caso.

Pensem vocês em homens com medo. Medo de fechar a porta do escritório quando forem conversar com uma funcionária. Medo de serem mal interpretados na mesa do bar ao fazer uma piada obscena. Os homens aprenderão a fechar as pernas – literalmente – ao andar de ônibus, com medo de serem acusados de abuso por apenas encostar o joelho numa moça.

Mas, a melhor parte: imaginem homens com medo, de madrugada, ao andar solitários, e sentirem-se obrigados a atravessar a rua para não cruzar com alguma mulher. Porque o medo de que ela se sinta assediada o fará correr para a outra calçada. Não seria o máximo? Homens taxistas e motoristas de Uber e companhia só aceitando passageiros homens, para evitar denúncias de assédio! Quero que chegue este dia.

Porque os homens jamais saberão o que é ser mulher nesta sociedade hipócrita e arbitrária. Jamais. Não digo que queremos igualdade nem “nosso espaço”. O que eu sei é que não queremos mais viver submetidas ao que vivemos até hoje – sim, até hoje. Ou vocês acham que cerimônia do Oscar, Lei Maria da Penha, e muito blábláblá em rede social mudou, de fato, a nossa realidade? Não. Não mudou. E esta é a merda.

Vivemos diariamente engolindo o machismo idiota de vocês. As grosserias. A estupidez porque vocês são melhores em tudo. Temos que conviver com vocês. Todos os dias. E isso é uma merda (não tinha como dizer isso de outro jeito). A maioria tem o rei na barriga, é machista sem nem perceber, quer mandar e desmandar, tem atitudes grosseiras e nos inferioriza por mero prazer. O exemplo clássico: os machões adoram “ensinar” e “ajudar” as mulheres no trânsito. Porque dirigir é coisa de homem, claro. Mas palpite para caminhoneiro peludo não dão. Coloquem-se nos seus lugares. Não incomodem, já é um começo. E tenham medo.

Tenham medo de nós não nos calarmos mais. De nós termos a bendita coragem de olhar para o colega de trabalho, numa boa, e dizer “cara, tu é muito machista”. É libertador perceber como os homens começam a sentir medo rechaçando novas idéias e nos acusando de “banalizar” o estupro, por exemplo. Nós, meus queridos, não banalizamos nada. Estupradores banalizaram o estupro. Nós conseguimos, a duras penas, desentalar um grito histórico que nos afogava – o mesmo que, calado, matou tantas de nós.

Eu quero mesmo é ver os homens viverem com medo. Com medo de andarem por aí desnudados na sua violência e desrespeito. Nus das suas supostas maravilhas e da sua inexistente superioridade. Lidem com isso. Aprendam que não são mais os reis da selva. Tenham medo pelas suas vidas diante de mulheres que são competitivas, que falam o que pensam (e pensam), que produzem e são independentes. O dia que o medo dominar os homens poderemos dormir um pouco tranquilas. Não queremos ser idiotas como vocês, nem dominar o mundo. O que não queremos mais é viver uma posição que não nos cabe. E queremos que vocês encontrem o lugar de vocês: fechem as pernas, fechem as bocas, baixem a cabeça, baixem a mão, baixem a voz.

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