Lições

Minha mãe me ensinou, dentre tantas e tantas coisas, uma das mais importantes (que eu nunca vi ninguém dizer que havia aprendido): a nunca desejar o mal, nunca regozijar-se com o mal do outro. Assim, quando criança já ouvia que não devia rir dos outros, nunca deveria dizer “bem feito!” quando algo de ruim acontecesse a alguém, nem desejar o mal, mesmo que em momentos de fúria, com um “quero que você se dane!”, “quero que você morra”. E eu sempre ouço comm muita atenção o que mamãe diz. Ela sabe das coisas da vida.

Foi assim que cresci. Nunca disse um “bem feito!” maldoso. Nunca desejei o mal de ninguém, além de brincadeiras bobas (meu humor, né). Ela também me ensinou a nunca odiar. O que, também, levo para a vida. O ódio é um troço muito violento, não dá pra gastar assim. Uma vez ou outra na vida já me odiei, foi rápido, foi necessário, passou. Mas, odiar outrem não sou capaz. Óbvio que não tenho sangue de barata e já passei muita raiva na vida.

Porém, essa bondade toda de minha mãe sempre contrastou com a maldade ao meu redor. Conheci pessoas muito ruins, de todo jeito, daquelas da gente duvidar que tenham coração (não tem, a gente sabe). Fui vítima da maldade incessante de algumas (não poucas) delas. Minha mãe foi mais do que eu. E sempre de coração leve, aberto, tranquilo. Não é à toa que dizem que somos muito parecidas. Eu via aquelas crianças que riam dos coleguinhas quando algo acontecia de ruim com eles e olhavam umas às outras, a gritar “bem feito!” e seus olhares eram malvados, muito malvados. Fui criada com muitas restrições, chamadas de atenção, questões éticas e religiosas, dentre outras. Aprendi muito com tudo isso.

Hoje reconheço muito mais e melhor o quanto minha educação faz diferença. Eu vejo adultos se regozijando com o mal que acontece aos outros. Eu vejo adultos querendo o mal das pessoas – sejam elas boas ou más. Gente querendo a morte de assassinos. Gente honesta que amaldiçoa e passa a perna em quem pode, quando pode. Gente que não sabe o que é o amor, que não é amada, que destila ódio e maldade e fofocas sem piedade. Elas não tiveram uma mãe como a minha. Ou, quem sabe, não ouviram suas mães.

Se é fácil? Nadinha. Hoje eu agarrei o volante com força (sem reparar) e roguei a Deus que me impedisse de desejar o mal a certas pessoas. Eu tomei conhecimento de algo tão vil, tão baixo, tão ignóbil e asqueroso que perdi o controle. Respirei fundo e me vi rezando em meio aos buracos da via e o trânsito tranquilo de um início de dezembro para que Deus me desse forças para não desejar mal algum àquelas pessoas. Talvez eu me justificasse dizendo que elas merecem todo mal do mundo. Sou ninguém para dar esta sentença. Às vezes a gente precisa rezar para evitar de rezar depois de arrependimento. Roguei praguejando, precisa de força para respirar fundo e deixar pra lá. Nas horas seguintes pensei em algo que seria muito semelhante à vingança – mas, mamãe também ensinou que vingança não leva a nada (com essas palavras mesmo). Mais uma lição dada e cumprida. Tem coisas que a gente pode tentar pelos meios cabíveis, legais. Outras é só a distância que resolve.

Foi difícil. Por isso é tão importante ter princípios. Nessas horas eles são nosso esteio. É só se agarrar a eles e deixar a tempestade passar. Princípios a gente aprende em casa, nos livros, na vida – ou com mamãe, né.

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