O vazio intolerável

Os espaços eram menores, as casas também, de tão pequenas já haviam sido empilhadas umas sobre as outras e formavam longas colunas em direção ao céu. As cabeças diminuíram, os corações seguiram o mesmo caminho. E a TV ficava muito perto dos olhos, dormiam todos estreitados entre paredes frias. As ruas largas apertavam terrenos contra si mesmos e num só, onde haviam laranjeiras, goiabeiras, bananeiras, pinheiros e floreiras agora apertavam-se três ou quatro casas, da largura de um carro. O barro, dele nem se lembravam, atolados em asfalto e piso e chuva que não tinha mais para onde ir – quando chovia. Até os computadores eram menores, mais leves e finos, ou haviam sido trocados por telas menores e sem teclados – haviam, até, desaprendido a escrever, pois os teclados virtuais sabiam fazê-lo sozinhos.

Tudo ia diminuindo num mundo cada vez, ainda, mais cheio de gente. Os pensamentos, nas cabeças que minguavam à falta de estímulos e engordamento, também murchavam – nuns, quase desapareciam – e, obscuros, não atinavam com o sentido (da vida, do existir, da felicidade, do ser: porque estas respostas precisam de tempo e espaço). Aquelas cabecinhas esvaziavam-se nas telas pagas para dizer o que eles achavam que queriam – pois sequer sabiam no que acreditavam. Muito se repetia nos templos, mas sabia-se a tempos que tanta certeza só faz nascer desespero. Era um novo mundo, cheio de letrinhas e imagens que preenchiam toda a tela, mas as quais ninguém lia. Ninguém atinava com tanta coisa que de nada lhe servia. Alguns lembravam das quedas dos altos galhos, outros nem as conheciam. E a cabeça, cada vez mais vazia.

O vazio era intolerável a todos. Alguns mal reagiam, o movimento mecânico os denunciava – e a voz que vinha de longe não nos atingia. Era mais uma alma perdida. Àqueles que pediam socorro, não davámos ouvidos. Era mais uma alma que podia ter sido salva. O vazio nos perseguia, nos atingia nos momentos de alegria diante de inúmeras fotos que ninguém via. O vazio nos fazia companhia, entrelaçava nossos dedos na hora do intervalo, ia para a cama junto conosco e nos ninava os olhos. O vazio nos perseguia nas parcas idéias que ainda tínhamos, contaminava nossos monólogos: afinal, o que postaríamos naquele dia? O vazio, por certo, nos adoecia ao nos afastar do que um dia haviam chamado de vida.

E quem nunca conhecera o que havia antes do vazio se dava por vencido. “Se a vida é isto, estamos perdidos.” o imediato e o dado lhes eram necessários. Não havia mais caminho, nem suas pedras e suas poesias. Não sabiam como constuir o que desejavam, quiçá nem sabiam o que eram os sonhos. Não sonhavam, por Deus! Nem Deus lhes preenchia o vazio. E foi assim que também seus corações esvaziaram… amores não os tinham. Paixões em instantes satisfaziam. Seguiam modas e modismos, mas coração sempre foi coração. E coração é só coração. Vazio, morre e mata. E aquilo mais me assustava: coraçõezinhos tão pequenininhos e lá dentro, pu, nadinha – um resto de vento que soprava gelado. Tão grande e rápido o mundo de cá, esmagava os corações que nem mais batiam. Fraquinhos e suspirantes sem jeito nada viviam nem aprendiam. O mundo este que nos parecia tanto progresso e sucesso não precisava de cabeças nem de corações – tudo nos esmagava e nem percebíamos. Os corações, então, só falavam pelos teclados que existiam nas telas – sem voz, sem choro, sem abraço.

Sem abraços, por Deus! Que as mãos estavam ocupadas a segurar seus controles – que sugavam suas cabeças e corações e esmagavam sua existência. O vazio era intolerável e tentávamos preenchê-lo com aquilo que nos diminuía muito a cada dia. Nos envenenávamos quando podíamos e o gosto amargo descia lancinante a dizer-nos “aprecia!”. Tudo diminuía. Tudo nos dava azia. E repetíamos. Às casas apertadas a solução era um bar da esquina, onde nos lançávamos à falsa alegria contando a todos que lá, enfim, a dor nos redimia. Mas, de nada valia se não contássêmos a todos. E o vazio, ah!, este crescia – sorridente e indiferente. O vazio, ah!, era intolerável pois não o abandonavámos. Os gritos de socorro calaram-se, os índices aumentaram. Fazíamos que nos preocupávamos. Se também erámos vítimas, como salvá-los? A nossa vez aguardávamos na fila. A fila, esmagada entre gavetas umas sobre as outras, pois também ali os morros haviam diminuído – ou os corpos queimávamos, assim ao vazio voltávamos.

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