Eu não gosto de dizer que algum filme ou série é “obrigatório” ou “essencial”, mas hoje preciso falar sobre a série mais essencial e obrigatória para este ano de eleição presidencial. E, não, não é sobre nenhum cavalo em inglês ou elegia documental a um mito que já morreu.
O documentário 1961, de Amir Labaki, é de uma intensidade e vai tão ao cerne do que nos atinge, enquanto nação nos últimos anos, que merece a devida atenção. Amo Labaki desde quando conheci, à distância porque ainda não tive o prazer de ir, o festival É tudo verdade, totalmente dedicado ao documentário. Amo documentários desde nem sei bem quando. Li várias das publicações que tiveram origem no festival, com análises dos filmes exibidos, escritas por grandes nomes. Foi parte da minha formação em documentário.
Apesar de não ter andado na senda do documentário, como diretora, hoje estou imersa, novamente, nele. E foi assim que me deparei com 1961.
O curioso é que 1961 assume algo que me é muito caro no cinema em geral: o que o autor ou autora está dizendo está ali, por trás do mais evidente que a história que está sendo contada. Você assiste aos quatro episódios e ao longo deles – com riqueza de detalhes, com muitas entrevistas profundas e de testemunhas muito próximas dos fatos e imagens de arquivo dos escombros da nossa república – se dá conta de que ele não está, em nenhum momento, falando do passado. 1961 é sobre hoje.
Gostar de História e História do Brasil faz você gostar de documentários políticos e político-históricos com certa naturalidade. Mesmo daqueles mais quadrados, mesmo dos formatados para TV – até mesmo para criticar e entender o direcionamento do olhar. Quando você já passou por se deparar, em sala de aula de Filosofia, com aluno adolescente contestar a História porque era fã de produtora audiovisual que produz conteúdo com viés revisionista e de extrema-direita (o mesmo aluno que pouco tempo depois se tornou assessor de vereador da extrema-direita e que ajudou a te perseguir politicamente), que ergue a mão para questionar os fatos da História do nosso país, o documentário passa a ser objeto de estudo mais profundo também.
1961 começa o seu argumento com a escolha do título: o ano de quando tudo começou; e esse “tudo” é o golpe militar de 1964, que durou 21 anos. O argumento é construído para que o espectador de hoje, 2026 (o documentário foi lançado em 2025), entenda que os golpistas não acertam de primeira, que um golpe não nasce do dia pra noite, que tomar a república é algo muito bem e demoradamente planejado. Por isso mesmo, há a legalidade legítima de condenar quem tentou o golpe. A única certeza que temos é que eles tentaram – e continuarão tentando.
A primeira coisa que me ocorreu, já no primeiro episódio, foi como é inexata a afirmação que temos ouvido ultimamente sobre termos “o pior congresso da História”. Não. Nosso Congresso e o Senado sempre foram desenhados, politicamente, para ser o que pior se pode ter no país. É onde as decisões são tomadas, é onde a grana corre solta. É onde o perfil do homem, velho, branco, heterossexual da estrutura machista e misógina da nossa sociedade domina e instaura seu poder. Até hoje, esta estrutura em nada foi abalada.
A segunda coisa foi sobre o parlamentarismo. No mesmo dia, ouvi uma análise sobre a reprovação, pelo senado, da nomeação do Messias pelo presidente Lula. O que ocorreu, hoje, foi um parlamentarismo forçado. Eram os senadores dizendo que o presidente não manda no país. O parlamentarismo foi a negociata para acalmar o golpe – que resultaria numa guerra civil – e a, no momento, sábia decisão de um presidente que foi impedido de assumir.
As amarrações e artimanhas para dar aquele golpe são detalhadas com fartos testemunhos, fotos e registros da época. O incômodo com o “eu vejo o futuro repetir o passado” é crescente. 1961 pode não ser um ano que imediatamente se sobressai na nossa memória, pelo menos não como 1964, por exemplo, mas a Direção conduz o espectador para a certeza de que nada deve ser deixado de lado.
No formato, a profusão de material não deixa o documentário pesado ou cansativo. A linha narrativa é quase detetivesca (coisa que eu adoro) e coordena informações e impressões com agilidade e de forma instigante. Gostei de ver um equilíbrio entre personagens homens e mulheres – mesmo quando sabemos que os protagonistas da Política eram todos homens. Os depoimentos de historiadoras, testemunhas e esposas ajudam a termos uma narrativa mais próxima dos dias de hoje – quando já não toleramos, pelo menos algumas de nós, mais que essa estrutura masculinista seja aceita sem barulho.
Logo depois assisti ao documentário Brizola – Anotações para uma história – que chega a ser complementar ao 1961 por tratar de um personagem muito próximo ao João Goulart e a quase total ausência de mulheres no documentário (que eu lembre somente uma jornalista é entrevistada) me incomodou demais. Brizola, parte essencial dos documentários do Sílvio Tendler, completa a galeria de personalidades políticas com louvor. É um documentário que leva a sério o “anotações” e cria rabiscos sobre uma personagem que tem vastos documentos inclusive audiovisuais. As contradições também não ficam de fora e avança no período da democratização, num período que ainda é pouco retratado porque vivemos tempos de euforia com a redemocratização (foi como o fim da pandemia, certos traumas coletivos passam a ser ignorados).
Se é tão essencial ainda produzirmos obras sobre a Ditadura, e os dois últimos sucessos internacionais de ficção não me deixam negar, o trabalho dos documentaristas brasileiros deve ser sempre louvado ao puxar nosso olhar em outras direções. Pena que o público de documentário seja tão escasso. 1961 ganha um enorme destaque porque vai lá num ano esquecido da nossa História para falar sobre o 8 de janeiro de 2023 (fartamente documentado, mas talvez ainda sem a obra de referência no cinema documental – se tiverem indicações, aceito – talvez pelo motivo do trauma coletivo). É difícil fazer cinema no calor do momento – por diversos motivos, a começar pelo tempo que leva desenvolver o projeto e captar os recursos da produção. Porém, quando o cinema vive o calor do momento com os olhos para o passado é que ele joga luz numa produção que vai restar pra sempre.
Esses dias estive num evento e ouvi de um rapaz que documentários não atingem o público, que vídeos de tiktok e instagram é que chegam rápido e mudam as coisas. Bem, ele vive de conta de rede social cheia de seguidores, desvenda as artimanhas dos algoritmos e é jovem. Jamais discutiria com ele, mesmo considerando que o trabalho que ele realiza é legítimo, tem relevância (apesar de eu ter minhas ressalvas a certos conteúdos) e é importante nos dias de hoje, sei que o vídeo de milhares de curtidas de hoje, amanhã estará no esquecimento. Além disso, um produto produzido para alimentar redes sociais de big techs, mesmo que contra a ideologia dos donos das plataformas, está fadado ao efêmero.
O cinema fica. O cinema sempre ficará. Como o canal do YouTube, super recomendado, da Caliban Cinema. O cinema vai existir nas salas de cinema, nos festivais e mostras, na exibições especiais e cineclubes, nos streamings, online em sites e no YouTube e até nos nossos HDs com cópias piratas. O dia que fizerem um festival com vídeos de tiktok (não duvido, ok?) ainda não chegarão aos pés do cinema. E viva o cinema documentário brasileiro.1961 deve ser visto. Está lá: o golpe vive à espreita. Se eles perderam em 2022/2023, certeza que estão desde o dia seguinte com novos planos. E isso deveria ser a nossa maior preocupação hoje.
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