milhões de flechas

sinto-me trespassada por milhões de flechas

na matéria, na forma e no invisível

soluços

olhos ardem

lembranças que não sossegam

mas para cada lado para onde olho para fugir dos pensamentos

há mais imagens e objetos, mais cruéis que as lembranças

vazio

vazio?

incompreensão

dor

desespero

se houvesse vazio, seria nada

a música me tolera

e eu só ouço música agora para ouvir minhas cicatrizes

e bebo chá com muito mel

porque não há álcool – que me faria sair deste mundo por um momento

e porque preciso lembrar na pele que ainda há algo doce na vida

e as flechas vão atravessando

cortando

matando

dilacerando

“será que você não vê?” como já diria Cazuza

o depois nunca vai ser presente

muito menos futuro.

Perdeu

“na minha fantasia o mundo era você e eu”

Parece escrito por uma pisciana.

De qualquer forma, quem não viveu essa música numa pista de dança  está perdendo.

Aliás, quem não vive música com sentimento (dane-se Schopenhauer) está perdendo.

E você que não vive com sentimentos, já perdeu.

 

muito amor

mas é muito amor. muito.
é uma paixão que se revira, se traveste, se reveste, se desnuda.
sempre ali, a mesma, ou maior, melhor.
e vez em quando pena, mingua, entristece.

porque é amor.

muito.

é a violência que se rebela, se joga, se machuca. é paixão.

porque é muito amor que se esconde debaixo da cama.

esse mesmo grita no meio da rua.

se esfrega, se roça, se arrepia, se derrete.

é muito amor.

Ficcionando para explicar a realidade

Em janeiro.

– Oi, amiga!

– Ooooiiii!!! Guria, que coisa te encontrar aqui!

– Ai, nem tanto, né! Com esse calorão lá fora, só um arzinho condicionado de shops pra gente se salvar, né?

– Ah, isso é!

– Mas, me conta, o que tu tem feito? Como tu tá?

(com toda aquela ânsia de amigas de longa data que se encontram por acaso, sem premeditações que normalmente não funcionam)

– Ah, nada de mais! Meu desocupada, sabe. Fiquei meio pra baixo desde o final do ano passado. Tu soube, né? O Carlos terminou comigo, guria…

– Tá, calma aí. Eu soube, vi no teu Orkut, mas nem quis perguntar, sabe. Sem querer dizer nada, amiga, mas não foi a primeira vez que ele terminou contigo, né?

– Não, né… Ele é daquele tipo, sabe, que pisa, joga fora, se arrepende. Ui, um idiota. Mas, sei lá, depois de tanto tempo. Eu fiquei pra baixo. Não tinha vontade de nada… fiquei em casa, larguei tudo. A mãe que ficou comigo, ainda mais nessa época de natal, essas coisas.

– E ele apareceu com outra, ainda, né? Eu sempre…

– Outra? Como assim?

– Ahn? Desculpa… não sei.

– Onde você viu isso? (com lágrimas)

– A Marisa que contou. Lá em Garopaba… e eu acho que tu conhece. Quer saber? Ele termina só pra aproveitar. E, depois, tu, burra, volta.

– É, eu sei… Mas tô superando isso. Não volto mais, não!

– É? Ah, a Carla me contou que tu ia no analista.

– Então! (alegria brilhando) Eu vou sim. Já faz um tempinho, sabe. Tô conseguindo superar várias coisas. No dia que o Carlos foi embora eu liguei pra ela e a gente conversou, por telefone mesmo, porque ela estava sem horário na agenda. Ai, consegui diminuir a ansiedade, a tristeza, tudo!

– Ai, que bom, amiga!

– Pois é, mas daí no começo de janeiro, sabe, semana passada. Não, retrasada, acho. Ele me telefonou. Eu não ouvi a ligação porque estava no banho. Minha mãe disse pra eu trocar o número. Ela não agüenta mais ele, nunca gostou dele e não quer mais que eu sofra. Daí no dia seguinte liguei pra analista, ai, guria, ela está de férias. Marquei com a colega dela, que atende no mesmo consultório.

– E aí? Ela é boa também?

– Ah, sei lá, é, sabe. Não tive recaída, conversei numa boa, me ajudou bastante. Mas…

– Não é a mesma coisa, né?

– Não, né… De jeito nenhum. Sei lá, fica faltando alguma coisa. Porque lá a gente se abre, conta tudo. A minha é como uma amiga mesmo, já me conhece, sabe como eu sou, como eu faço as coisas. Com essa é meio que, sei lá, tem uma coisa que fica meio no ar, sabe?

– Sei, sei… ah, mas pensa positivo, daqui a pouco ela volta!

(toca o telefone da abandonada pelo Carlos)

– Só um minutinho, é a mãe. Ela tá muito preocupada comigo!

 

Não é a mesma coisa, sabe?

Pois é, tudo isso porque estou com saudade da minha máquina de lavar roupa.

 

Estar

Estarei fora… Estarei longe… Estarei mais perto de mim… Mais distante que eu possa estar de tudo, de todos… Estarei cá dentro, sem perspectiva, sem chance, sem expectativa, sem ansiedade… Estarei lá, onde você não pode estar, nem estará… Estarei só, e mais perto de tudo e dela do que nunca… Estarei dentro, sem convites… Estarei de portas abertas e janelas fechadas… Estarei surda, nunca muda… Estarei.

trust

Inside… Oh, I´m sorry! There´s nothing inside here… I never told you that? Ok, I´ll must remember next time. I know that´s difficult, but, please, trust me, it´s how the things happen. I don´t expect you to trust me again.

Quem sabe

E porque não dizer que carrego comigo uma paixão. Uma paixão por uma expressão tão destruidora.

Quem sabe.

“Quem sabe” é a tal expressão. Diante de qualquer um, de qualquer assunto, já terminei velozmente e sem saída com um “quem sabe”.

Não diz nada. Talvez diga tudo. Ninguém sabe, sabemos disso, mas o “quem sabe” encerra o assunto.

“Quem sabe” te diz “não” com classe, esperança e vai te fazer sofrer. Mas eu prefiro um “quem sabe” a um simples, duro e pobre “não”.

Ninguém realmente sabe, mas eu creio que o Deus lá sabe sim. Só Ele sabe. Porque Ele sabe de tudo.

“Quem sabe” emite descrença e reflete esperança.

“Quem sabe”, pra mim, é sem um pingo de verdade.

Não sei porque a maldade vicia

Não sei o que acontece que as pessoas fazem mal às outras. Não sei porque as pessoas desejam o mal àqueles a quem um dia desejaram as melhores coisas do mundo.

Não entendo porque as pessoas traem a confiança tão fielmente depositada nelas, porque se riem satisfatoriamente (será?) ao saber que alguém passa por maus momentos, tristezas e doenças.

Não sei porque as pessoas não, apenas, reconhecem o amor que alguém lhe devotou e o que aprenderam (e como isso mudou-as e as fez feliz) com esta pessoas. Não sei porque as pessoas insistem em  tentar pisar os sentimentos alheios. Não sei porque as pessoas não morrerão felizes (será?) enquanto não tirarem tudo o que o outro possui, seja material ou não.

Não sei porque a maldade parece gerar tanta satisfação. Pois lhes digo que “parece”. Essas pessoas que tem tanta maldade nas suas mentes e nos seus atos e palavras não se mostram realmente satisfeitas. Nunca se satisfarão, nem com tudo, nem com muito, nem com o além.

Aliás, o além, nem lá de cima nem lá de baixo, não os deseja. Despreza-os imensamente. O entremeio aqui também não lhes devota muito ardor nem carinho.

Não sei porque uma vida (a de cada um) não lhe basta e é preciso sempre querer a vida dou outro, alimentar-se da vida do outro (ou outros), seguir-lhe os passos, os movimentos, as alegrias e tristezas para, talvez, aproveitar-se, deleitar-se.

Não sei porque (nem como!) essas pessoas sentem prazer nessa maldade desenfreada e sem limites. Prazer, ó, o prazer, que deveria ser umas das (ou a única!) coisas que é unicamente positiva! Você acredita que a maldade dê prazer? Bem, se há quem sinta isso realmente nunca experimentou o verdadeiro gozo.

Não sei porque as pessoas ficam acintosas com a sua maldade. Não sei porque estendem tentáculos desses sentimento – que é para além de desprezível. Há uma fome, uma necessidade, ambas também desprezíveis. Imaginem quantas coisas deixam de fazer, viver, experimentar, ver enquanto ficam ali, consumindo-se na sua maldade, no seu rancor, na sua vigília. Quanto amor não deixam de sentir. Amor? Não sei porque, mas desconfio que essas pessoas não sabem, de verdade, o que é isso. Seja lá qual for o tipo de amor, romântico, fraternal, amigo.

Não sei porque a maldade dessas pessoas é impossível de reverter e inverter. Destruir, trair, machucar, perseguir, aproveitar-se – isso tudo e muito mais que fazem essas pessoas – as deixa viciadas e tudo que está a volta delas vai desmanchando-se para aumentar o espaço dessa “vida”. Sim, alguns chamam isso de vida. Vicia de tal forma que tornam-se dependentes, nada pode mudá-los, creia-me.

Se o bem pode transformar-se em maldade, o contrário não ocorre.

Não sei porque nada disso que escrevi aí. Mas confesso-lhes que aprendi muito bem que isso aí tudo é muito verdade. Aprendi confiando, amando, convivendo. Conheci essas “pessoas”, elas sempre aparecem. Durmo e acordo sabendo disso e que uma vez eu me perdoei, mas que a nenhum desses cabe o meu perdão. Desses, nem Deus quer saber. Só isso me conforta.

Se aprendi da pior forma possível, ainda bem! Assim há mais chances de nunca mais errar.

Pior para os pobres viciados na maldade que vagam neste mundo… perseguindo, destruindo (ou tentando), roubando, desejando o mal irreversível…

A maldade vicia. O prazer (do bem!) e o bem, também. Cabe somente uma escolha. Talvez, para muitos, uma escolha difícil. Escolher a maldade é muito fácil, só se deixar levar pela primeira “raiva” momentânea, pela primeira contrariedade, pela primeira decepção, pelo primeiro desejo de superioridade contra o mais que nós.

Pois eu sempre prefiro o mais difícil. Escolher o bem é mais tortuoso, dá mais trabalho, requer perseverança. Diz lá na Bíblia, não é novidade nenhuma. Infelizmente, até essas “pessoas” lêem a Bíblia. Talvez apenas para aumentar sua maldade, quem sabe.

Não sei os motivos, nem me interessam. Não pratico, não posso falar a respeito.

Se eu fosse mais cristã, teria pena e rezaria. Mas isso é demais pra mim.

E, se pensarmos bem, há muitos vícios interessantíssimos por aí… cabe escolher.

 

Gorki, eu e o mar. O que me cala.

Sei que raramente, quase nunca, uso citações. Porém, deixarei aqui a reflexão de algo que as minhas palavras não alcançam…

“Ele, o ladrão cínico, adorava o mar. O seu temperamento vivaz, ávido de impressões fortes, não se fartava nunca de contemplar aquela imensidade livre e majestosa.

Quando estava no mar, uma emoção profunda e duradoura brotava-lhe do fundo do ser, extasiando-lhe a alma e livrando-o até certo ponto das indignidades da sua vida. Gostava daquela impressão, e sentia-se bem entre o céu e as ondas, nessa amplidão ilimitada onde os pensamentos perdem toda a sua maldade e até a vida perde o seu valor.”  – Gorki, in Tchelkache.

 

Só um russo para traduzir-me fielmente em palavras. Só um russo para dizer, ou escrever, como queiram, aquilo que eu não consigo.

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